sábado, 15 de agosto de 2015

ADIAMENTOS QUE MATAM

Página do "Público". na edição de ontem
Um dos traços mais dramáticos, que mostra a desumanidade da sociedade portuguesa à flor dos dias e como os valores humanos são desvalorizados pelos poderes, e, sobretudo, como as políticas públicas paulatinamente são esvaziadas de conteúdo social e humanista, é a forma como os idosos são tratados em Portugal. Há uma estranha complacência face às ofensas de que são vítimas os mais velhos da tribo e uma gradual diminuição das responsabilidades do Estado, bem estimulada pelo governo de Passos & Portas e abençoada por instituições dominantes no sector, todos interessadíssimo, claro, no grande negócio privado de que os idosos se tornaram apetitosa matéria prima de deve-haver.
Neste registo de infâmias, há lares que são armazéns de gente à espera da morte, há violência física de familiares contra pais e avós transformados em fardos, há negociatas sobre bens patrimoniais, há, até, apropriação de reformas para equilibrar orçamentos familiares despedaçados pela crise. É um universo com muitas feridas expostas, um inventário de crimes públicos que a maior parte das vezes ficam na impunidade, um desprezo ou uma hipocrisia que é a visibilidade de um país doente de si próprio. Como não há-de ser assim, num país onde uma candidato a deputado do PSD fala em "peste grisalha" para estigmatizar a população envelhecida do país, gente que trabalhou uma vida inteira, que tantas vezes comeu o pão que o diabo amassou, que raramente foram tratados com a exigível e elementar dimensão de cidadania e justiça que mereciam! A maioria deles, que às vezes ainda vemos fora dos armazéns que são os tais lares, a gozarem o sol (grande riqueza!) em bancos de jardim ou à beira de muros de cal branca, deram tudo a esta coisa chamada pátria -- e, agora, chamam-lhe "a peste grisalha".
Não admira, pois, a página do "Público", com um título que resume bem o esquecimento, a margem, a indiferença, com que o poder trata os idosos: "Crime de abandono de idosos atirado para a próxima legislatura". Isto diz bem dos critérios de urgência da maioria PSD/CDS e do respeito que os idosos lhes merecem. Nestes quatro anos, também caiu a máscara do cinismo que Portas e o seu partido punham, de cada vez que na liturgia eleitoral das promessas falavam nos direitos (irrevogáveis, claro...) dos mais velhos, naquilo que era um célebre "cisma dos grisalhos". O "cisma", pelos vistos, deu lugar à "peste".
Há adiamentos que matam. Este é, seguramente, um deles.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

INTERIOR: O PAÍS DO RISCO AO MEIO

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
O secular abandono do interior, como traço estrutural de políticas centralistas, ficou bem patente na expressão "Portugal é Lisboa, e o resto é paisagem". No extraordinário texto dramático, O Render dos Heróis, de José Cardoso Pires, há uma fala lapidar de um personagem que traduz bem essa ideia de como tudo escapa ao interior, até o destino, que é uma espécie de fatalidade para desculpar a persistência de desigualdades, e um tempo que parece parado na história. O personagem de Cardoso Pires (e estou a citar de memória) dizia qualquer coisa como isto:
-- Ora, a História... A história passa-se em Lisboa, nós tomamos conhecimento dela e já não é nada mau!
A realidade desta situação moldou o território e Portugal transformou-se naquilo que eu costumo chamar "o país do risco ao meio", com uma fronteira que se dilatou ao redor do litoral e uma paisagem entre a mágoa e o remorso colectivo do sistemático abandono. Não faltaram por aí boas palavras sobre o ordenamento do território e a construção de um país mais harmónico e feliz, mas o resultado é precisamente o contrário disso: a desarmonia instalada, a amplificação do deserto físico e humano, o silêncio dos campos e das terras, que é o que acontece quando a morte mina o tecido social. O poder fecha tudo: escolas, repartições mínimas, postos de saúde, apeadeiros e estações de caminhos de ferro, numa liquidação total onde nem sequer houve tempo para saldos. Aos que resistem e teimam em ficar, o governo, de certo modo, considera-os mortos -- ou mata-os pelo isolamento e o esquecimento, outra espécie de morte antecipada ou de "peste grisalha", na expressão maligna de um senhor candidato a deputado do PSD.
Esta faixa alargada do interior é o sinal mais evidente de políticas que não praticam públicas virtudes e apenas servem vícios (ou interesses) privados. Quando as eleições batem à porta (seja Deus louvado!, cantava o Adriano) para cumprirem calendário --que os votos por cá são escassos -- demandam as terras abandonadas e esquecidas com promessas de maus pagadores, inaugurações de via reduzida (se calhar o alargamento de cemitérios!), na chinfrineira eleitoral do costume. Depois, tudo continua a passar-se, em Lisboa. Os senhores do mando rejubilam, lembrados de que o interior, quando se votou a Regionalização, habituado à morte antecipada, votou contra!
Quer isto dizer que o país vai morrendo como pode, subalternizado pela pata centralizadora de Lisboa e os seus orgãos transmissores, como são as Comissões ditas de Desenvolvimento Regional. Ordenamento do território, coesão social e regional, ora venham cá agora com essas!
Há dias, no Blogue "Duas ou Três Coisas", Francisco Seixas da Costa publicou um texto em que reflectia sobre estas questões meio adormecidas, como convém, na sociedade portuguesa. Deixo aqui o seu texto, como contributo para a discussão, ou, pelo menos, como fragmento de luta contra o esquecimento e a amnésia cívica.

