sábado, 8 de agosto de 2015

VEMOS, OUVIMOS E LEMOS...


Antigamente, o Francisco Fanhais cantava os versos de Sophia ("Vemos, ouvimos e lemos/não podemos ignorar") para despertar consciências adormecidas e convidar os portugueses à intervenção cívica; hoje, de novo a sabedoria poética de Sophia de Mello Breyner nos inquieta, por sumários assassinatos de esperança, postos em marcha por socialistas que se reclamam arautos da mudança, mas provavelmente daquelas mutações em que muda alguma coisa para tudo ficar na mesma.
No "Público" de ontem, dá-se grande relevo à querela que, de algum tempo a esta parte, parece ter-se instalado no interior do PS, sobretudo em franjas perdidas do seu aparelhismo. O jornal intitula "PS cada vez mais longe de apoiar Sampaio da Nóvoa nas presidenciais". E, no desenvolvimento da notícia de primeira página, pode ler-se: "É de tensão subliminar o clima das candidaturas a Belém de António Sampaio da Nóvoa e de Maria de Belém Roseira e a direcção do PS. E nada indica que esta venha a apoiar oficialmente qualquer delas".
No interior do diário, quase duas páginas com matéria substantiva sobre a questão, com um artigo de opinião de Nuno Sá Lourenço e São José de Almeida, com o atractivo título: "A "intensa rede social" da candidata Maria de Belém Roseira vai para lá dos socialistas". Neste texto, há um parágrafo interessante: "mesmo sem apoio da direcção do PS, há a "rede social intensa" que Maria de Belém Roseira angariou ao longo dos anos. Uma "possível candidatura de Maria de Belém seria muito bem acolhida em vários sectores da sociedade portuguesa", garantiu Brilhante Dias. Convidado a concretizar, este economista citou os "sectores da da saúde ou social - ou seja, Misericórdias, IPPSS, médicos e farmacêutica".
Hoje, no "expresso", também a candidatura (ainda não anunciada) de Maria de Belém volta à carga, destacando-se, logo na primeira página, que "Reitores apoiam Maria de Belém". dando conta que "António Rendas, da Universidade Nova, e Luís Reto, do ISCTE, assinam um apelo à candidatura presidencial da socialista". Diz o "Expresso" que 100 nomes irão formalizar a petição à putativa candidata.
Nesta procissão, há uma estranha confraria de gente a levar às costas o andor de Maria de Belém. Há barões de via reduzida do PS, há ressaibiados da vitória de António Costa, há pára-quedistas políticos, como o economista Brilhante que aterrou na lista de Castelo Branco, há corporações de interesses universitários e económicos, há invejas, muitas invejas, há farmacêuticas e sectores que disputam o cifrão na política. Vão todos numa procissão, que ainda nem saiu do adro e já mostra a expressão política de uma vontade, que parece ser evitar que uma candidatura como a de Sampaio da Nóvoa, que é capaz de federar a esquerda e se afirma como repositório dos valores de Abril e da Liberdade, não chegue a Belém. O PS, por experiência própria, sabe dolorosamente que o divisionismo é um colossal frete à direita.
Há, nisto tudo, uma responsabilidade histórica. Deviam lembrar-se de Cavaco. Mas naquele universo a miopia política é de tal grau que já não vêem a árvore, nem a floresta. Sintomaticamente, no artigo do "Público", escrevia-se o seguinte: "Por outro lado, há na direcção socialista quem sublinhe ao "Público" que o PS pode passar bem sem apoiar nenhum candidato e até ver eleger um presidente que não seja de esquerda". E faziam-se depois insinuações que Costa não desdenharia estar de casa e pucarinho com Marcelo ou Rui Rio.
Assim vai o PS. Depois admiram-se que Costa e o partido não descolem nas sondagens... Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

ANA HATHERLY


Morreu ontem, aos 86 anos, a escritora, poeta e professora Ana Hatherly. No panorama da poesia portuguesa, o nome de Ana Hatherly representa um singular fenómeno de inquietação criadora que, nos tempos do fascismo, de profundo provincianismo (melhor: paroquialismo), se afirmou com espírito aberto às novas correntes, contra o formalismo que se esgotava nos bloqueios dogmáticos da literatura e da vida.
Como muitos, nos tempos de chumbo, de ausência de liberdade e de respiração limitada, Ana Hatherly também se acolheu ao território livre que era o "Jornal do Fundão", e o seu nome ficou ligado a um suplemento ("Poesia Experimental"), publicado pelo JF, em 1965, dirigido por Herberto Hélder. Ernesto E. Melo e Castro e António Aragão, que foi, no ambiente cultural desse tempo, uma lufada de ar fresco e de descoberta de novas realidades. Foi, como refere a História da Literatura, de António José Saraiva e Óscar Lopes, um acto fundador, em Portugal, daquele movimento estético e poético. 
Ana Hatherly, que foi professora catedrática de méritos reconhecidos, deixa uma obra com uma marca pessoal, designadamente na apropriação pela poesia de uma dimensão visual, que não era outra coisa senão a sua paixão pelas artes plásticas ("O meu trabalho começa com a escrita -- sou um escritor que deriva para as artes visuais através da experimentação com a palavra")

