sábado, 29 de agosto de 2015

VIAGEM A ITÁLIA



Não há como o Verão para procurar, na cartografia de viagens que a literatura oferece, um espaço único de liberdade, tão grande que nos leva a continentes de sonho imaginários, lugares puros da criação,como muitos daqueles que Alberto Manguel nos decifra no seu surpreendente Dicionário de Lugares Imaginários. Mas há também a experiência de viajantes profissionais ou ocasionais que, caminhando pelo mundo, nos levam a levantar os pés do chão e embarcar nessas aventuras de olhar outros e mais largos horizontes.
Então, esses livros de viagem, potenciam sempre enormes descobertos, e alguns, nascidos de meras experiências pessoais, de registo mais intimista, tornam-se verdadeiras surpresas. Foi o que aconteceu com Viagem à Itália, de José Manuel Castanheira e Pedro Castanheiro que se pode incluir numa nomenclatura de narrativas de viagens, substancialmente diferente do que é comum neste género literário. Desde logo pela expressão plástica do livro e também pela geografia da própria viagem, e depois pela unidade entre a a pintura que o livro contém e a escrita poética do narrador, Pedro Castanheira.
O livro tinha tido uma primeira apresentação no Festival Literário da Gardunha, e em Julho, no Instituto Italiano, tive o prazer e a honra de proferir algumas palavras sobre Viagem à Itália, tendo por companheira a escritora Paola D'Agostino, professor e poeta, e, sobretudo, amiga.
Esta nota é apenas para deixar aqui registado que é este um livro que vale a pena, um belo objecto que fica bem em qualquer biblioteca. E eu, que tive a sorte de assinar o prefácio, aqui deixo esse texto como sinal de apreço sobre uma obra em todos os aspectos verdadeiramente excepcional. Escrevi, então:

