sábado, 13 de junho de 2015

ESTRELAS COM MÚSICA



Penso que li um dia um poema de Eugénio de Andrade (é a minha memória que me conduz) que fala, a propósito da música, de uma procura criadora que é uma espécie de desafio para chegar a uma "inalcançável estrela". Era, no fundo, o poeta a dizer-nos que a divina arte tem dentro de si alguma coisa que é própria dos deuses. É um olhar porventura comum aos domínios da criação artística, mas o Eugénio tinha um fraquinho pela música e gostava de falar nos seus compositores do coração. Mas tinha, também nessa matéria, uma cultura vastíssima. Lembro-me bem de como, uma vez, pelas ruas de Praga e à beira do rio, ele me falou da música de Smetana,  que nunca mais esqueci como dimensão sinfónica de Praga e do Moldava. Eu lembrei-me hoje desses instantes, que a memória gradua e arquiva como essenciais, quando assistia ao concerto, na igreja matriz do Fundão, de encerramento das comemorações do 25.º aniversário do Coro Misto da Beira Interior, obra que o maestro Luís Cipriano sonhou e deificou neste nó de terra.
O concerto tinha uma justíssima dedicatória:homenagem a António Leal Salvado, advogado fundanense, cuja paixão pela música é conhecida, admirador do génio criador de Luís Cipriano, que prestou inestimáveis serviços, sobretudo de apoio jurídico, à Associação Cultural da Beira Interior. Eu, que tenho acompanhado a viagem criadora de Luís Cipriano, que sei do seu prestígio internacional, que partilhei cumplicidades culturais com o maestro, sei do seu temperamento corajoso e frontal, das suas batalhas contra abusos de poder, sobretudo quando o poder assume contornos provincianos, da sua linguagem desataviada e concreta para denunciar injustiças ou, o que é mais grave do ponto de vista da liberdade cultural, quando se visa bloquear o projecto cultural (a Associação Cultural da Beira Interior) que ele abraçou com amor desmedido. Conhecendo tudo isto e o temperamento de Luís Cipriano já se podem imaginar as guerras jurídicas em que António Leal Salvado esteve envolvido e cujo cômputo geral se salda por uma enorme vitória.
Este concerto tinha, assim, um sabor especial. E foi bom que a música, essa companheira, como dizia Fernando Lopes Graça, viesse povoar este fim de tarde cinzento para aquecer os nossos corações tão doentes deste país de política canalha. Momentos muito belos protagonizados pelo Coro Misto, cuja qualidade elevadíssima é reconhecida cá dentro e lá fora, mas também por um aspecto muito espectáculo que marcou o acontecimento e que ilustra bem a capacidade pedagógica de Luís Cipriano e a forma pessoal como ele marca os seus projectos culturais. Pudemos ouvir a "Missa em Ré Menor", composta para o Coro Misto e Coro Infantil, estreada em 2014 em Colmar-Berg, no Luxemburgo, mas desta vez, aliando, também, além da Orquestra de Câmara, os Coros Infantis da Escola Serra da Gardunha, do Fundão, da Escola EB 273 do Tortosendo e o Coro Infantil de Mação.
A expressão colectiva, na diversidade das tonalidades, a surpreendente frescura infantil e juvenil, criaram um momento muito especial. Penso que as comemorações dos 25 anos do Coro Misto da Beira Interior fecharam com chave de ouro. E, pensei para comigo, quando o milagre da música acabou, que, se calhar, são nestes instantes irrepetíveis que se consegue chegar às tais inalcançáveis estrelas de que falava o nosso poeta.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

"PRIVATIZE-SE TUDO"


