sábado, 27 de junho de 2015

FAÇAM O FAVOR DE DESCULPAR...

Os Gabinetes do Senhor Primeiro-Ministro Passos Coelho e do Senhor Vice Primeiro-Ministro, Paulo Portas, verdadeiramente consternados com a vitória da selecção portuguesa de Sub-21, sobre a Alemanha, e logo por 5-0, vêm manifestar à Senhora Chanceler Merkel as mais sinceras desculpas e prometem, desde já, castigar severamente treinador e jogadores pela falta de subserviência cometida dentro das quatro linhas. Corados de vergonha, por tal ousadia, garantem que uma afronta destas não voltará a repetir-se.
A Presidência da República enviou também à Chanceler Alemã um telegrama, pedindo desculpa pelo acontecido. Sua Excelência ficou muito abalado com o acontecimento e está inconsolável com a vitória de Portugal.

EUROPA: EQUIPAGEM PARA DESCER AO INFERNO


Retomando uma ideia de Brecht, quando a sua arte poética tentava não ser asfixiada pelo nazismo, apetece perguntar que tempos são estes em que defender a dignidade de um povo parece um crime e a democracia, na versão da União Europeia, ameaça tornar-se numa mascarada, que se está borrifando para a vontade dos povos, expressa eleitoralmente, e apenas pratica a vénia e curva a espinha aos interesses espúrios do mundo financeiro. Que tempos são estes, em que uns sujeitos baços, que às vezes parece terem iludido os carcereiros para alcançarem a magnanimidade do poder,  que mostram um desprezo absolutamente execrável pelas mínimas questões sociais (melhor dito: civilizacionais) --basta olhar a forma como decidiram sobre o problema da imigração e para a vala comum ou cemitério marítimo em que ela se transformou nas praias do Mediterrâneo, para ajuizarmos do calibre destes homens que estão à frente da Europa. Do ponto de vista social, são gente de máfia gangsteriana, aquele tipo de pessoas que não se comove com a mais cruel desgraça, cujo rosto nunca tem um laivo de emoção e que nunca admite como essencial a dimensão humana das acções.
Que gente é esta, tão comprometida com as artimanhas dos mercados e tão distante da Europa dos cidadãos?
Há dias, escrevi aqui, citando Hesíodo (um desses poetas clássicos que não consta certamente do cardápio dos eurocratas de meia tigela): o tempo dirá da Grécia. Mas o filme dos acontecimentos a que temos assistido, com as suas manobras políticas e a retórica dos credores, enunciada por madame Lagarde, isto é, a obsessão de Bruxelas em ajoelhar um país, é suficientemente forte para nos indignarmos e, sobretudo, para nos interrogarmos se não houve aqui alguém que se apropriou da própria ideia Europeia para a inquinar para todo o sempre. 
A narrativa informativa que passa em Portugal, com honrosas excepções, é que os gregos são uns malandros, que ousaram propor alternativas à fatalidade da pobreza das Troikas e fenómenos adjacentes. Há quantos anos está a Troika em Atenas? Que fez ela e as suas políticas senão desgraçar a Grécia, hipotecando o seu futuro (coisa aliás que também fez em Portugal, de maneira mais perita, com os capatazes Passos e Portas). 
O primeiro-ministro grego, Tsipras resistiu quanto pôde. Anunciou agora um referendo sobre as medidas propostas por Bruxelas. Parece que cometeu um crime. José Pacheco Pereira escreve hoje no "Público" um artigo que intitulou: "A Europa que nos envergonha". Escreve ele: "Esta não é a Europa dos fundadores, é a Europa dos partidos mais conservadores, com os socialistas à arreata. Não terá um bom fim e, nessa altura, muita gente lembrará a Grécia". O historiador deixa, ainda, uma outra nota muito interessante: "A Europa é hoje a principal aliada eleitoral e de governo de partidos como o PSD em Portugal e o PP em Espanha, interferindo qualitativamente nas eleições nacionais e transformando o reforço do poder comunitário num instrumento de poder "europeu". Hoje qualquer passo que reforce a "Europa" reforça o PPE e o "não há alternativa".
Foi por ter a dignidade de dizer Não a essa condenação prévia, que a máfia do poder europeu quer castigar a Grécia, que se limitou, afinal, a ser porta-voz do seu povo e a dizer Basta!
Há coisas intrigantes. No outro dia, caíram-me os olhos sobre palavras de um poeta  da Nicarágua, Francisco Ruiz Udiel, que morreu em 2010, e que antes de se suicidar escreveu estes versos:"Duas 

