sábado, 19 de setembro de 2015

UM ABRAÇO PARA O DR. FERREIRA PINTO

A narrativa de um homem, à escala da sua biografia e na relação directa com aquilo que é a aventura cósmica da sua existência, corresponde sempre a uma breve parcela temporal na vida da humanidade. No fundo, é essa relatividade temporal face ao destino ou à história de vida de cada um, que nos faz olhar os outros com uma dimensão humana muito particular, que compartilhe a grandeza inscrita nos actos que são o essencial da cidadania, no plano cívico e profissional, na expressão concreta da transformação da realidade, isto é, do contributo que se dá à comunidade (aqui num sentido mais amplo de região) para a tornar mais habitável e feliz como casa comum de cada um, e de todos. É o que eu chamo um compromisso de serviço público porque nessa forma de viver a vida a acção visa primordialmente as pessoas, os outros na plenitude da sua humanidade inteira.
Esses percursos, que se singularizam pela qualidade da cidadania praticada, tem rostos e nomes que enobrecem uma cidade, uma região, um país. Aqui, no chão nosso da Beira, no inventário das virtudes comuns, encontramos esses rostos que se afirmam como parte inteira da comunidade. Um deles, estava eu um dia destes a pensar em voz alta junto de uma roda de amigos, é o dr. Álvaro Ferreira Pinto, cuja biografia de serviço na área da Saúde, como médico, tem a marca de uma exemplaridade que nos honra a todos, seus concidadãos.
Na voragem do tempo, que é um mata-borrão do esquecimento, talvez seja bom lembrar o que representou a sua vinda para o Hospital da Covilhã, nos anos 60, onde depressa firmou, como urologista, um prestígio que excedia as acanhadas fronteiras regionais. São incontáveis os casos de pessoas que iam a Lisboa consultar grandes nomes da especialidade, a quem era dado o seguinte recado:
-- É da Covilhã (ou da região), então vá lá consultar o dr. Ferreira Pinto, não precisa de vir a Lisboa...
O que tem representado para a Beira a acção e o trabalho do dr. Ferreira Pinto é inestimável. Sempre com a mesma determinação e o mesmo rigor, com a sua postura calma própria de quem muito sabe, sempre com disponibilidade inteira para quem o procura, a natureza da sua maneira de ser, a fala cordial e transparente (mesmo quando os casos assumem dramatismo médico) é a expressão da maior tranquilidade. É assim que eu o vejo, com os seus antigos cabelos brancos, a resolver problemas, a roubar dias à morte (para utilizar um verso de Ungarretti), que é aquilo que o dr. Ferreira Pinto tem feito na plenitude dos seus dias. A isso, que é tanto, acresce a sua postura cívica, a tolerância de quem sabe que não é possível viver sem ideias, o seu despojamento face ao supérfluo. Não sei há quantos anos, em dias calmos ou de sobressalto, me habituei a ver assim o dr. Ferreira Pinto. Às vezes, dou-lhe um abraço, falamos dos dias cinzentos que nos cercam, conversa porventura à procura da mínima esperança para um futuro que parece fechar-se em horizontes sombrios. Somos, ainda, capazes de sorrir fugazmente.
Hoje, renovo esse abraço, gostando de imaginar que estas palavras são apenas um pequeno gesto de gratidão com expressão colectiva.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

PASSOS COELHO: VEM, QUERIDA TROIKA...


Depois do retrato que Ricardo Araújo Pereira fez de Passos Coelho, no programa de televisão "Isto é tudo muito bonito mas", em que o primeiro-ministro foi derrotado estrondosamente pela sua falta de comparência, talvez não valesse a pena vir aqui fazer prova, através de carta que o "Público" publicou sobre o problema da chamada da Troika, sobre a condição de mentiroso compulsivo de Coelho. É que ele diz aquelas coisas, com sorriso beato nos lábios, como se a verdade histórica servisse apenas para chicana eleitoral, e, por isso, aposta na ilusão política da aldrabice.
Ora acontece que o "Público" revelou na íntegra um documento confidencial, nada mais, nada menos, do  que a carta que Passos Coelho enviou, em 31 de Março, ao então primeiro-ministro, e cujo teor reproduzo aqui:


"Confidencial
Gabinete do presidente
Senhor primeiro ministro
“Recebi hoje informação, da parte do senhor Governador do Banco de Portugal, de que o nosso sistema financeiro não se encontra, por si só, em condições de garantir o apoio necessário para que o Estado português assegure as suas responsabilidades externas em matéria de pagamentos durante os meses mais imediatos. Ainda esta manhã o senhor Presidente da Associação Portuguesa de Bancos transmitiu-me idêntica informação.
Estes factos não podem deixar de motivar a minha profunda preocupação.
Não desconheço que o Governo tem repetidamente afirmado que Portugal não necessitará de recorrer a qualquer mecanismo de ajuda externa e é certo que a competência pela gestão das responsabilidades financeiras do país cabe por inteiro ao Governo.
Não disponho de informação sobre as acções e diligências que o Executivo estará a desenvolver para assegurar o cumprimento dessas obrigações. Porém, é do conhecimento público a situação do mercado que a República vem defrontando, desde há vários meses a esta parte, bem como o facto de o sistema bancário se encontrar sem acesso ao mercado desde há mais de um ano.
Atenta a especial sensibilidade desta matéria e as gravíssimas consequências que decorriam para o nosso país de qualquer eventual risco de incumprimento, é essencial que o Governo garanta, com toda a segurança e atempadamente, adopção das medidas indispensáveis para evitar tal risco.
Nestas circunstâncias, entendo ser meu dever levar ao seu conhecimento que, se essa vier a ser a decisão do Governo, o Partido Social Democrata não deixará de apoiar o recurso aos mecanismos financeiros externos, nomeadamente em matéria de facilidade de crédito para apoio à balança de pagamentos.
Considerando a extrema relevância desta matéria, informo ainda que darei conhecimento desta carta confidencial ao senhor Presidente da República.
Com os cumprimentos,
[assinatura]
Pedro Passos Coelho
Lisboa, 31 de Março de 2011"

Breve comentário. Havia um velho anúncio publicitário, que mostrava um negro que dançava com uma cadeira nos dentes para enaltecer as qualidades de uma pasta medicinal para os dentes. Dizia assim: "é um artista português. Mais comentários para quê?" O primeiro-ministro dança, também, mas ao som das suas mentiras, para enganar os pacóvios. É um "artista" português. De facto, mais comentários para quê?


terça-feira, 15 de setembro de 2015

CUIDAR DO FUTURO

Em matéria de esclarecimento público sobre o futuro da Segurança Social, no contexto eleitoral que se vive, talvez valha a pena ouvir a voz de Manuela Ferreira, ontem, ma apresentação do livro "Cuidar do Futuro". Não parece que a Informação tenha dado grande relevo noticioso ao acontecimento. De qualquer forma, colho da breve narrativa do "Diário de Notícias", o esclarecimento de Manuela Ferreira Leite:
"Manuela Ferreira Leite considerou esta segunda-feira que a ideia de haver soluções individuais para os problemas de sustentabilidade da Segurança Social "é perigosa e inaceitável". "Não pode haver uma solução individual", frisou a ex-líder do PSD, referindo que o problema da desconfiança integeracional criado pelo atual governo quanto ao futuro do Estado Social "é algo extremamente perigoso e preocupante" e que, entre outras, suscita a questão de saber "[quem] é responsável pelos velhos". Manuela Ferreira Leite apresentava o livro "Cuidar do Futuro", dedicado à desconstrução dos "mitos do Estado Social português" e escrito pelos académicos Pedro Adão e Silva e Mariana Tiago Pereira, numa cerimónia em que marcaram presença os ex-presidentes da República Ramalho Eanes e Jorge Sampaio, o candidato presidencial António Sampaio da Nóvoa e os ex-ministros Bagão Félix e Maria de Lurdes Rodrigues. Questionar os atuais descontos para a Segurança Social porque o valor da pensão futura dos atuais contribuintes será inferior, "é uma ideia que só pode servir para piorar a situação da Segurança Social" e representa "um desincentivo a que haja contributos" para esse sistema".

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

LADAINHA PELAS PÓSTUMAS SUBSCRIÇÕES

À frente vem Passos Coelho com um estandarte de Portugal à Frente, com a seguinte legenda "Eu sou pela caridadezinha!", logo seguido de Paulo Portas, que levantava ao alto um enorme guião onde lia "Pelas Vítimas do Cisma Grisalho". Luís Montenegro, que fazia vénias a um e a outro levava a caldeirinha, e Marco António Costa, com aquele de quem está sempre a levar, transportava um cartaz que afirmava veementemente "Abençoada Troika!". Cristas vestia uma t-shirt em que figurava uma vaquinha leiteira, tadinha, e Maria Luís Albuquerque empunhava um dístico que dizia assim: "Sacar 600 milhões aos reformados, é canja!" Paula Teixeira da Cruz queixava-se que tinha sido remetida para a segunda fila ao pé de gajos sem importância nenhuma, como o Moreira da Silva e o Poiares, aquele não era o seu "citius".
A procissão organizada na sede do PSD tinha-se descomposto no Largo do Caldas, com os tipos a berrarem que também eram da coligação das subscrições. Um arrepio percorreu Passos Coelho, quando viu Marcelo a esbracejar e a dizer que só ali estava como repórter da tvi.
-- Só me faltava cá o cata-vento!-- rosnou Passos Coelho, que depois mandou seguir em frente o cortejo.
A ladainha das subscrições arregimentara muitos sectores da sociedade portuguesa. Soava, então, amplificada por potente máquina de som, a voz baritonal de Passos Coelho:
-- Pelos coitadinhos dos lesados do BES, ora pro nobis!
E logo soava um coro formidável de seguidores:
-- Subscrição, subscrição, subscrição!
-- Pelos pensionistas e reformados roubados, ora pro nobis!
E o coro:
-- Subscrição, subscrição, subscrição!
-- Pelos pobrezinhos (mais de dois milhões, coitadinhos!) tornados invisíveis na campanha, ora pro nobis!
Coro:
-- Subscrição, subscrição, subscrição!
Soou, desta vez em forma de falsete, a voz de Passos:
-- Pelos jovens desempregados e emigrados, ora pro nobis!
Coro:
-- Subscrição, subscrição, subscrição!
-- Pelos desempregados (mais de milhão e meio!), pelos professores afastados, pelas crianças com fome, pelas sopas dos pobres, ora pro nobis!
Coro:
-- Subscrição, subscrição, subscrição!
-- Pelos submarinos arquivados, pela pensão de miséria de Cavaco, pelo SNS amortalhado, pelos funcionários públicos espoliados, ora pro nobis!
E, de novo, a multidão:
-- Subscrição, subscrição, subscrição!
A voz de Passos voltou a soar:
-- Pela TAP vigarizada, pelos CTT sem corneta pública, pela EDP achinezada, pelo Catroga governado, pelos Transporte públicos gamados, ora pro nobis!
O coro elevou a sua prece aos céus:
-- Subscrição, subscrição, subscrição!