Hoje ouvi dizer, na Assembleia da República, de que a TAP custou metade da contratação de Jesus ao Sporting. É obra! É espantoso que os atentos comentaristas não analisem o que representa de empobrecimento para o país a venda sistemática e abusiva das infra-estrutura estratégicas, no leilão dos fretes e das negociatas, sejam a chineses, sejam a oriundos de outros continentes. Eles vêm a um país que sabem está a vender a retalho o seu património mais valioso. Acenam com cifrões gordos -- suspeita-se sempre que há dinheiro por debaixo da mesa -- e os figurões vão-se tornando donos do país, substituindo, aliás, outros figurões que passaram vidas na tarefa rendosa de explorar o povo.
Os administradores da coisa pública, que às vezes fazem intermináveis conselhos de ministros para decidir destas bagatelas, como a TAP (aí, homens sem sono!) têm dentro da cabeça a ideologia de um liberalismo selvagem que visa aniquilar o Estado nas suas funções sociais e economicamente estratégicas - tão estratégicas que até faziam parte da sua própria sustentabilidade... -- e lá vão, cantando e rindo,  a canção do bandido: o vosso destino é ser pobres! Assim se foi a ANA, a REN, a EDP, os CTT (que agora até já podem ser Banco!), a PT, a TAP, e logo irão também as Águas, que até têm o nome de Portugal, os Transportes e tudo o que mexa qualquer coisinha no plano económico, veja-se a Saúde e a própria área da Segurança Social... País à beira mar privatizado! Nesta sede de negócios, também os bancos, desde o BPN (dos amigalhaços de Cavaco, que também sacou proventos) ao BCP (são todos bons rapazes!) ao BES, em que se arruinaram tantos portugueses embalados nas promessas de Cavaco, Passos e Costa (o do Banco de Portugal) e também já está em leilão, depois de ter sido cindido em dois, o bom e o mau, o primeiro para as mãos privadas, o segundo para se afundar levando a pique muita gente!
Curiosamente, o escritor José Saramago, escreveu em 11 de Maio de 2011 (vem nos Cadernos de Lanzarote -Diário III,  uma prosa indignada e premonitória desta triste realidade que estamos vivendo, nós todos, tristemente, e os tais figurões à barba longa... A prosa traduz uma funda inquietação, e, neste momento que se vive a bandalheira da venda da TAP, gostaria também de a fazer minha para a partilhar com os Leitores. Aqui fica:
"Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E,finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos." 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A MORTE DA TAP

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Poucas coisas definirão melhor a falta de pudor e de vergonha, na forma de tratar o património e os interesses nacionais, do que o folhetim que conduziu à privatização da TAP. Soube-se, agora, que o brasileiro David Neelman, que se aliou ao empresário português Humberto Pedrosa, foi o feliz contemplado pela decisão do governo de alienar 61% da companhia de bandeira chamada TAP que, durante anos e anos, encheu a boca de governantes e patriotas -- patriotas é como quem diz! -- que falavam da "nossa TAP", com desvelado carinho. Ainda em Julho do ano passado, o senhor ministro da Economia António Pires de Lima (que agora se revelou especialista em negócios de futebol) afirmava pomposamente ao "Expresso" o seguinte: "Não lançaremos a privatização da TAP a poucos meses das eleições!" Que os sujeitos que nos governam, a começar pelo senhor Primeiro, têm a característica comum de ser aldrabões, já se sabia. Mas que fosse possível dizer tão rápido e de forma tão despudorada uma coisa e o seu contrário, pondo no prego das inutilidades a palavra de honra, reflecte uma ausência de valores, uma espertice saloia que só pode enganar aqueles que gostam de passar por idiotas chapados ou se consideram tolos de nascença.
De facto, aquilo a que se assistiu foi a uma pressa mais rápida que a sombra do negócio, como aquelas se a corrida fosse para o governo se desfazer daquela que muitos consideravam a empresa mais portuguesa de Portugal. Depois de tentativas persistentes para acabar com ela, aos poucos, em morte lenta, para a sua desvalorização na negociata, a poucos meses das eleições, o governo de Passos Coelho deu-lhe o tiro final, matando-a completamente do ponto de vista nacional. São os mesmos que trazem o emblemazinho da pátria na lapela e que andaram nestes quatro anos que levam de malfeitorias, como um desses gangues que costumam dizer depois dos assaltos à coisa pública (neste caso ao património de todos para venderem a alguns): é fartar vilanagem!
Agora, foi a TAP. Nestes escassos meses de desgoverno, que ainda restam a Passos, não sei se ainda há mais qualquer coisinha para vender, para privatizar (que é linguagem mais fina), para o regabofe ser completo.
Venderam a TAP, os portugueses ficam com as espinhas, atravessadas na garganta ou na pobreza. Como dizia o O'Neil: Oh Portugal, se fosses de plástico, que era mais barato!

DO LADO ESQUERDO "& etc..."

