sábado, 20 de junho de 2015

NÃO MATEM A LÍNGUA!


Poucos se inquietam com um fenómeno que é uma fatalidade para as Línguas: as palavras que morrem, ano após ano, debilitando a pátria idiomática, que assim se torna mais pobre no universo dos seus falantes. O Prof, Lindley Cintra, sobre quem pesa lamentável esquecimento, preocupava-se com esta espécie de morte lenta da Língua, investigava aquilo que era o português fundamental na defesa de uma Língua cuja riqueza assenta precisamente na amplitude das suas diversidades. Aquilino dizia que a palavra é um organismo vivo, um bicho que se mexe e anda no tempo, como um fenómeno demiurgo.
Quantas palavras morrem por ano na Língua portuguesa? É um cemitério muito longo e amplo, quando os cangalheiros da Língua, com lugares selectos nas televisões e nos jornais, mas também na política e nas universidades, impuseram uma retórica -- às vezes um linguajar -- de sentido meramente utilitário, em que a beleza da Língua é todos os dias assassinada. 
Pacheco Pereira curiosamente, na análise que tem feito à política à portuguesa, tem-se inquietado com os problemas da linguagem e do empobrecimento da Língua portuguesa. Ainda hoje, na sua prosa do "Público" (que aliás merece amanhã outros sublinhados - e lá iremos...) , escrevia que "agora que a nossa bela língua está a ser atacada por todos os lados, na sua ortografia, na sua complexidade vocabular, na sua riqueza expressiva, é sempre bom encontrar um refúgio nos falares antigos, ou naqueles que pouco a pouco estão a ser esquecidos por falta de uso." Para Pacheco Pereira, "o que se passa hoje é como se, invisivelmente, se estivesse a realizar uma das funções essenciais que Orwell atribuía ao Big Brother, que era tirar todos os anos algumas palavras de circulação, porque sabia que é mais fácil controlar pessoas cujo vocabulário é restrito e que, por isso, tem dificuldades em expressar-se com clareza e riqueza e, em consequência, dominam menos o mundo em que vivem. O incremento de formas de expressão quase guturais como os SMS e o Twitter apenas dá  expressão a um problema mais de fundo que é desertificação do vocabulário, fruto de pouca leitura, e de um universo mediático muito pobre e estereotipado".
Vão matando lentamente o país, mas neste projecto sombrio a Língua portuguesa também está a ficar  muito doente. Não matem a Língua portuguesa, a nossa pátria de que falava Pessoa.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

SERÁ ASSIM?


ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Não há dia em que a narrativa sórdida do país não se transforme num daqueles pesadelos quotidianos que parecem eternos e, nessa virtual eternidade, fornecem uma escala inumerável de desesperos e angústias porventura iguais às que Sttau Monteiro ficcionou para um jantar que não era  outra coisa senão a doença traumática de um país salazarenta. Grave é que a história, nesta  caminhada de atropelos à mínima felicidade colectiva, seja de longa duração, como bem mostrou o Prof. José Gil, quando explicou as razões do medo de existir em Portugal.
Essas tipologias de doenças do país -- e este está gravemente doente, como mostram as patologias sociais e psíquicas -- assumem aspectos particularmente sintomáticos no ser e agir da política, na prática de governantes serem moral nenhuma, que hipotecaram a palavra de honra para se sentarem em cadeiras dos ministérios e depois poderem, numa retórica boçal, desfiarem as aldrabices que, dizem eles na sua pusilanimidade, dão more dividendos seguros junto do povo que alimenta a sua gula partidária.
Anos e anos de comportamentos indecorosos, linhas ideológicas que vêm de antigamente, antiquíssimas canalhices, conferem sustentabilidade tradicional aos figurões de hoje, que reajustando as causas aos efeitos conferem aos actos laivos de espúria modernidade. E eles aí estão, nas suas andanças, distribuindo o mal pelas aldeias, com as suas políticas de estrelibeta e pé calçado. Às vezes, a sua permanência no poder parece a condenação absurda de um povo, sujeito a cangas intemporais, abolição de direitos elementares, pobreza no cachaço. Terá sido sempre assim? Há breves hiatos de esperança que enobrecem a História portuguesa (lembram-se do 25 de Abril?), mas o cômputo geral, meus amigos, é um défice longo de tristeza.
Uma das coisas mais espantosas da literatura é ajudar-nos a perceber a substância do tempo e dos tempos. É por isso que gosto, muitas vezes, de falar com os meus autores, alguns dos quais jazem na sepultura do esquecimento, só possível em povos analfabetos. Gosto de praticar a diversidade dessas  conversas, como diria Henry Miller, com autores tão diversos, como Fialho, Eça ou Ramalho, Camilo ou Aquilino. O que se aprende, meu Deus!
Nessas releitura avulsas, fui buscar para deleite, "Os Gatos", do Fialho de Almeida. Basta aquela abertura genial -- "Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato" -- para reler a fabulosa descrição da morte e do enterro de Dom Luís, chá leitura deveria ser obrigatória -- como tantos outros textos dos autores que vimos citando -- em qualquer elementar escola de jornalismo.
Mas nesta minha navegação por Fialho caíram-me os olhos em duas páginas que me pareceram de uma actualidade desmedida, como se ele estivesse a falar do país que hoje nos caiu em cima. Querem ler?

