sábado, 18 de julho de 2015

FUKUYAMA

Anoto um comentário do embaixador Francisco Seixas da Costa, no seu Blogue, "Duas ou Três Coisas", que é sempre espaço de leitura quotidiana, de proveito e exemplo. Trata-se de um breve comentário sobre Fukuyama, que aqui deixo aos meus Leitores:
"Com grande segurança, o economista Francis Fukuyama defende hoje no "Expresso" que "a Europa consegue sobreviver a uma saída grega". Fukuyama é conhecido pela célebre teoria do "fim da História" que, nos anos 90, prenunciava um mundo tendencialmente democrático e sem tensões extremas. Eu também gostava de acreditar em gambozinos".

OS SAQUEADORES

Ouvimos criaturas piedosas e benevolentes, como os tipos do governo e os comentadores, que são os seus papagaios ou os seus ventríloquos amestrados, inquietarem-se, a propósito da Grécia, com a ameaça dos pobres contribuintes europeus poderem vir a pagar mais um imposto. Dizem isto com uma desfaçatez que até arrepia, pois de impostos, como canga pesadíssima nas vidas, sabem e muito bem, os portugueses. Mas para estes não há contemplações, nem piedade. É para comer -- e calar! Talvez não fosse de mau tom preocuparem-se com os contribuintes portugueses, cada vez mais avergoados ao peso de contribuições iníquas, que às vezes são autênticos assaltos à mão armada aos bolsos dos que trabalham e dos que sofrem na pele, mais profundamente, o peso da austeridade acéfala.
Ainda agora, o relatório do Tribunal de Contas sobre a Assistência na Doença aos Servidores Civis do Estado (ADSE) mostra que o brutal aumento dos descontos para este subsistema de saúde "não visava apenas a sua auto-sustentabilidade. Só em 2014 a ADSE teve um lucro de 138,9 milhões de euros, apesar de o Estado não estar, por exemplo, a assumir despesas dos quotizados no âmbito do SNS (estimadas em cerca de 40 milhões de euros). A taxa de desconto era de 1,5%. Em 2013, subiu para 2,5% e, em 2014, para 3,5%". De acordo com o TdC, em 2015, para que os custos com os cuidados de saúde prestados fossem integralmente financiados pelos beneficiários. Estes estão a descontar mais do que deviam e este excedente está a ser usado em proveito do Estado servindo apenas objectivos de consolidação orçamental do Estado. É que a entidade que gere a ADSE tem uma propriedade muito limitada sobre os excedentes gerados (…) visto não os poder utilizar livremente, seja no financiamento da despesa de saúde ou na obtenção de uma remuneração pela subscrição de aplicações financeiras ou, eventualmente, pela aplicação noutros investimentos, refere-se no relatório, É o Estado quem tem beneficiado da utilização desses excedentes, provenientes dos quotizados da ADSE".
Quer dizer, para os "milagres" da consolidação orçamental, o governo foi sacar aos beneficiários da ADSE muitos milhões. Em 2015 bastaria um desconto de 2,1%, em vez dos actuais 3,5%, como assinala o Tribunal de Contas. Se isto não é um roubo -- apesar das desculpas esfarrapadas de Passos Coelho, então as palavras deixam de ter significado objectivo.
Outro caso de saque (e estes saqueadores não são de tesouros perdidos, mas de bens muito reais) é o que se passa com as Portagens. As da A 23, dizem que as mais caras da Europa, são um verdadeiro escândalo. Diz o "Jornal do Fundão" que só nestes seis meses de 2015, os beneficiários já arrecadaram 20 milhões! Os isolados e descartados do Interior, pagam -- e não bufam!
Daí que as lágrimas choradas recentemente sobre os contribuintes europeus, foram sempre lágrimas de crocodilo. Crocodilos com uma boca muito larga e uma dentuça enorme...

sexta-feira, 17 de julho de 2015

GRÉCIA

De uma crónica de Jorge Reverte no "El Pais": "os frisos do Partenón continuarão no Museu Britânico. Mas a dívida, na City. E pela tarde, com um gin-tónico, seguiremos citando Shelley para dizer: "Todos somos gregos".

