sábado, 12 de setembro de 2015

O SEM-ABRIGO DO PARQUE

A cidadezinha costeira, aberta ao sol e ao mar, tem um belo parque, com árvores centenárias, cujas raízes grossas rompem do solo, e relvados extensos, e caminhos, e pássaros que se empoleiram para cantar nos mais altos ramos. Esta diversidade natural também se completa no plano humano: há crianças, às vezes muitas crianças a brincar, há jovens com a felicidade toda nos olhos a namorar, há desportistas nas suas voltas do footing (muitas raparigas com passada larga e phones nos ouvidos somando quilómetros à vida), há idosos ainda não engaiolados, que por ali preenchem os dias que faltam no convívio pleno com a Natureza, que é afinal o que dá a sensação de eternidade possível.
Pertenço ao universo ocasional que frequenta aquele espaço, microcosmo de paraíso terreal, e olha as árvores e escuta as sinfonias da passarada como se estivesse a andar sobre um território de felicidade possível. Nestas navegações, graduado o nível da observação, encaramos os outros com a comum humanidade que se reparte, igual, por todos. Também por lá passeiam turistas com máquinas fotográficas a tiracolo ou telemóveis à mão, e, enquanto o Inverno não bate à porta, o tempo parece espreguiçar-se nos dias ainda longos do calendário.
A um canto do parque, num espaço mais atreito à solidão, descobri um daqueles detalhes que não fazem parte da paisagem dos outros, daqueles que se movimentam numa realidade onde se respira pelo menos a possibilidade de viver como gente. Era um homem e na coreografia restrita dos gestos, parecia um sem-abrigo. E era. Escolhera uma árvore alta e de copa larga e na bifurcação dos dois grossos ramos que nasciam do tronco comum, como uma forquilha enorme de uma fisga gigante, colocara o seu escasso património: um "edredon", um cartão para iludir a dureza e a humidade do solo, algumas peças avulsas de roupa e uma toalha de banho. Olhei de longe para ele: era um sujeito não muito velho (nestes casos nunca é possível avaliar a idade: o traço comum da velhice é o rosto gravado de rugas fundas), que eu imaginei apanhado pela máquina da crise montada pelo governo para ceifar vidas. Mais um que não entra nas estatísticas do desemprego... Bem sei que alguns tipos de pança cheia, costumam olhar para estas realidades com uma expressão comovida:
-- É a vida!
Eu gosto de utilizar a fala de Gil Vicente:
-- É a morte de nossas vidas,,,
Continuei a imaginar um quadro humano que pudesse sobrepor-se à situação, sabendo embora que nestes casos, densos de drama, a realidade é sempre mais forte que a imaginação. E dei comigo a pensar numa pessoa atirada subitamente para a margem, empresa fechada, desempregado de longa duração, recursos económicos esgotados, a via sacra de andar de porta em porta a ouvir aquela condenação inapelável:
-- Nós não empregamos velhos!
O Sem-Abrigo do Parque, adivinho eu, gostou do Parque por lhe parecer um espaço de liberdade. Havia pássaros, crianças, fugidios frequentadores. (Lembrei-me de um destes casos em que a exposição social do caso começou a incomodar a paisagem envolvente, embora estes sejam sempre universos de silêncio, não se ouvem vozes nem sorrisos. Então, encheram-se de brios os burocratas da acção social e foram lá tentar desalojá-lo, transferi-lo porventura para lugar mais periférico e longe dos olhares inquietos. Parece que a brigada chegou à fala com o Sem-Abrigo. E talvez ele, a gozar o tal sol que deve para todos, possa ter pedido para não lho tirarem, como Diógenes respondeu ao grande Alexandre. O que de certeza se sabe é que ele terá respondido aos burocratas da solidariedade:
-- Deixem-me em paz! Não vêem que eu já não faço parte do vosso mundo!).
Às vezes, o Sem-Abrigo, indiferente ao bulício envolvente, estendia-se ao sol para retemperar forças, outra vez eu a pensar em voz alta. E por ali ficava até que fosse à procura da sopa que engana a fome e a pobreza.
No outro dia, passando pelo Parque, procurei com os olhos o Sem-Abrigo. Não estava lá, nem a árvore era já a casa dos seus parcos pertences.
Viera a chuva, as folhas das árvores começavam a cair, lentamente, uma brisa fria ("o vento estava ventando", lembrei-me do belíssimo poema de Mário Quintana), a humidade ensombrava as noites que antecipam sempre o final do Verão.
Por curiosidade, perguntei a um dos funcionários do Parque, se sabiam dele. O homem sorriu:
-- Então, não sabe? Ele, quando o Inverno está para vir, vai para outras paragens... Esta é só a sua residência de Verão!
Imaginei o Sem-Abrigo a caminhar, levando a "casa" às costas, à procura de algum vão de escada abandonado, na zona histórica da cidade ou na periferia urbana. Para o ano, farei a prova de vida que esta história comporta: se ainda estiver vivo, o Sem-Abrigo regressará ao sol do Parque e acolher-se-á à copa da árvore grande, como quem regressa a casa.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