"A política é o balcão em que se vêm rebater por cédulas de empregos e honrarias, as mais belas forças criadoras da nação; e mercê do bom preço das consciências, naquele mercado de estrume contemporâneo, eis-nos assistindo à deserção dos homens cultos, de todas as profissões nobres e finas; eis-nos testemunhas da inânia de todas as actividades sociais independentes, ciências e artes, mercê dos engajadores políticos que todos os dias no-lãs desguarnecem dos engenhos que melhor poderiam fazê-lãs caminhar".

Outra passagem:

"Conclui-se disto a deliquescência da vida portuguesa, nos seus duplos aspectos da consciência e da moral. Lá começa primeiro uma separação completa e desdenhosa entre os interesses da grossa massa da população, e os da matilha que reparte entre si os dinheiros das rendas públicas, e se crápulas na porfia escandalosa do poder. Vê- se em seguida a indiferença pública crescer em matéria política, os jornais serem lidos como passatempo, os actos do governo serem mencionados só como uma uma variante de anedotas obscenas, a política armar em profissão sem hombridade, em impune "chantage", e jornalistas  e homens de estado enfileirarem, no conceito geral, logo em seguida aos ratoneiros e aos assassinos".

O retrato está perfeito. E "Os Gatos" foram publicados entre 1889 e 1894. Quando somos confrontados com a persistência temporal destas realidades, regressamos a "il Gatopardo" de Lampedusa e à sua observação tão pertinente e sábia: é preciso que alguma coisa mude, para tudo ficar na mesma. Olha-se para este nó de terra, hoje a agora, e a inquietação cresce: será assim?

quarta-feira, 17 de junho de 2015

HÉLIA CORREIA VENCE PRÉMIO CAMÕES


É uma sensação de imensa felicidade a notícia da atribuição do Prémio Camões a Hélia Correia,  a querida Hélia de tantas páginas luminosas sobre a condição humana, a querida Hélia que olha para o mundo com os seus olhos doces, e, na projecção da sua indignação contra a indignidade humana, nos coloca um suplemento de esperança no cinzento baço dos dias, a querida Hélia que na invenção da música das palavras é construtora da língua portuguesa, numa escrita que é sempre uma declaração de amor à sua pátria idiomática, a querida Hélia que faz da cultura comum humanidade, a querida Hélia que na sua aventura criadora coloca sempre aquilo que é primordial ao Homem, a liberdade. A querida Hélia que no seu fazer literário (e na poesia também) nos ajuda a ler o mundo com outros olhos. Dizer que o Prémio Camões lhe fica bem, é uma evidência, um lugar-comum, a que terão de justapor-se muitas outras razões: estéticas, literárias, culturais, Língua. Porque se Vergílio Ferreira  escreveu "da minha Língua, vê-se o mar", numa formulação tão bela que parece conter dentro dela Portugal inteiro, eu costumo dizer que da escrita de Hélia Correia, da Língua portuguesa, se vê o mar e o sol grego, como uma matriz civilizacional de dimensão planetária.
No seu último livro de poesia -- e a poesia nela é uma aventura temporal com alguma distância: eu, aliás, já escrevi sobre isso -- A Terceira Miséria é dessas contingências dos dias que correm, nós e a Grécia, a Grécia e a Europa, que ela nos fala ao coração:

A terceira miséria é esta, a de hoje
A de quem já não ouve nem pergunta
A de quem não recorda.

