sábado, 22 de agosto de 2015

CASTELA DE ONTEM E A ALEMANHA DE HOJE

Talvez o país distraído, mesmo o que lê jornais, não tenha reparado na notável entrevista que o Prof. Borges Coelho concedeu ao "Diário de Notícias". Falando de História e da complexidade da sua produção, das raízes que condicionam ou iluminam a sua escrita, o historiador não deixou de falar da história presente e do mundo. Pelo registo da entrevista, nota-se que a conversa fluiu com naturalidade, com o entrevistado a responder sem baias às questões, sem labirintos de pensamentos ou "oráculos" de decifração inútil. Um historiador, pois, na primeira pessoa, que tem elaborado, como poucos, um pensamento sobre Portugal, através de uma investigação de grande rigor e exaustiva. Ele tem descido a alguns infernos como os da Inquisição de Évora e, nos seus livros, encontra-se sempre um fio condutor da História que nos ajuda a compreender o povo que somos, com as nossas grandezas e misérias, os nossos fantasmas colectivos, as razões profundas que alimentam a História. De Borges Coelho, que sofreu na pele a ignomínia dos cárceres fascistas, se pode dizer, em síntese apressada, que são de consulta obrigatória os livros que publicou sobre História medieval e o início da Idade Moderna, e, também, as suas investigações sobre a importância da ocupação muçulmana na Península Ibéria.
Quando o jornalista (João Céu e Silva) lhe pergunta se "preferia ter sido um cronista como Fernão Lopes ou um historiador na actualidade", ele responde procurando o fio de uma relação temporal muito curiosa: "Digamos que o historiador da actualidade tem de ser também o cronista Fernão Lopes. Que não é apenas um cronista pois mete-se por caminhos que são os que hoje exploramos. Vai para o quotidiano; não exclui nenhum grupo social, o que por vezes, mesmo na historiografia contemporânea não se faz, deixando sectores da população num gueto. O foco está sempre nas elites, como se fossem tudo no processo e no movimento histórico".
Noutro passo, pergunta-lhe: "Acha que a construção do mundo já parou?" Ele responde: "Não creio, apesar de a tecnologia - que é fantástica - ter travado brutalmente o progresso social. Porque os homens começam a ser dispensáveis e a ditadura do capital financeiro impôs-se, facto que agora ficou bem visível nestes problemas em torno da Grécia. Quando o Fundo Monetário Internacional vai participar nas reuniões em que se vai castigar a Grécia e, institucionalmente, não está integrado na União Europeia nem foi eleito por ninguém, absolutamente por ninguém, mostra que os governos das nações estão a ser a postos de lado. Ou melhor, estão a ser dirigidos por quem abdicou efetivamente da independência política".
Uma afirmação é particularmente curiosa sobre a articulação do tempo longo da História, fazendo luz sobre a actualidade:"De certeza, mesmo que por norma vejamos a perda da independência para Espanha, mas era para Castela. Digamos que o reino de Castela era a Alemanha de hoje, mesmo que esta seja é uma comparação grosseira. Era a nacionalidade dominante e abarcava não só os territórios e as comunidades da Península Ibérica mas também territórios europeus, e com o caso português também o império ultramarino. Nesse sentido, o projeto de Castela e de algumas elites era o estabelecimento de uma monarquia universal católica".
A conversa gira, também, por Alcácer Quibir, a União Ibérica, a historiografia contemporânrea e os branqueamentos do salazarismo, por exemplo. A ler na íntegra, claro. Mas hoje, o que eu quero é apenas fazer um aceno ao Prof. Borges Coelho, com uma abraço de gratidão pela forma como ele nos tem ajudado a identificar Portugal.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O GOZO DA DIREITA E O DESASTRE DO PS