"Penso que foi Verlaine quem, à volta de Rimbaud, falou no “homem com solas de vento”. É Bruce Chatwin, no seu Canto Nómada quem refere a sugestiva expressão, no sentido de uma recusa frontal da imobilidade, que era, para os autores franceses do século XIX, uma fonte de tristeza e melancolia. A viagem é, pois, sempre – apesar de todas as contingências da história (veja-se o Mediterrâneo transformado pelo massacre dos novos “condenados da Terra” em cemitério a céu aberto), um acto de libertação e de superação de horizontes e atavismos, um traço essencial de contemporeinidade. Nesta circunstância de percursos pessoais sem fronteiras físicas e mentais, que às vezes fazem lembrar aqueles cavaleiros do deserto que se punham sempre a caminho, mesmo que o vento das montanhas do Magrebe soprasse contra, é que se assume verdadeiramente a condição de cidadãos do mundo, no contacto dilatado com terras e gentes, na diversidade de culturas e rostos, na capacidade de compreender tudo aquilo que é diferente ou contribuiu, decisivamente, para a matriz cultural de sentido universalista.
O José Manuel Castanheira, que na sua forma de encarar a cenografia e a pintura sempre assumiu uma espécie de cidadania planetária, pois vemo-lo com o mesmo brilhozinho dos olhos em Alpedrinha, acolhendo-se à sombra da Gardunha, ou imaginando uma cegonha gigante que no seu voo paira como presença sobre a raiz ibérica, mas também na geografia da expressão plástica a sua obra, como se fosse “o mundo à sua procura” (Ruben A.) caminha por países tão diferentes como o Brasil, Espanha, França, Itália ou República Checa, inventando os seus mundos, no palco ou na tela, a que liga muitas vezes, nessas espacialidades fantásticas, a poesia.
Olhemos, pois, para as cores de José Manuel Castanheira, às vezes dissolvidas num cromatismo vivo ou agreste do drama, outras nas doces tonalidades do sonho e do amor, sempre na procura de um real que só os olhos da arte podem alcançar. Este livro, como um Caderno de Viagem (desses que Chatwin gostava), é um belíssimo objecto, uma combinação muito intensa, como são todas as cumplicidades, que articula a cartografia plástica do José Manuel Castanheira com a escrita do Pedro Castanheira, que tem uma música especial. Essa relação arterial torna Viagem à Itália numa aventura muito especial, única decerto pelas emoções dos instantes vividos.
O José Manuel Castanheira e a Mila também transmitiram muito do seu adn do sonho, de fantásticas viagens da criação, ao filho Pedro, o Pedro Castanheira, que depois de Portugal, muito jovem, foi para Espanha e depois para o Chile, onde esteve, e onde andando abriu caminho em busca de outras expressões artísticas, designadamente no cinema, sua grande paixão. Eu que o conheço de muito tempo, desde menino, sempre vi nele uma curiosidade artística muito incomum, feita de paciência e rigor, na aprendizagem, e de alto voo em viagens imaginárias.Não me surpreendeu, por isso, esta Viagem a Itália, onde a arte poética condensa uma narrativa vivida na primeira pessoa, numa fala interior ao mesmo tempo despojada e afectiva, como se o autor estivesse a falar consigo próprio, em voz múrmura, do seu universo próximo e primordial.
Penso que foi Saramago que disse ser cada viagem sempre um recomeço e Torga, nas suas navegações em terra, recomendava que “devemos encher os olhos com a mesma paisagem tantas vezes quantas forem necessárias para que ela seja dentro de nós um cenário quotidiano”. Nesta Viagem a Itália, Pedro Castanheiro abre o seu poema com um verso que traduz essa ideia de viagem interior, que a memória regista e leva depois à convocação dos territórios da infância que, como disse Elliot, estão sempre eternamente presentes. "No fim da viagem que agora começa/encontrarei minha mãe feliz, flutuando/pelas ruas de uma cidade desconhecida, livre/e rejuvenescida – como se tudo pudesse recomeçar". E pode, acrescenta Pedro Castanheira. E aqui está contido o sentido da viagem, num registo onde o tempo se dissolve. "À nossa frente, a estrada abstracta/aparece lisa de repente/e dá até a sensação de verdade,/não fosse fugir lá atrás claramente".
O que é surpreendente nesta Viagem a Itália é que a topografia do autor vai menos ao encontro dos lugares e dos clichés, como seria de supor, e mais aos detalhes da memória, como acontece quando escreve sobre a Ponte del Diavolo, que lhe evoca histórias de livrinhos ilustrados lidos nas “manhãs eternas da Caparica”. O autor: "Fico, sozinho. Como se eu próprio me transformasse agora numa outra ponte e graças a ela pudesse enfim chegar até à minha infância, à luz exacta da manhã em que desejei aqui estar”. Sempre histórias dentro da sua geografia, como a do barão Cosimo, na estrada “que nos leva de Florença a Siena”, que “é uma pequena maravilha”.
O autor do texto, Pedro Castanheira, no registo às vezes confessional da prosa, adverte que “a paisagem, perfeitamente domesticada”, o aborrece”. Caminha por outras realidades interiores, entre a poesia e a prosa, ou entre a prosa e a poesia, como quando

Senta-se a realidade à mesa deste café
e os meus olhos repetem o olhar
de outros homens de outros tempos
na mesma direcção

do outro lado da praça
o mesmo sol
visita todos os dias
a mesma pedra

preenche depois a distância
com o vagar de uma cortina
e é sempre o mesmo palco que se revela

depois de outros homens de outros tempos
a linha do sol avançará sobre os meus dedos
sob o mesmo lema

nenhum deles nenhum de nós
soube ainda como guardar o sol
dentro do poema

A viagem pode recomeçar. Outra vez. E é essa aventura que as imagens e as palavras, na substância da sua beleza, nos convocam no prazer da leitura e do olhar.
À procura do sol, digo eu".

Fernando Paulouro Neves
Maio de 2015.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

QUE PAÍS É ESTE?

Fotografia do "Público"
Noticia o "Público", hoje: "Os directores dão conta de licenciados e doutorados a participarem em concursos para funcionários que tanto vigiam recreios como podem limpar os WC".
Aí está a imagem perfeita do país a que chegámos, e, sobretudo, da forma expediente não só como o governo aproveita os recursos humanos da nação (o capital mais precioso, blé-blá-blá...), como materializa um política de emprego de grande densidade humana.
Que raio de país é este?