A HIPOCRISIA DO UNANIMISMO

O unanimismo é um cruel retrato do provincianismo português. E o unanimismo, sendo sempre uma grosseira mistificação da realidade, quando surge na contingência de "post mortem", torna-se numa mentira insuportável, reveladora de todo o tipo de hipocrisias e oportunismos. No fundo, aquilo que um dia Augusto da Costa Dias disse certeiramente sobre esse propósito ideológico de apropriação dos mortos: "Os mortos falam, mandam -- faz-se crer (o País será católico, mas impera o espiritismo: e a fala, os mandamentos dos mortos sempre tem uma sugestão sagrada que falta, por força, aos supostos vivos que os invocam".
O retrato é bastante nítido de um certo primarismo mental quando os mortos se tornam úteis para fins políticos, quaisquer que eles sejam. Então, o tal provincianismo torna-se um apelo irresistível, e logo vemos os melhores cavalheiros da sociedade (como diria o António Silva) a engrossarem o cortejo fúnebre para o Panteão, que nestes dias se vai tornando em acolhedor lugar das conveniências (políticas e outras), o que não é outra coisa senão a doença da pura banalidade do lugar-comum da memória. Sem menosprezo pela figura (e eu gosto de futebol) o que se passou recentemente com Eusébio foi um exemplo desse unanimismo pacóvio, a começar por tudo aquilo que foi unânime na Assembleia da República, e não devia ser, desde logo pela controversa legalidade da decisão. Mas, como dizia o outro, dos mortos -- ou bem, ou nada! Mas há que registar a encenação quase épica do acontecimento.
É por isso que o artigo que o meu querido amigo António Valdemar, ontem publicou no "Público", é uma espécie de pedrada no charco no unanimismo, traçando de resto com superior ironia, o tema de "Os vizinhos da sala n.º 3 de Santa Engrácia" e servindo-se de uma intervenção de Aquilino na Academia das Ciências, em que o Mestre parece premonitório sobre o carácter dominante do futebol na sociedade portuguesa. Com a devida vénia ao António Valdemar, cuja narrativa jornalística é sempre modelar na forma de contar, aqui deixo "Os vizinhos da sala n.º 3 de Santa Engrácia"para prazer dos meus Leitores:

" A unanimidade dos grupos parlamentares de todas as forças políticas representadas na Assembleia da Republica decidiu, em várias legislaturas, atribuir honras de Panteão Nacional a personalidades com trajetos muito diferentes. Assim ficaram, na sala número 3, do monumento de Santa Engrácia — Humberto Delgado, Aquilino Ribeiro, Sophia de Mello Breyner e Eusébio da Silva Ferreira. 
A homenagem a Eusébio não seria consensual se os vizinhos tivessem sido consultados. O repouso eterno no panteão segundo a lei 28/2000 destina-se a "perpetuar a memória dos cidadãos que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade". Os "Violinos do Sporting" ficaram entre os grandes contemporâneos de Delgado; os corpos vigorosos e elegantes da antiguidade empolgaram Sophia ao contemplar representações mitológicas e alegóricas, no esplendor cromático do mármore pentélico. Mas Aquilino, num dos momentos altos da sua vida, da sua presença pública, no discurso de posse de sócio efetivo da Academia das Ciências, manifestou outra recetividade, abertura lusófona e diálogo multicultural. 
A cerimónia mobilizou personalidades de todas as áreas políticas e sociais. Salazar constituía uma das exceções. Para surpresa de muitos, Aquilino fez diversas referências ao futebol e, com todas as sílabas, a um dos mais mediáticos futebolistas da época. É evidente que se ocupou da missão do escritor, da dificuldade da profissionalização em Portugal, do magistério da crítica, da luta contra a censura, da crise do livro e da situação crepuscular da literatura, perante a invasão da "rádio, do cinema, da televisão, do futebol e do automóvel". 
Exaltou, como era de esperar, a língua portuguesa, "máscara fisionómica da nossa compreensão e o metal líquido em que vazamos os nossos pesares e emoções», «o maior título de nobreza que um povo pode apresentar à barra da História". Defendeu o Acordo Ortográfico com o Brasil. E, numa altura em que já se debatiam independências coloniais e se multiplicavam conflitos para a restituição da India aos indianos, Aquilino não hesitou em salientar que o património da língua portuguesa "não se compara em importância à melhor província ultramarina". 
Isolado no extremo ocidental da Europa, com uma ditadura politica, uma polícia política, 24 horas de censura em todos os órgãos de comunicação e outros mecanicismos de repressão sistemática, Portugal, na dissecação contundente e errática de Aquilino, continuava a ser uma "terra das meias solas e do não deite fora, que é mal-empregado". A assistência estupefacta teve de engolir -- e, no final, aplaudir -- que o País "ouvia apenas o chuto nos campeões de futebol e a algazarra beduína das multidões". 
Julio Dantas, que presidiu à sessão, não alterou o ritual litúrgico até porque ia recebendo todas as vénias institucionais e pessoais. É melhor citar alguns primores de cortesia de Aquilino que teriam enfurecido Almada Negreiros: “Recordo-me que, à altura em que eu andava a rondar pelo adro de Palas Ateneia, onde ninguém me levou, onde me encontrei não sei como, era uma obra do senhor Dr. Júlio Dantas, Um Serão nas Laranjeiras que agitava a opinião publica da nossa terra, que não somente o arraial literário". (…) "Eu batia-me, não o digo por cortesania, pelo senhor Dr. Júlio Dantas, que nunca me tinha visto mais gordo". 
O deslumbramento de Júlio Dantas deve ter sido incomensurável mas a perplexidade foi óbvia quando, ao conciliar o anedotário dos primeiros jatos interplanetários com as bisbilhotices do futebol, Aquilino -- e sem qualquer humorismo voluntário-- acrescentou perentório: «aquela comédia do senhor Dr. Júlio Dantas era ventilada com tanto calor como hoje a elasticidade da perna do amigo Barrigana ou a cadela que foi no Sputnik». 
Todavia, não se ficou pelo "amigo Barrigana", um guarda-redes memorável. Incluiu na Mina de Diamantes, entre os mitos quotidianos de Lisboa, "capital do Império, cidade maravilhosa de Ulisses e da Amália", os nomes de Matateu, oriundo de Moçambique, outra vedeta do futebol dos anos 50, e o de Otto Glória treinador brasileiro, pago a peso de ouro, técnico da Seleção Portuguesa. 
Já naquele tempo o País estava submetido aos «milagres» de Fátima e engalfinhado nos meandros do futebol para alienar as consciências, não discutir a política e esconder as cumplicidades dos negócios. Aquilino reconhecia que a literatura deixara de ser "matéria-prima dos lausperenes nacionais com discursos dos próceres e regalório do gentio". Em face destas contingências não seria despiciendo "ir buscar demiurgos ao futebol e ao hóquei patins". Não lhe "repugnava ver os torsos nus ou moldados em camisolas de malha", promover a consagração dos atletas, «à imitação dos gregos que celebraram os seus discóbolos e lutadores". 
Dixit Aquilino, com expressões vernáculas de Vieira e Bernardes e palavras usuais do Malhadinhas, na moldura circunspeta do salão nobre da Academia das Ciências. Entretanto, sempre que lhe apeteceu, lembrou episódios da "casa de hóspedes da Rua do Crucifixo" onde acamaradara com amigos da Carbonária, "gente de aventura e bulha, que não era nada cómoda e naturalmente inclinada à violência". Tudo isto, e outras coisas mais, 58 anos antes da tumulização de Eusébio, no Panteão Nacional de Santa Engrácia".

terça-feira, 14 de julho de 2015

A HORA QUE TARDA

Leio algures que a Dias Loureiro não lhe vão conseguir arrestar o que quer que seja, pois nada tem já em seu nome ou, se tem alguma coisa, esse património está seguro, em Off Shores distantes. O mesmo acontecerá com Oliveira e Costa. São dois implicados no escandaloso processo do BPN, onde gravita o universo cavaquista, o mesmo Oliveira e Costa que foi o facilitador do negócio das acções à família Cavaco, e o mesmo Dias Loureiro a quem o lastimável primeiro-ministro, Passos Coelho, fez recentemente, sabendo a biografia criminal do suspeito, o elogio público como exemplar empresário.
Se tudo isto não é um reflexo da miséria moral que corrói a sociedade portuguesa, vou ali e já venho. Sabe-se lá, até, se nesta escandaleira do BPN, não haverá uma prescrição conveniente? O que é certo é que estas promiscuidades, estas ligações perigosas, estas facilidades da Justiça, se arrastam na sociedade portuguesa com uma banalidade e uma persistência que fornecem, no espelho que é Portugal, a imagem de um país muito doente de si próprio, que mata lentamente os portugueses. Pessoa comparava num poema célebre, esse estado vegetativo de Portugal, essa anemia cívica de raiz intemporal, a um nevoeiro. Ler o poema é uma boa reflexão sobre o país que temos:
"Nem rei nem lei, nem paz nem guerra
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer -
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quere
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro
Tudo é disperso nada é inteiro
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!"


segunda-feira, 13 de julho de 2015

NÃO ACORDEM O CANÁRIO...

