sexta-feira, 10 de julho de 2015

OMAR SHARIF

Há qualquer coisa de estranho na morte daqueles que alimentaram a f'ábrica de sonhos, que é o cinema. Porque os filmes, quando transcendem o lugar comum e se tornam arte, ficam parte de nós e os actores e actrizes que os fazem, que às vezes ganham a condição de mitos (há uma mitologia do cinema, como lembrou Edgar Morin),  tornam-se uma espécie de companheiros de viagem, integram os nossos universos interiores, fazem corpo com os nossos sonhos. Um que hoje morreu, aos 83 anos, Omar Sharif, pertencia a essa estirpe que anima os mitos do cinema, e a simples notícia de que partiu deixa em nós um sentimento de perda, por tudo aquilo que fez na Sétima Arte.
Esse egípcio (parece que foi o primeiro árabe a ser "estrela" de cinema, à escala mundial), com o seu rosto moreno, os olhos que irradiavam luz, o seu bigode, construiu personagens inesquecíveis. A sua filmografia é vasta, mas para mim o Omar Sharif que eu tenho na memória é o Omar Sharif do "Doutor Jivago" e do "Lawrence da Arábia", ambos realizados pelo David Lean, nos anos 60. Um e outro filme pertencem ao mundo daquelas fitas que fazem bater mais depressa o coração de quem olha as histórias que o cinema faz desfilar no écran. Na penumbra da sala é que o mistério era completo. E, às vezes, as cenas eram tão comoventes ou de radicalidade absoluta que os espectadores aplaudiam determinadas cenas, e era como se lá estivéssemos também. Quando falo do romance de Pasternak, adaptado ao cinema, com condimentos (desde logo a música -- o célebre tema de Lara -- e os artistas, Julie Christie e Geraldine Chaplin) que tinham tudo para fazer dele um êxito mundial, como veio a acontecer. Em "Lawrence da Arábia", filme emblemático da condição histórica árabe, Omar Sharif (o príncipe árabe) contracenou com Peter O'Toole, o oficial britânico, que precisamente queria transformar a realidade, unindo os árabes e transformando-se num deles. É outro filme admirável, em que a densidade da mensagem é premonitória daquela ideia que mata as revoluções: mudar alguma coisa para tudo ficar na mesma. Neste caso, é verdade que se retratam mudanças apreciáveis no quadro geopolítico, mas está lá, também, a forma perita como o colonialismo ou o neo-colonialismo recupera no terreno os velhos artifícios (sobretudo a divisão) para reinar...
Vamos poder continuar as imagens de Omar Sharif nessas duas narrativas épicas do cinema. E em muitas outras. No seu caso, uma empresa que continuará a empolgar-nos, como nos distantes anos 60 em que estes filmes davam origem a acesas discussões ideológicas.


quinta-feira, 9 de julho de 2015

TIRO AOS BONECOS

Havia, nas feiras, umas barracas cujo negócio era atirar sobre uns bonecos, que se alinhavam, direitos, prontos para a execução sumária. Davam-se uns tirinhas ou atiravam-se umas bolas, na esperança de liquidar os alvos malfeitores. Tinham muita afluência essas barraquinhas de feira, sobretudo quando os bonecos pareciam caricaturas difusas de políticos da nossa praça. Eram tempos de ditadura, era preciso, às vezes, adivinhar a identidade da bonecada. Mas os mais perspicazes, olhavam de perfil as figuras, mediam-nas de alto e baixo, e não poucas vezes alguém dizia:
-- Olha ali, aquele tipo parece o Botas!
Havia, então, uma afluência grande de clientes, crescia o entusiasmo por desferir uma fogachada ou bolada nas trombas do boneco identificado com o ditador.
Deixaram de se ver essas barracas, ou pelo menos deixaram de ter o velho encanto, e já não se ouvem as pregoeiras, às vezes mulheres estupendas, a chamarem:
--Vai um tirinho, ó freguês!
Hoje, seria um negócio de seguros dividendos. Há muitos bonecos na política nacional que mereciam tirinhos ou boladas monumentais no trombil!
Vejam só, o Cavaco dos 18, o Coelho aldrabão, o Portas da irrevogabilidade. Quem não desejaria dar-lhes um tipinho ou um tirão? E a estes bonecos, de índole nacional, outros, lá de fora, se poderiam juntar também: os tipos que têm sido os patrões dos de cá de dentro, que fornecem a estratégia para nos lixarem a vidinha. Não faltaria bonecada! A Merkel, o Schauble, o tipo de óculos cujo nome é impronunciável, que preside ao Eurogrupo, o Martin Schultz e muitos outros comparsas da tragicomédia grega.
Não faltariam tirinhos e boladas, que aquelas trombinhas despertam cá uma raivinha dos diabos...