PORCARIAS NO POTE

Talvez a expressão popular que melhor se aplique a tudo o que se está a passar com as privatizações seja aquilo que se dizia face a qualquer quadrilha que rapinava bens alheios, sem escrúpulos ou limites de quaisquer ordem. Diz-se então, quando essas situações acontecem, como se fosse a expressão da mais pura perplexidade: "É fartar, vilanagem!" É isso que se pode dizer, sem receio de excesso, quando se olha para a forma como o Governo, no âmbito das privatizações, tem delapidado a res pública, fazendo do património nacional, incluindo equipamentos ou serviços estratégicos, negociatas a retalho, como se tudo não fosse outra coisa que negócios de compadres. Já se foram os anéis e os dedos, ficou o país mais pobre e indefeso, embolsam capitalistas estrangeiros ou até Estados, como a China, enquanto o governo sorri felicíssimo por este autêntico leilão acanalhado. Não adianta protestar ou denunciar, ou mesmo recorrer à via judicial, que a panelinha foi bem estudada. O último escândalo é o Metro no Porto. Não resisto a reproduzir do Blogue "Câmara Corporativa" um grande plano da negociata, sem retoques, uma vez mais para que conste que algo está podre não na Dinamarca, mas neste reino velho sem emenda, como dizia Ribeiro Sanches. Leiam s.f.f.
"Emporcalhar-se no pote com Cavaco a assistir

GOVERNO PRIVATIZA METRO NUMA SEMANA
 (Anteontem no Jornal de Notícias)

.Concessão inclui autocarros do STCP e será feita por ajuste directo, depois do falhanço do concurso. .Urgência no processo justificada com interesse público.
.Autarcas da Área Metropolitana do Porto foram apanhados de surpresa e questionam primeiro-ministro

Ajuste directo em contra-relógio é uma atrocidade. Ou uma vergonha. Ou um escândalo-nacional. Este artigo ou este título contextualizam o que está em causa em mais uma transacção das arábias. Mas isto inspira quatro breves notas:
O POTE — A direita continua numa corrida desenfreada ao pote como se não houvesse amanhã. • *A GRANDE SONDAGEM — Este comportamento revela que a coligação de direita já interiorizou que, a 4 de Outubro, o seu destino está traçado.
 • O ESTADO DE DIREITO — A forma despudorada como o Governo de Passos & Portas actua faz crer, até aos mais distraídos, que está em causa «o regular funcionamento das instituições democráticas».
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA — Se é verdade que Passos Coelho meteu o Presidente da República no bolso, ao permitir-lhe um segundo fôlego na sequência das demissões de Vítor Gaspar e Paulo Portas no Verão de 2013, não menos verdade é que, desde que assumiu funções públicas em 1980, Cavaco Silva sempre pôs os seus interesses pessoais acima de quaisquer outros, pelo que a sua completa inacção perante os desmandos dos pantomineiros é um mistério maior que os segredos de Fátima".