PROBLEMA INFANTIL

Agora, que os putos se preparam para regressar à escola (e alguns já regressaram mesmo) e as questões das crianças ganham alguma actualidade, ofereço aos meus Leitores uma pequena crónica de Carlos Drummond de Andrade, que publiquei no JF, onde o grande poeta era colaborador semanal exclusivo, e que é um bom sorriso sobre a temática infantil. E bem precisamos de textos destes para nos amenizarem os dias, cada vez mais sombrios. Leiam a crónica:

"Problema Infantil

O garoto ouviu falar que é comum a troca de filhos nas maternidades. Inconformado com o castigo sofrido em casa, propõe a um colega a troca de pais:
-- Dou de vantagem a estrela de xerife e o time de futebol de botão. --Você topa?
-- Topo, mas só se for por minha sozinha, porque o meu pai é legal.
-- Não resolve. Os dois ou nada.
-- Então, nada.
-- Chegaram à conclusão de que é impossível ter o pai e a mãe que a gente desejaria. No máximo, a satisfação é de cinquenta por cento.
Enquanto isso, muitos pais dão razão àquele homem que disse: "Os filhos deviam ser aparições facultativas"

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A ARTE DO IMPOSSÍVEL

Ainda não se apagaram os ecos da derrota que marcou o (ainda) primeiro-ministro, no debate eleitoral Passos Coelho-António Costa, acontecimento inédito de Informação que reuniu os três canais de televisão (RTP/SIC/TVI). O espectáculo mediático foi visto por muito mais de três milhões de portugueses que puderam ver, em directo, a ida ao tapete, por K.O. político, Pedro Passos Coelho. Será que ele acredita mesmo na realidade que quer transmitir -- a excelência da sua governação -- ou trata-se de um mentiroso compulsivo que não é capaz de sair desse atoleiro. Porque os portugueses sabem não só da forma como, nas eleições transactas, semeou promessas que não cumpriu, como, indo gloriosamente Além da Troika, como Costa fez questão de relembrar por várias vezes, transformou o quotidiano dos portuguesas num verdadeiro inferno. Só faltou lembrar-lhe que o Papa da política de austeridade, Victor Gaspar, que ao demitir-se do governo lembrou que a sua política tinha falhado...
Curiosamente, num universo de comentadores que se tivessem a coragem de trazer o emblema da lapela, a Coligação ganharia quase por unanimismo, mesmo a maioria desses -- alguns com jogos de contorcionismo que pareciam homens de borracha! -- reconheceu a vitória inapelável de António Costa. O próprio professor Marcelo o fez, logo a abrir, tentando, no entanto, iludir a dimensão da vitória. Como caso político interessante, ou nem tanto, assistiu-se à ressuscitação de Miguel Relvas pela TVI, mas desta vez Lázaro não andou...
Outra nota foi a tentativa de Passos Coelho ter querido retirar Sócrates da cartola, mas a magia não resultou. D cartola, só saiu Passos Coelho, com os coelhos da austeridade, da pobreza, do desemprego, da destruição das políticas sociais, o coelho da glorificação da Troika. Quer dizer, ele tentou a arte do impossível --e o resultado foi o que se viu... coelhos impróprios para consumo eleitoral.
No outro dia, sem o saber, a capa da revista semanal do "El Pais", construía uma metáfora ao debate eleitoral português, imagem que hoje ofereço ao dr. Passos Coelho para encaixilhar e mais tarde recordar, em Massamá.

