sábado, 4 de julho de 2015

LEITURAS (III)

Ah, grande António!

LEITURAS (II): A VENDA DO NOVO BANCO

"Venda do Novo Banco leva défice de 2014 para 6%". Este é o título do "Expresso", com grande destaque, na primeira página. Na televisão vejo Portas, sempre ministro da propaganda, a afirmar e reafirmar que o défice fica abaixo dos 3%. No Face Book, há momentos, o embaixador Francisco Seixas da Costa, faz o seguinte comentário: "É um mito urbano que os senhores Carlos Costa, Maria Luís Albuquerque e Pedro Passos Coelho disseram que a operação BES se faria sem encargo financeiro para o Estado? Ou será da minha memória?"

LEITURAS (I): UMA VACA CHAMADA PORTUGAL


Talvez não haja melhor forma de crítica do que o humor. Sabemo-lo bem, nós, embora a tradição de um país que já teve Bordalo e Vilhena, não tenha agora uma revista satírica, o que na minha modesta opinião é uma grande benesse para os governos, sobretudo para este, de Passos & Portas, que fornece abundante matéria para o riso. Valha-nos o António, que semanalmente faz, no "Expresso", as suas farpas demolidoras.
Trago aqui, então, o texto de grande ironia que Pacheco Pereira publicou esta semana na "Sábado" e que retiro de "Abrupto", o blogue que, aliás, recomendo sempre em "Notícias do Bloqueio". O texto foi buscar um tema anedótico, a redacção sobre a vaca ("Redacção da Vaca a Bombar"), sendo a vaca o pretexto para uma viagem ao Portugal de agora e suas excelências políticas, tão propagandeadas pelo governo que aí está (im)puro e duro. É uma boa leitura para este sábado de Verão, de céu azul e calor, para, como dizia o meu amigo, "desopilar". Aqui o deixo, com a devida vénia ao José Pacheco Pereira. Às vezes, de facto, rir
é o melhor remédio...

