sábado, 5 de setembro de 2015

OS QUE GOSTAM DO AÇAIME!

Dizem que os criadores têm uma percepção muito próxima da realidade e um capacidade especial para o seu conhecimento profundo, moldando nesse barro a matéria exacta das suas obras. Pensei isto, ontem, quando li uma notícia rápida, no "DN", sobre António Lobo Antunes, que depois de ter recebido há anos o prémio José Donoso, um dos mais altos galardões da República do Chile, recebeu um volume com textos seus, editado pela universidade de Talca.
Ora, o escritor português, na sua fala, não se esqueceu da situação portuguesa, agora tão pintada por cores mansas, e disse que "os portugueses estão a viver de forma muito dura e a serem tratados como cães".
Anoto bem: "como cães". Ouvindo muitos dos sujeitos que andam por aí papagueando as virtudes do paraíso da maioria, e vendo os apaniguados atentos, veneradores e obrigados, apetece pensar que alguns não só gostam de ser "tratados como cães", como, ainda por cima, gostam de trazer açaime!

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

SERMÃO DE PAULO AOS JOTINHAS

É bem verdade que a ironia é uma essencial arma da crítica, e o Embaixador António Russo Dias bem a tem exercitado, como já tenho referido neste espaço. Num tempo em que o anedotário político parece não ter limites, o nosso diplomata zurze em verso, na melhor tradição satírica, que é veia mestra da nossa literatura, muitos desses aspectos da política à portuguesa. Agora, chegou a vez de Paulo Rangel e ele bem merece a ironia demolidora do poeta. Aqui os deixo para deleite dos meus leitores, com um abraço de gratidão a António Russo Dias. Ei-los:

"Onde se conta a verdadeira história do Sermão de Paulo aos Jotinhas

De preto vestido, dedinho espetado,
voz de roberto, está encantado!
Peripatético, a falar aos jotas
sente-se um sábio perante idiotas.
"Eu é que sei, olhem bem p'ra mim,
falo em Bruxelas, ouvem-me em Berlim.
Já fui do governo, quase presidente
(pensa para si, não muito contente,
'foi um pobre tolo que me venceu
e o Grande Chefe devia ser eu')
E segue o sermão de S. Paulo à jota,
mas ficou-lhe a dor daquela derrota...
"Se eu lhe desse agora a resposta
e o fizesse perder a aposta?"
Pensa o rapaz com os seus botões:
"Lixo o partido que perde eleições,
Lixo-me a mim que pareço tolo.
Mas também te lixo, meu grande parolo;
lixo-te a ti, minha alma danada,
que há cinco anos me deste a banhada!"
Ri-se para dentro, sente-se maroto.
"Vais ver agora, seu rato de esgoto.
Meu grande malandro, palerma sinistro
que até chegaste a primeiro-ministro".
E num arroubo de inspiração,
sabendo-se alvo de toda a atenção,
modula a vozinha de palhaço rico
E grita ao público que assiste ao circo:
"Duvidam vocês, ó pobres rapazes,
que os do PS são muito capazes
De forçar tribunais, comprar magistrados
só para safar os apaniguados?
Mas olhem para nós, gente impoluta,
que manda prender qualquer filho da puta
que roube, enriqueça a receber suborno
ficando o Estado com a ponta de um corno!
Vede os submarinos, olhai o Loureiro,
a Tecnoforma e aquele dos sobreiros,
os do BPN, o gajo da Gaia e outros que tais
E se mais houvesse prendiam-se mais".
Cansado mas feliz, de alma lavada.
Depois de ter dado aquela porrada
Sai o pequenote contente e ufano.
Aplausos, luzes e caiu o pano"
1/9/2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

AI, O AR!