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DESEMPREGO

Em cada dia, há novas do paraíso que nos informam oficiosamente que o desemprego está a descer. Por este andar, ainda ouviremos Passos & Portas dizerem, inflamados, que já não há desemprego, em Portugal. Infelizmente, o que há, em Portugal, é menos paraíso e mais inferno, e o desemprego não desce pela retórica os governantes, nem por decreto ou por propaganda eleitoral, o que seria fácil.
Por isso, talvez seja útil ler estes números que colhi no Blogue Câmara Corporativa. Leiam-nos s.f.f.:
"O PSD sistematicamente ignora centenas de milhares de portugueses que são desempregados, embora não constem das estatísticas de desemprego. O PSD ignora:
    • 160 mil portugueses que frequentam programas ocupacionais;
    • 250 mil portugueses que desistiram, por desmotivação, de procurar emprego;
    • 500 mil portugueses que emigraram empurrados pelas políticas do actual governo".

terça-feira, 4 de agosto de 2015

ESPÍRITO MALIGNO

David Grossman
A narrativa do horror, nos tempos que correm, não tem férias. Essa banalidade dos crimes tem efeitos anestésicos sobre as pessoas que, sabendo das tragédias continuadas, guerras regionais, crimes contra a humanidade, aceitam as coisas como inevitabilidade histórica -- o que é profundamente reaccionário --, e, sobretudo, com a comodidade egoísta, de serem realidades longínquas, afastadas do nosso viver quotidiano. A esse egoísmo, que exprime todas as indiferenças e esquecimentos, não tem escapado a Europa, mais vocacionada para os números do que para as pessoas, como se pode ver pela forma como tem tratado a questão da imigração, quer nos cemitérios a céu aberto do Mediterrâneo, quer no túnel da Mancha. Não interessa que o coração da Europa sangre; a estratégia é sempre um deve-haver complicado e as políticas toleradas -- mesmo quando levantam muros, como na Hungria -- são sempre de carácter repressivo, sem conteúdo humano.
E, no entanto, como há séculos dizia John Donne, como dever irrecusável de dignidade, "a morte de um homem, onde quer que aconteça, diminui-me, pois eu sou parte da humanidade". Pensava neste falar do poeta inglês, quando lia um admirável texto do escritor israelita, David Grossman, publicado no "El Pais", intitulado "Um espirito maligno", a propósito da morte da criança palestiniana, de pouco mais de um ano, "Dia após dia, saem à luz em Israel forças brutais e fanáticas, obscuras e herméticas no seu extremismo", escreve Grossman. "sentem-se exaltados pelas chamas de uma fé religiosa e nacionalista e fazem absoluto caso omisso das normas da moral".
O escritor israelita diz que o menino Ali Dawabsha não lhe sai da cabeça. "Nem tão pouco a cena: a mão de um homem que abre uma janela em plena noite e lança um cocteil molotov contra uma habitação onde dormem uma mãe, um pai e dois filhos". David Grossman considera que, "com uma espécie de obstinada negação da realidade, o primeiro-ministro e seus partidários negam-se a compreender em toda a sua profundidade a visão do mundo que cristalizou na consciência de um povo conquistador ao cabo de quase cinquenta anos de ocupação". E acrescenta: "Quer dizer, a ideia de que há dos tipos de seres humanos. E de que o facto de que um está submetido a outro significa, provavelmente, que, pela sua própria natureza, é inferior. É, por assim dizer, menos "humano" dos que o hão conquistado".
Grossman reparte os crimes: "há mais de um século, israelitas e palestinos não deixam de girar numa espiral de assassinato e vingança", mas não deixa de lembrar o que aconteceu, há um ano, com a operação Margen Protector.  E como se fosse a consciência moral de uma vasta área de israelitas: "Há décadas que Israel mostra aos palestinianos o seu lado obscuro. A obscuridade desde há algum tempo, foi-se filtrando no interior e este processo acelerou-se notavelmente depois da vitória de Netanyahu nas últimas eleições, após as quais nenhuma força pode opor-se já a arrogância da direita. Episódios tão espantosos como o assassinato do menino queimado vivo são, no fundo, um sintoma de uma doença muito mais grave, e assinalam-nos a nós, israelitas, a gravidade da nossa situação dizendo-nos, com letras de fogo, que o caminho para um futuro melhor vai encerrando as suas portas".
Um espírito maligno, disse ele.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

UM AGOSTO PORTUGUÊS

Imaginário do mercado fundanense na parede da antiga praça, da autoria
de uma jovem artista argentina