Vítor Silva Tavares na "& etc..." (Foto de Ricardo Paulouro)
Foi, com toda a propriedade, um daqueles instantes de longa duração em que os pobres mortais que somos poisamos nos prazeres da memória, como Margarete Yourcenar colocou um dia na boca do imperador Adriano, no seu fabuloso romance. Era uma conversa a várias vozes, mas o interlocutor privilegiado, que eu tinha à minha beira, era o Vítor Silva Tavares, figura mítica da cultura e da edição portuguesa, mas já sei que se ele me ouvir dizer coisas destas atira-se logo contra a liturgia do elogio, muito em uso na comarca das letras, como dizia um amigo comum: o Zé  Cardoso Pires. O Vítor, sempre o conheci a sacudir os panejamentos desses paroquialismos retóricos, que cheiram a mofo de sacristias ou a latrinas de improváveis vultos das letras, de via reduzida, mas que se julgam génios e, nessa genialidade imaginária, se tornam acácios & pachecos, manequins do lugar-comum com alvará de estupidez. O Vítor Silva Tavares zurzia neles, mostrando à saciedade que eram bonzos com pés de barro, que nunca sobreviveriam temporalmente à sua própria circunstância. Nesse universo literário do Portugal do fascismo, em que o pensamento de tanto vigiado se inquinava com arcaísmos mentais (muitas vezes de borla e capelo), outras de sujeições a poderes espúrios, outras ainda de ideologias de intransigência, unidimensionais e exclusivistas, em que era fácil detectar heresias estéticas, de forma ou conteúdo. Era um universo culturalmente asfixiante, que os jornais não deixavam de traduzir, fiéis à realidade da ordem estabelecida.
O que o Vítor fez, nesse panorama sombrio, foi abrir janelas para deixar entrar o sol ou a brisa fresca das ideias. Fez rupturas com dogmas, inventou novas fórmulas de fazer jornalismo cultural, deu expressão plural à criação literária e artística, por exemplo, conferiu outra visibilidade à notável aventura do surrealismo português, quando isso, às vezes, parecia um delito. Muito jovem, acompanhei a expressão dessa aventura excepcional, quando, em 1967, logo dois anos depois do "Jornal do Fundão" ter sido suspenso por via do suplemento "Argumentos" (dirigido por Alexandre Pinheiro Torres, que cometera o crime de noticiar a atribuição do Prémio de Novelística a Luandino Vieira), o Vitor Silva Tavares veio dirigir e corporizar a realização do Suplemento "& etc..." A ideia partiu do José Cardoso Pires, mas foi o Vítor que o idealizou e pôs no terreno. E, o que é mais extraordinário, em tempo de Censura feroz, o Suplemento que rompeu com os "cânones" provincianos do mundo literário resistiu até 1972, dando, aliás, depois, origem a uma revista de grande qualidade, com o mesmo nome, que não era outra coisa senão um filho mais maduro e encorpado do Vítor Silva Tavares. O que eu aprendi, olhando de perto e percebendo o saber fazer gráfico do Vítor Silva Tavares, nas suas vindas ao Fundão para fechar o "& etc...", muitas vezes depois de brutalmente anavalhado pela Censura.
Precisamente por causa da memória da Censura, e de um documentário já em fase adiantada, estivemos à conversa, "a pau c' a escrita" (era uma das secções do "& etc...), lembrando essa cumplicidade com António Paulouro, que o Vítor evoca sempre com grande carinho e admiração. Folheámos a colecção dos suplementos e o que era verdadeiramente surpreendente era a frescura daquele universo jornalístico, do seu poder inovador -- como foi possível fazer uma coisa daquelas em Portugal, nos anos de chumbo. É verdade que ter nas mãos aquele valiosíssimo material nos faz porventura bater mais depressa o coração, e foi talvez por isso que uma vez o Almeida Faria me disse quanto importante era fazer uma edição fac-similada do "& etc..." A mim, interessava-me, sobretudo, ouvir do Vítor as peripécias com a Censura, o funcionamento do mundo literário da época nos jornais.
Foi por essas e por outras que um dia destes desci à cave da Rua da Emenda e entrei no espaço fantástico da editora "& etc...".  Um universo, digo bem. O fascínio estético das suas edições, absolutamente únicas, os livros, as memórias. Fomos lá por uma boa causa: resgatar o "& etc..." do esquecimento, descodificando a batalha com a Censura. e, também, falando de outras guerras em que o Vítor foi obrigado a esgrimir. Discretamente a um canto, por cima de um painel onde figuram capas de livros, está uma fotografia. É Mestre Almada Negreiros, com a sua boina, ao pé de uma máquina de filmar, e ao lado, está a fotografia de um jovem. É o Vítor, muito novo, ao tempo jornalista do "Diário de Lisboa". Também essa imagem veio nesse dia à conversa.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