"Duas moedas na mão
e um dicionário grego"

Sintomaticamente, isto vem num livro que se chama Equipagem para descer ao Inferno.
A política desta Europa não é outra coisa senão uma equipagem que nos oferecem (tão bonzinhos que eles são!) para descer ao inferno.
Recusá-la é, decerto, a única atitude racional. Já temos infernos de sobra nos dias que nos calharam em sorte. 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

À FLOR DA RUA


As cidades imaginárias, mostrou-o Italo Calvino melhor que ninguém, são desmedidas de sonhos e utopias, contêm infinitos instantes de emoção, têm uma topografia própria de histórias de amor que preenchem casas, ruas, praças, cafés onde, à mesa da bica, se empreendem viagens pelo mundo, ou em territórios tão perto do coração, que constroem naturalmente universos de afectos e sorrisos, inventam escritas poéticas e literaturas oníricas, e têm esse poder fantástico porque são imaginárias e mágicas, podendo afastar para longe, quando os pesadelos criam angústias e mesmo lágrimas, as realidades cruéis que ferem os bons sentimentos. Fica só a "terra da alegria", como no verso de Ruy Belo.
Essas realidades, que às vezes mostram a infra-humanidade à flor das ruas e dos dias, em cantos esconsos onde o silêncio e o esquecimento se suspendem no tempo, ou à vista desarmada como fenómenos banais do quotidiano, podem serem esbatidas na paisagem urbana ou remetidas para a opacidade do silêncio, porque fazem parte não das cidades imaginárias de que vínhamos falando, mas de lugares bem reais que não podem caber nunca no conforto de imaginários tipo postal ilustrado ou da felicidade virtual, essa que costuma acabar abruptamente quando acordamos dos sonhos e abrimos os olhos para a realidade. E os olhos vêem e os ouvidos ouvem. Nas imagens e nos sons há, então, um registo de memórias de instantes que, no seu fragmentário filme do real, passa rápido como uma sombra ou uma paisagem em movimento, como aquelas que olhamos das janelas dos automóveis ou dos comboios. Coisas apressadas, que não tocam o coração dos dias.
São os lugares reais com que o dia-a-dia nos confronta, nos momentos mais inesperados. Então, o olhar resvala para a circunstância dessas situações (há coisas levadas do diabo!) e, se fixarmos bem na retina o quadro humano que se oferece, havemos de pensar que, de facto, o homem ou a mulher são as suas circunstâncias, como dizia o filósofo, e elas, as circunstâncias, porventura, são os homens e as mulheres, sobretudo quando a vida dá para o torto, a desgraça é colectiva e o universo familiar não escapa à desestruturação social, como agora dizem os relatórios.
Então, dizia o cronista, esses momentos de infra-humanidade impõem-se aos que caminham pelas ruas, em cidades grandes ou pequenas, até em pequenos lugares, uns de passo estugado, outros a olhar para ante-ontem, que é uma prática muito comum  no país dos falsos brandos costumes. Nessas deambulações, o olhar, que é vadio, pastoreia muita coisa, fixa-se nas paisagens, de plano mais alargado, ou nos detalhes, que têm a força brutal das realidades incómodas. Escreveu, por isso, o cronista, se calhar mais do que devia, sobre os homens vestidos de sombra, sem eira nem beira, que caminham e caminham e caminham nos roteiros de viagens por ruas e becos, às vezes atrevem-se a pisar o chão de praças solenes, até que as sombras, que os vestiram por inteiro durante a existência triste, se dissipam com a morte que se adivinha, por acaso, quando o desaparecimento os coloca longe da vista para sempre; há estátuas de carne e osso, paradas ou moventes, na mais completa marginalidade, incómodas pelos gestos  ou pelos sons guturais que são a caligrafia da sua precária humanidade; há crianças - há, há... - sem sol de roupa, como dizia o Zé Gomes Ferreira, que continuam a não ser meninos (fala-se hoje nas crianças sem pão, com a maior das naturalidades: onde estão os criminosos que fabricam politicamente estas histórias de vida?); sabem de pessoas que vivem há anos dentro de um automóvel precário - há anos, ouviram bem? - atulhado de plásticos e de coisas, as alfaias de uma vida. O cronista, já não sabe, se a imagem que tem dentro dos olhos é da sua cidade ou daquelas imaginárias, as tais que permitem ao sujeito desligar-se, por momentos, da realidade. Será realidade, de facto, a circunstância do drama: uma mulher, de idade indefinida, se o autor quisesse caracterizar literariamente a personagem, viver dias e dias, semanas e semanas, meses e meses e anos e anos, numa solidão sem paredes, em quatro palmos de vida? Será real, interroga-se outra vez o cronista, sabendo que a exposição do drama, tanto quanto possível discreta (não a afastem para a periferia), ela só deseja que não deem por ela: finjam, por favor que eu não existo. 
É essa a sua luta: fingir que não existe, que não faz parte do universo humano citadino, que não conta para a estatística dos humanos locais, pelo menos daqueles que se inscrevem na rotina da normalidade. É um teatro do absurdo, volta a interrogar-se o cronista, quando lhe dizem que tudo aquilo é natural, "é assim que ela gosta de viver, há uma amiga em cuja casa toma banho, vai ao café a ver televisão, atão...". Se calhar, se visse filmes de ficção científica, gostaria de ser invisível, para não a removerem daquele espaço meio esconso, onde decidiu estacionar a sua vida. É o seu medo: vir alguma cientista social, com os inquéritos baixo do braço e alguma guia de marcha com efeitos imediatos. Medo também de alguma autoridade fardada que a remova para longe, obrigando-a a abandonar o seu bairro e o seu lugar imaginários. Há quem faça humor e ilustre uma legenda para o quadro social: é um T1 à flor da rua, E outro: esta, ao menos, não paga IMI... (olha se os gajos do governo se lembram?).
O cronista volta às suas cidades imaginárias, mas leva com ele, para introduzir dentro delas, uma interrogação fundamental: que razões estarão nesta persistência de margem? E como pode ser tão natural aquilo que o não é? 
O drama tem anos. O cronista pergunta aos que julgam tudo isto natural, se suportariam ser submetidos a uma prova humana deste calibre, não digo durante anos, durante meses, durante semanas, durante dias. Apenas durante uma noite ou nem tanto. Que chamariam eles àquele simulacro de vida?

