sábado, 6 de junho de 2015

"PALHA DE ABRANTES": O DOCE SABOR DE UMA ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Num tempo em que tudo parece mais precário -- lembremos-nos sempre dos versos de Eugénio de Andrade: "estou de passagem/amo o efémero" --, a cultura é cada vez mais tratada pelos poderes como coisa sumptuária, tanto quanto possível vivendo na opacidade do quotidiano. É verdade que existe uma indústria cultural cada vez mais poderosa, à escala planetária, impondo os seus dogmas e os seus padrões, de que as televisões, aliás, se tornam perfeitos executores de marketing. 
Na viragem destes tempos, tão enfeudados a modas pré-estabelecidas, a cultura que emerge das comunidades, que articula as suas acções com os interesses específicos de uma cidade ou de um lugar onde vive gente, é um fenómeno de interesse colectivo, uma atitude de cidadania e de acção cívica, um suplemento de consciencialização sobre a realidade, que neste caso é sempre a casa comum e o mundo.
Fiquei a pensar nisto, depois de há uns dias ter ido participar num colóquio, em Abrantes, na Associação De Desenvolvimento Palha de Abrantes -- só o título é um achado de identidade local -- em que o tema era o futuro da Imprensa Regional, cuja resposta nem o oráculo mais sábio porventura será capaz de dar. Comigo estava o velho amigo Joaquim Duarte, director de "O Ribatejo". No centro da conversa esteve, de certo modo o "Jornal do Fundão" e o que a sua experiência de resistência e de cultura representa no panorama da imprensa portuguesa. Um e outro mostrámos as nossas perplexidades face aos dias que correm e um certo cepticismo crítico sobre o jornalismo que hoje se pratica aflorou a conversa.
Mas o que verdadeiramente foi importante, como experiência enriquecedora, para mim, foi mesmo ter descoberto de forma directa o trabalho verdadeiramente notável da Associação de Desenvolvimento Palha de Abrantes, numa compreensão que é uma coisa elementar, mas que em Portugal pratica pouco, de que não há verdadeiro desenvolvimento, cuja matriz fundamental é o local, sem cultura. Então, a Associação Palha de Abrantes cumpre essa tarefa enlaçando nas suas actividades um conceito multidisplinar de Cultura, como se não tivesse outro objectivo no seu coração do que ajudar a respirar melhor a vida à comunidade abrangida. É que quem frequentar o Senhor Chiado, assim é a sua sede, depressa descobre a convivialidade, o universo que são os livros, a fotografia, o cinema (um verdadeiro Cine-Clube, onde desfila a história e a memória da Sétima Arte, muitas vezes com presemça de realizadores e debates), as edições (tem a revista semestral "zahara") e, entre outras coisas, já editou um excelente livro sobre a Barragem Castelo do Bode. Um trabalho, pois, que alia apromoção cultural e a defesa da memória. 
Palha de Abrantes: não é doce apenas na doçaria, manjar e iguaria local; é também o sabor de um pensamento que se inscreve na paisagem e uma postura cívica e cultural que reproduz aquela ideia primordial de que nada há mais maravilhoso do que o Homem, como a imemorial Antígona ensinou há tantos séculos. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

QUADRAS SOLTAS E UM BRUXO À SOLTA



ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Penso que foi a querida amiga Fernanda Gabriel que me falou do embaixador António Russo Dias, cuja ironia é sempre um exercício inteligente de crítica às navegações políticas em curso. Gosto de frequentar a sua leitura e os meus leitores depressa perceberão porquê. A mim, o seu humor em verso, fez-me lembrar o José Sesinando, que assinou coisas magníficas no "JL" e que não era outra pessoa senão o escritor José Pallla e Carmo. Ora, um dia destes, António Russo Dias publicou "3 QUADRAS SOLTAS", que são um retrato implacável das nuances retóricas de Maria Luís, ministra das Finanças para mal dos nossos pecados. Vamos às quadras soltas:

Diz-me Maria Luiz 
Tu vais cortar nas Pensões? 
"Eu te direi, ó infeliz 
Só depois das eleições"  

Ela diz que não o disse. 
Mas disse-o em bom português. 
E se agora se desdisse 
É que não é boa rês. 