TER OU NÃO VERGONHA


Uma crónica muito interessante sobre a bifacialidade na política, a facilidade com que se junta a mentira ao desrespeito pelas pessoas, a maneira de ser aldrabão a coberto do tempo, isto é, utilizando a ilusão de que a passagem dos dias e dos meses ou dos anos tudo leva na voragem do esquecimento, é o texto que hoje Ferreira Fernandes publica no "Diário de Notícias". E o título é um achado de ironia: "A mim, Passos Coelho convenceu". Vamos ler a crónica para perceber o convencimento de Ferreira Fernandes:
"Interpelando os jornalistas, ontem, outra vez: "Já conseguiram descobrir uma frase minha em que convido os portugueses a emigrar?", perguntou Passos Coelho. Jornais e telejornais tinham passado o dia a desenterrar frases explícitas sobre aquele convite. Em outubro de 2011, Alexandre Mestre, um secretário de Estado de Passos, convidou os jovens a emigrar. Dois meses depois, o próprio Passos propôs a professores desempregados que emigrassem. As palavras de ambos estão gravadas. E eram a expressão da política de Passos. No ano seguinte, 2012, os portugueses emigraram mais do que em 1966, quando do pico da ida para França. Quando aquelas tolices, de Mestre e de Passos, foram ditas, escrevi a razão que as fazia tolice. Não era lembrarem que havia uma coisa chamada emigração. O meu avô, o meu pai, eu próprio e a minha filha trabalhámos em terra que não nos viu nascer - somos portugueses comuns, sabemos que emigrar está-nos no ADN. A decisão de partir é um direito, e tanto o usarmos só prova que os portugueses sabem ser livres, mesmo em situações adversas. A questão é: aos governantes cabe propor aos portugueses o que fazer cá dentro, não anunciar-lhes que há alternativas lá fora. Um convite a partir é um insulto, é um empurrar para longe do nosso. Mas eis que Passos tomou a iniciativa de voltar ao assunto. Parece que a sua tática eleitoral é mostrar que vai em frente com a pertinácia dos que não têm vergonha. A mim convenceu-me".

A OUTRA "BANALIDADE DO MAL"

