sexta-feira, 25 de setembro de 2015

CIRCO ELEITORAL


Talvez em nenhuma outra campanha eleitoral se praticou tanto a desinformação e o efémero da política espectáculo ganhou tanta força, como forma de moldar a opinião pública. Talvez em nenhuma outra disputa eleitoral, sobretudo da parte do poder instalado, se abriram tanto os cordões à bolsa, retirando dela milhões para satisfazer promessas de atenuação fiscal ou responder a inquietações, como aconteceu com o buraco do ensino artístico. Agora, tudo vai de vento em poupa, foi-se buscar ao armário de 2011 a cartilha das promessas não cumpridas, e é ver se te avias! Vai longe o tempo em que o primeiro-ministro, materializando um papel de proseletismo, encarnando a figura de salvador da pátria, clamava: "Que se lixem as eleições!"
Agora, tudo decorre da demagogia e das mentirolas encenadas na retórica dos comícios e das entrevistas, que às vezes se desfazem nos contactos de rua em que aparecem sempre indignados com contas de pobreza para apresentar. Daí, o cuidado nas ruas, agora com Passos & Portas sempre a bom recato das eventuais indignações públicas.
A tudo isso acresce também a mistificação de sondagens que parece não serem sondagens, mas estudos de opinião, um dos braços armados das televisões fabricados para a prática de continuada desinformação, para sacudir a eventual apatia dos indecisos que, dizem eles, são a erva daninha do acto eleitoral do próximo dia 4 de Outubro.
No fundo, como informação espectáculo, é preciso criar à coligação Portugal à frente a ilusão de uma dinâmica mobilizadora que é sempre cativante para aqueles que estão sempre à espera de embarcar no carro triunfal. Cria-se uma narrativa quase épica para os acontecimentos, colocam-se máscaras de sorrisos, esvazia-a memória da política praticada durante quatro dolorosos anos, finge-se que tudo não passou de uma ficção e que os portugueses não sentiram na pele os efeitos da desgraça. Esse é, porventura, o grande problema da coligação: não pode tornar invisível a pobreza, o desemprego, as malfeitorias feitas ao SNS e à Escola pública, o abandono do Interior, o assassinato da esperança que ´é uma espécie de morte no quotidiano português.
É nesse sentido que se pode dizer que os dados estão lançados e que esta conjuntura não tem feito parte, decerto, dos inquéritos de opinião que por aí estão, como espécie de nova ditadura informativa, a tentar domesticar o pensamento dos portugueses. A ver vamos, como diz o cego...

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

OS SINOS DOBRAM PELA EUROPA


O espectáculo deplorável e doloroso que é a saga dos migrantes e refugiados que, transformados em condenados da Terra dos tempos modernos, clamam pelo direito à vida, procurando acolhimento na Europa. A situação, que não outra coisa senão uma crise civilizacional sem paralelo, pôs a nu a morte da Europa, cujo cadáver adiado os coveiros de serviço há muito tentam enterrar. A Europa ainda mexe, esbraceja, mas está morta naquilo que era na construção europeia o seu grande título de honra: o exercício de uma solidariedade sem margens e uma prática de exigência dos direitos humanos. Era um rosto de humanidade e uma caminhada de humanismo que era a síntese de uma cultura edificada no tempo e na sua geografia. Agora, tudo se vai desmembrando, não faltando exemplos políticos do desnorte, da indiferença e da intolerância. Bem pode a Informação, à escala global, reportar em imagens chocantes o drama de centenas de milhares de crianças, de crianças mortas ou perdidas no labirinto do arame farpado, do Mediterrâneo feito cemitério a céu aberto, que a Europa tolera agora muros e fronteiras e crimes contra a dignidade humana, mesmo em países como a Hungria que viveram a experiência de outros muros e desejavam então saltar as fronteiras para outra Europa. Enquanto a vergonha prossegue, acolho-me às palavras de Vergílio Ferreira, em Escrever, que pareciam adivinhar o futuro: "Que quer dizer a anunciada "morte dos deuses" face à proliferação de inúmeras seitas que trazem a destruição e a morte entre os seus dogmas? Porque não são na realidade "seitas religiosas" mas formas de aniquilação em nome de uma divindade já morta que lhes dêem uma justificação. Europa, Europa, Europa. Como te choro na ruína de ti. E te amo. E te sonho na grandeza que foi tua e para sempre se desvaneceu..."

