sábado, 1 de agosto de 2015

ANA DE AMSTERDAM

Ana de Amsterdam (Ana Cássio Rebelo), que esteve este ano no Festival Literário da Gardunha,é hoje tema de uma crítica literária, de Pedro Mexia, na revista do "Expresso", altamente elogiosa.
Mexia sublinha o carácter singular e intimista do seu diário, seleccionado a partir dos textos que publicou no seu blogue (2006-2014),  e filia o universo feminino da sua escrita "na linha de Irene Lisboa, Maria Judite de Carvalho ou Maria Ondina Braga, ou de Adília Lopes e Isabel Figueiredo".
Para Pedro Mexia, estamos perante "uma década de textos muitíssimos literários na maturidade narrativa e na eloquência descritiva, mas totalmente hostis à literatura enquanto modalidade de bons sentimentos".
Pedro Mexia dá-lhe nota máxima: cinco estrelas. Eu acompanho-o. Um beijinho para a Ana.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

"PODEMOS" EVITAR O DESASTRE

MANUELA CARMENA, PRESIDENTE DE MADRID
Para contrariar a onda de cepticismo que submerge a política, sobretudo devido à descrença gerada pela sua incapacidade para resolver os problemas do quotidiano das pessoas -- a política tem sido, em Portugal, nestes quatro anos, sobretudo, um meio para arrasar a vida das pessoas --, colho uma notícia lida na edição de ontem do diário "El Pais", que é uma nota dissonante dessa fatalidade, e mostra, pelo contrário, como a acção política pode ser um contributo para transformar a realidade.
Veja, o Leitor, se as coisas podem ou não ser alteradas. Em Espanha houve recentes eleições municipais, com expressão nas autonomias, e os resultados mostraram o sobressalto (sobressalto para a ordem estabelecida, claro...) da mudança, com uma vitória muito expressiva do Podemos que coloca como ideia programática essencial a alternativa ao austeritarismo e a afirmação de valores solidários, em busca de um novo viver colectivo e democrático. Nas mudanças operadas, e com recurso a uma coligação com o PSOE, ganharam o poder em Madrid, cidade hoje governada por Manuela Carmena.
Ontem, o diário espanhol titulava, com destaque: "Carmena cancela la venta de 2.086 pisos sociales a fondos de inversion".  E no desenvolvimento da notícia: "A alcaidesa de Madrid, Manuela Carmena, acabou ontem com um dos grandes temores dos inquilinos dos pisos sociais na capital: que um fundo de investimento adquirisse  os pisos e subisse as rendas, e, face ao não pagamento, os despejasse". De facto, a presidente de Madrid anunciou que não se venderá nenhuma das 2.086 vivendas municipais ocupadas por pessoas procedentes de realojamentos ou próximas da exclusão social.
Por cá, tem sido bem diferente. Os interesses financeiros têm prevalecido sempre sobre os direitos dos que, com as vidas atropeladas pela crise e pela política de austeridade, se vêem expulsos de suas casas, ou afastados delas pela usura dos bancos que, muitas vezes, nem sequer têm em conta o que essas pessoas já tinham pago para poderem ter casa própria.
O que esta notícia, na sua simplicidade quer dizer, é que a realidade ainda pode ser transformada a favor dos mais fracos. Mas para isso é preciso determinação, e, sobretudo, vontade política para a mudança.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