Em matéria de eleições Presidenciais, o PS transfigura-se, com regularidade, em partido de facção ou de facções, ajustando demasiadas vezes o calendário eleitoral a ajustes de contas antigas, a percursos internos sabotados, a execuções políticas sumárias, tudo em busca de derrotas que se servem como vinganças frias. Por extensão metafórica, se calhar poderíamos considerar estes jogos, longamente preparados nos bastidores até verem a luz do dia, uma espécie do assassinato no comité central, como aquele que o saudoso Manuel Vasquez Montalbán trouxe para a ficção para gozo da literatura e proveito da memória.
Na política de agora, cada um pratica os assassinatos que quer, cada um saca do seu histórico partidário, como quem vai aos armários dos mitos para alimentar os seus egos desmedidos, e, nessa prosápia, sacrificam deveres históricos, valores ideológicos, princípios ajuramentados de tudo fazer em favor da democracia e da pátria.
É isso que eu vejo, enquanto a direita assiste de camarote à procissão de estupidez da esquerda, nesta desvairada corrida da candidatura de Maria de Belém Roseira, empurrada para uma disputa eleitoral que talvez seja mais para encostar António Costa à parede do que colocar alguém de esquerda, na Presidência da República. Penso que os generais que comandam as tropas da nova candidata, nem sequer têm memória de como Cavaco Silva alcançou o Palácio de Belém e do que ele foi, nestes dez anos, como Presidente da República medíocre e subserviente. Talvez se lembrem, mas fingem ignorar.
O PS, em questões presidenciais, é o maior divisor comum. Sampaio da Nóvoa estava no terreno, numa candidatura que não só as maiores figuras do PS apoiaram, como se assumia como potenciadora de unir a esquerda. Primeiro, disseram (muitos dos tais divisores comuns) que nunca tivera cartão de partido, o que na visão aparelhística, de cariz estalinista, era um grave pecado que o devia remeter para o fundo dos infernos; depois que tinha uma retórica esquerdista (calcule-se que até cometia o gravíssimo crime de citar Zeca Afonso e falar em Abril!), o que era perigosíssimo para a ordem estabelecida!; finalmente, que nunca desempenhara cargos políticos, como se ter sido Reitor da Universidade de Lisboa e possuir uma biografia de serviço público no Ensino não fossem coisas relevantes em favor do país.
Neste caso da divisão operada no PS, à volta das Presidenciais, tanta miopia política só pode ser levada à conta de oportunismos fáceis ou daquela estupidez contar a qual, dizia o poeta, até os deuses lutam em vão. Em todo o caso, se os entusiastas da causa lessem jornais, talvez valesse a pena sobre este parágrafo de Marcelo Rebelo de Sousa (putativo candidato do PSD) ontem publicado no "Público", que diz assim: "Marcelo Rebelo de Sousa afirma que o PSD não pode cometer "nenhum tipo de erros" nas semanas que antecedem a realização das legislativas de Outubro e lança um apelo para que, internamente, se evitem divisões em matéria de presidenciais como as que estão a acontecer no PS".
Claro como a água. Mas os divisores comuns querem lá saber disso. Eles apenas desejam levar a água ao seu moinho...

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

"E OS DOS TREZENTOS?"

Anoto do Blogue de Eduardo Pitta, "Da Literatura", o seguinte comentário:
"Cito do DN: Hoje, um em cada cinco trabalhadores (19,6%) ganha o salário mínimo nacional de 505 euros por mês. Em 2011, antes das medidas de ajustamento impostas pelos credores, apenas 11,3% recebiam a remuneração base, então de 485 euros. Eu gostava era de conhecer a percentagem dos que ganham ABAIXO do salário mínimo nacional, com o argumento de que o horário de trabalho é inferior a 40 horas por semana. E não estou a falar de trabalhadores de call center, de lojas de bairro ou de restaurantes étnicos. Estou a falar de empresas de primeira linha. Quantos são? Isso é que era interessante saber".
Também eu gostava de saber. Mas essas são os números que vivem na opacidade do mundo-cão que nos calhou em sorte e que é preciso mudar. Faço minha a sua perplexidade -- "E os dos trezentos?" -- que é uma espécie de indignação pela precariedede e pobreza que envolvem como nuvem negra a sociedade portuguesa.

domingo, 16 de agosto de 2015

POR UMA "INEQUÌVOCA" DERROTA!

Ontem, na festa do Pontal, que reuniu as hostes do PSD e do CDS, Passos Coelho & o "irrevogável" Paulo Portas, foram os artistas da festa de propaganda eleitoral. A determinada altura, o primeiro-ministro afirmou sobre as próximas eleições legislativas, em Outubro: "se o resultado não inequívoco o próximo governo será cheio de problemas".
Ele trem razão: se não houver uma inequívoca derrota da coligação de direita, não é só o governo que sair das eleições que ficará cheio de problemas, serão sobretudo os portugueses que, nestes quatro anos, comeram o pão que o diabo amassou, viram a pobreza alastrar, os direitos sociais destruídos, os salários cortados (inconstitucionalmente), a emigração levar meio milhão para o estrangeiro à procura de emprego, os velhos transformados em inimigo a abater, o desemprego (apesar das mistificações) a dilatar-se, dando ao país a imagem da esperança todos os dias assassinada.
De facto, esta miséria, mansa ou mais intensa, em que se tornou o quotidiano da maioria dos portugueses, a desesperança e a pobreza da própria classe média, não podem, como exigência de futuro, impor outra coisa senão uma "inequívoca" derrota da coligação de Psssos & Portas. Estamos fartos deles!