"A vaca, perdão Portugal, é um bonito país. Tem sol e mar, areias, velhos monumentos, bons costumes, eucaliptos, pastéis de Belém, e tuk tuks. Em Portugal, as plantas crescem para cima, mas se for preciso, com a força de vontade dos portugueses, também crescem para baixo. Nós podemos sempre fazer o que queremos, diz o ministro do "bombar". É só força de vontade, que para os portugueses não há dificuldades. Não somos gregos. Mas eu queria isto… Não pode ser, temos de ser prudentes. Sábio Governo. Mas eu tenho direito a isto… Não pode ser. Isso dos direitos já não se usa. Tinha, mas já não tem. Isto é que é um Governo moderno despachado, desenvolto, atirado para a frente, que deu bom nome à lei da selva. Obrigado, vaca, digo, Governo. 
Para o sol chegar a mais lados, deixou de haver árvores a não ser eucaliptos, que cheiram bem. Na parte de trás do País, aquilo que se chama interior, há uma doença, a interioridade, mas não afecta as costas, por isso podem ir à praia à vontade. Também não vive lá muita gente. A sábia política do nosso Governo tem sido despovoá-lo, acabando com a política retrógrada dos arcaicos e velhos Reis portugueses. Antes ser "povoador" era uma honra, hoje é ser "despovoador". A vaca, digo, o Governo, tem feito uma política muito competente para despovoar. Acabaram as estações dos correios e o correio só aparece uma ou duas vezes por semana. Acabaram os postos de saúde. Acabaram os tribunais. Acabaram muitos serviços públicos, existem umas lojas de cidadãos a 30, 50, 100 quilómetros. Reanimou-se a oferta de táxis para estas deslocações, e, além disso, vir de Guadramil para Bragança, dá muito cosmopolitismo, os velhos sempre saem de casa para ver o mundo. Isto é que são preocupações sociais. Nenhum louco abre uma empresa nestes sítios. Não há problemas pode vir para um "ninho de empresas" num centro comercial em Lisboa, recebe uns subsídios do Impulso Jovem e, depois, é só mostrar o seu "empreendedorismo" e inventar o moto -contínuo. As leis da Física dizem que é impossível, mas desde quando é que a entropia foi um problema para os portugueses? 
Depois, é um gosto passear pelas cidades de Portugal, a começar por Lisboa. Tantos cartazes de "vendido", na Assembleia, nas paragens de autocarro, nas estações de Metro, nas caixas da EDP! Isto é que é reanimação da economia para acabar com as profecias dos Velhos do Restelo. Tudo se vende e é bom seguir o exemplo da Remax. Sempre podiam colocar a fotografia do vendedor, que tanto prédio, comboio, autocarro, linha eléctrica, barragem, aeroporto, porto, vende! Lá teríamos de novo a vaca, corrijo, os senhores ministros a sorrir babados de sucesso. 
Essa banda de maus portugueses, a chamada "oposição", anda para aí a distribuir fotografias caluniosas da vaca, em que apenas um mamilo de uma teta escorre para o balde colectivo do povo e o resto vai em tubinhos da ordenhadora não se sabe bem para onde. Eles dizem que sabem, mas é calúnia de certeza. A vaca é boa, a vaca é úbere, a vaca tem as cores nacionais na lapela, a vaca ri, como diz o nosso Presidente da República, e uma marca francesa de queijos, de tanta felicidade. Ser portuguesa! 
Mas está tudo tão bem que até dói. Pleno emprego em 2300, não está mau. IRS a 4%, em 2500, e só não se acaba com ele por prudência. Sábio Governo, de novo, que não quer prescindir de nenhum "instrumento", para poder continuar a fazer da nossa vida "um exercício". 
Bebés já há muitos desde que o nosso preclaro Governo, seguindo as mais modernas tendências do "admirável mundo novo", cultiva embriões in vitro e faz nascer as crianças numa proveta com líquido amniótico. As quotas são correctas: em cada 10, seis são brancas, três pretas, meia criança amarela e outra meia para o resto das raças. Os ciganos protestam porque só há 1% de criança cigana, ou seja não nasce nenhuma, mas isso é povo do RSI, não deviam ter direito à palavra. A vaca é que sabe. São excelentes notícias para a emancipação feminina, acabamos com a maldição de Eva. Depois de saírem da proveta as crianças vão ser educadas por hipnopedia, para não terem trabalho a estudar e poderem ser "jotas" mais cedo sem terem a preocupação de disfarçarem uns diplomas manhosos. Agora o diploma tira-se a dormir em 60 noites e não há mais "casos" nem Sócrates, nem Relvas. Os velhos vão ser reeducados para morrer mais cedo e não pesarem nas gerações futuras. 

Na Europa já se diz que o século XXI é o "século português" tão admirada é a vaca, digo, o nosso belo país. Os turistas chegam cá e gritam de excitação "what a beautiful cow, I’m sorry, what a beautiful country". Os mais letrados acrescentam "Is this Utopia?" Não tenham dúvidas. A água é sempre cristalina. O céu sem nuvens. As ruas limpas. A segurança alimentar impecável, ou seja, não lhe vão dar a comer um qualquer ciclóstomo pré -histórico. Os animais são respeitados religiosamente, com excepção dos gatos pretos que representam o demónio e os demónios, como se sabe, governam a Grécia. Pode andar nas ruas sossegado às 3h da manhã que a nossa vaca, mais um engano, as nossas autoridades, colocam um batalhão de comandos à volta. E só não há trabalho porque não é preciso trabalhar para nos dedicarmos à cultura gastronómica muito em moda nestes dias. Ou ser costureiros, o que dá uma comenda rapidamente. 
Tudo é bom, tudo é deles e nada é nosso. É uma forma de comunismo dos cidadãos esclarecidos que acreditam nas virtudes purgantes da pobreza. Razão tinha esse percursor do nosso futuro, António de Oliveira Salazar. Pobres mas honrados. E muito limpinhos, na casa dos pobres. Sem bens somos mais felizes, desprovidos das tentações do mundo, vemos a vaca como ela deve ser vista, radiosa, cheia, opulenta, pujante, brilhando no escuro de tanta felicidade que dela emana, sempre a bombar. 
Vejam lá se eu não sou capaz de dizer bem da vaca. Vá lá convidem-me para o Governo, bem mereço".