JORGE SAMPAIO: TRIBUTO DE HUMANIDADE

Nos pequenos e grandes gestos do quotidiano, nas circunstâncias mais nobres da política, no exercício da cidadania à escala planetária, na pedagogia cívica à procura do "Portugal futuro", na compreensão das utopias do sonho, às vezes como breve suplemento de esperança para combater o cinzentismo dos dias, na forma de encarar o homem como a medida de todas as coisas, vejo sempre Jorge Sampaio como o rosto de comum humanidade onde transparece o desejo colectivo de uma realidade mais habitável e feliz.
Nessa biografia, de perfeita singularidade, não só pelo modo de ser e de estar num território chamado Portugal, onde moldou a densidade do pensamento crítico, mas também pela dimensão universal da sua acção como estadista que analisa o particular e o geral, e, na síntese das ideias, se afirma como portador de um sentido civilizacional, não com cepticismos derrotistas, mas sim com a rara capacidade para estabelecer pontes entre contrários, ensinando sempre que o diálogo é o grande caminho para tornar comuns as diferenças, no combate essencial pelaa Liberdade, como valor absoluto -- batalha de uma vida --, ou na intransigência com que encara o mercantilismo que se tornou o deve-haver das políticas sociais.
No fundo, o património de ideias integradoras da acção política de Jorge Sampaio poderia ter como denominador comum uma palavra apenas: felicidade. Felicidade humana, um conceito que vai de par com outra palavra necessária: dignidade. Há, ainda, outras facetas que sempre me fascinaram na maneira de Jorge Sampaio encarar a política, na sua mais profunda complexidade: emoção e serenidade. Tenho saudades de um Presidente como ele, que aliava a cultura e o conhecimento às questões do desenvolvimento, e que não se cansou de projectar sobre a realidade do país a necessidade de um ordenamento territorial que materializasse no concreto do país a batalha contra o abismo das desigualdades. 
A Organização das Nações Unidas distinguiu Jorge Sampaio com o Prémio Nelson Mandela, um dos mais altos galardões mundiais. Uma honra para Portugal. Na cerimónia realizada, no início da semana, na Gulbenkian, homenageou-se Jorge Sampaio, homenageando-se, de certa forma, Portugal. Artur Santos Silva definiu-o, aliás, como alguém que sabe "dialogar como quem respira" e, como era de esperar, destacou-se durante a cerimónia o papel fabuloso de Sampaio no plano internacional, designadamente como Enviado Especial da ONU na Luta contra a Tuberculose ou como Representante da Organização na Aliança para as Civilizações. Mas inseparável de tudo o resto era, também, o rosto do combatente pela liberdade.
Sobre o tempo que vivemos, Jorge Sampaio caracterizou: "Incapaz de gerir bem a inédita complexidade da presente globalização, este novo século começou mal, carregando já nestes seus primeiros anos um cortejo de indescritíveis violências, situações de terror múltiplo e geograficamente disperso, crises económicas e financeiras demolidoras de um desejável progresso social com preocupantes efeitos numa grande descredibilização da acção política". E não deixou de lembrar que "honrar Mandela é assumir o dever de resistir", mais ainda agora, quando "tornados cidadãos do mundo, todos somos testemunhas directas das tragédias e temos a obrigação moral e cívica de estarmos atentos". "Assegurar a passagem de testemunho entre o exemplo de Mandela e as novas gerações", eis o desafio que Jorge Sampaio assume como determinante.

terça-feira, 28 de julho de 2015

RETRATOS DO AINDA PRIMEIRO

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA

Na melhor tradição da poesia satírica portuguesa, descobrimos sempre a alta ironia na crítica, oportuna e desassombrada, aos figurões com notoriedade na sociedade portuguesa. Foi assim com Tolentino, e, muitos depois com Alexandre O'Neill, para só citar dois casos dos mais eloquentes. Mas o jogo do humor, no retrato de figuras que, pelos mais diversos motivos, mereciam ser zurzidos na praça pública, vem do início da criação poética portuguesa. São, muitas vezes, críticas sociais implacáveis a comportamentos ou costumes, sobretudo de cariz amoroso. Os versos deixavam os visados nas ruas da amargura.
Nunca essa tonalidade viva se perdeu na arte poética, provocando sorrisos ou dó consoante a natureza dos visados, ou a violência dos versos. Mas esse salutar jogo criativo mantém a sua força e um apreciável universo de leitores.
Ontem, em prosa, se fez um retrato do primeiro-ministro que ainda temos, enriquecido com palavras certeiras de uma crónica de Baptista-Bastos.
Hoje, o embaixador António Russo Dias, que esgrime habilmente a crítica com a veia satírica dos seus versos (alguns já aqui publicados) e é frequentador deste meu Blogue, enviou-me com amizade dois retratos do tal primeiro-ministro que se chama Passos Coelho. São, diria eu, retratos em grande plano, que não escondem rugas, nem disfarçam propósitos. Aqui os deixo para os meus leitores, com a gratidão devida ao embaixador António Russo Dias. Como se vê, nunca as musas fizeram mal aos diplomatas...

RETRATO IV


Salta à vista na face inexpressiva
A cicatriz da boca, cortada à faca;
Ao olhar baço, ao gesto mortiço
Falta qualquer coisa que esteja viva.
Até o sorriso que (raro) o ataca
Se mostra como é: falso e postiço.

É um palerma que se julga esperto.
Míngua a vergonha, abunda a ganância.
Mirra o pudor mas sobra-lhe o jeito.
Sob o verbo oco esconde um deserto
De raras ideias, vasta ignorância,
E, se for preciso, sai um dó de peito.

Sendo imbecil e rei dos imbecis,
Servil esbirro de gente estrangeira,
Pobre executor de um plano sinistro,
Bem rodeado de seus pares vis,
Ele apostou e arranjou maneira
De ser chamado Primeiro-ministro.

7/4/2015

RETRATO V

"Tens uma alma pequena
Sempre foste um desgraçado".
Disse com enfadado
Desprezo na voz serena.
"Mentiste sem sentir pena
Daqueles que enganaste,
Da gente que desprezaste.
És um completo cretino
Só mereces por destino
Ser julgado e condenado."

"Maltratas o português 
E falas como um ganapo.
Achas que o economês
Disfarça. És um trapo,
Uma espécie de esfregão
És servil com o patrão
E cruel com o mais fraco."
Ele ouvia submisso.
"Talvez seja tudo isso,
Talvez eu seja um farrapo."