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O PÉSSIMO ESTADO DA NAÇÃO

Oiço o primeiro-ministro, Passos Coelho, falar no debate do estado da Nação. Oiço-o a ele e aos parceiros da coligação, e não posso deixar de pensar na distância que separa as palavras da realidade. Dizia-se por aí, na galhofa, que o Cavaco tinha contactos intermitentes com a realidade, mas este governo e seus apoiastes devem ter um contacto permanente com a fantasia!
Ouvindo estes protagonistas, com o seu manto diáfano da propaganda, e olhando um país que tem empobrecido, com desemprego brutal, com a sopa dos pobres a dilatar- se, com as desigualdades a aprofundarem-se dramaticamente. O estado da Nação é de doença grave, o país está doente doente de si próprio.
Apetece por isso perguntar ao senhor primeiro-ministro:
-- Onde é que raio fica esse país no mapa de Portugal? Onde?

terça-feira, 7 de julho de 2015

MARIA BARROSO E O PODER DA PALAVRA

Andei, estes dias, a fugir de escrever sobre Maria Barroso, quando a morte era já a única fronteira possível, porque ecoava em mim o poder da palavra e da arte poética, com que ela fez corpo, e essas palavras são as linhas do seu rosto que poderiam cruzar-se, também, com o poema Pátria, de Sophia, autora que ela amava e gostava de dizer. Poucos, em Portugal, deram tanta força à poesia, à rebeldia pura da palavra, apenas dizendo-a em voz alta, um falar do povo, hirto e vertical, como Maria Barroso. Poucos, em Portugal, tiveram uma linha de tanta coerência a defender a Liberdade, numa biografia cívica de tanta exemplaridade que hoje, quando sabemos que ela partiu, nos parece comovente, pelo despojamento e pelas batalhas solidárias pelos outros. A ditadura salazarenta, desde jovem, nunca lhe perdoou a ousadia do gesto e da palavra contra o tirano, tentando proibir-lhe a vida (o teatro e o cinema, o ensino, na ideia de sepultar a sua imagem no esquecimento), mas Maria Barroso resistiu a tudo isso. Hoje, olho para o seu rosto, e penso que aquele poema de Eugénio de Andrade podia a ser, de certo modo, a legenda da sua vida, porque os versos querem significar o poder da resistência contra tudo aquilo que é opressivo e totalitário. É um breve poema, que se chama "frente a frente":

"Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
-- e é tão pouco"

Parece que a estou a ver, na crise estudantil de 67, em Coimbra. Era à noite, na Associação Académica, que estava à pinha, todos à espera de Maria Barroso que vinha dizer poemas. Como naqueles filmes que nos deixam na memória cenas inesquecíveis, estou a ver uma mulher frágil, subir para cima de uma mesa, e começar a dizer poemas do Novo Cancioneiro. Estou a ver o seu rosto jovem e as palavras que ecoavam fortes no denso silêncio da multidão. A cada poema -- e foram tantos:Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira, Cochofel, eu sei lá! -- a sala estremecia, vibrava até à alma e os versos transformavam-se naquele tempo de sombras um suplemento de esperança que nos ajudava a respirar melhor. E não esqueço que disse aquele poema do Torga (que já não sei se estava na sala), em que os versos, a um tempo, se tornaram num brutal retrato do ditador e numa imagem desoladora de um país, Dies Irae:

"Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grandes cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!"