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O MEDO E A ESPERANÇA


Quem não tem a Grécia dentro do pensamento? À medida que o tempo corre, mais nojenta fica a campanha do Eurogrupo, com as suas manobras de chantagem, as suas mistificações sobre o Referendo (mudando eles próprios o sentido da pergunta), as suas práticas do medo, as suas condenações sumárias se... Tem havido muitos coveiros da Europa, mas estes agem com um despudor e uma falta de vergonha que os coloca na primeira linha do funeral da União Europeia. Bem sei que um deles já não está em Bruxelas, mas é, também, a imagem dessa ruína moral: o senhor Durão Barroso. Ainda ontem, mostrou o seu carácter numa cerimónia  em Lisboa, na apresentação de um livro de um ex-ministro de que nem é higiénico citar o nome, a repetir as barbaridades sobre a Grécia e a apontar o glorioso exemplo de Portugal e de Passos Coelho. E dizia aquilo sem um pingo de vergonha! De facto, quando um tipo destes esteve dez anos à frente da União Europeia, estamos conversados sobre a desgraça e a morte do velho continente.
Então, pensando na Grécia e na sua dignidade (pois é disso que se trata), trago aqui um poema de Egito Gonçalves, que me é tão querido que o fiz nome deste Blogue. O Notícias do Bloqueio é um bom grito para o drama grego.

Notícias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se

1952, 
Egito Gonçalves, O Pêndulo Afectivo - Antologia Poética, 1950-1990


VENDER A ALMA AO DIABO


O problema não mudar de ideias, cuja unidimensionalidade se sustenta de dogmas e ortodoxias, o problema não é a abertura do pensamento às grandes questões, praticar a dúvida (Saramago, em diálogo com alunos, numa escola secundária: "Duvidem de tudo, mesmo daquilo que acabei de vos dizer!"), o problema não é a capacidade de pensar para combater o pensamento único -- o problema, o grande problema, é a transigência ao nível dos princípios éticos, a capitulação face aos valores que fazem o Homem a medida de todas as coisas, a cedência por interesses espúrios e venais a comandos ideológicos apostados apenas na instauração de desigualdades, a troca da liberdade e dos princípios sociais, comuns à felicidade humana, por realidades absolutamente condenáveis, em que o crime paga dividendos. Todos nós conhecemos casos desses que dariam certamente para fazer um dicionário do oportunismo. Pensava nisto, enquanto via "comentadores" que se tornam nas televisões vozes do dono e dos donos (o caso da Grécia é um escândalo pela narrativa informativa oficiosa dos "eurocratas" da União Europeia e das suas Troikas) e, para alguns destes comportamentos que penduram nos mercados a consciência, fui encontrar uma boa reflexão que aqui deixo:
Anoto, de Juan Goytisolo, no "El Pais": "Quem abandona uma fé e avança na vida a peito descoberto, sem a cúpula protectora de um credo ou ideologia, tende com bastante frequência a refugiar-se noutro a vingar-se do seu próprio passado. O movimento pendular não se detém no seu trajecto: ilude  o centro.Aqueles que atacavam desde a esquerda passam a fazê-lo desde a direita e o atacado é o mesmo. Os exemplos abundam e deixo-os à consideração dos leitores. Como dizia Gunter Grass com ironia: "Meus velhos amigos da extrema esquerda voltaram-se tanto para a direita que para olhá-los fico com torcícolo".

