sábado, 25 de julho de 2015

INVENTORES DE ALEGRIA

Poucos lugares combinariam tão bem com um Festival de Música Antiga como o esplendor da paisagem de Castelo Novo. As sonoridades, que se cruzam com o tempo da cultura europeia (esta ideia de uma matriz cultural europeia é muito importante nos tempos medíocres que a Europa vive), parecem ganhar uma temporalidade mais funda, a que a moldura de Castelo Novo, encrustado na Gardunha, com a sua paisagem de agreste granito, com os matizes cromáticos da serra, nestes dias abertos ao sol de Verão, com fins de tarde que enchem os olhos de uma luz especial, moldura de paisagem única, dá, garanto que dá renovada vida.
Então, há ali, naquele lugar de forte dimensão simbólica, uma combinação perfeita, como se de repente, a respiração da terra se tornasse mais leve e subtil pelo milagre da música. Este é o III Festival de Música Antiga, e, sem receio de exagerar, posso dizer que a iniciativa bem merece um lugar especial nos Festivais de Música que animam o Verão português. À hora a que escrevo, são 20 horas de sábado, assisti já a três concertos memoráveis. O Pedro Rafael Costa, director do Festival e alma do projecto, organiza uma cuidada programação, marcada sempre pela alta qualidade dos intérpretes, e dá aos concertos um cunho didáctico muito interessante, explicando tudo: compositores. músicos, instrumentos. O resultado final é perfeito. Ele descodifica os tempos da música na perspectiva histórica do seu caminhar no tempo.
O primeiro concerto foi da Camerata Cotovia (Jacinto Mateus -- cravo -- José Mateus -- viola da gamba -- e Miguel Rocha -- violoncelo barroco) e foi uma viagem magnífica, com obras de Bach, Porqueray Telemann, Carl Friedrich Abel, Bocherini, entre outros, a mostrarem bem, como explicou Pedro Rafael Costa, a transição entre o final do barroco e o classicismo. Música do período galante, temática que vai voltar amanhã no concerto de encerramento.
Julgo que todos eles, a começar pelo Pedro, são estupendos inventores de alegria. Mas o fascínio da música esteve bem presente no segundo concerto, à tarde, um grande recital de canto e orgão, na igreja matriz de Castelo Novo, preenchido por áreas barrocas em torno do Stabet Mater de Pergolesi. Espantoso o canto de Ariana Moutinho Russo e Rita Morão Tavares e o orgão de Sérgio Silva. Mas se as interpretações das obras de Vivaldi e Handel foram excelentes, foi na forma como o trio interpretou o Stabat Mater Dolorosa, de Pergolesi, que a expressão da densidade do drama atingiu um ponto culminante, ao mesmo tempo de beleza e dramatismo, que o público, no final, aplaudiu emocionadamente. Uma palavra especial para a jovem Maria Correia que fez, também, um concerto muito bom de arquialaúde e guitarra barroca.
Agora, meus caros leitores, fecho aqui esta minha loja de palavras e lá vou, a caminho de Castelo Novo, para assistir a Martyria, espectáculo de música, dança e multimédia. Vou cheio de curiosidade: trata-se de um concerto performativo em torno da música de Dietrich Buxtehude.
Os inventores de alegria, esperam por nós!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

SEMENTEIRA DE EGOÍSMOS

Num comentarismo político em que reinam a mediocridade e a submissão a interesses que subalternizam o interesse público, gosto de ler o José Pacheco Pereira e aqui, em "Notícias do Bloqueio", tenho partilhado, com alguma insistência, as suas reflexões sobre a actualidade.
Esta semana, no "Abrupto", a análise que faz -- fala de Portugal, mas não deixa de ir à Grécia: isto anda tudo ligado --, começa por lembrar que "o tempo mostrará a pior herança destes dias de lixo que vivemos já há vários anos será de carácter moral. Moral de moral social, cultural e política, atingida no seu cerne pela emergência de uma forma de egoísmo social que se materializa em profundas divisões entre diferentes grupos na sociedade".
Pacheco Pereira chama-lhe "populismo egoísta" e caracteriza "a sementeira de egoísmo":
" A sementeira deste egoísmo, de que o nosso governo foi exemplo nestes últimos quatro anos, e que a crise grega mostrou também ao nível europeu, cria divisões profundas de que as sociedades e as nações só muito dificilmente se livram. Como será a Europa quando o alvo não for a Grécia? E se for a Finlândia, ou a Itália, ou a França ou Portugal? Claro que haverá duplicidade, mas o mal já está feito". Diz o historiador que "nunca foi tão clara a diferença entre cidadão e servo", aquilo a que "Marx chamava "luta de classes". "A direita ressuscitou-o com esplendor para arregimentar as suas tropas. A democracia de Weimar sempre foi frágil porque a situação social do povo alemão era um terreno propício a todos os radicalismos e comunistas e nazis exploraram isso até aos limites. Os nazis ganharam entre outras coisas porque o acordo imposto aos alemães no final da guerra implicava que a indústria alemã trabalhava para pagar as reparações, principalmente aos franceses. Nós também cá tivemos uma parte em locomotivas e em guindastes nos portos. Os nazis ganharam porque parte da Alemanha foi ocupada e as potências ocupantes extorquiram o máximo que puderam". E depois sobre a situação na Grécia, que ele considera "um país ocupado"
Explica Pacheco Pereira: "Se o acordo tão celebrado for adiante, o que ainda está longe de ser certo, a Alemanha e gente como Dijsselbloem vão governar a Grécia contra os gregos, a partir de Bruxelas, Frankfurt e Berlim. Não custa imaginar como o Syriza virá a ser lembrado como exemplo de moderação, face à nova extrema-esquerda que irá surgir. E a extrema-direita grega, uma das mais virulentas da Europa, não precisa de mudar, basta-lhe crescer. Os alemães e os seus gnomos podem vingar-se, como estão a vingar-se, do "não" grego, mas os europeus genuínos sabem que o mal está feito e vai muito para além do que está a acontecer à Grécia".
E termina com um dobre a finados: " O projecto europeu morreu".