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O QUE O TEMPO DIRÁ DA GRÉCIA


Quem, assistindo ao longo calvário grego, face à arrogância dos mandantes da Europa, ao lume brando ou vivo das imposições para fazer ajoelhar um povo, não se envergonhará de pertencer a uma União Europeia que assim desfaz os seus princípios solidários, as suas promessas de construção europeia, as suas ideias de uma Europa dos Cidadãos? Dizer que é uma vergonha, é pouco,  porque o sentido fundamental das suas directrizes (em que entram, a bater palmas um trio português: Cavaco, Passos e Maria Luís) é um propósito de humilhação a uma escolha democrática. A Europa, sempre a encher a boca de democracia, comporta-se como executora de um capitalismo selvagem, assente em mercados conspurcados com escândalos e autênticas conspirações políticas. As eleições são a base da democracia. Um partido venceu-as, com um programa claro, que tinha a ousadia de desafiar o cânone da da austeridade. A Grécia teve a coragem de dizer que havia alternativas, e, sobretudo, havia que pôr fim à austeridade como fábrica infernal de pobreza e de infra-humanidade. Grave ousadia aos senhores mandantes da Europa e seus burocratas menores. Grave ousadia que põe os mandantes fora de si e os leva para o insulto (veja-se a dama Lagarde com a sua verborreia malcriada!).
Os pacóvios comentadores da pequena casa lusitana e os seus mestres ideológicos não se cansam de sugerir que a Grécia capitulou. Capitulou ou confundem eles os desejos com a realidade. A Grécia mostrou, pelo menos, que a resistência e a obrigação de defender os interesses do seu povo se tornaram numa espécie de empresa homérica. A Grécia contra todos, como se a Europa estivesse envenenada pelo ódio. A Grécia recusando, recusando, recusando. A Grécia lutando. Que estupendo exemplo de um povo que tem em si a génese da civilização ocidental. Este é o tempo dos Tartufos. Mas é também o tempo dos coros que abrem súbitos horizontes no meio das tragédias.
Há muitos séculos (288-294), o poeta Hesíodo (que o areópago europeu deve desconhecer, pela certa) no seu Os Trabalhos e os Dias, escreveu um poema sobre o êxito, que me apetece deixar aqui como símbolo de um caminho que é sempre mais vasto e longo do que o oportunismo imediato, a falta de senso político, a ausência de ética e de justiça (temas que a cultura grega tão bem ilumina). O primeiro verso, que diz assim: "Granjear miséria e com abundância é fácil", parece dedicado à vontade expressa da União Europeia. Mas o êxito é temporalmente mais longo, como o poema de Hesíodo (retirado da Antologia da Poesia Grega Clássica, na tradução de Albano Martins) nos diz:

O êxito
Granjear miséria e com abundância é fácil.
A estrada é plana e fica muito próxima.
À frente do mérito, porém,
puseram os deuses o suor: o caminho
para lá é longo e corre a pique;
é árduo, ao princípio, mas,
quando se chega ao cimo, 
embora difícil, depois parece fácil.

Depois. O tempo dirá que dias foram estes em que os donos da Europa trouxeram apenas devastação e pobreza. O tempo dirá que o êxito estará com os que souberam levantar a voz para dizer que havia outro caminho para chegar ao cimo da montanha. O tempo dirá.
No outro dia, Fernando Savater, exprimia no "El Pais" uma curiosa ideia sobre o perigo de certos sujeitos chegarem às cadeiras do poder. Dizia ele: "O pior não é que os brutos se manifestem anti-semitas, necrófilos ou nazis, mas que sejam brutos, ou seja, que apresentem um perfil de inconfundível estupidez como recomendação de boa vontade para ocupar cargos de responsabilidade".
A Europa (a começar pelos que têm selo nacional) está cheia de brutos. Um até lá esteve dez anos, na ilusão de que era o mandante chefe da União Europeia!

terça-feira, 23 de junho de 2015

S. JOÃO



Na iconografia dos santos que nunca perderam a sua dimensão profana, como se tivessem descido à terra para ficarem por cá para alegrarem a alma do povo, S. João é indiscutível. O seu cancioneiro, na riqueza da música tradicional portuguesa, mostra bem essa virtualidade de descer do altar para se juntar à gente comum, com canções onde a beleza vai de par com a ironia e a brejeirice, tão nossa, tão portuguesa.
Fernando Lopes Graça e Giacometti, como muitos outros etnomusicólogos (também o nosso José Alberto Sardinha) inventariaram esse longo património da nossa música tradicional, o S. João, pode dizer-se, povoa todo o território e, nesse ocupação espacial, está também uma boa parcela de imaginário. Por todo o lado, se saltavam as fogueiras e se edificavam arraiais, com mastros solenes, e, na Beira Baixa, o S. João de Monforte, por exemplo, pedia meças, com os seus rituais, os seus mordomos e cavaleiros. É, ainda hoje, a outra escala, uma significativa expressão de uma singular festa colectiva, de raiz comunitária. É, também, o grande dia da festa do Porto, depois do Santo António de Lisboa.
É bom, nestes tempos tristes de crise, em que até os santos populares parece terem sofrido os efeitos, abrirmos o coração à alegria, ainda que saibamos que tudo, mesmo esta alegria comandada pelo calendário, é efémera, passageira.
Talvez seja justo, é de certeza, evocar o nome grande e único de Fernando Lopes Graça e lembrar aqui o seu "S. João Adormeceu".

segunda-feira, 22 de junho de 2015

COM OS OLHOS EM BICO...