"SER HUMANO MAL INVENTADO"

A situação humanitária mundial é uma catástrofe que a crise dos refugiados e migrantes veio ampliar enormemente. As imagens do drama global são expressão de uma crueldade banalizada, face à impotência da ONU e da Europa, esta mergulhada num "quadro sombrio", com ainda recentemente lembrou Jorge Sampaio.
Talvez pela contingência do desastre humanitário que vai por aí, anoto de uma crónica de António Gala, no "El Mundo": "Sinto, com toda a minha alma, escrever isto: o ser humano está mal inventado, se existe um criador, por muitas promessas à bondade que haja post-mortem, se equivocou de plano".




quarta-feira, 9 de setembro de 2015

ABERTURAS...

Como se tivessem acordado duma longa letargia, alguns canais de televisão (não todos) e alguns jornais (não todos), a proximidade às eleições de 4 de Outubro desencadearam uma súbita apetência por temas sociais e dossiês sobre questões de actualidade que deve ser saudada como serviço público importante para o esclarecimento dos portugueses. Dirão alguns que seria bom que fosse assim sempre -- e era.
Mas esta corrida às temáticas sociais ou a questões cívicas primordiais fez-me lembrar o que acontecia, antes do 25 de Abril, nas mascaradas eleitorais: durante duas semanas, a Censura abrandava o crivo das suas malhas, para criar um simulacro de democracia...
Então, os que verdadeiramente amavam a liberdade de expressão e tentavam fazer "passar" textos que tinham na gaveta ou haviam sido cortados. Lembro-me de que uma entrevista a D. Hélder Câmara, o célebre arcebispo do Recife, concedida a Artur Portela, só nessas circunstâncias pôde ver a luz do dia no "Jornal do Fundão".
Era um breve hiato, em que se respirava brevemente alguma ténue liberdade de expressão, no jornalismo sitiado que então se praticava.
Lembrei-me disto e não deixei de pensar que, em alguns casos, a abertura temática de cariz social, que alguns praticam, recordam os hiatos de liberdade que se viviam, ontem. A Informação hoje, num certo sentido, também está refém de interesses de grupo, afins ao capitalismo selvagem tão em moda por aí, e talvez a "abertura" não seja outra coisa para construir mascaradas democráticas de outro tipo...

terça-feira, 8 de setembro de 2015

PORTAS PARA A GRÉCIA, JÁ!

Assisti ao debate, na SIC Notícias, entre Catarina Martins e Paulo Portas. Às questões fulcrais colocadas pela porta-voz do BE, respondia quase sempre  o "irrevogável" Paulo Portas, com a Grécia e o Siriza, mais o Tsipras e o Varoufakis, como se o debate fosse sobre as eleições gregas e não sobre Portugal. Tal a obsessão do vice primeiro-ministro que apetece dizer-lhe  que vá para Atenas e fique por lá na refrega eleitoral. Com vantagens acrescidas, lá não o conhecem pela irrevogabilidade, nem pelo cisma grisalho, podendo portanto dizer lá as aldrabadas que por cá foi semeando sobre os reformados, pensionistas e brutalidade fiscal...