Há dois ou três anos, já não sei bem, num reduzido círculo de amigos, falei-lhe nesse episódio. Maria Barroso sorriu e a conversa girou para a força da poesia no combate da liberdade. Lembro-me bem de me ter dito que guardava no coração, como acção cívica muito importante, a geografia de sessões de poesia que então fez em associações ou nas cantinas universitárias. "Era quase sempre o Urbano que me levava", disse-me então no fio da conversa. Eu lembrei-lhe o que Óscar Lopes tinha dito: "as palavras servem-nos de mãos, mãos de mil dedos invisíveis". Ela voltou a sorrir e penso que acrescentou ao conceito do Óscar Lopes, os olhos. Servem-nos de olhos para olharmos à nossa volta e vermos melhor o que nos cerca. Para não podermos ignorar.
A dr.ª Maria Barroso tem uma biografia bem singular, no plano institucional, companheira de sempre de Mário Soares, no âmbito cívico e cultural. Preferi recordá-la como demiurga de Liberdade. E neste momento, em que as palavras parecem sempre tão escassas, dar uma abraço solidário ao dr. Mário Soares, e deixar aqui a expressão da poesia na voz de Maria Barroso. Podemos sempre ouvi-la (aqui a dizer Carlos de Oliveira), mas vamos ter saudades dela.











segunda-feira, 6 de julho de 2015

DEMISSÕES...


Exultam por aí alguns patetas com a demissão do ministro grego Yanis Varoufakis. Julgam tratar-se de um prémio de consolação, quando, na verdade, não é outra coisa senão um gesto político para facilitar as negociações ou o garrote que esta desclassificada União Europeia quer impor á Grécia. Não perceberam que, fora dos tecnocratas dos números, tão ufanos da sua mediocridade, há dignidade e política para construir uma Europa que seja alguma coisa mais do que mera capataz do capitalismo neoliberal. É verdade que os cinzentos senhores de Bruxelas não suportavam Varoufakis e o seu estilo mochiloso e diferente e não escondiam mesmo alguma inveja do seu ar jovem, da sua biografia académica, da sua frontalidade.
O que confrange é ouvir apreciações de "sábios" como Paulo Rangel ou dos que envergonham (ou deviam envergonhar) os socialistas, como Martin Schultz ou o presidente do Eurogrupo, como se esta questão fosse uma coisa pessoal e não um problema político transcendental.
Daí que se esta palavra Demissão tivesse algum significado nos labirintos da União Europeia, deveriam cair como um baralho de cartas tipos como Scauble, o presidente do Eurogrupo (como raio é que ele se chama?), Martin Merkel Schultz e por aí fora... Mas pedir uma limpeza moral é coisa do outro mundo, numa Europa que perdeu a vergonha há muito tempo.
Até amanhã, Varoufakis!

O FOGO GREGO


Diz o povo que brincar com o fogo é perigoso. A história está cheia de exemplos de fogueiras, arremetidas contra a cultura transformada em cinzas, lumes vivos ou brandos onde se queimavam pessoas e cozinhavam, pelo medo, submissões eternas. O homem, desarmado face  ao desconhecimento e aos atavismos, tolhido pelos medos fabricados, temia a mudança, julgando eternas as condições de opressão. Mas na raiz da cultura grega clássica encontramos o sinal libertador, transferindo dos deuses para os homens os desejos de liberdade e de esperança. Talvez nada defina tão bem essa metáfora intemporal de libertação do que a tragédia que Ésquilo foi buscar ao fabuloso mundo da mitologia grega, ao escrever "Prometeu Agrilhoado". Prometeu cometera a proeza de roubar o fogo a Zeus para o dar aos mortais, e, nessa ideia projectiva sobre o tempo, conferir uma dimensão nova de esperança à humanidade. Desconfio que os burocratas europeus e os papagaios que amplificam as suas vozes no universo dos media, afundados no seu analfabetismo cultural e histórico, não só não conhecem estas virtualidades da cultura e da matriz civilizacional grega, como odeiam a simples ideia de uma Europa em que o homem seja, de facto, já não digo a medida de todas as coisas, mas a medida do essencial que a humanidade construiu no seu longo caminho. Eles não sabem, nem sonham, como dizia o nosso António Gedeão.
Ontem, esses burocratas e os líderes que têm assento na reuniões da Comissão e em outras instâncias, que se sentam à mesa das negociações como se fossem os deuses do Olimpo, sofreram uma humilhante derrota. É bem verdade que quem humilha sai humilhado. Foi o que lhes aconteceu, e, como feras acossadas, vomitam agora a sua raiva. Os gregos, dizendo não à imposição da brutal austeridade, mostraram o desejo de uma outra Europa. Como prometeu, roubaram o fogo aos senhores de Bruxelas para iluminarem um pouco o futuro europeu, tão densamente envolto em trevas. Esperemos todos que esses imbecis (Varoufakis chamou-lhes terroristas verbais) não se julguem Zeus e queiram, agora, agrilhoar ainda mais, como vingança, o povo grego, que ousou dizer-lhes não. Esperemos que a estupidez e a bestialidade não liquidem definitivamente a Europa que um dia prometeram e que esta não se transforme numa utopia, ou pior, num sonho mau que acabou.