A trági-comédia da Europa, no seu ajuste de contas com a Grécia, amplificou o drama, embora a carga dramática da narrativa já não faça sorrir, mas chorar, porque tudo se tornou, de repente, de uma transparência absoluta. Chamar acordo às imposições do Eurogrupo ao povo grego, é o mesmo que dizer que um assassinato a sangue-frio é apenas um acidente de percurso. Naquele Eurogrupo só há boas pessoas, porventura com a mesma benignidade de sentimentos com que Al Capone mandava disparar os seus ganguesters. Eles, os gregos, só morrem um pouco mais, com medidas de austeridade (qualquer dia o conceito despertará tanta raiva que o baptizarão com outro nome: estes tipos são peritos em eufemismos!), e morrem um pouco mais de pobreza, de indignidades, das sopas da caridade, se ainda houver caridade ou ela não for também proibida pelo Schaüble e seus sequazes. Nunca são eles que carregam no gatilho. Isto faz-me sempre lembrar aquele caso do Goebels que, depois de assistir a brutais cenas de tortura, tirava os sapatos para entrar em casa e não acordar o canário...
Há, nesta morte da Grécia, uma outra morte -- e essa bem mais grave do ponto de vista colectivo e civilizacional: a morte da própria Europa, um projecto -- é bom que se lembre -- nascido das cinzas de duas guerras mundiais, nascidas no velho Continente, pelos delírios imperiais da Alemanha, que originaram os crimes humanitários, as destruições, os holocaustos, as valas comuns que se sabem e ainda hoje são a nota mais dramática da loucura da natureza humana. A construção europeia foi, assim, um projecto de paz no século XX que, se exceptuarmos o caso da Juguslávia, concretizou um pacifismo duradouro.
Mas, agora, com o comportamento demencial na Alemanha, com os seus desígnios de mando, que tem acólitos obedientes, tudo se está a transformar numa espécie de ditadura económica e financeira, em que alguns países (sempre a Alemanha e os aliados nórdicos e já agora Portugal (vejam-se as patéticas palavras de Passos Coelho colocando-se na primeira fila como herói do Acordo!)  permitem chantagear a rebeldia de um outro com o fantasma da expulsão e da execração europeia.
Depois de cinco ou seis anos de Troikas draconianas, que devastaram o tecido social e económico da Grécia (não pediu desculpa o sr. Junker aos países troikados pelos excessos austeritários), que decidiu o Eurogrupo, e, por seu intermédio,a Comissão: mais do mesmo, muito mais. Os objectivos são facilmente descortináveis: impõe-se integralmente o catecismo neo-liberal e torna-se, a prazo curto, a insustentabilidade do Syriza no poder. Um golpe de Estado subtil, com as armas da economia e da alta finança.
Hoje, no "Público", numa reportagem de Maria João Guimarães, recolho curiosas palavras de um britânico a residir na Grécia que é uma boa caricatura da pulhice política que estão a fazer aos gregos.  "Mesmo que Atenas vendesse Creta, Rodes e a Acrópole, a Alemanha ainda diria que não é suficiente!". 
Querem melhor retrato?