A VERDADE EM QUESTÃO

No curioso país em que a mentira dá tantos dividendos, sobretudo na política, e em que não faltam meios de comunicação que, fazendo tábua rasa da mínima ética. se tornam cúmplices desse modo de ser e estar, especializando-se ao serviço de interesses espúrios e de projectos políticos sombrios, não admira que a aldrabice de tão praticada se tenha tornado coisa banal do quotidiano. Almeida Garrett escreveu uma comédia em que cauterizava este mal nacional, intitulando-a Falar a Verdade a Mentir... Mas nesse universo a paródia visava a burguesia e um jovem mentiroso compulsivo. Não faltam por aí mentirosos compulsivos, que nos entram em casa pelas têvês, sem baterem à porta... Já poucos levantam a voz contra as nojeiras em letra de forma e poucos querem perder tempo a desmentir as notícias mentirosas, as imputações falsas, as maquinações de toda a ordem (tu é que sabias Franz Kafka!) que põem em causa fundamentos elementares do Estado de Direito. Deixa andar...
Os ingredientes que fabricam esta realidade, cada vez mais sofistificados, tornam o cidadão comum refém desse "voyeurismo" demencial que, cada vez mais desarmado neste sistema, tem a tendência para tomar a parte pelo todo e catalogar as coisas num indiferentismo que se pode sintetizar assim: "São todos iguais!" Acresce a isso o seguidismo da Informação, que o Poder conduz pela trela, apostada no escândalo e no fulanismo, forma hábil de distrair os portugueses das verdadeiras questões nacionais: a pobreza, a expressão social da crise, o desemprego real (e não o fictício), o assassinato da esperança ou os horizontes de futuro às sete chaves. Os grandes construtores desta situação, julgando o povo estúpido e completamente destituído de memória, até amplificam a voz eleitoral para estabelecer uma dicotomia fatal: ou nós, ou o dilúvio...
É neste aspecto que as próximas eleições se tornam num teste fundamental ao grau de inteligência cívica dos cidadãos portugueses e ao estado civilizacional do país, a capacidade de cada um desejar ser servo ou cidadão. É por isso que a exigência cívica de se descobrir a verdade ou, pelo menos, a espantosa realidade das coisas, como dizia o poeta, é tarefa para os dias que correm. Tarefa difícil, a ajuizar por um poema de Carlos Drummond de Andrade, publicado nos anos 80, no "Jornal do Fundão". É a verdade em questão, caríssimos Leitores. Fica o poema:

"A VERDADE DIVIDIDA

A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir  toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil da meia verdade.
E a sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia".