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

LIMPAR O PÓ


Só o futebol (ainda por cima com a transumância de treinadores) parece ter despertado o país da sonolência do Verão, essa apatia estendida na areia ou nos caminhos de Portugal, como diz a canção. Os verdadeiros dramas, as novas guerras que despedaçam quotidianos passam-se longe e o impacte visual das mortes já não desassossega (ou desassossega pouco) as frágeis consciências dos mortais que todos somos. Ele há grande problemas, como dizia o conselheiro Acácio do Eça, mas a retórica que fica, na conversa ou no arremedo de diálogo, é tristemente redutora no plano elementar da humanidade. Enquanto a agonia da Europa prossegue, com os condenados da terra dos tempos modernos a morrerem às suas portas -- só em Julho 110.000 pessoas atravessaram o Mediterrâneo (que se tornou cemitério a céu aberto) para entrar na Europa -- o chamado Estado Islâmico é um complacente dispositivo sanguinário, que assassina e decapita, e destrói bens civilizacionais sem dó nem piedade, enquanto o mundo dorme a sua sesta, apenas vigilante aos sobressaltos financeiros provocados pela China (ai que lá se vão os Vistos Gold do Portas!). Assim vai a aldeia global, mais ou menos distraída com fait-divers de circunstância (ah! o sr. Trump!), enquanto a aldeia local ri à gargalhada com o remake do Pátio das Cantigas, ensaia os seus futebóis, apaga os fogos florestais ou deixa arder até aqueles se cansarem, põe o pé na água ou reclama que ela está fria pelos algarves, assiste enfadado à narrativa política que as televisões transformam numa espécie de folhetim do prime time. E vêm as promessas e as devoluções , mais as aldrabices do desemprego, e só no mais coisa os tipos do governo estão à altura das circunstâncias: é quando sorriem aos números alcançados pelo saque dos impostos! Aí, sim, falam a verdade, batem na barriga satisfeitos e dir-ao mesmo, nalguma universidade de verão para os meninos jotas aprenderem:
-- Vêem como o crime compensa!
Assim vamos, meus amigos, nesta jangada virada para terra, em que sopra a brisa encapotada das presidenciais, com o prof. Marcelo a dar a táctica e juiz em causa própria, e o Luisinho Marques Mendes a pedir calma aos putativos candidatos, e logo a estes se juntam os outros, os da Maria de Belém que qual Joana D'Arque sai à liça com o seu exército para afugentar o demónio que ela, santinha dos pés à cabeça, assim vai na sua missão divina para afastar o demónio Sampaio da Nóvoa...
Hoje, no "Público", de novo Paulo Rangel, do PSD, vem saudar o exército de Belém, numa espécie de "Portugal Prá Frente" das Presidenciais: "E quiçá ao contrário do que muitos supõem e outros apregoam, essa (apresentação cedo das candidaturas presidenciais) seja até a forma de melhor preservar a tão estimada autonomia das eleições legislativas. Foi isto que Maria de Belém percebeu. E por isso e não pelo cálculo maquiavélico à maneira dos Titos de Correia de Campos, saúdo o seu gesto e a sageza da leitura do que está em causa nas presidenciais de 2016".
Quiçá, quiçá, como diz a canção. Estes apoios de Paulo Rangel não enganam: são como o algodão quando limpa o pó!

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A GLÓRIA UNIVERSAL DE "PEDRO PÁRAMO"



JUAN RULFO

O que é verdadeiramente fascinante na literatura é a capacidade para criar realidades, mundos autónomos e diferentes dos que conhecemos, naquilo que Mário Vargas Llosa considerava um desafio criador a Deus (ou um "deicídio"), na medida em que a criação era precisamente um acto desafiador à edificação de um mundo outro, com personagens e temporalidades. É verdade que a existência é ficcional, mas ela faz-nos sonhar, às vezes com desmedidas utopias, e, quando o esplendor da imaginação atinge os altos voos da criação universal, a literatura e a poesia fazem corpo connosco na forma de aprendermos a olhar as coisas e os detalhes do mundo. Os livros que nos tocam como a brisa do mar tornam-se companheiros de jornada, acompanham o nosso respirar dos dias, e não poucas vezes colocam frémitos de esperança no meio das brumas.
Falo disto hoje porque passam hoje 60 anos da publicação de um desses livros que tocaram o céu da criação universal e se tornaram para sempre património da humanidade. Falo de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, o genial escritor mexicano. Autor de obra curta, mas esplendorosa, inesquecível na sua dimensão poética e na capacidade de nos transportar para uma realidade fantástica, uma síntese de realidade e de sonho (o mundo dos mortos) surpreendente na expressão fantástica de uma escrita de densa condição humana. Pedro Páramo e cito de memória a abertura da sinfonia criadora: "Vim para Comala porque me disseram que lá vivia meu pai..." Não sei quantas vezes li aquela novela, e de cada vez que percorro aquelas páginas, mais únicas e geniais me parecem na forma da criação de um universo onírico que a literatura universal tomou como seu:um livro inesgotável.
O "El Pais" relembra hoje o acontecimento e sublinha como, contou Juan Rulfo (orfão aos dez anos, enviado pelos avós para um internato, a importância decisiva na sua formação do acesso a uma biblioteca, "um puro milagre", "a biblioteca do padre da sua aldeia, Ireneo Monroy, que levava os livros das casas com a desculpa de ver se eram permitidos, mas o que fazia, na realidade, em ficar com eles". Rulfo: "As novelas de Alexandre Dumas, as de Víctor Hugo, Dick Turpin, Buffalo Bill, Sitting Bull".
As pistas que abre a leitura de Pedro Páramo num livro agora publicado pela Fundação Juan Rulfo, que reúne um notável conjunto de ensaios sobre a obra-prima! Num artigo de Rulfo, a propósito dos trinta anos de Pedro Páramo e El Llano en chamas, confessou que as histórias que imaginava nasciam a partir do que "vi e escutei na minha aldeia e entre a minha gente".
Não esqueço, também, a surpresa que abalou Gabriel Garcia Márquez quando leu e releu de uma vez Pedro Páramo e como o livro o marcou para todo o sempre. Pedro Páramo! Glória eterna a Juan Rulfo.


