sábado, 3 de outubro de 2015

VENHA UM NOVO DIA!

Amanhã não sei como vai estar o tempo, dizem que pode chover, pode ser, mas deve ser uma íntima chuva e não como aquela que choveu em Santiago, haverá sempre uma nesga de sol par romper as núvens, que são densas e perigosas, e nos aquecer os corações com horizontes de esperança. Hoje, um amigo meu, olhou para o céu e tranquilizou-me:
-- O ar está limpo!
Espero bem que sim e que não haja borrasca, esperemos que se confirme aquela sentença que diz que o povo não é estúpido e possa gozar, no futuro imediato, uma realidade solar de novo tipo, em que a felicidade humana se sobreponha ao concreto dos dias, às vezes com tantas nuvens negras, tantas horas sombrias, tanta desdesgrassas nos quotidianos assassinadas.
É por isso que, como nos tempos antigos, apetece pedir uma matinal canção. O meu amigo, à despedida, voltou a tranquilizar-me:
-- Está um lindo dia! Olha o sol que vai nascendo... -- e trauteou baixinho a canção do Zeca. 
Eu sorri e respondi-lhe coma a trova do tempo que passa do Manuel Alegre, cantada pelo Adriano: 
-- "Há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não"!
Agora, o sol ilumina o Outono. E tudo parece diferente: árvores, casas, serras, as folhas velhas e apodrecidas caem inelutavelmente, há um chão de cores por todo lado, o tempo renova-se, a mudança está aí. Venha o novo dia,, com a luz toda da esperança!

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

COMENTADORES DE AUTO-COLANTE AO PEITO

Um dia se saberá dos arquitectos da manipulação informativa que está suavemente a envenenar esta campanha eleitoral. Há vacas sagradas, sentadas no trono do comentário político, nas televisões, que há muito tempo, com o seu calendário próprio no bolso, vestindo as vestes de sacerdotes da sabedoria e da distanciação, impõem a retórica e a estratégia dos partidos da direita da actual coligação, com o ar mais beatífico do mundo, como se a sua crítica não estivesse contaminada pela partidarite aguda. Ilusionistas da realidade, tiram o Coelho da cartola com a maior das facilidades. E falam do governo como se estivessem a falar de outro planeta, não descem à "espantosa realidade das coisas", para eles o pão nunca é amargo e nem sabem, de resto, o que isso é. Tornaram-se grandes artistas das televisões, que reproduzem a música de uma banda só, a da coligação. Fazem tudo isso, atentos, veneradores e obrigados e ouvi-los falar é como ouvir as histórias da carochinha ou as fábulas em que os personagens eram sempre muito felizes e tinham muitos meninos... São os mestres da magistratura do conselho.
Mesmo não dizendo os nomes, aposto que todos adivinham quem são os artistas que entretêm os portugueses aos serões dos fins-de semana. Quem não ouviu já as tácticas do prof. Marcelo Rebelo de Sousa, a Correia de transmissão que é o sr. Marques Mendes ou o palavreado enrolado do dr. Morais Sarmento? Nunca os ouvi fazer uma declaração de interesses deste género: nós somos do PSD e faremos tudo para que a coligação vença... É o dizes. Eles preferem comentar como impolutos analistas, distanciados dos factos e da política, assim levando a água ao seu moinho.  Claro que essa independência é tão pura como a das virgens nos prostíbulos. Ainda agora foram participar entusiasmados  em comícios inflamados da Coligação Portugal à Frente, levando no andor os santinhos do Passos e do Portas, segundo eles grandes benfeitores e salvadores da Pátria!  Depois, voltam à televisão e colocam a outra máscara, a dos analistas quimicamente puros.
E ninguém se insurge contra esta mistificação e até os jornalistas batem palmas (eles são uns gajos porreiros") e, se calhar, a entidade reguladora, cega e surda, não vê, nem ouve. Está tudo bem: o programa pode seguir dentro de momentos... O nacional porreirismo é uma grande virtude; a informação inquinada um desporto nacional!

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

VIVA A MARTELADA!