Inesperadamente, começou a surgir de todos os lados uma multidão de indignados. Eram os invisíveis. De repente, apareciam a protestar à luz do dia: os pobres, os desempregados, os emigrados, os reformados caminharam em direcção à ladainha. E, com tais ganas, que os entusiastas dos louvores à subscrição partiram em debandada, deixando por terra os despojos dos cartazes, dos guiões.
Agora, a ladainha transformara-se em requiem. E, em som de fundo, ouviam-se os sinos a dobrar.
-- Quem morreu? -- perguntou um curioso.
-- A Coligação!

domingo, 13 de setembro de 2015

O CÚMULO DA DEMAGOGIA!

O país de opereta política aguenta tudo. A retórica aldrabona, a invenção de realidades, banindo para a inexistência a pobreza alarmante que cavalga o quotidiano (quantos? quantos? Dois milhões de portugueses...), o milhão e tal de desempregados (há uma multidão que não faz parte das estatísticas, o desespero que é horizonte de todos os dias, eis as águas em que navegam os chefes da coligação no Poder. Dirão alguns que também é mérito, na política, criar realidades fictícias e saber, até, como se estivessem a interpretar personagens de um teatro do absurdo, uma virtude que não deve ser subestimada. Mas para comediantes de ocasião, são melhor os palhaços... O país de opereta política teve ontem mais um episódio que também poderia figurar numa antologia da anedota. Num mercado em Braga, Passos e Portas, acossados por manifestantes de vária natureza (com destaque para o desespero dos lesados do BES) viram a sua encenação afundar-se num protesto colectivo. Então, o (ainda) primeiro-ministro sai-se com esta: recorrram aos tribunais e eu serei o primeiro subscritor de uma subscrição nacional para ajudar os que não podem a recorrer à justiça. No parlapié de circunstância, lá foi dizendo que ele e o governo não têm nada com aquilo, Cavaco também não, só faltou dizer que o seráfico Costa, do Banco de Portugal, também era alheio ao problema. Esqueceu, claro, as palavras de confiança sobre o Banco falido que deram aos portugueses.
Do Blogue, "Da Literatura", de Eduardo Pitta, recolho a seguinte nota sobre um editorial de Nuno Saraiva, no "Diário de Notícias": "Pedro Passos Coelho não pára de surpreender"(...) “Organizarei uma subscrição pública para os ajudar a ir a tribunal". "A demagogia, de facto, não tem limites. Um primeiro-ministro não é provedor da Santa Casa nem presidente da Cáritas ou do Banco Alimentar. Não lhe compete ser promotor da caridadezinha ou de exercícios de crowdfunding que têm por único objetivo servir-se do desespero alheio à procura de votos. Não se tivesse Passos Coelho demitido das suas funções, isto é, de resolver os problemas que afligem a comunidade, e, provavelmente, o Novo Banco já estaria vendido. Na verdade isso não acontecerá porque os efeitos que a operação vier a ter na derrapagem do défice público não deixarão de lhe ser assacados.[...] Passos promete pois, a título pessoal, contribuir com dinheiro seu para financiar as custas judiciais de eventuais processos que venham a existir.Ficamos à espera de outras subscrições,ainda faltam três semanas para as eleições, promovidas pelo primeiro-ministro para trazer de volta aqueles que emigraram, ajudar os que não têm emprego ou comprar os remédios aos reformados a quem cortou nas pensões ou no complemento solidário. De facto, a demagogia não tem limites".
Não há dúvida: se o ridículo matasse, ele ficaria estendido naquele exacto momento, vivido no mercado de Braga.