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

PASSOS COELHO VERSUS PASSOS COELHO


Às vezes, isto só mesmo para levar a rir.  A ironia é uma boa arma da crítica para desmontar a retórica, conveniente e mistificatória, sobre a desgraça destes quatro anos de governo, que nos caiu em cima, com Passos & Portas como capatazes do "Além da Troika". Então, aqui fica a entrevista Passos Coelho versus Passos Coelho. Ora, vejam:

O Passos Coelho de 2015 em debate com o de 2011.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O VÍTOR, UMA "FORTALEZA INEXPUGNÁVEL"


As tais notícias que nunca gostaríamos de ouvir, chegam sempre, subitamente, em linguagem telegráfica que só o coração descodifica. Assim, a que acabo de receber: morreu hoje, em Lisboa, aos 78 anos, Vítor Silva Tavares. Estava, há uma semana, internado no Hospital de Santa Maria, vítima de uma infecção pulmonar. Assim, arrumado o obituário, na síntese do instante, parece-me tudo tão absurdo e estúpido porque o Vítor Silva Tavares era, foi sempre, vida em estado pleno, na expressão da sua inquietação fecunda sobre a cultura e o país, na forma como encarava o provincianismo lusitano e exercia a implacável crítica contra o reino dos pachecos & dos acácios, que se reproduzem por aí como donos absolutos da estupidez. O Vítor foi muito mais do que um editor singular da comarca portuguesa das letras: foi autor de sonhos e de utopias culturais que ele materializou numa escrita de grande ironia, na organização e direcção de suplementos culturais e revistas, na publicação de livros. Tudo era o resultado de uma cultura actualizada e actualizante, na qual edificava uma exigência de qualidade que o impedia de fazer "fretes" tão ao agrado das nacionais capelinhas literárias. Era nesse sentido que o Zé Cardoso Pires, seu companheiro e amigo, o retratava, quando dirigia nos jornais as coisas da Cultura, como "fortaleza inexpugnável".
Foi ele que me confidenciou isso quando o fui entrevistar para um documentário sobre a Censura, onde ele tem um depoimento verdadeiramente notável, cheio de emoção. O pretexto deu para o convívio de um dia, como se estivéssemos a retomar conversas antigas de quando ele, no Jornal do Fundão dirigiu o "& etc...", um suplemento cultural que rompeu as fronteiras censórias e se afirmou pela grande originalidade no acanhado panorama da imprensa portuguesa. Tenho na memória a imagem desse último dia em que estivemos juntos, com a força das palavras, durante horas, a superarem sempre aquele seu ar franzino e distraído, que a agudez do olhar desmentia logo. A definição do Cardoso Pires era, de facto, tão nítida, tão certeira, que a "fortaleza inexpugnável" é o título melhor que eu encontro para definir biograficamente o Vítor e a sua aventura humana.

Em 2013, neste mesmo espaço, publiquei uma nota evocando o Vítor Silva Tavares, que hoje aqui volto a inserir para completar o retrato:

Vítor Silva Tavares: 40 anos de resistência


Estou grato à Alexandra Lucas Coelho por ter, no "Púlico Domingo", escrito uma belíssima prosa sobre "Vítor Silva Tavares & Etc". Fiquei a saber do lançamento de um livro sobre o Vítor: & Etc -- uma editora no subterrâneo, iniciativa justíssima, que assinala 40 anos de resistência. No deserto cultural, que é a informação em Portugal, recaiu um silêncio denso sobre o acontecimento, que não significa outra coisa senão o analfabetismo reinante. Escreve Alexandra Lucas Coelho: "Amante de livros e radicalmente livre", diz o primeiro texto deste volume-celebração a propósito de Vítor Silva Tavares. Radicalmente livre é direito e dever, todo um programa solitário que dá trabalhinho, a começar pela liberdade de não trabalhar, ou de trabalhar sem alimentar o mercado".
O Vítor Silva Tavares sempre rompeu caminhos e lembro como a sua postura em recusar o lugar-comum cultural, o provincianismo balofo das ideias feitas, constituíram sempre um caderno de encargos que ele cumpriu sempre como obrigação cívica e cultural. Foi assim, por exemplo, quando a aventura do & etc... se transformou em realidade no "Jornal do Fundão". Eu era jovem e assisti, fascinado, a esse combate, uma experiência memorável.O & etc... nasceu de uma ideia partilhada entre o José Cardoso Pires e o Vítor Silva Tavares, abraçada por António Paulouro, para quem a cultura era uma matriz fundamental do seu jornal.O primeiro número do & etc... saiu em Fevereiro de 1967, "magazine das Artes, das Letras e do Espectáculo que se transformaria no suplemento cultural mais importante e inovador publicado na imprensa portuguesa. Tudo, trabalho do Vítor Silva Tavares. Lembro-me muito bem como era: as provas eram remetidas à Censura, em Lisboa, sofrendo cortes sobre cortes, às vezes os textos eram totalmente inutilizados. Uma vez por mês, o Vítor Silva Tavares chegava ao Fundão, pela noite dentro, que a viagem de Lisboa, de comboio, era longa e chata. Quando o atraso do comboio era excessivo, o meu tio, António Paulouro, mandava arranjar uns pregos no Caninhas, com bom vinho do Fundão e uma aguardente velha, especialmente recomendada, e tudo ficava à espera do Vítor, no agasalho do seu gabinete (no Inverno a lareira crepitava).
No dia seguinte, o Vítor Silva Tavares iniciava a sua saga, na tipografia, cozendo os textos, escrevendo, paginando. E o & etc... saía. Era um território de liberdade, com um formato e um grafismo altamente inovador, que se foi publicando até 1970, com colaboração dos nomes mais destacados da cultura portuguesa. Tantos anos depois, ainda há quem se lembre desse suplemento cultural. Ainda há meses, num encontro sobre Eduardo Lourenço, na Guarda, o escritor Almeida Faria me dizia que o & etc... deveria ser objecto de uma edição fac-similada. Do & etc... suplemento, o Vítor Silva Tavares passou ao & etc... revista e prosseguiu depois com a editora & etc.., aqui com "uma total recusa de subserviência aos poderes culturais", como assinala Alexandra Lucas Coelho. O que é verdadeiramente singular é a coerência do percurso de Vítor Silva Tavares e a alta qualidade das suas edições.
Uma vida, "o caminho de um só homem", escreveu Alexandra, "quase uma espécie de guerrilha, a força de um homem livre": Vítor Silva Tavares.