Todos os anos, por estes dias, o país do risco ao meio transfigura-se. O interior, espécie de Sicília abandonada, como diria o Zé Cardoso Pires, ganha um povoamento com tempo e lugar, mas provisório na sua temporalidade breve do Verão. Agosto é o mês de todas as festas e de todos os reencontros, os campos e as terras do silêncio ganham outras sonoridades, os gestos amplificam-se, uma súbita música, com falares franceses à mistura,, toma conta das ruas, onde a erva cresceu por falta de passos de gente, ou das casas, agora de janelas e portadas abertas. É diferente o inventário dos dias, é diferente a luz que brilha e o ar que se respira. 
Esse micro-cosmos transborda às segundas-feiras no mercado do Fundão. A cidade ganha outra fisionomia, uma população flutuante cria um dinamismo peculiar, o tráfego aumenta, as filas dilatam-se nos multibancos, as esplanadas traduzem o linguajar colectivo desta mini-Babel em movimento. O comércio e os restaurantes respiram algum alívio num hiato breve da crise. 
Vêm de longes terras, onde conquistaram vida nova, mitigar o "labirinto da saudade", com eles viajam novas gerações, de nacionalidade dupla, famílias construídas entre duas pátrias, e aqui estão os pais e os sogros e os irmãos, num conhecimento possível das terras originárias, e assim pisam o chão comum das aldeias e das cidades, e das praias, com o azul do céu ou a luz intensa de Agosto nos horizontes que os olhos abarcam. 
À minha beira, na esplanada, está uma roda alargada de gente. Estão os mais velhos e os mais novos, portugueses e franceses, e com eles vieram os familiares que ficaram sempre por cá. À mesa afluem suaves lembranças, trocam fotografias dos netos que ficaram lá, contam os mais velhos sagas de tempos idos, fronteiras a salto, afirmação de humanidade resgatada, resistência contra a fatalidade da pobreza. Aventuras trágico-terrestres, outros descobrimentos.
Também regressaram para férias os jovens emigrantes de novo tipo (cidadãos da Europa), que os tipos que ocupam o poder mandaram sair do país, como exportação de circunstância.
O Agosto português corre veloz. Logo se imporá o regresso e ficarão outros vazios, lembranças, viagens nos labirintos da memória.

domingo, 2 de agosto de 2015

UMA COISA PENSA O CAVALO...

Uma das coisas mais nocivas à sociedade portuguesa é a forma boçal como os políticos que se alçam ao poder mentem ou apostam na manipulação da realidade para a desfigurarem de todo. Às vezes, é tão alvar a aldrabice e tão grosseira e insistente a manipulação, que a prática só pode ser levada à conta de esses sujeitos, muito envernizados nas suas funções de poder, como se fossem donos do país, tomarem os portugueses por idiotas chapados.
O embuste que este governo, Passos & Portas, e ministros adjuvantes, montou à volta do desemprego, num país medianamente informado originaria uma enorme gargalhada, ou então, porque a questão é dramática e tem um universo concreto de pessoas, uma inevitável morte política. Por cá, tudo se desenvolve com a maior das naturalidades, as televisões amplificam as aldrabices e a imprensa, a maior parte à trela, não chega longe. E eles, como as pilhas duracel, mentem, mentem, mentem. Há vozes que se insurgem, é verdade, os partidos de esquerda estrebucham a sua indignação, mas tudo como dantes -- quartel geral em Abrantes...
É surpreendente que os chefes do governo mais os seus ajudantes de serviço, venham sorrir sobre o problema do desemprego, afirmando estar ao país ao nível de 2011, com 12,4%, quando a realidade dramática desta questão vai muito para além dos números, e os portugueses que estão por dentro do drama, sabem muito bem que tudo, infelizmente, vai em sentido contrário. O drama dá lugar à tragédia, e não faltam mesmo suicídios a mostrar como a indignidade do desemprego é um bloqueio total em muitas famílias.
Estamos melhor? Então, expliquem ao povo como se perderam, desde 2011, cerca de 250 mil empregos, juntem ao quadro, as manigâncias dos estágios profissionais (bonita fórmula para compor as estatísticas!), mais os desempregados de longo duração, que desistem dos Centros de Emprego, e, sobretudo, o quase meio milhão de jovens que emigra em busca do direito ao trabalho e à vida. Juntem tudo e vejam o lindo serviço em que estes tipos nos meteram... E vêm, agora, abençoar os dias que correm, com a aldrabice dum paraíso que vai continuar dentro de momentos. É preciso ter lata, muita lata!
Mas há, nisto tudo, uma questão de base. Estas coisas podem enganar alguns portugueses, mas não enganam a maioria, que está farta e bem farta, como os estudos de opinião revelam.
E, por isso, apetece-me deixar aqui um célebre poema do Alexandre O'Neill (há quantos anos, Alexandre?) sobre "A história da moral". E é assim:

"Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo,
outra quem está a montá-lo."

Ora, toma!