E noutro poema:

Por sobre estes lamentos, quando a mesma
Palavra, a indigência, nos ocorre
Sem que nos atrevamos a usá-la
Porque sem deuses, sem o sentimento
Sequer da sua falta, nós mesmos
E incapazes de lembrar...

Hélia Correia, com uma obra originalíssima e multifacetada pela pluralidade de géneros, prestigia o Prémio Camões e o sentido planetário da literatura de expressão portuguesa, nas suas diversidades continentais. Uma obra muito rica, desde o Separar das Águas (1981), O Número dos Vivos (1982), Montedemo (1983), Vila Celeste (1985), Soma (1987), A Fenda Erótica (1988), A Casa Eterna (1991), Insânia (1996), Lillias Frazer (2001), Antartida de Mil Folhas (2001), Apodera-te de Mim (2002), Contos (2008); na Poesia: A Pequena Morte/ Esse Eterno Canto (1986) e A Terceira Miséria (2012); No Teatro: Perdição, Exercício sobre Antígona (1991).
Diga-se, já agora, que Hélia Correia participou, o ano passado, no I Festival Literário da Gardunha, e foi notável a sua intervenção, na sessão de Alpedrinha, onde desocultou a forte raiz de Alpedrinha na obra de Maria Gabriela Llansol, mostrando textos inéditos daquela autora, memórias da sua infância e adolescência na vila beirã, que esperamos possam ser editados em futura edição do Festival.. Um inestimável serviço cultural que não é mais do que a ligação afectiva de Hélia ao Fundão, desde os tempos do "Jornal do Fundão".
Um beijo de parabéns, querida Hélia.


terça-feira, 16 de junho de 2015

SEGREDO DE JUSTIÇA



Bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla  bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla.
Aos costumes disse nada.

OS MEDOS DE CAVACO E O POVO À DISTÂNCIA!


Aliviou-se Cavaco, com a venda da TAP, que foi assim como uma espécie de aperto a caminho do WC. Mas se na viagem presidencial para a Bulgária, o Presidente da República, no conforto do avião, manifestou o seu alívio, já no Portugal cuja Constituição da República jurou defender para depois caucionar todo o tipo de atropelos, ao governo, a quem pôs sempre a mão por baixo como se faz ao menino e ao borracho, o alívio dá lugar ao medo, olhando quase o povo como potencial inimigo -- à distância é que ele, PR, gosta de o ver -- receoso de manifestações e de imprecações, sabendo ele como sabe que a sua popularidade é a mais baixa de quantos Presidentes já houve depois do 25 de Abril. É melhor colocar longe a populaça, não venha de lá alguma pedrada verbal ou real, aconselharão os sábios conselheiros, povo longe da vista e da coração, que sua excelência já perdeu o lugar na História, ou, quando muito, terá direito a nota de roda-pé, e olha lá!
Medo do povo. Distância. Afastem um pouco mais as barreiras, s.f.f., e se o ajuntamento se dilatar, os gorilas que dominem a situação... Não é nada a que a sua magistratura presidencial não nos tenha habituado, mas, caramba, aquilo já é pior do que o poema pouco original do medo, do O´Neil nos deu bem dos tempos idos.
Em Santarém, a Cavacal figura visitou a Feira Nacional de Agricultura. E o que aconteceu? Socorro-me do comentário feito por Joaquim Duarte, no "Ribatejo", um dos poucos jornais com coluna vertebral intacta. Descrevendo "o corrupio" de membros do governo, deputados e outros dirigentes partidários de direita e de esquerda", durante os dias em que dura a Feira, o director do jornal faz depois uma pitoresca descrição do que foi a presença do Presidente da República que conta "no seu activo várias inaugurações da Feira Nacional de Agricultura". Todavia, este ano, anota-se "uma pequena diferença", escreve Duarte. "A máquina de aparatosa segurança que protege Cavaco Silva vem crescendo de ano para ano, em dimensão e descomedimento,  acotovelando todos os que se aproximam dele. E nem os membros da comitiva oficial por vezes escapam  a este ardor securitário dos agentes que rodeiam sua excelência. E o que é pior, eles próprios aceitam a imposição de se amontoarem em baias montadas para o efeito, num evidente atropelo  à dignidade do seu ofício, para aí ouvirem a palavra de circunstância de sua excelência, sem direito a perguntas. Desconhece-se o que possa temer Cavaco Silva para se rodear desta paranóia securitária, uma vez que não temos reconhecidos inimigos externos para admitir sequer remotamente o risco de um eventual acto terrorista. Pelo que fica a dúvida: o que teme Cavaco Silva que lhe possa suceder nestes eventos públicos de massas? Alguém em concreto? O povo em geral? Ou é a consciência de pecados políticos que lhe pesa ao ponto de temer a intrusão de algum louco disposto a vendeta? São interrogações sem resposta". Conclui Joaquim Duarte, no seu texto notável: "Cavaco prefere o refúgio dos fracos no respaldo de uma desmesurada presença policial. Até ao ponto da caricatura, como foi o caso da exigência dos seus serviços de segurança obrigarem a organização da Feira a despejar todos os contentores e caixotes do lixo antes da chegada de sua excelência".
Acrescento ao texto de "O Ribatejo", só o seguinte: não percam a esperança de, até ao fim do mandato, numa dessas andanças de propaganda da Cavacal figura, encontrarem num qualquer almoço presidencial um polícia dentro da panela da sopa!