domingo, 6 de setembro de 2015

PACHECO PEREIRA E OS DOIS PORTUGAIS

Ainda bem que o José Pacheco Pereira regressou. Fazia falta na imprensa ou na televisão, onde a lucidez do seu pensamento e a acutilância da sua crítica é que nos permitem (tome bem nota, Paulo Rangel) respirar melhor. Na apatia crítica que tolhe o país -- poucos dão atenção a este défice de cidadania! --, no silêncio que envolve grandes questões nacionais (ver "Portugal, o Medo de Existir", de José Gil), no charco de águas podres que envolvem o quotidiano da política, a realidade é todos os dias desfocada, as problemáticas incómodas (mais a mais em tempo eleitoral) são atiradas para debaixo do tapete do esquecimento.
Pensar Portugal tem sido a tarefa de Pacheco Pereira, na consolidação de um pensamento autónomo e livre sobre o país, na pesquisa do tempo histórico português, com os seus tiques e os seus traumas, num importante contributo para a decifração da história contemporânea portuguesa- É, porventura, o lastro da investigação histórica, que lhe dá o lastro para uma crítica que rasga horizontes fechados.
Este sábado, no "Público" regressou a sua coluna, que tem sido uma coluna de combate contra a mistificação política. O título, aliás, é sugestivo: "Dói-me Portugal". Essa patologia, estarmos doentes do país e da Europa, é hoje comum e colectiva e as dores sobre o país que temos ampliam-se todos os dias. É por isso que a voz de Pacheco Pereira é importante para ajudar a cauterizar essas dores.
No longo artigo que escreveuele mostra como em Portugal há "dois Portugais" e como há realidades invisíveis, numa opacidade em que não faltam cumplicidades.
"Houve sempre por cá mais mistura (ele falara antes da Espanha e de António Machado) mesmo nos momentos em que “um Portugal” defrontou o “outro”, nas lutas liberais, na República e na longa ditadura que preencheu metade do século XX português", escreve Pacheco Pereira, acrescentando que "a essa mistura Salazar chamava a “brandura dos nossos costumes”, uma enorme mentira em que os poderosos desejam acreditar e nem ele acreditava. Também ele era capaz de, com o seu enorme cinismo, agradecer aos portugueses terem sido tão “pacíficos” durante a crise".
Vale a pena atentar na descrição do historiador:
"Hoje, “dois Portugais” existem e vão a eleições. Um está à vista todos os dias, outro tornou-se invisível, mas está cá. Como é que é possível ele ter desaparecido de modo tão conveniente neste ano eleitoral? É conspiração dos media, é censura induzida, é habilidade de um dos “Portugais”, é apatia, resignação do outro “Portugal”, é incapacidade do sistema político representar ambos, ou só um, é o efeito daquilo que os marxistas chamavam “ideologia dominante”`? É, porque já não há dois, mas apenas um só, e este é o Portugal feliz, redimido dos seus vícios passados, empreendedor, cheio de esperança no futuro, deixando a “crise” para trás, virado para o “Portugal para a frente”?
É tudo junto, menos a última razão. "Um dos “Portugais” está de facto invisível nestas eleições. Quem devia falar por ele, não fala e quem fala não é ouvido. Criou-se uma barreira de silêncio onde apenas se ouve a propaganda. Vejam-se as miraculosas estatísticas. Começa porque há as estatísticas de primeira e as de segunda, as que valem tudo e as que não valem nada. As “económicas” são de primeira, as “sociais” são de segunda. Das primeiras fala-se, as segundas ocultam-se".
Na caracterização desta estranha dicotomia, Pacheco Pereira explica:
"As estatísticas “da recuperação económica”, escolhidas a dedo e trabalhadas a dedo, são comparadas com os anos que mais convém, umas vezes 2000, outras 2008, outras 2010, outras 2011, outras 2012, outras 2013, etc.. Todas a subir, pouco mas a subir, com “tendência” para subir. Os “do contra” ainda dizem que são tão milimétricas essas subidas e tão condicionadas pelo bater no fundo, tão longe do que seria necessário, tão dependentes de factores externos, que, ao mais pequeno abanão, o castelo de cartas ruirá. Como, para não ir mais longe, se vê com a venda do Novo Banco, o “bom”. (Embora suspeite que mesmo a pior das vendas vai ser apresentada como um excelente resultado, comparada com qualquer hipotética operação mais ruinosa, que “poderia ter acontecido”, mas nunca existiu. É uma das técnicas habituais apresentar sempre o mal como o mal menor.)