quinta-feira, 2 de julho de 2015

RESPIRAR MÚSICA

Jorge Moyano
Quem, por estes dias, se der ao trabalho de olhar para o Fundão com olhos de ver. descobre um universo muito próprio, povoado de jovens de falares diversos, carregando instrumentos musicais, a caminho dos lugares de audição (Academia de Música, Casino Fundanense, Moagem) do Concurso Internacional de Música que o Fundão já consolidou como acontecimento cultural de relevo. Todos os anos, por esta altura, é como se a música tomasse conta da pequena cidade que o Fundão é. Por estes dias, esplanadas, ruas ou praças, restaurantes, também, conhecem um movimento diferente. Eu gosto de ver estes jovens, também muitos portugueses (e daqui, da região) andarem com a música às costas -- metáfora apressada para a imagem da mobilidade com instrumentos musicais -- e a minha alegria emergente destes aspectos urbanos, mais singulares, é por ver e saber que esta paisagem afluente do Concurso Internacional de Música significa uma das coisas mais fantásticas que o 25 de Abril introduziu neste país, a transformação real do ensino da música e a democratização do seu acesso, fenómeno que é uma das notas mais salientes do país novo em que estamos.
Quando olho para este Concurso Internacional de Música, que a Academia de Música da Santa Casa da Misericórdia vem realizando, há anos, não posso deixar de pensar no "milagre" que tudo isto representa num país que assassina a esperança de muitos jovens músicos, num país em que os Conservatórios de Música (a começar pelo de Lisboa) vivem no fio da navalha. Bem sei que as autarquias dão hoje ajudas que colmatam, em parca medida, as ausências do poder central, dito de uma forma mais directa: a estupidez do governo.
Os dias vão maus e os horizontes baços e cinzentos, mas há umas horas, meus caros, assisti a mais um concerto de Jorge Moyano, professor e intérprete que, sendo parte do júri, há uns bons anos, oferece um concerto, que é um momento alto de cultura. E bastaram essas duas horas de música para podermos sonhar. No palco, está um piano, a luz da sala vai-se diluindo quando Jorge Moyano se senta para tocar Chopin e Schumman, e inicia um diálogo entre ele e o piano, na expressão vivida da música que está dentro dele e que nasce depois nas suas mãos magníficas sobre o teclado. Há intensidades que pontuam a caligrafia dos sons, há instantes em que o tempo parece ficar suspenso, há um respirar de música, que brota como coisa natural e leve, para lá da densidade das próprias peças que o pianista executa, numa criação de que os compositores que Moyano interpreta, deviam gostar. Nestes instantes, no mundo das artes e das letras, é que se percebe aquela coisa que o António José Saraiva um dia disse para sublinhar que cada homem é um deus aprisionado no seu corpo. Nestes momentos, é que cada um de nós se liberta em louvor da pura criação, que não há nada de mais belo no mundo do que essa aventura humana.
No tributo de aplausos e de palavras que no final foi prestado a Jorge Moyano, eu não percebi bem, mas ouvi falar em último concerto. Meus amigos, avisem já o Olimpo de que o "milagre" não pode terminar. Em louvor da alegria que tão precisa é, em louvor da cultura. Também nós precisamos de respirar essa música fantástica, que ilumina o tempo.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