segunda-feira, 15 de junho de 2015

LER PARA RESPIRAR


Num tempo em que a leitura se vai tornando, gradualmente, uma coisa sumptuária, quase mal tolerada entre os imbecis que julgam conhecer o Homem dispensando-a; quando as próprias escolas foram afastando a literatura, participando no assassinato de escritores fundamentais, pelo esquecimento e o silêncio; quando as universidades praticam o mesmo desinteresse pelos livros, enredadas em coisas tão herméticas e específicas que afastam para longe as humanidades, como um cálice amargo da cultura; quando o governo é o primeiro a desinvestir na cultura; quando, durante anos do consulado cavaquista ninguém ensinou um Presidente quantos cantos tem os Lusíadas ou o avisou que uma falha dessas lhe retirava qualquer autoridade moral para poder falar no Dia de Camões; num país assim não admira que a iliteracia e um certo analfabetismo arrogante triunfem no meio da inconsciência colectiva.
Não percebem os que odeiam os livros, que lhes fazem fogueiras imaginárias, que os tratam como inutilidades que não merecem apoios nem divulgação, que sem eles, sem o estímulo da leitura, o presente é sempre um tempo cinzento e o futuro ficará irremediavelmente comprometido. Esses tipos que têm cifrões nos olhos e cérebros povoados de números e de mercados, julgando que Portugal está à frente, ainda não perceberam que caminham no sentido inverso da História.
Apostar na leitura é, pois, alargar horizontes, aprender a ler e a compreender o mundo, como dizia Paulo Freire. Vivemos num dos países que menos lê, que menos jornais consome, com menor densidade de hábitos culturais. E há quem se ria dessa alarve situação de inferioridade.
A leitura é um acto de liberdade, leiam os "mandamentos" de Daniel Pennac, esse que fala da leitura como um romance e ensina que ela só resulta se o seu destinatário tiver toda a liberdade do mundo para ler como quiser, do fim para o princípio, do princípio para o fim, parar a meio se o livro for uma chatice, isto é, encontrar no livro o prazer da leitura. Pennac é um professor francês, autor de romances, que compreendeu cedo este fenómeno da leitura como crucial e que, precisamente no livro sobre a leitura, tem a ideia fantástica de o dedicar a um professor que lhe emprestou muitos livros e nunca lhe perguntou se os tinha lido! Penso que lá no íntimo ele sabia que os lia...
Às vezes, interrogo-me como a leitura pode tornar a vida diferente e como ela porventura teria sido diferente (seguramente desprovida de alegria) se no nosso caminhar temporal não tivéssemos encontrado pessoas que nos abriram páginas de poetas ou romancistas e nos leram em voz alta altos voos da criação. É aí, nessas descobertas ocasionais e luminosas, que as circunstâncias ampliam o homem. Alberto Manguel, ele que foi leitor de Borges, em Une Histoire de la Lecture", dá bem o sentido da dimensão da palavra e da leitura, como coisas essenciais. Conta que "Borges, cego, fechava as pálpebras, para melhor ouvir as palavras de um leitor invisível". E explica, também, que "todos nós nos lemos a nós próprios e lemos o mundo que nos envolve para percebermos o que somos e onde nos encontramos". E acrescenta Manguel: "Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos senão ler. Ler, quase tanto como respirar, é a nossa função essencial".
Quem escreve lavra palavras, com o mesmo rigor do camponês que abre a leira para o cultivo. Escrever e ler igual a respirar. A viver.
Comecei a preencher a folha branca do computador, com esta temática (quie alguns dirão fora de moda!) porque tinha ouvido uma saborosa crónica do meu querido Fernando Alves -- sempre os seus "Sinais" na TSF, que também nos ajudam a ler a realidade próxima ou longínqua -- em que ele falava de um Professor. Embora não fosse exclusiva sobre a leitura, embora falasse de livros, penso que era também sobre estas coisas que a narrativa reflectia. De facto, como dizia, o Eduardo Guerra Carneiro (e como gostávamos de lhe ouvir dizer esses versos) -- isto anda tudo ligado!
Por isso, mais uma vez com proveito e exemplo, oiçam aqui o Fernando Alves.
2015-06-12 Um professor