Quem é que quer saber, destes pequenos incidentes? Até às eleições servem bem, no dia seguinte, se os seus criativos autores ganharem, voltam a ler com toda a atenção os relatórios do FMI para justificar a continuação da austeridade. Ver-se-á como o défice vai subir, vai-se ver como as coisas são piores do que se apresentou neste ano eleitoral, mas já é passado, não conta. Há mais de um milhão de desempregados, “desencorajados”, desempregados de longa duração que desapareceram das estatísticas, falsos estagiários, e pessoas que só não estão nas listas do desemprego porque emigraram. Porque queriam? Não. Porque não tinham alternativa e ainda faziam parte daqueles que podiam emigrar. Se estão felizes é por mérito da Suíça, da Grã-Bretanha, da Alemanha, da França e das competências e conhecimentos que ganharam em Portugal, imperfeitos que fossem, antes de 2008. O Portugal que lhe deu essas competências também já está a encolher, a acabar. Estamos a falar de várias centenas de milhares de pessoas. É muito português".
São interrogações pertinentes, mas ele não deixa de dar expressão a uma perplexidade que mostra bem a desumanidade e como há uma invisibilidade, na informação e na retórica, que traduz a a menoridade cívica e política que caracteriza a sociedade portuguesa. Ora, leiam:
"Voltemos aos desempregados que, ó céus!, também não deixaram de existir. São muitas centenas de milhares de pessoas, à volta de um milhão se somarmos, como devemos somar, várias parcelas de pessoas que não tem emprego. Não é sequer emprego sem direitos, é que não tem emprego. Ponto. Por muita imaginação que se possa ter, é suposto que não estejam felizes com a sua vida. Nem eles, nem as suas famílias. É muito português. Depois, mais um número que se sobrepõe aos outros, uma em cada cinco pessoas é pobre, dois milhões de portugueses. Onde estão eles que não se vêem? Depois de uma overdose pontual de miséria nos anos mais agudos da crise, despareceram as pessoas que vivem mal de Portugal. Não são boa televisão a não ser como “casos humanos” extremos – a idosa sem pleno uso das suas faculdades mentais que vive imersa na sujidade e na miséria mais extrema numa casa sem vidros, nem água, nem luz – e não é disso que estou a falar.
Estou a falar da pobreza que é estrutural, da que recuou dez anos para trás, mas que, neste recuo enorme em termos sociais, perdeu qualquer esperança, aquela que ainda podiam ter no início da década de 2000. E aqueles a quem cortaram a magra pensão na velhice e a reforma com que pensavam viver os últimos anos, também estão felizes, a aplaudir o PAF? E aqueles que não eram pobres ou tinham deixado de ser pobres depois do 25 de Abril e que agora estão a escorregar para esse “estado” de que já não vão sair até morrerem? Estão felizes e contentes, perdido o emprego, a pequena empresa, o carro, a casa? Sim, as estatísticas de segunda, as sociais, revelam as penhoras, as devoluções, as humilhações, o esconder de uma vida sem esperança, ou seja desesperança. É muito português.
O discurso oficial, o do “outro” Portugal, diz que tudo isto é “miserabilismo”. Diz-nos que apenas o crescimento da “economia”, daquilo que eles chamam “economia”, pode resolver as malditas estatísticas “sociais”. Outra conveniente ilusão, porque, a não haver mecanismos de distribuição, a não haver equilíbrio nas relações laborais, a não haver reforço dos mecanismos sociais do estado – tudo profundamente afectado pela parte do programa da troika que eles cumpriram com mais vigor e rapidez – o “crescimento” de que falam tem apenas um efeito: agravar as desigualdades sociais. Como se vê. No grosso das notícias, ministros e secretários de estado pavoneiam-se com grupos de empresários em posição de vénia, por feiras, colóquios dos jornais económicos, encontros liofilizados para que não haja o mínimo risco e, quando abrem a boca, é apenas para fazer propaganda eleitoral, a mais enganadora da qual se faz falando do “estado” redentor do país que agora já “pode mudar”. Eles falam do lado do poder, do poder que aparece nas listas dos jornais económicos, os novos “donos disto tudo”, chineses, angolanos, profissionais das “jotas” alcandorados a governantes, advogados de negócios e facilitadores, gestores, empresários de sucesso, a nova elite que deve envergonhar a mais velha gente do dinheiro, que o fez de outra maneira.
O “outro” Portugal, o que é tão visível que até cega, com todas as cores, luzes a laser, aplausos de casting feérico e feliz. Não é este o meu Portugal. Não lhes tenho respeito. Uns fazem por si, outros fazem pelos outros. Conheço-os bem de mais. Não gostam dos de “baixo”. Acham que eles são feios, porcos e maus. Querem receber sem trabalhar. Querem viver à custa dos outros, deles. Se estão pobres é porque a culpa é sua. Se estão desempregados é porque não sabem trabalhar. Se se lamentam da sua sorte, são piegas. Deviam amochar disciplinadamente para serem bons portugueses. Não. “Há-de gelar-te o coração”. Direi pois, como o velho Unamuno, “me duele España”, dói-me Portugal".