GRÉCIA, OUTRA VEZ E SEMPRE

Do "El Pais"
Um amigo inquiriu-me porventura enfadado dos meus recorrentes regressos à indignação sobre a Grécia:
-- Por que escreves tantas vezes sobre a Grécia? Não te parece que isso pode ser cansativo para os leitores.
Eu disse-lhe que não. E se há leitores que se enfadam com uma questão tão central do nosso viver colectivo, como cidadãos europeus (cidadãos é como quem diz...), é porque querem ser distraídos ou, pelo menos, não desejam ser atormentados nestes tempo sombrios por realidades cruéis. No fundo, o meu amigo, como os potenciais alienados da casa comum europeia (bonito eufemismo!), são como aquele milionário que criou um jornal que todos os dias lhe dava apenas notícias cor-de-rosa. Mas a ilusão desse mundo florido e quimicamente puro, não existia fora das quatro paredes da casa do milionário. Como Sidarta ensinou, fora dos muros do palácio, a realidade é outra: é o confronto com o sofrimento da condição humana, na extensão profunda da desumanidade transformada em coisa banal. 
Lembro-me sempre do poema do Fernando Assis Pacheco a dizer que não podia "estar sentado e calmo" enquanto os amigos morriam na guerra colonial. Ontem, num registo breve de televisão, colhido no centro do drama, em Atenas, uma mulher dizia: "Isto é uma guerra!" E é. Uma guerra naquela acepção tão clássica que diz que ela, a guerra, às vezes, não é outra coisa do que a política por outros meios. Por outros meios! Então, perguntemos-nos o que tem andado a fazer a União Europeia, nestes seus gloriosos tempos de política de austeridade, nas suas devastações sociais contínuas, nas suas destruições massivas da realidade social, na sua imposição das regras de um capitalismo, agora sem fronteiras ou limites. Esta guerra é, como alguns dizem, cirúrgica. É mais subtil, os bombardeamentos são de outro tipo, mais refinados, estão cheios de chantagem,os mortos são sepultados no silêncio e a crueldade banida da emergência dos dias pela maioria da informação, ela também refém da mentalidade do pensamento o único, apregoando aos quatro cantos a fatalidade dos malefícios sociais como coisa normal e inevitável.
De facto, nestes dias, a Grécia não me sai da cabeça. Sou grego, regressei à outra casa comum da utopia, a Ítaca. O escritor Julio Llamazares fazia um dia destes no "El Pais" uma declaração de amor à Grécia, perguntando: "De acordo, a Grécia deve aos europeus (a mim não me deve nada, que conste) não sei quantos mil milhões de euros, mas quanto deve a Europa aos gregos? Alguém no Parlamento de Bruxelas, ou no Banco Central Europeu,  ou em qualquer dos governos dos países que integram a Europa, parou para pensar um momento na dívida que os europeus têm com a Grécia, desde tempos imemoriais, e sem ser saldada?" O escritor e jornalista responde: "Deixando de lado a mitologia, origem e fundamento da religião cristã, alguém pode imaginar a filosofia europeia actual sem Platão e Aristóteles, a nossa literatura sem Homero e Píndaro, o nosso teatro sem Aristófanes, Sófocles e Ésquilo, as nossas matemáticas e geometria sem Pitágoras, a nossa história sem Heródoto e Tucídides, o nosso pensamento político sem Péricles, a nossa arte e a nossa arte e a nossa arquitectura sem a existência, há séculos, na Grécia, de gente como Mirón, Fidias, Praxíteles, Apolodoro ou Lisipo?"
Julio Llazamares, como, não tem grandes ilusões. Sabe que para os "burocratas europeus", a existência da Grécia clássica e da cultura são bagatelas e eles, a única coisa que têm dentro da cabeça, como um trauma, são os mercados, os números, cifrões. O resto é silêncio.
Pois ao meu amigo, que me inquiriu sobre a Grécia, eu digo que é contra esse silêncio cúmplice, que é preciso lutar. Independentemente do que vier a acontecer (e atenção ao tempo futuro), é uma posição moral e cívica contra os coveiros da Europa, cuja cova andam a abrir há anos. Vou para Ítaca!

terça-feira, 30 de junho de 2015

O GRITO DE ELECTRA

Electra é uma figura central da dramaturgia grega. A poesia de Sophia (ela, que tanto amava a Grécia), reflecte sobre ela e sobre os tempos contidos no tempo. Electra teve muitos rostos no teatro, mas hoje, face à chantagem miserável sobre a possibilidade do povo grego se manifestar num Referendo, dos amorais cavalheiros que têm assento na União Europeia, olho para ela, para Electra, com os versos da nossa Sophia de Mello Breyner Andresen, que lhe dedicou o seguinte poema:

O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os seus cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam o seu voo
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio

Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes

E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios

Para que a justiçados deuses seja convocada

A SAÚDE E AS POLÍTICAS PÚBLICAS

Os optimistas da austeridade, capatazes ou servidores avulso das políticas da Troika, os saqueadores do Estado, como ainda agora se provou com o labirinto das negociatas da EDP e da REN (e garanto já que a grave denúncia do Tribunal de Contas vai cair em saco roto!), estão-se nas tintas para a emergência do quotidiano, onde as feridas na sociedade portuguesa são expostas e, se calhar, a continuarmos assim, não terão cura.
Eles, decisores políticos que gostam de vestir as vestes democráticas, como mera circuntância do poder, não olham para a realidade. Nem ouvem os cidadãos. Não se detêm no drama, nem praticam a inquietação de humanidade, face ao desastre social, ao deserto que seca a alma do povo. Por exemplo, a forma como o Serviço Nacional de Saúde tem vindo gradualmente a ser posto em causa, o seu progressivo desinvestimento em favor do privado, o pesadelo com que cercaram os profissionais de Saúde nos hospitais públicos, é um desses crimes que avança subtilmente contra aqueles que, com o 25 de Abril, ganharam esse direito elementar do acesso à Saúde. Há muitas formas de esvaziar colectivamente esse direito, sabemo-lo todos os dias pela narrrativa informativa, aquela que ainda dá atenção, a sério, a essas coisas.
Olhemos, então, para o que escreveu um dia destes o meu amigo José Aranda da Silva, no "Público", articulando, aliás, a questão com o contexto europeu,  pois ele considera, e bem, que "as estruturas europeias responsáveis pelos aspectos relacionados com a gestão financeira estão particularmente activas, enquanto as estruturas relacionadas com a saúde e bem-estar dos cidadãos se eclipsam e não asseguram o cumprimento dos tratados nas suas áreas de competência".
"Não é aceitável manter-se a tendência da desarticulação dos serviços públicos de saúde, invocando razões exclusivamente financeiras, ignorando a importância dos sistemas de saúde como garantia de desenvolvimento económico, assegurando populações saudáveis, gerando riqueza económica na sua envolvência e bem estar social das populações", sublinha Aranda da Silva. "Sem contrato social, sem harmonização das políticas públicas, sem uma base de conhecimento nas políticas de saúde, sem classe média, sem jovens, numa Europa só para alguns, não há futuro que possa ser aceite como destino. Nessa Europa os sistemas de saúde actuais e o SNS dificilmente serão viáveis".
Numa análise muito objectiva ao Serviço Nacional de Saúde, Para Uma Conversação Construtiva, essas condicionantes (a articulação das políticas públicas),  eram apontadas como cruciais para o futuro do Serviço Nacional de Saúde. Será que existe consciência cívica da tragédia que representava para a população portuguesa a destruição do SNS? Só pensar nisso, arrepia...

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A HIPOCRISIA DO SENHOR JUNKER

Afinal os actores de pacotilha, de que falámos no post anterior, voltaram a pôr máscaras, fazendo deslizar a tragédia para a comédia, pura e dura. O principal a afivelar a máscara da hipocrisia foi o senhor Junker, que compôs um ar de consternação (faltaram-lhe como efeito especial lágrimas de crocodilo!), com imensa pena (iria dizer:piedade) do povo grego, para criticar severamente o governo de Tsipras, que teve a ousadia de convocar um referendo para que os gregos digam se aceitam ou não as medidas propostas por Bruxelas. Teríamos assim, segundo Junker, um governo mal agradecido e traidor (palavra sua), que se recusa a prosseguir (ou pelo menos questiona politicamente) os excelentes resultados de pobreza e desgraça que a Troika e o Eurogrupo, nestes quase seis anos instalaram na Grécia. O presidente da Comissão esquece-se dessa realidade fundamental. Que problemas resolveram as instituições europeias na Grécia? Estão melhor, ou a Troika fez do país um cadáver adiado? Quantos suicídios, quanto desemprego, quanta pobreza, quantas famílias destruídas, quantas esperanças assassinadas. Era disso que Junker devia falar, mas não fala. Que honradez têm estes sujeitos, que depois dos estrondosos desastres sociais vieram pedir desculpa pelos erros, e depois querem prosseguir os crimes de destruição de todas as conquistas sociais que a Europa construiu? Eles não sabem de História, nem de política internacional. Falam, apenas, de números, como se não fosse esta uma questão política essencial da construção europeia, com um singularíssimo contexto geoestratégico.
Patético, mas no plano local, foi outro figurante secundário: Cavaco Silva. Que nódoa!