domingo, 20 de setembro de 2015

RAÍZES

CONCERTO DO CANTE ALENTEJANO E DA MÚSICA DA BEIRA
OS GAITEIROS DE LISBOA
O que mantém vivo o fascínio dos Chocalhos, para além da memória de transumância e dos badalos das ovelhas que comporta, é o espaço convivial e a música que se partilham na geografia urbana antiquíssima de Alpedrinha. Às vezes, até parece que os grupos de bombos se vão atropelar na multidão, mas a verdade é que não há engarrafamentos musicais. E há sempre aquele grupo espontâneo dos irmãos Freire, fantástico conjunto dos sete instrumentos que agrega sempre mais um, a dar nota que a alegria está ao alcance de qualquer um... desde que saiba música, claro. Também lá fui partilhar alegria e amizade. E foi bom ver ouvir dois espectáculos de excelente qualidade, no cenário fabuloso  do Chafariz Real e do Picadeiro, que marcaram Os Chocalhos de 2015.
Na sexta-feira, houve uma combinação mágica entre o cante alentejano e a música tradicional da Beira, aqui com a voz que me comove sempre da Leonor, acompanhada pelas adufeiras do Paul. Um cruzamento que foi uma síntese de diferenças entre regiões, mas onde a música foi a expressão de um traço comum, mostrando que no manancial da música tradicional portuguesa as fronteiras regionais se atenuam sempre, de alguma forma, embora no final se impusesse o traço forte e identificador dos Bombos de Lavacolhos, sempre fantástico na sua autenticidade.
Ontem, sábado, foi a vez dos Gaiteiros de Lisboa que, de certa maneira, estavam a tocar em casa, pois um dos elementos polarizadores do grupo, o Rui Vaz, é filho de alpetreniense. E, logo a abrir, tocaram e cantaram um velho romance, colhido por Michel Giacometti, nas suas andanças pela Orca. Foi uma dedicatória que os Gaiteiros quiseram fazer a Giacometti e aos recolectores de música tradicional portuguesa, que percorreu todo o concerto. As sonoridades fortes do grupo, com suporte musical de grande qualidade, e uma dimensão na área da percussão, tão densa e tão forte, que parecia um tan-tan interior que nos ligava à terra imemorial, que é o território da música tradicional. Excelentes momentos que iluminaram as noites de Alpedrinha.