quinta-feira, 23 de julho de 2015

RICOS E POBRES

Há na leitura do imediato da actualidade um mundo de sugestões que é preciso aproveitarmos para descodificar a realidade. Hoje, no "Público", no varejo de notícias e opiniões, registei dois textos, que bem merecem atenção. O primeiro é de Miguel Esteves Cardoso que, no inventário dos dias, recolhe para as suas crónicas matérias muito diversas, habitualmente do seu universo pessoal, com algum intimismo, mas também com emoções sobre o tempo, as árvores, os frutos, o mar, as paisagens. 
Na de hoje, MEC saiu um pouco do seu registo habitual para comentar uma crónica de João Miguel Tavares , que escrevera um texto com o título "A realidade é de direita". MEC assinala que "o poder político acresce sempre a quem está perto dos endinheirados" e que "a realidade é o dinheiro". E explica Miguel Esteves Cardoso: "como conservador e estudante, sou obrigado a reconhecer que devemos todas as poucas democratizações (da saúde, da educação e do sufrágio universal) às exigências da esquerda mais ou menos social-democrata, socialista ou comunista. A realidade, por acaso é sempre, sempre, de esquerda. Olhem para a enorme maioria e multidão dos pobres e comparem-na com a pequeníssima minoria dos ricos. Descubra as diferenças. Por muitas que sejam, é impossível detectar todas. J.M.T. Enganou-se e não foi pouco. A realidade é a realidade. Outra coisa é o poder. Os ricos têm sempre mais poder sobre os pobres. Sobretudo se os pobres têm dinheiro".
O outro texto intitula-se "A Alemanha como problema" e o seu autor é o Prof. Boaventura Sousa Santos, que avisadamente lembra: "O maior problema da Europa não é a Grécia. É a Alemanha". E depois: "Devemos aos gregos o trágico mérito de mostrar aos povos europeus que a Alemanha não é capaz de se autoconter".
O resto é silêncio.

terça-feira, 21 de julho de 2015

POR QUE INCOMODA TANTO SAMPAIO DA NÓVOA?

Um dos aspectos mais curiosos da narrativa que tem marcado as eleições presidenciais, desde que Sampaio da Nóvoa anunciou a sua candidatura, é o incómodo face à figura do Professor e ex-Reitor da Universidade de Lisboa. Essa incomodidade radica muito na tipologia do seu discurso de cariz igualitário (no sentido de uma sociedade mais justa, sem a clivagem das desigualdades, que é o verdadeiro emblema da austeridade), na fundamentação de uma prática política fundada nos valores de Abril e da Liberdade, na pedagogia cívica da participação política, contra a resignação, na apologia de uma cidadania de parte inteira, na valorização do conhecimento e da ciência. Tudo isto, ao arrepio do vazio cultural e de ideias, de falta de sentido constitucional e de independência, que, durante estes dez anos sopraram de Belém.
Que a candidatura seja incómoda para a direita, percebe-se; mas que no PS germine a divisão e o lançamento de Maria de Belém como putativa candidata, que nunca terá a capacidade de unir a esquerda como Sampaio da Nóvoa, já é lastimável e significativo de como determinados extractos partidários põem sempre, por inveja ou estupidez, interesses pessoais e de facção acima dos interesses nacionais. A mera possibilidade de divisão no partido socialista compromete a eleição de um candidato de esquerda nas eleições presidenciais. Metam isso nas cabecinhas...
Se tivessem olhos e olhassem para os sinais inscritos, e bem inscritos, na comunicação social, perceberiam depressa onde começam e acabam os jogos dos candidatos, que interessam à direita. A última edição do "Expresso" era bem explícita, com o destaque na primeira página, sobre a hipotética candidatura de Maria de Belém. E hoje, no "Público", Paulo Rangel, no artigo de opinião, de página inteira, nos destaques, atirava com um rotundo NÃO à fotografia de Sampaio da Nóvoa, escrevendo esta saborosíssima e destacadíssima prosa: "As movimentações amplas no Partido Socialista para apoiar uma candidata própria com o elevado perfil moral e moderado de Maria de Belém mostram a precipitação de Costa e do seu protocandidato".
Querem melhor? 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