Dizer que "aquilo que disse 
Foi tirado do contexto". 
É apostar na burrice 
De quem ouviu o sujeito. 

Francisco Seixas da Costa também o cita no seu excelente Blogue "Duas ou Três Coisas", desta vez pelos versos dedicados a um comentador com lugar cativo na praça da televisão, onde exerce a sua "indiscutível" magistratura do comentário. Seixas da Costa, curiosamente anotava o seguinte comentário aos versos: "O meu amigo e colega António Russo Dias publicou na sua página de Facebook este retrato rimado que não resisto a reproduzir. Estou certo que até o dr. Marques Mendes o apreciará". O título: "O Bruxo de Fafe em Lisboa"

Sentadinho na cadeira
Quase chega
Com os pézinhos ao chão
A esforçar-se

Se se senta mesmo à beira 
E escorrega, 
Pode dar um trambolhão 
E desgraçar-se. 

De dedito espetado, 
Perspicaz, 
Ele debita com desdém 
O arrazoado. 

É rapaz bem informado 
E é capaz 
De mandar aqui e além 
O seu recado. 

Quem lhe conta os segredo 
Que revela? 
Quem lhe dá tanto pretexto 
P'ra brilhar? 

Como sabe aqueles enredos, 
O tagarela? 
Sempre "dentro do contexto"
P'ra variar.

Ao olhá-lo, perorando
 Com delícia 
(Que o valente pequerrucho 
Desabafe!) 

Qual Sibila revelando
A notícia. 
Já o conhecem como o Bruxo
Lá de Fafe.




segunda-feira, 1 de junho de 2015

UM ROSTO e MUITOS ROSTOS

Fui hoje ao auditório do Centro Hospitalar da Cova da Beira (ainda se chama assim. apesar do anunciado desmantelamento público do Hospital do Fundão) participar numa interessante sessão em que o papel dos enfermeiros na materialização dos direitos à saúde dos portugueses, com as especificidades próprias da sua profissão e do seu enfoque no universo hospitalar, estiveram em destaque. Foram quase três horas de diálogo, em que os Professores Fernando  Oliveira Amaral e Lucília Nunes se encarregaram das questões mais puras e duras da profissão, sem esquecerem o contexto histórico ou as contingências de uma crise que desvaloriza o trabalho e, logo, o valor dos cuidados de enfermagem.
Surpreendeu-me o interesse do auditório, que se encontrava repleto. No meu caso, calhou falar da minha percepção, como cidadão, do insubstituível papel dos enfermeiras (palavras minhas) articulando ali a minha própria experiência como utente do Serviço Nacional de Saúde. Estando na Covilhã, quis começar por lembrar a importância crucial das enfermeiras na própria libertação da mulher, sobretrudo numa sociedade como a portuguesa, em que os direitos da mulher eram coisa subalternizável ou não existiam mesmo. Alguém lembrou que até o casamento, durante largo tempo do fascismo, lhes fora vedado... Então eu, não podendo lembrar um rosto, lembrei um nome, colhido na excelente investigação que António Assunção e José Pinheiro da Fonseca fizeram no livro "A Covilhã na Primeira Guerra Mundial". Na memória desse tempo longo da História, vem referido um nome de uma senhora, a Dama Enfermeira (era assim que eram designadas), Antónia Baptista, natural da Covilhã, que  em Novembro de 1917 embarcou para a Flandres, ligada ao batalhão do Regimento da Covilhã, juntando-se às 38 Damas Enfermeiras do Corpo Expedicionário Português. Os investigadores anotam que ela regressou a Portugal e à Covilhã em Janeiro de 1819. Depois, a vida desta Dama Enfermeira, dissolve-se no esquecimento. Quem era? O que fez? À distância do tempo, não é difícil imaginar a acção solidária, curando os corpos e as almas dos soldados portugueses, semeando afectos, como se quisesse atenuar a brutalidade da guerra, com o seu cortejo de mortos, feridos, estropiados. Imagino-a, porventura, a escrever, nas horas mortas, cartas às mulheres e às noivas, aos pais iludindo a realidade da guerra. Dizendo este nome, lentamente, Antónia Baptista, corporizo uma homenagem a este sector primordial.
Num tempo em que os recursos humanos, os jovens licenciados que levaram anos a formar, vão servir outras pátrias, num tempo em que a falta de enfermeiros nos hospitais portugueses se banalizou a um nível que às vezes põe a organização hospitalar em perigo, a minha percepção é que eles (falo sobretudo das áreas cirúrgicas) realizam um trabalho verdadeiramente notável em favor do Serviço Nacional de Saúde e dos portugueses.
De muitas histórias dramáticas, com emergências de dramas de abandono, preferi contar uma povoada de alegria e que eu trazia na memória, como daquelas coisas que não se esquecem, nunca. Submetido, em 2011, a uma cirurgia pesada, no Centro Hospital da Cova da Beira, depois das intermináveis horas da noite hospitalar (a noite branca, dizia Saramago), fui para o Bloco, pela manhã, sem me lembrar de mais nada. No regresso à vida, como quem me estava a dizer: Bom dia!, de que me lembro eu? De uma enfermeira lindíssima, irradiando simpatia, com um sorriso doce e fantástico, como aquele que eu vira em alguns filmes. Enquanto eu disspava a névoa da anestesia, a jovem apertou-me a mão, e perguntou-me com um falar de serenidade:
-- Então, como está?
Eu olhei para o quadro e estive tentado a balbuciar:
-- Penso que estou a entrar no paraíso!