Santo António visto por João Abel Manta
Hoje, na rotina do Dez de Junho, lá houve a liturgia medalhística e o blá-blá-blá de Cavaco muito preocupado com o destino da pátria, tema que dá sempre um jeitão -- já era assim no Dia da Raça! --, sobretudo para encher a boca e o ego com Camões e os desafios épicos do país. Melhor seria descer à terra concreta onde vivem os portugueses, aos seus quotidianos tristes, às suas vidinhas desesperadas e sem horizontes. E, nessa matéria, talvez fosse bom, ao arrepio da festa, dar alguma atenção a uma fatia da realidade portuguesa que nos deve pôr os cabelos em pé.
De facto, saiu ontem, no "Público", um texto sobre uma outra "banalidade do mal", que mereceria reflexão se vivêssemos num país que ainda se incomodasse com as questões prosaicas como são a pobreza infantil e as desigualdades. É um artigo colectivo intitulado "Infâncias pobres e pobreza em Portugal como escolha política". Logo a abrir, situa-se o problema: "O aumento da pobreza e das desigualdades em Portugal, documentado em relatórios recentes, deve fazer-nos estremecer. As assimetrias profundas em que crescem as crianças e jovens, uma parte significativa delas sem acesso a condições consideradas básicas, colocam em causa os direitos humanos e o desenvolvimento tanto pessoal como social. Não nos podemos conformar com o argumento repetido diariamente nos noticiários da inexistência de recursos, quando, nos mesmos noticiários, poucos segundos volvidos, se documenta a circulação de enormes volumes de capital entre instituições europeias, administrações nacionais, grandes empresas, Nunca houve tantos recursos no mundo. Como permitimos que tantas crianças continuem a crescer na pobreza? Estas desigualdades de distribuição de rendimento, em Portugal como em outros países desenvolvidos, constituem um dos problemas centrais no mundo atual e o pano de fundo onde a pobreza e a pobreza infantil prosperam".
Os autores sublinham a dimensão deste problema político e fazem um retrato da situação portuguesa, que era bom todos termos em mente.Dizem eles:
"Neste sentido, a afirmação de que as grandes e crescentes desigualdades de distribuição de rendimento são um problema político e não meramente económico, exigindo de nós soluções políticas, tem vindo a reunir um crescente consenso entre os críticos da ideologia neoliberal do mercado-rei mesmo no seio de organizações a ela ligadas como o Banco Mundial, o FMI ou a OCDE. Em Portugal, as desigualdades de distribuição de rendimento são das maiores da OCDE e da União Europeia e os últimos dados disponíveis (2013) apontam para o seu crescimento. Em 2013, uma pessoa pertencendo aos 10% mais ricos dos portugueses tinha em média um rendimento 11,1 vezes maior que uma pessoa pertencendo aos 10% mais pobres. Associada a esta elevada (e crescente) desigualdade de distribuição de rendimento, existe em Portugal um grande número de pessoas em situação de pobreza. O seu valor caiu nos primeiros anos deste século mas, segundo o INE, o número de 2013 (19,5%) é quase idêntico ao de 2003 (20,4%). Boa parte destes pobres são crianças e jovens com menos de 18 anos, a sua taxa de pobreza é maior que a média nacional (25,6%) e é entre as crianças e jovens que esta taxa mais tem aumentado. Um número crescente de estudos vem mostrando que uma infância e juventude na pobreza têm, com frequência, consequências ao nível da saúde dos indivíduos de forma duradoura, dado que pode expô-los a níveis tóxicos e prolongados no tempo e, por via disso, reduzir a habilidade de se movimentarem na sociedade e de adquirirem competências sociais e escolares. Por outro lado, a forma como as políticas educativas têm sido desenhadas envolve, em boa parte, a exclusão dos mais pobres do sistema de ensino e, em sequência, a sua relegação para as posições menos desejáveis do mercado de trabalho, reproduzindo-se assim a pobreza ao longo da vida e entre gerações".
Aqui está uma boa reflexão para o Dia Dez de Junho. É certo que estes temas, tão dramáticos na sua própria realidade, não entram na retórica da Cavacal figura e seus adjuvantes. Mas talvez algum remorso colectivo atravesse a sociedade se lermos como olhos de ler a epígrafe do artigo, que hoje aqui resolvi trazer, e que reza assim: "Se a miséria dos pobres não é causada pela natureza mas pelas instituições (pelas políticas, acrescento eu, F.P.N.) grande é o nosso pecado". Quem o disse foi Charles Darwin, em A Viagem do Beagle, de 1830.
Grande pecado, disse ele.

domingo, 7 de junho de 2015

O DILÚVIO SEGUNDO PORTAS

Está um sujeito garimpando da narrativa da actualidade alguma coisa de interesse, o que nem sempre é fácil, quando lhe cai no prato da sopa a figura de "gauleiter" de Paulo Portas, gesticulando ou de dedo espetado, fazendo a propaganda do medo em relação às próximas eleições legislativas, com aquela proclamação de tão funda raiz salazarenta: "Ou nós ou o dilúvio!" Nós, quer dizer: a coligação PSD/CDS. 
Não consta, por enquanto, que os seus correligionários e os do PSD, que não acreditam decerto na filosofia maniqueísta de Portas tenham já começado a procurar um Noé para construir a grande barca salvadora. Paulo Portas foi aos Açores fazer o discurso do dilúvio político, em Portugal, acaso os resultados eleitorais dessem a vitória ao PS, vaticinando logo, ali, a bancarrota ou a morte da pátria. Contou ele aos seus apaniguados a história do quase paraíso edificado pelo governo da coligação, com crescimento superior à Europa, "exportações a bombar", emprego a disparar, a felicidade nas mãos de Passos e Portas, que serão capazes de fazer o milagre da multiplicação dos pães e do vinho.
O que é mais confrangedor nestas acções de propaganda é a forma como tratam os eleitores como idiotas chapados, como se estes não tivessem sofrido nestes quatro anos os piores anos da sociedade portuguesa, com os dramas da brutal dilatação da pobreza (mais de dois milhões de portugueses vivem essa realidade no quotidiano), a desgraça mal contada do desemprego (contem os suicídios que por aí vão!), os mais jovens tribo expulsos da vida e da felicidade, o assassinato da esperança a curto e médio prazo. 
Há, nestas andanças, uma total falta de pudor. Pois sabendo todos eles que se vive nos limites da infra-humanidade, sempre com ameaças de cortes de pensões, os velhos tratados como trapos, os horizontes bloqueados, atrevem-se a falar em "Portugal à frente" e a mastigar a palavra futuro, como os ruminantes trituram as ervas. Que crápulas!