domingo, 14 de junho de 2015

CHARLATANICE VIA TV

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Há dias, numa sala de um hospital central, enquanto aguardava vez para um exame, eu e os que estavam comigo olhávamos a televisão de soslaio. Era um daqueles programas da manhã, na tvi, e havia uma senhora no écran, cartomante, que lançava dados e decifrava as infelicidades dos pobres mortais que para lá telefonavam, expondo mazelas da vida, universos domésticos, aqueles problemas levados do diabo que infernizam vidas. Como um médico, armada do seu consultório via televisão, ela dava conselhos ou passava receitas onde havia sempre uma expressão dominante, fosse qual fosse o problema: "Tenha calma!"
Mas a coisa, o negócio montado às claras, era bem mais grave: introduzia-se outra sábia, o número da chamada era dito e redito e passava uma e outra vez, esta para falar com o além. De vez em quando, olhava a pantalha e lá esta ela, também doutoral, em diálogo com as suas interlocutoras ou interlocutores (mas são sobretudo mulheres) que por 60 cêntimos mais Iva entram em contacto com os entes queridos que já partiram. "Entram em contacto com a alma!", diz a doutoral conselheira. O clima, quase sempre, sofre dramatização excessiva, a pessoa que pergunta rebenta em lágrimas e a senhora conselheira exerce a sua magistratura, aconselhando sempre calma, e dizendo coisas como estas: "Não esteja assim, a sua mãe está bem!" ou "Não esteja assim, o seu pai está bem e protege-a..." Não sei, quantas vezes, eu e os meus colegas de espera ouvimos esta charlatanice, que o programa é longo e tilinta, esta forma dos medias audio-visuais enganarem o patego. Apostando na crendice e na iliteracia, não respeitam nada, não têm limitas para as ofensas à dignidade humana. Uma pessoa ouve aquela burla pela manhã, imagina as pobres criaturas sofredoras que gostam de ser enganadas para saber se os seus mortos estão bem e se recomendam, e uma indignação funda sacode-nos, perguntando-nos que raio de país é este que permite estas charlatanices nas televisões, com total impunidade. Isto é pior que o conto do vigário! Onde está a entidade reguladora? No privado, tudo é permitido? Falar com o Além, é fácil: custa apenas 60 cêntimos mais Iva! Querem melhor negócio?