SONHO NUMA NOITE DE VERÃO

"Loa, Xácara, Bugiganga", de Calderon de La Barca
"Farsas Per Música", de Goldoni
Um espectáculo diferente aconteceu esta noite, em Castelo Branco. No auditório do "Monte do Índio", emoldurado por um agradável espaço verde, o Teatro das Beiras realizou uma das suas produções mais singulares, seguramente o espectáculo dos quarenta anos da Companhia profissional de teatro, sedeado na Covilhã, que tem sabido resistir a todos os cercos que neste país se fazem à persistência da acção cultural. À noite quente de domingo, somou-se o calor dos aplausos do público que quase enchia o vasto auditório, premiando a qualidade dos artistas e músicos que construíram aquele espectáculo diferente detidos os outros que foram "Farsas Per Música", de Carlo Goldoni, na encenação magnífica de Gil Salgueiro Nave, e na tradução de grande recorte literário de Luís Nogueira, amigo que este ano nos deixou, que amava o teatro com paixão, de que temos muita saudade.
Então, a singularidade desta "Farsas Per Música" foi a participação de uma especial orquestra sinfónica da EPABI, com jovens músicos daquela escola, dirigida pelo maestro Rogério Peixinho (o registo sinfónico para acompanhar o divertido teatro de Goldoni é de Hélder Gonçalves). E aquilo a que se assistiu foi a uma articulação perfeita entre a expressão musical e a expressão dramática. 
O colectivo de actores mostrou toda a sua mestria na composição dos personagens, assumindo as virtualidades da ironia que a narrativa implicava, através do gesto e do canto. Palmas para Sónia Botelho, Marco Ferreira, Adriana Pais, Pedro Damião e Silvano Magalhães. "Farsas Per Música" despediu-se neste espectáculo do público, depois de uma assinalável itinerância pelo país.
O Teatro das Beiras tem outro espectáculo em cena, "Loa Xácara Bugiganga", de Calderon de lá Barca, também encenado por Gil Salgueiro Nave. Esta peça, muito divertida, é outro espectáculo que funciona muito bem na rua.
Está a fechar bem o Teatro das Beiras o ciclo dos 40 anos. É tempo dos responsáveis pela cultura, nas autarquias da região, a começar pela Covilhã, privilegiem os espectáculos que o Teatro das Beiras apresentam. Não fariam favor nenhum. Só ganhariam com isso.

domingo, 12 de julho de 2015

O PURO PÅSSARO

"O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível"
Ruy Belo

(Ao meu neto Francisco, que faz hoje 5 anos)

Um pássaro nasceu no papel branco
das mãos do Francisco
que riscou as linhas inventou
as cores pintou as penas
e deu-lhe asas mágicas
para poder voar.
Ficou bonito
o pássaro vermelho
com mais duas cores
para disfarçar.
Pôs-se a girar à roda da imaginação
e logo lhe pediu para o soltar
-- Dá-me liberdade para poder voar!
O Francisco abriu a mão e agitou-o no ar
o passarinho saltou nas árvores
e nas flores aprendeu a voar.
Andou pelos campos e voou
feliz pelo céu sem fim
descobrindo nuvens no meio do azul
e do sol a brilhar.
Ficou cansado de tanto brincar
e  poisou numa duna
à beira do mar.
Vieram outros pássaros
a chilrear
o passarito acordou e gostou
do que ouviu:
era sinfonia dum novo dia.
Colheu uma flor que estava no chão
um cravo vermelho
e bateu as asas cheio de alegria
-- então voou e voltou a voar
até que poisou no meu coração.

DE JOELHOS PARA OUTROS VEREM

Enquanto a Europa, como projecto civilizacional, se desfaz um pouco mais, apenas apostada em gerir o capitalismo financeiro dominante, enquanto o que resta da social-democracia se dilui no mercado das conveniências, assistimos à sua agonia com a tentativa de asfixiar a Grécia pisando os alicerces mais elementares da coexistência democrática e da soberania mínima de um povo. Não sabem os pobres crânios burocratas da União Europeia que, matando a Grécia, se estão a matar a si próprios.
Enquanto o bando reune em Bruxelas e o senhor Schauble, comandante da matilha, inventaria medidas de maior alcance para o garrote e a humilhação, ainda há quem assuma alguma perplexidade pelo contexto que tudo isto determina. Na edição desta semana do "Expresso", Pedro Santos Guerreiro põe o dedo na ferida, com o seguinte retrato:
"Acontece que, na União Europeia, o Syriza não pode sair como um vencedor, para não incentivar os eleitorados a votar nos partidos nacionais extremistas. Os governos da Europa vão querer que o Syriza se dobre, ajoelhe e deite sob os seus pés. Isso seria mais fácil se os partidos do centro político estivessem em condições convincentes. Não estão.
Não foi uma vitória de Pirro. A  Grécia pode ter escapado a uma saída do euro e o Syriza de Tsipras (ou o Tsipras do Syriza) saiu por cima. Idealmente, Tsipras deveria usar esse poder para acalmar o sistema financeiro, reformar a Grécia, combater a corrupção e a evasão fiscal. E assim ficaríamos todos juntos, não só ultrapassando esta como evitando outra. Porque as feridas que foram abertas no euro vão estar muito tempo por sarar".
A esta miséria moral chegou a Europa. A Grécia não quer ajoelhar. Mas como a Cristo no Pretório, a sentença está traçada. Muitos anos depois, a História dirá.