O "Diário de Notícias" publica hoje, com grande destaque, na primeira página, a notícia de que "Chineses dizem que Portugal é o melhor país da Europa para comprar empresas". Esta confissão, decerto verdadeira, revela alguma falta de pudor, sobretudo pelo que tem de reveladora do país se ter transformado numa espécie de mercearia de venda a retalho, sem desprimor, claro, para as mercearias que cumprem um papel económico e social fantástico.
A questão é que a percepção chinesa sobre a realidade portuguesa -- eles que bem sabem do negócio -- pequeno, médio e graúdo -- é um retrato da nossa (nossa é como quem diz: do governo de Passos e Portas -- menoridade e, seguramente, resultado da promiscuidade instalada entre o governo e os grandes interesses financeiros, bem visível na forma como foram vendidos os sectores estratégicos (que asseguravam uma mínima independência ao Estado), num leilão de espúrias conveniências, como aconteceu com a EDP, a REN, a ANA, os CTT, a PT, os Bancos, a TAP. Os chineses estão sempre compradores,  sobretudo quando se trata de activos do Estado ou aparentados.
De facto, para eles, "Portugal é o melhor país da Europa para comprar empresas". Até se diz que querem acrescentar ao seu pecúlio o Novo Banco. Os portugueses, claro, vão ficando mais pobres, cada vez mais pobres, e até acabam por pagar o festim (vejam os preços da EDP!) com língua de palmo! É caso para dizer que, neste universo financeiro, somos nós que temos ficado com os olhos em bico...

domingo, 21 de junho de 2015

POR QUE NÃO LHES DIZEM QUE SÃO MENTIROSOS?