FIDELIDADES

Há histórias muito curiosas que, na sua ironia desarmaste, dão toda a medida da natureza humana, no jogo das fidelidades e das submissões, no fundo tudo aquilo que torna o homem refém de fidelidades e de clientelismos, como se tudo fosse a síntese do mercado de consciências. Esta, que hoje vou contar, recolhi-a de uma crónica de Fernando Savater, no "El Pais", em que o pensador espanhol escreve sobre fidelidades partidárias e ideológicas. 
Savater conta, a propósito dessas servidões, uma história registada por Amartya Sen. Então, é assim:
Um fascista falava com um camponês italiano tentando recrutá-lo para o partido. O bom homem excursava-se, humilde. 
-- Veja bem, é que o meu pai foi socialista, como meu tio e meu avô... De modo que eu devo ser também socialista!
-- Que absurdo! -- indignava-se o fascista. -- E se o teu pai fosse um ladrão e teu avô um assassino, que terias de ser tu?
-- Então, sim -- disse radiante o camponês. -- Com muito gosto, me filiaria no partido fascista!

domingo, 19 de julho de 2015

COMO SOBREVIVER A PORTUGAL

A capacidade de pensar Portugal, indo à raiz da nossa problemática colectiva como povo, tem beneficiado muitíssimo do magistério Ensaísmo de Eduardo Lourenço e, num plano da reflexão mais imediata, mas sem esquecer a longa duração da história, o contributo de José Gil, sobretudo com a sua obra "Portugal - o medo de existir". É nesta linha que se inscreve o livro de Gabriel Magalhães, "Como Sobreviver a Portugal continuando a ser Português".
Gabriel Magalhães é professor de literatura na Universidade da Beira Interior, com uma obra singular na ficção e uma atenção muito especial aos fenómenos do pensamento e, num plano mais geral, da cultura. É, também, um homem que viveu boa parte da vida em Espanha, o que lhe permitiu moldar o olhar sobre Portugal com uma perspectiva de distanciamento, que é uma marca importante do seu Ensaísmo (veja-se, por exemplo, o seu livro "Los Secretos de Portugal: peninsularidad e iberismo", que reúne as suas crónicas mensais no diário Lá Vanguardia, de Barcelona.
"Como Sobreviver a Portugal" é um requisitório contra a mentalidade senhorial, cuja persistência na sociedade portuguesa, diz o autor, condiciona o país e o tolhe na sua busca de futuro. Gabriel Magalhães cria a metáfora de uma cidadela inexpugnável (o lugar do poder), marcada por "uma injustiça estrutural", ferida de feudalidades, transformando a vida num "pesadelo kafkiano em que nós somos os agrimensores, e eles, os habitantes do castelo, mandam no país inteiro".  "Se pensarmos bem, a sede da cidadela fica em Lisboa, mas depois há todo o tipo de sucursais nas terras e terrinhas do nosso país", escreve Gabriel Magalhães. "Dito por outras palavras: cada burgo tem a sua cidadela, e os chefes dela cultivam uma vassalagem qualquer com a fortaleza central de Lisboa".
Para o autor, que às vezes usa a ironia como arma ("Todos os países têm cidadela, mas a portuguesa é uma senhora cidadela: cuidado com a sua sombra na nossa vida". Neste contexto, pergunta-se: "O que vale uma pessoa em Portugal, se viver fora da cidadela?" A resposta é clara: "Não vale nada, ou quase nada. N-ao passa de um lobo que uiva na serra. Um lobo destes foi precisamente Miguel Torga -- e a verdade é que uivava que era um primor". Nestes labirintos, "fora da cidadela, não há vida: há apenas uivos, gemidos, dificuldades" explicando o autor que "talvez por isso os Portugueses tenham com a cidadela uma relação fanática: querem entrar lá dentro, custe o que custar, sejam quais forem os sacrifícios a fazer". E depois: "O que interessa é estar no interior do castelo feudal, nem que seja a limpar-lhe o chão mais humilde. Porque, fora desse palácio, a vida torna-se um presadelo de absolutas incertezas. Por isso mesmo, ninguém critica a cidadela: serviria para quê? Ela sempre aí esteve, e aí estará enquanto houver Portugal. Quem apostar na cidadela pode contar com uma pequena eternidade de consolos e seguranças para a sua vidinha neste mundo".
Um capítulo muito interessante é a radiografia que o autor faz à questão da leitura e à ausência dela na sociedade portuguesa articulando a problemática com a "derrota" do sistema educativo "que hoje em dia funciona como uma máquina caríssima de produzir ignorância diplomada". De facto, "a ditadura actual é, precisamente, a da ignorância".
Gabriel Magalhães espeliza as "enfermidades lusitanas" e propõe, como receita, a prática de uma "fraternidade cívica", se calhar a única maneira de, pelo pensamento e a inteligência, fazer ruir os alicerces da cidadela.