domingo, 31 de maio de 2015

ARRITMIA, AUTO-ESTIMA E CANGA!

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
O senhor Durão Barroso anda por aí a dar lições de governança mundial.
É o mesmo político que na História da União Europeia ficará, em nota de rodapé, como o presidente mais cinzento e sem rasgo da UE, que na sua biografia tem aquele comportamento lamentável, de criado para todo o serviço, oferecendo os Açores a Bush para urdir, com Blair e Aznar, a grosseira mentira das armas maciças, que potenciou a invasão do Iraque, à revelia das Nações Unidas. Vê-se, agora, o estado em que deixaram a região; ficaram com mais sangue nas mãos do que Saddam; amplificaram o terrorismo e o fanatismo islâmico a níveis nunca vistos. Ele, Durão Barroso, foi sacristão desses ofícios políticos, de que ninguém gosta de falar pois são matérias inquietantes e incómodas para o Ocidente.
O senhor Durão Barroso, já putativo ungido da confraria de Bildeberg, foi esta semana à aula magna do Instituto de Ciências e Políticas, falar de "Portugal, a Europa e o Mundo". Então, segundo os jornais, julgando-se o dr. Freud da política, colocou Portugal no divã. E que sintomatologia descobriu ele para a pátria gravemente doente? "Arritmia da nossa auto-estima" e "oscilações de humor", mazelas que radicam numa "mitologia em relação ao passado". No contexto da crise, "erradamente considerada crise do euro", foi "fácil desculpabilizar o país" e "difícil ser-se europeísta". Mas a situação, para Durão Barroso, abre-se num sorriso fácil. "Há resiliência no meio de tanta arritmia" e "os portugueses são um povo com capacidade para aguentar situações difíceis".
Leio em voz alta: "aguentar situações difíceis". Eufemismo que poderia ser explicitado com os mais de dois milhões em situação de pobreza, com o milhão (ou mais) de desempregados, com as vidas destroçadas pelas políticas desumanas, pelo retrocesso civilizacional que tudo isto representa. No fundo, o mesmo que o seu comparsa Passos Coelho, primeiro-ministro, um dia destes, sublinhando a necessidade de prosseguir as suas políticas de austeridade, dizia pouco se importar com a felicidade dos outros.
Bela governança!