"Sim, ouço de homens sérios
Palavras sem simpatia
Maldições e impropérios,
Expressões de zombaria,
Condenações ao inferno.
Mas com isso posso eu bem.
Tratam-me com tanto desdém 
Mas tenho honras e fama.
Sou aquele a quem se chama
O chefe deste governo.

22/4/2015

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A INAUDITA PROPAGANDA DESTE TIPO...

A inaudita acção de propaganda que o governo e seus ministros, capitaneados por Passos Coelho e Paulo Portas, é uma tentativa desesperada de mistificar a realidade, cozinhar um clima eleitoral que, ao mesmo tempo, alie a chantagem do medo e a promessa de um mundo novo e diferente, agora, sim!, vêm as políticas sociais porque suas excelências já decretaram termos chegado ao patamar do paraíso possível. Mestres em promessas falsas, que aliás os guindaram ao poder em 2011, vêm agora, de nova, com a falinha mansa da promessa de uma vida diferente para os que mais sofrem na sociedade portuguesa. Dizem isto, em comícios e inaugurações, na esperança de que o povo, por golpe de amnésia, esqueça que foram eles, Passos & Portas, espécie de senhor Feliz e Senhor Contente dos dias de hoje, que foram além da Troika, e, nessa odisseia demencial, desgraçaram vidas e fazendas, espoliaram os velhos, roubaram os funcionários públicos fizeram trinta por uma linha no seu propósito de ferir de morte tudo o que cheirasse a Estado social.
Na sua demanda eleitoral, o governo promete este mundo e outro, e, de cada vez que é questionado sobre uma questão concreta, utiliza respostas sibilinas, "vamos a ver", "logo se vê", "talvez seja possível aliviar a carga fiscal... Quer dizer, transformaram-se em mentirosos compulsivos, já nem sequer fazem esforço para serem adoráveis mentirosos...
Nesta corrida de propaganda, são capazes de transformar conferências de imprensa em entrevistas, antecipam a volta a Portugal em bicicleta, numa volta a Portugal inauguracionista (parece que ao Fundão já vieram, desde Janeiro, dez ministros, dez, em avulsas cerimónias de inauguração (às vezes de coisas há muito em funcionamento, como o Regadio da Cova da Beira, ou inaugurando festas, que são uma espécie de chafarizes dos tempos modernos. Será a procura desta nova "alma" para Portugal, que faz correr Passos Coelho, na festa do Chão do Lagoa, ou em prosaicas viagens pelo país?
No outro dia, na sua crónica do "Jornal de Negócios", Baptista-Bastos fez um retrato impiedoso de Passos Coelho. "Este tipo desavergonhado, que diz que não disse o que disse, e diz o que não faz, com um impudor nunca visto. Este tipo, este tipo", escreveu BB. "Não quero mais este tipo na minha casa, na minha rua, no meu bairro, na minha cidade, na minha pátria. Este tipo vendeu-nos, com um descaramento inacreditável. Este tipo parece um serventuário; parece, não: é um serventuário da alemã, e enxovalha-nos a todos quando, reverente e subalterno, caminha ao lado dela, atento ao que a alemã diz, e toma nota e fixa o que a alemã diz com reverente cerimónia. Este tipo disse que gastávamos demais, nós, os portugueses, que nunca soubemos o que era prosperidade, ter uns tostões a mais no bolso, satisfazermos os pedidos dos nossos filhos, por muito modestos que fossem".
E depois: "Já deixei de ouvir este tipo. E desligo logo a televisão, quando o vejo e ouço, sobretudo na SIC, que parece ter uma câmara sempre às ordens para filmar o mais desinteressante dos movimentos deste tipo. Este tipo é um mentiroso relapso e contumaz: toda a gente sabe e ele também, mas passa adiante. Este tipo disse, agora, que está em campanha, ter como prioridade o equilíbrio social entre os portugueses; mas foi ele que nos aplicou essa miserável doutrina do empobrecimento, mascarada de austeridade.
Que fizemos para merecer tal provação? Foi este tipo, de olhar gelado, que nos atirou para o desemprego, para a emigração, para o desespero mais incontido, para uma vida sem esperança nem sonho. Foi este tipo que nos roubou os sonhos, não se esqueçam!
Este tipo que despreza os velhos, que diz coisas imponderáveis, preso ao poder como uma lapa. Este tipo que está a pôr em causa a própria natureza da nacionalidade. Este tipo que, para seguir um nefando projecto capitalista, está a vender a pátria aos bocados e ainda há quem o aplauda. Os estipendiados de todas as profissões, os jornalistas venais, os políticos corruptos.
Não quero mais este tipo na minha casa, na minha rua, no meu bairro. Não quero este tipo em
nada do que me diga respeito. Escorracem este tipo do nosso viver quotidiano. Este tipo".