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

RESPIRAR PELA ÁGUA

Neste Agosto azul, azul de mar e azul de céu, regresso ao prazer de leituras antigas que nos reconfortam sempre com a vida. No bornal, leituras antigas e imediatas, para estar a pau com a escrita, e a poesia necessária para iluminar o tempo. Um destes, de um querido amigo e grande poeta, o João Rui de Sousa, cuja arte poética tem um fascínio  muito especial pelos elementos de matriz cósmica, o que lhe dá uma dimensão telúrica singular. Esse fascínio do poeta tem uma atenção particular à água, que ele segue e cria, em versos muito belos, como um rio que corre para outros mares. Curiosamente, não há muito tempo, dois professores italianos, que ensinam literatura portuguesa em universidades italianas, António Fournier e Alessandro Granata Seixas, publicaram uma pequena antologia poética de João Rui de Sousa intitulada Respirare atravesso l'acqua. O poema que origina o título é uma síntese que explica tudo:

"Respirar pela água 
-- respirar absolutamente"

No garimpo das palavras, João Rui de Sousa cava fundo:

"Quase sempre as palavras serão sombras
de puras circunstâncias, acidentes fortuitos
pedaços de papel caídos na berma dos passeios

Mas é por elas que se recortará o rosto do real"

Neste Agosto azul, entre a Figueira e a Gala, com o mar todo à minha frente, as palavras recortam o rosto infinito do oceano. Respirar pela água, meu Poeta. Absolutamente.

domingo, 23 de agosto de 2015

BELÉM E O CDS

Houve um tempo, que nos parece já tão distante, em que a política se fazia como um combate em que a coerência, a fidelidade a princípios, a crença nos valores que eram parte inteira do interesse colectivo, a aposta em fazer dela um meio para transformar a realidade, a materialização de utopias ou sonhos cuja síntese era a felicidade possível para todos. Mesmo quando a razão escapava, na defesa intransigente de prolegómenos ideológicos, a comum humanidade acabava, mais tarde ou mais cedo, para vencer cercos de energúmenos, que abominavam a liberdade e apenas olhavam a política como um meio para se servir, tratar da vidinha, obter resultados pessoais que, às vezes, se mediam em gordos cifrões. Muitos, é verdade, apostavam apenas naquele conceito que Visconti celebrizou em O Leopardo: é preciso que alguma coisa mude, para tudo ficar na mesma! Essa configuração das coisas a uma imobilidade social e à persistência dos males que desgraçam os povos, ampliam desigualdades e pobreza, garantem os interesses de autênticas quadrilhas financeiras, nacionais e internacionais, regressou ao nosso convívio e cada vez há mais gente que pensa que veio para ficar, como antigamente se dizia dos toyotas.
Nos dias que correm, o que é mais surpreendente é a banalidade com que se hipotecam valores, se assasinam princípios éticos e solidários no interior dos partidos, para protagonistas inesperados se alcem ao galarim da notoriedade, pondo no "prego" a consciência cívica e política, mendigando apoios espúrios à matriz originária, numa espécie de leilão de saldos ideológicos em que envergonham qualquer noção de decência.
É isso que os jornais nos vão dizendo, na crónica imediata dos dias que nos cabem em sorte, agitando o Verão morno de ideias políticas que vai cumprindo o seu calendário. Ainda agora, o último número do "Expresso", que é muito expedito em amplificar candidaturas que sirvam, objectivamente, a direita, dizia, com grande destaque na primeira página: "Maria de Belém tenta garantir apoios do CDS". E na notícia se explica que "o namoro" vem desde Abril e que, segundo o semanário, a candidata será quem melhor chega "ao eleitorado conservador". Ainda o jornal: "De todos os socialistas, é a mais próxima do discurso do CDS: é católica e tem grande ligação a questões sociais. Só lhe falta falar de agricultura, ironiza um dirigente do Caldas. "Ideologicamente não gera anti-corpos no CDS", diz um vice-presidente do partido. Melhor: só mesmo se fosse Guterres".
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