TRAGÉDIAS E MÁSCARAS

Às vezes, é preciso saber ler o tempo na sua incomensurável sabedoria. Não há uma tragédia grega, há tragédias gregas, vindas do fundo dos séculos, quando era a própria Democracia e Civilização ocidental que estavam em construção, passos intemporais, mas decisivos, na caminhada do Homem se fazer a si próprio. Não admira que as tragédias gregas, no seu recorte clássico e humanista, se transformassem expressão da Humanidade, património comum que, tantos séculos depois, se tornaram parte inteira do pensamento universal, insubstituível reflexão sobre a condição humana, nas suas grandezas e misérias, nas suas angústias e esperanças, nas derrotas individuais ou colectivas dos comportamentos espúrios e anti-éticos, onde quer que aconteçam.
Nas tragédias gregas há coros que são o clamor colectivo dessas contradições, uma reflexão soberana (soberana?) sobre a justiça e a verdade, sobre viciação de valores e direitos; nas tragédias gregas há máscaras que escondem dissimulaçōes e mentiras, ofensas à natureza humana em tudo aquilo que ela tem de primordial. Há um fio temporal, que parece não ter princípio nem fim, de tragédias gregas, antiquíssimas ou modernas, às vezes vemo-las em vários palcos, os desenhos das suas cenografias são nacionais ou internacionais, e nestas do nosso tempo, marcadas por ausência de valores e elogio do capitalismo, os actores já não precisam de se esconder atrás das máscaras, toda a gente, o público, percebeu o papel que representam, nas suas falas internacionais, na sua declinação de números e mais números, na expressão da chantagem como prática política, na afirmação de poderes desmedidos, maiores do que aqueles que os deuses tinham na mitologia e que, quase sempre, desciam ao chão da arte dramática grega.
Nesta tragédia, que não é só grega e aponta ao coração da humana condição universal, as máscaras estão caídas no chão, a Democracia foi atraiçoada, um coro que parece simbolizar a morte da Europa repete o catecismo dos mercados, acenando com o altar do cifrão, acima de todas as coisas. Na tragédia, que actores de segunda vão representando, o cifrão é o seu deus, poderoso e sanguinário.
Nesta circunstância, todos somos gregos -- a tal dimensão universal -- os descendentes de Ulisses desmontaram os cenários e no palco ficaram apenas os actores de pacotilha. 
Assistindo a tudo isto, prefiro pensar em Ítacas e no seu herói. Todos lá moramos, de certa maneira.

domingo, 28 de junho de 2015

QUIXOTE: SONHO E HUMANIDADE


Um dia destes, o "El Pais" deu notícia de um acontecimento que, pela sua própria natureza - isto é: se atendermos ao autor e à obra - é de projecção universal. É a publicação, diz o jornal, de "El maior "Quijote" de lá história", uma edição em dois volumes (1.345 páginas, com anotações, instruções, além dos estudos, anexos, mapas e gravuras, que somam mais 1.967 páginas), iniciativa da responsabilidade da Real Academia Espanhola. É "o universo do mais ilustre cavaleiro andante do mundo".
Curiosamente, Vicente Verdú, ontem, no mesmo diário espanhol, publicava um texto interessante, mas cáustico, intitulado "San Quijote" em que se insurgia veementemente contra a liturgia de altar em que é colocado o autor de "El Quijote", um caso transcendental e supremo, "talvez nem Deus, em várias das suas versões, conseguisse maior adesão".
O que é facto é que "El Ingenioso Hidalgo Dom Quijote de lá Mancha", de Miguel de Cervantes Saavedra, se transformou num património universal e numa espécie de acto fundador do romance moderno. 
Interessante, na edição monumental agora publicada, é a nota que, sobre o livro, o censor inquisitorial deixou em 1604: "Pouco mais ou menos, diz que lhe perdoam a vida e se pode imprimir", sublinha o investigador que faz a anotação, transcrevendo a seguir a decisão censória: "Porque será do gosto e entendimento do povo, ao qual em regra de bom governo se deve dar atenção. Além de que não fala na coisa contra a polícia e os bons costumes". Estranhamente, a censura da Inquisição portuguesa não foi tão benevolente. E vale a pena recordar, aliás, que, muitos séculos depois, os ditadores militares da Argentina e especialmente Pinochet, haveriam de proibir O Quixote, incluindo-o entre os livros perigosos (ver Alberto Manguel). Razão da perigosidade: O Quixote fazia sonhar...
Penso que na estupidez dos censores e da acção castradora do pensamento, não poderia encontrar-se melhor elogio para esta obra da literatura universal. Convocar-nos ao sonho, com toda a dimensão de humanidade como fazem Quixote e Sancho, é talvez o melhor antídoto para encontrarmos sinais de esperança no horizonte baço e agiota que cerca estes dias europeus..