domingo, 5 de julho de 2015

A VACINA

A cólera de Picasso, em Guernica
Uma das coisas mais notórias da história da Europa, na diversidade da sua construção temporal, é que a intolerância, o poder desmedido e autocrático, as guerras sanguinárias promovidas pelos que se julgavam deuses todo poderosos, deram quase sempre mau resultado. Perto de nós, no século passado, as responsabilidades históricas da loucura do Reich que teria vindo para durar mil anos, deu no que se viu: dezenas de milhões de mortos e um cortejo de crimes contra a humanidade, tudo com tal expressão de negação do homem que alguém disse que, depois de Auschwitz, a poesia era impossível (Theodor Adorno). É bom lembrar que, geralmente, os artífices da intolerância e do medo, que julgam poder submeter as populações pela fome e a infra-humanidade, são coveiros deles próprios e das ideias que defendem.
Hoje, na Grécia, o que está em causa (não gosto da palavra jogo nestas matérias, palavra aliás abastardada pelos cavalheiros do Eurogrupo), é muito mais do que o Sim ou o Não sobre a austeridade; o cerne da questão é que esta União Europeia, com a sua arma dos medíocres do Eurogrupo, não querem permitir outra coisa senão o seu pensamento único, a sua cartilha económica do capitalismo mais violento, a destruição do Estado Social, as suas arquitecturas de devastação promovidas pela Troika. A política imposta à Grécia surge, assim, como espécie de vacina para a veleidade de outros países (como a Espanha, por exemplo) onde surgiu com força uma força política ("Podemos") de combate precisamente ao catecismo da Troika e dos seus chefes. Se tivermos em conta os fretes que, por exemplo, a Comissão e o Eurogrupo têm feito ao governo, glorificando a sua linha de extrema austeridade, podemos perceber que esta Europa até da eventual vitória do PS, sempre tão débil e ambíguo nas suas posições sobre a Europa, sempre tão contra o Syrisa, tem medo de ténue hipótese de mudança.
Isto tudo, meus caros, é uma vergonha e obriga-nos a dizer que não foi esta a Europa que escolhemos.  No "Babelia", que se publica aos sábados, no "El Pais", vem uma curiosa nota de Manuel Rodriguez Rivero, sintomaticamente intitulada "Cólera": "A  Ilíada, que é quase como dizer a literatura, inicia-se com uma palavra que hoje, por distintas razões, vem outra vez ao caso: cólera. (o verso: "a cólera canta, oh deusa"). Cólera (e cansaço) é o que hoje sente o povo grego nesta história interminável (por agora), cujas pretendidas complexidades se vão obviando à medida que aumenta a crise para dar lugar ao relato muito mais simples e interessado de bons e vilões que nos vendem os comerciantes do medo e da catástrofe que pretendem marcar o destino da Europa. Ninguém -- tão pouco os pensionistas alemães induzidos a pensar que aqui, no Sul,  somos pícaras cigarras tombadas perpetuamente no ócio --  parece recordar que a Alemnaha é um dos países da Europa, a que lhe hão perdoado mais dívida (apesar de ter provocado a maior matança da história). (...) Ninguém recorda tão pouco  que foi a Troika que obrigou a Grécia a pedir créditos, apesar de saber que jamais  poderia pagá-los: os grandes beneficiários dessa aberrração foram os seus tradicionais bancos prestatários que, em muitos casos, acabaram sendo resgatados".
Rodriguez Rivero lembra depois o comportamento do "FMI e sua feroz elegante, "decepcionada" (e imputada) directora" e que essa política da Europa "é a que agrada aos grandes banqueiros e se reduz a que só haja uma forma de construir a Europa". E sublinha: "De forma que há que exemplarizar e evitar que em outros sítios possam chegar ao poder "populistas" dispostos a pôr em questão os princípios daqueles que mandam".
Regressemos pois à primeira palavra de Homero na  Íliada: cólera.