"Há dias, numa conversa com alguém com responsabilidades políticas, fui surpreendido pelo raciocínio de que "o interior é hoje um mito", de que "com as acessibilidades agora existentes, em menos de duas horas qualquer pessoa se desloca das zonas de fronteira até ao litoral e vice-versa", pelo que é "um imenso erro estar a despejar dinheiro em áreas onde ninguém quer viver". A regionalização é um tema divisivo na sociedade portuguesa e eu próprio nunca me senti muito seguro sobre a bondade da criação de um modelo organizativo que implica novas e dispendiosas estruturas, cuja relação custo-eficácia está ainda por estabelecer.
Mas tenho de reconhecer que o preço da "não regionalização"é hoje também muito elevado, no que isso significa em termos de expressão da vontade e interesses de certas regiões do país. Foi A.H. de Oliveira Marques quem fez notar que, já desde antes da criação da nacionalidade, se estabeleceram no território do que é hoje Portugal redes viárias que vieram a favorecer a divisão vertical do país. Com os séculos, foi-se criando cada vez mais no país um "muro", em termos de desenvolvimento, que hoje separa o "Portugal de Leste" do litoral desenvolvido. Um tanto surpreendentemente, a democracia e a integração europeia não contribuíram para contrariar esta realidade, que também não foi alterada, como se esperava, pela cooperação transfronteiriça.
Quando passei pelo governo assisti, com algum espanto, à explanação de propostas estratégicas que tinham no seu centro modelos de desenvolvimento exclusivamente assentes no litoral, na criação de uma espécie de "metrópole" ao longo da costa, concentradora das atenções, dos recursos e, naturalmente, de pessoas. O interior, se não era "só paisagem", não ficava muito longe disso. O modelo das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional hoje existentes é uma aberração que favorece o prolongamento desta discriminação, que traz consequências trágicas em termos de ordenamento do território.
Que tem a zona industrial do Porto a ver com a desertificação do nordeste transmontano, qual é a similitude de abordagem das questões que afetam Aveiro e Coimbra com as zonas fronteiriças das Beiras? Não estará a região transmontana muito mais próxima, em matéria de interesses, da Beira interior (ou mesmo, no limite, do Alentejo oriental)?
Precisamente porque hoje existe uma multiplicidade de evidentes interesses comuns, não seria de estabelecer uma Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Interior Norte e Centro, amputando para tal as duas CCDR dessas áreas? Mais difícil do que lutar contra interesses instalados é combater mentalidades enquistadas em modelos mentais que alguns se obstinam em não abandonar. É preciso lutar para derrubar o “muro” que separa internamente o nosso território, é necessário lutar pelo "Portugal de Leste" e, de uma vez por todas, caminhar para a unificação do país".

terça-feira, 11 de agosto de 2015

MACACOS E MACACÕES

Não faltam situações caricatas no universo político. Dilata-se o anedotário de circunstância, e, talvez por ser tempo de férias, o improviso e o oportunismo gravitam na política à portuguesa. Uns, os da maioria, olham-se no espelho da pura estupidez, e, com mentiras e mentirolas, não disfarçam a ideia de tomarem os portugueses por idiotas úteis; outros, pululando na oposição do arco do poder, medem oportunidades de mando e sonham ( "quando não há realidade, restam os sonhos", escreveu Ray Bradbury), com Belém, com tal intensidade e desconformidade, que confundem um Palácio com uma candidata com o mesmo nome!
Assim corre este tempo de férias, o país transformado em braseiro, com os grandes incêndios florestais a fabricarem dramáticos infernos no país profundo das serras, políticos a banhos nos Algarves & outros reinos, e o povo a bocejar de sono e apatia cívica, cada vez mais distante das jogadas de bastidores e das estratégias pessoais, de ajustes de contas sumários de vingança eleitoral.
Uns são cada vez mais iguais aos outros, neste mimetismo político de alternâncias e rasteiras. Imitam-se uns aos outros, na prática do velho conceito "os fins justificam os meios", num neopragmatismo de raiz fascistóide.
Então, para amenizar os dias, talvez valha a pena dissipar o fogo e as cinzas que cercam o quotidiano, e ler o poema "O Macaco", que Alexandre O'Neill escreveu nos anos 60, e que bem pode aplicar-se a muitos macacos da classe política que passam a vida a fazer maçadas. De imitação!

"Nunca se sabe
                                    até que ponto
                                                                        um macaco
pode chegar
                                    na ânsia de
                                                                        nos imitar.
Dizem
                                    alguns autores
                                                                        ser o macaco
difícil de apanhar
                                                                        -- mas não
Em qualquer  
                                     mundana
                                                                        reunião
num ombro
                                      numa frase
                                                                         num olhar
no jeito
                                      "humanista"
                                                                         de falar
aí temos
                                       o macaco
                                                                         a trabalhar
procurando
                                        aproveitar
                                                                         a confusão
Pessoalmente
                                        sou de opinião
que o macaco
                                        é fácil de caçar
até à mão.