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
No garimpo de palavras de que ontem falávamos,a propósito da crónica de José Pacheco Pereira n "Público", ele foi buscar um termo para caracterizar a postura dos sujeitos do governo, sobretudo depois do que ouviu no último debate parlamentar. "Como ele está lampeiro com a verdade! Lampeiro é a palavra do dia", escreve o historiador para depois caracterizar melhor a situação: "Aconselhar os portugueses a emigrar? Nunca, jamais em tempo algum. Bom, talvez tenha dito aos professores, mas os portugueses não portugueses inteiros. Bom, talvez tenha dito algo de parecido, mas uma coisa é ser parecido, outra é ser igual. Igual era se eu dissesse “emigrai e multiplicai-vos” e eu não disse isso. Nem ninguém no “meu governo”. Alexandre Mestre era membro do Governo? Parece que sim, secretário de Estado do Desporto e disse: "Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras. Como "em sair da sua zona de conforto" é uma das frases preferidas do Primeiro-ministro, e a “zona de conforto” é uma coisa maléfica e preguiçosa, vão-se embora depressa. E Relvas, o seu alter-ego e importante dirigente partidário do PSD de 2015, então ministro, não esteve com meias medidas: “é extraordinariamente positivo” “encontrar [oportunidades] fora do seu país” e ainda por cima, “pode fortalecer a sua formação”. Resumindo e concluindo: “Procurar e desafiar a ambição é sempre extraordinariamente importante". Parece um coro grego de lampeiros.
Continuemos. A crise não atingiu os mais pobres porque“os portugueses com rendimentos mais baixos não foram objecto de cortes”,disse, lampeiro, Passos Coelho. Estou a ouvir bem? Sim, estou. Contestado pela mentirosa afirmação, ele continua a explicar que os cortes no RSI foram apenas cortes na “condição de acesso ao RSI” e um combate à fraude. A saúde? Está de vento em popa, e quem o contraria é o “socialista” que dirige um “observatório” qualquer. Sobre os cortes nos subsídios de desemprego e no complemento solidário de idosos, nem uma palavra, mas são certamente justas medidas para levarem os desempregados e os velhos a saírem da sua “zona de conforto”. Impostos? O IVA não foi aumentado em Portugal, disse Passos Coelho com firmeza. Bom, houve alterações no cabaz de produtos e serviços, mas o IVA, essa coisa conceptual e abstracta, permaneceu sem mudança, foi apenas uma parte. Então a restauração anda toda ao engano, o IVA não aumentou? E na luz, foi um erro da EDP e dos chineses? Lampeiro.
Depois há a Grécia. “Não queremos a Grécia fora do euro” significa, por esta ordem, “queremos derrubar o governo do Syriza”, “queremos o Syriza humilhado a morder o pó das suas promessas eleitorais”, “queremos os gregos a sofrerem mais porque votaram errado e têm que ter consequências”, “queremos a Grécia fora do euro”. O que é que disse pela voz do Presidente? Na Europa “não há excepções”. Há, e muitas. A França por exemplo, que violou o Pacto de Estabilidade. A Alemanha que fez o mesmo. 23 dos 27 países violaram as regras. Consequências? Nenhumas: foi-lhes dado mais tempo para controlar as suas finanças públicas. Mas ninguém tenha dúvidas: nunca nos passou pela cabeça empurrar a Grécia para fora do euro, até porque na Europa “não há excepções”.
Lampeiros é o que eles são. Lampeiros. Este tipo de campanha eleitoral é insuportável, e suspeito que vamos ver a coligação a “bombar” este tipo de invenções sem descanso até à boca das urnas. O PS ainda não percebeu em que filme é que está metido. Continuem com falinhas mansas, a fazer vénias para a Europa ver, a chamar “tontos” ao Syriza, a pedir quase por favor um atestado de respeitabilidade aos amigos do governo, a andar a ver fábricas “inovadoras”, feiras de ovelhas e de fumeiro, a pedir certificados de bom comportamento a Marcelo e Marques Mendes, a fazer cartazes sem conteúdo – não tem melhor em que gastar dinheiro? – e vão longe. Será que não percebem o que se está a passar? Enquanto ninguém disser na cara do senhor Primeiro-ministro ou do homem “irrevogável” dos sete chapéus, ou das outras personagens menores, esta tão simples coisa: “o senhor está a mentir”, e aguentar-se à bronca, a oposição não vai a lado nenhum. Por uma razão muito simples, é que ele está mesmo a mentir e quem não se sente não é filho de boa gente. Mas para isso é preciso mandar pela borda fora os consultores de imagem e de marketing, os assessores, os conselheiros, a corte pomposa dos fiéis e deixar entrar uma lufada de ar fresco de indignação.
Então como é? O país está mal ou não está? Está. Então deixem-se de rituais estandardizados da política de salão e conferência de imprensa, deixem-se de salamaleques politicamente correctos, mostrem que não querem pactuar com o mal que dizem existir e experimentem esse que tanta falta faz à política portuguesa. Mas, para isso é preciso aquilo que falta no PS (e não só), que é uma genuína indignação com o que se está a passar.
Falta a zanga, a fúria de ver Portugal como está e como pode continuar a estar. Falta a indignação que não é de falsete nem de circunstância, mas que vem do fundo e que, essa sim, arrasta multidões e dá representação aos milhões de portugueses que não se sentem representados no sistema político. Eles são apáticos ou estão apáticos? Não é bem verdade, mas se o fosse, como poderia ser de outra maneira se eles olham para os salões onde se move a política da oposição, e vêm gente acomodada com o que se passa, com medo de parecer “radical”, a debitar frases de circunstância, e que não aprenderam nada e não mudaram nada, nem estão incomodados por dentro, como é que se espera que alguém se mobilize com as sombras das sombras das sombras?
Enquanto isto não for varrido pelo bom vento fresco do mar alto, os lampeiros vão sempre ganhar. As sondagens não me admiram, a dureza e o mal são sempre mais eficazes do que o bem e muito mais eficazes do que os moles e os bonzinhos".
Longa é a radiografia que José Pacheco Pereira faz do país e da sua desgraçada situação. Da debilidade da Oposição, a começar pelo PS (quem olhar com atenção para o cartaz recentemente colocado, deverá ficar com a ideia que o PS quer perder as eleições!), da falta de coragem para chamar os bois pelos nomes, na rotina das suas mentiras, das aldrabices de algibeira, na putrefação de uma política manobrada por Passos, Portas e Cavaco, uma política que cheira mal e que trata os portugueses por parvos ou parvalhões, por idiotas de circunstância a quem é preciso, com as mentirolas e a propaganda, sacar os votinhos.
Pacheco Pereiro chama-lhes lampeiros e o retrato é perfeito. A mim, apetecia-me mais utilizar um termo do vernáculo vicentino.