O MEDO DE EXISTIR


ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Não me canso de voltar à imagem do livro do Prof. José Gil, Portugal, o Medo de Existir", como expressão contemporânea da longa duração, na sociedade portuguesa, das Inquisições e dos Inquisidores, da intolerância à solta de todo o tipo de autoritarismos, dos 48 anos de fascismo, da Censura como fenómeno castrador do pensamento e das ideias. No fundo, aí residem muitas das sequelas da doença que atravessa o país, aí se encontra a raiz do medo que tolhe a participação cívica do povo e o remete para os guetos do caciquismo e da manipulação partidária e informativa, tão ao gosto do poder dominante, e, agora, visível, quase transparente, no período eleitoral que nos bateu à porta. O caceteirismo político e a mentira, tão configurados pelo discurso ideológico de Passos e Portas, os irmãos siameses do Portugal prá Frente, apostam muito nos traços traumáticos do medo de existir. Basta analisar, com alguma atenção, as intervenções dos cavaleiros de Além da Troika, para percebermos como a chantagem do medo nos faz lembrar os tempos salazarentos do "nós, ou o dilúvio", cavando a ilusão de uma pureza ideológica assente nos "superiores interesses da nação" e no ar sacrificial de uma devoção à pátria, que são soberbas aldrabices para consumo eleitoral. Um pouco a gozar, Aquilino, o grande Mestre, gostava de dizer que, depois de morto o ditador, haveríamos de ter salazares empalhados a colocarem pesadíssimas cangas em cima do lombo. Parece que eles andam por aí, com disfarces e máscaras, claro, mas com o propósito de se servirem do país como um feudo político, com todo o conservadorismo ideológico, com toda a liturgia de cedência aos interesses de igrejas e ao mundo financeiro, no elogio da pobreza, fazendo regressar Portugal à "apagada e vil tristeza" de tempos idos. José Pacheco Pereira, em dois artigos publicados há dias, O Jacaré e a Lagartixa (O Dia Seguinte), na Sábado, e O que vai decidir as eleições é o Portugal que cada um vê. Mais nada, no Público, reflecte sobre essas situações do medo e da apatia cívica.

Pensar o dia seguinte

No primeiro artigo, Pacheco Pereira, avisa:
"Se o PAF ganhar, haverá pela primeira vez em Portugal um forte reforço da direita política e ideológica, cimentada por uma poderosa coligação de interesses económicos. Na verdade, esse reforço já existe, mas devido à forma como correu a campanha de 2011, a sua legitimidade e liberdade de acção estavam coagidas. Pode não conseguir cumprir o seu programa não escrito e a sua agenda escondida, mas uma onda de arrogância política abrirá caminho para muitos ajustes de contas. Os alvos serão os sociais-democratas do PSD, os democratas-cristãos do CDS, os socialistas de esquerda, os sindicatos, os reformados e pensionistas, os trabalhadores da função pública, os municípios que não sejam do PSD, os trabalhadores com direitos, os desempregados de longa duração, etc. O centro político será varrido do mapa, e a sua principal consequência é o toque de finados pelo PSD como partido do centro, centro-esquerda e centro-direita. O Tribunal Constitucional estará também no ápex da conflitualidade política. Isto, no pressuposto de que a coligação encontra forma de governar em minoria, o que, caso ganhe e haja um tumulto no PS, não é de todo impossível com um PS mais "amigo". É por isso que esta eleição é muito importante para Passos, Portas e para o núcleo político e económico que se juntou ao actual Governo, desde think tanks conservadores (que já existiam, mas não tinham a agressividade, nem a capacidade de colocar pessoas e ideias nos sítios certos), a sectores empresariais que beneficiaram das políticas governamentais não só em apoios directos, como em legislação orientada para os seus interesses como aconteceu com toda a legislação laboral. Como se vê pela campanha do PAF, que transpira riqueza por todo o lado, e por alguns investimentos estratégicos feitos com antecedência (como o Observador), não lhe faltam nem vão faltar meios".

O Portugal que cada um vê

No texto publicado no Público, Pacheco Pereira analisa a ideia instilada de que não há alternativa e os políticos são todos iguais, que conduzem ao desinteresse pela política e aumenta a legião dos que estão zangados com isto tudo. É o universo dos portugueses "que empobreceram, que perderam casa e carro, que estão hipotecados e empenhados sem saída, que viram outros membros das suas famílias emigrarem, ficarem sem emprego ou a atravessar dificuldades económicas". E a estes se juntam "os mais velhos, pensionistas e reformados com pensões cortadas, ou adultos sem emprego, sem esperança, que sabem que, até morrerem, é tudo sempre a descer". E etc. Diz o historiador, a concluir o artigo: "É por isso que os resultados eleitorais vão depender do Portugal que está mais próximo de cada um. Se, e só se, estes portugueses zangados com o mundo votarem. Como muitos perderam e só poucos ganharam, como muitos perderam muito e os poucos que ganharam ganharam muito, colocar estes zangados na apatia cívica e usar o seu desespero para os atirar para um gueto antipolítico é um programa de quem não quer mudar nada. É também por isso que o amorfismo, o adormecimento, a apatia, o futebol no dia das eleições, o circo todos os dias até lá, são armas decisivas da coligação para ganhar as eleições".
Por isso, a coligação aposta tão veementemente no medo de existir.