O ar que alguns respiram não é igual ao de Paulo Rangel

O eurodeputado Paulo Rangel, que é decerto uma pessoa respeitável, desde que, em tempos idos, inventou o célebre conceito de "asfixia democrática", que nunca mais largou as manobras respiratórias dele, e do país.  Ontem, no "Público", a sangrar-se em saúde depois da bronca sobre a Justiça à ºportuguesa, na sua aula aos meninos jotas da universidade de Verão, escreveu na sua habitual página um longo artigo, cujo título revelava inquietação meteorológica: "A Tempestade de Verão". Uma coisa dos diabos, sabe-se lá se um furacão, de que ele próprio tinha sido o epicentro. Não se conhece, ainda, a dimensão dos estragos nas hostes do PSD. Ora, Paulo Rangel, sempre com problemas respiratórios de carácter político, veio dizer o seguinte: "Podem dizer o que quiserem. Mas sob o ponto de vista do Estado de Direito, o ar é hoje bem mais respirável do que era em 2009 e 2011".
Mais respirável, disse ele. Não sei onde ele foi fazer a medição, mas decerto não a praticou na respiração de angústia dos desempregados ou na asfixia -- essa sim, bem real! -- dos que se suicidam por verem os horizontes de vida destroçados. Tão pouco colheu a respiração de desespero dos quase dois milhões de pobres. Esses, coitados, o ar que respiram é um veneno diário.
Curiosamente, no mesmo jornal, José Vítor Malheiros dava nota destas realidades dramáticas que o Poder tenta tornar invisíveis ou inexistentes, pelo menos nas saborosas estatísticas  de que a maioria se alimenta. Cito do José Vítor Malheiros: "Passos Coelho chegou agora ao cúmulo de erigir o combate às desigualdades como um dos objectivos de um futuro governo do PAF e de garantir que esse sempre foi uma das preocupações do actual governo. A lata do homem que mais portugueses atirou para a pobreza não tem limites, a sua falta de vergonha é abissal, o seu decoro inexistente. Mas quem o dirá com a veemência que o facto exige?"
Boa pergunta. Porque a retórica política, mesmo a das oposições, é de água-chilra. E se não nos pusermos a pau com a escrita, então eles respirarão o melhor dos ares, e a nós será um ar que nos dá!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

SOBRE LADRÕES


É uma daquelas empresas infinitas, sem princípio nem fim, a leitura das "Obras Completas do Padre António Vieira, pois elas contêm aquela virtualidade que Borges gostava de atribuir à Biblioteca: um universo, na diversidade temática, no carácter multidimensional da crítica e do pensamento, no acervo de conhecimentos e da natureza da Humanidade que as suas palavras comportam. António Valdemar. querido amigo, é leitor diurno e nocturno dos livros de Vieira, e agora, em tempo (ainda) de férias, remeteu-me três pensamentos colhidos no "Sermão do Bom Ladrão", que são de proveito e exemplo para reflexão sobre os dias que correm. A actualidade do pensamento de Vieira, tantos séculos depois, aí está, nítida e transparente, com os ladrões altamente especializados, na órbita dos poderes ou até dentro deles, gozando, claro, a imemorial impunidade que o Sermão de Vieira já reflecte abundantemente.
Então, aqui deixo os três pensamentos, na esperança de que sirvam para reflexão colectiva sobre a arte de roubar. Ei-los:
*"Não são ladrões apenas os que cortam as bolsas.Os ladrões que mais merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e as legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais, pela manha ou pela força, roubam e despojam os povos.
*Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam correndo risco, estes furtam sem temor nem perigo.
*Os outros, se furtam, são enforcados; mas estes furtam e enforcam."



TERTÚLIAS

Não é possível imaginar a importância cultural que tiveram as tertúlias literárias e artísticas em Portugal, então um país com grades, e em que essas reuniões de café eram espaços de liberdade livre, como a poesia de António Ramos Rosa, que consolidaram movimentos estéticos e criadores de grande relevo na cultura portuguesa. Mesmo antes do 25 de Abril, elas foram desaparecendo, os cafés foram dando lugar a bancos e assim se foi reduzindo um poderoso imaginário cultural-
Hoje, voltei a lembrar-me delas porque o meu amigo e grande pintor António Carmo me enviou uma imagem que evoca "A última Tertúlia da Brasileira do Chiado". É um quadro que António Carmo pintou, sempre com a marca da sua explosão cromática, e onde figuram Virgílio Domingues, António Carmo ele-próprio e Alberto Gordillo. O óleo é deste ano. A memória permanece bem viva, meu caro António Carmo. Um abraço.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

CONHECIMENTO DE CAUSA...

Dizem as gazetas que o primeiro-ministro Passos Coelho, na sua ida à universidade de verão, iniciativa onde se têm dito boas bacoradas (a começar pelas bolsadas por Paulo Rangel...), afirmou.que "não podemos canalizar o financiamento para protegermaus negócios apenas porque temos lá gente amiga ou porque andámos com eles no liceu ou na universidade, ou os conhecemos do partido".
Não é preciso ser bruxo para adivinhar que, nesta matéria, Passos Coelho deve ser catedrático e pode falar com cindiscutível conhecimento de causa. Poderá ter sido mesmo a sua experiência pessoal a estimular reflexão com tamanho sentido ético. O primeiro-ministro poderia lá esquecer o obscuro caso da Technoforma vivido com os seus amigalhaços alaranjados?