Antigamente, quando se martelava alguma coisa, os sujeitos que praticavam esses criminosos desvios, eram objecto de execração pública. A esses gabirus, que muitas vezes punham a saúde pública em risco, chamavam-lhes então mixordeiros e arrastavam consigo para sempre o anátema de pessoas pouco recomendáveis. Mas este verbo martelar, que já foi função nobre da gente boa dos ofícios, gasta agora o seu uso para traduzir a adulteração de contas, por ganância ou malandrice, do vinho e de outros produtos alimentares -- enchidos e toda uma panóplia de materiais de mastigação -- que põe os pobres consumidores de rastos ou a caminho do hospital, na esperança de se safarem de entregar a alma directamente ao Criador. Hoje, martela-se tudo. Martelam-se as contas do Orçamento, martela-se a informação das televisões e dos jornais, martelam-se as "sondagens", martelam-se as promessas eleitorais. Martela-se o diabo que os carregue. Pode até acontecer este diálogo, numa coligação da martelada.
-- Grande martelada é que vamos no governo apoiar os pobres, os desempregados e os pensionistas! -- exclamou, exuberante, Passos Coelho, no pequeno almoço com Paulo Portas -- E tu já martelaste alguma coisa?
-- Só mandei martelar os números das estatísticas, a Maria Luísa já tinha martelado as contas do défice...
-- Agora que a campanha eleitoral está no fim, é preciso martelar todos os dias, dia e noite! -- desenvolveu o primeiro-ministro, como se estivesse a dar a táctica para um jogo da bola.
Esta nova dimensão do verbo martelar banalizou-se de tal forma que, seja vinho martelado ou outros martelados produtos de degustação, seja números, provoca nos cidadãos uma dolorosa experiência. A exclamação dos indignados é muito sintética mas vernácula:
-- Que grande merda! -- costumam dizer as vítimas, enquanto não vomitam ou, de calças na mão, se vêem em apuros de grande inclemência.
Ora , num país em que os homens do leme da governação fazem da mentira o seu desporto favorito -- basta ver e ouvir a desfaçatez de Passos & Portas na campanha eleitoral ... -- não admira que utilizem o verbo martelar, com grande perícia. Soube-se agora que Maria Luísa Albuquerque, a ministra das Finanças, mandou martelar as contas do BPN para enganar os indígenas. Isto é, a mixordeira dos números, que Passos publicamente avalisa e defende, acha o martelanço uma atitude louvável. Viva a martelada! Viva a aldrabice! Vivam os mixordeiros da política!
Se os outros mixordeiros lesam gravemente a saúde dos portugueses, esta miss "Suwaps" e companhia envenena as contas e faz delas uma mixórdia que põe doente o país e a nós, suas vítimas, nos faz dizer, indignados:
-- Que grande merda! Isto, de facto, cheira mal...
E você, importa-se com a mixordice, ou deixa continuar a correr o esgoto, nas eleições de quatro de Outubro?

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A INFORMAÇÃO E O PODER

Convidado a encerrar o Fórum Imprensa Regional, que decorreu no dia 24, na Universidade da Beira Interior, um pouco à sombra tutelar da figura e da obra de António Paulouro, fui lá dizer o seguinte:

Num país com memória, e verdadeiramente democrático, talvez fosse de todo desnecessário vir  lembrar a importância deste Fórum, e da circunstância da Imprensa Regional falar aqui em voz alta, o que raramente acontece, e do lugar em que ele se realiza, a Universidade da Beira Interior, que deve ser sempre lugar fecundo do pensamento e das ideias, ou, do mesmo passo, sublinhar a contingência dos tempos, que vão maus para um “negócio” chamado informação. É que, num país que padece de uma doença diagnosticada pelo Professor José Gil, como o medo de existir, havemos de nos interrogar sobre que sombras tolhem o mundo da informação, que medos inquinam as palavras e as imagens, em que subterrâneos gravita o complexo de direitos constitucionais que definem a livre expressão do pensamento, o direito a informar e o direito a ser informado.
Haveríamos, também, de inquirir que padrões definem hoje, na corrida da actualidade, entre a crueldade e a catástrofe, as exigências éticas da informação, a sua independência face aos poderes, o grau da sua recusa de promiscuidades económico-políticas, e qual a sua exigência de entrega ao interesse público, como horizonte primordial da tarefa de informar. São questões essenciais que graduam elas próprias a saúde de um Estado de Direito, e que, por isso, têm salvaguarda no texto constitucional, como defesa de cada um e de nós todos, como traço identificador de uma sociedade com as virtudes civilizacionais definidoras de uma vivência colectiva exemplarmente democrática. E são problemas que, dizendo respeito à globalidade da Informação, se articulam também com o universo da Imprensa Regional, sabendo como todos sabemos, que no seu conjunto, na particularidade das regiões ou do todo nacional, a Imprensa configura um retrato do país, naquilo que são os seus traumas provincianos (à escala nacional), com as rugas bem fundas dos silêncios premeditados ou de uma selecção da realidade, confinada hoje (com raras excepções) a interesses pouco recomendáveis, que, à densidade dos problemas humanos e sociais, sobrepõem com a maior naturalidade a efemeridade do sensacionalismo e do espectáculo, com critérios editoriais, definidos nos gabinetes das administrações, em que a subalternidade da condição humana é a grande bíblia dos dias que passam.
As coisas atingiram tal grau de promiscuidade que já não são os jornais que marcam as agendas, sendo estas, agora, comandadas pelo Poder e pelos poderes, que a escala é múltipla e a sua geografia muito ampla. Muito antes do 25 de Abril, quando as reuniões da Imprensa se faziam no SNI -- havia uma Agência de Informação chamada ANI que distribuía artigos aos jornais -- lembro-me de um texto indignado de António Paulouro contra uma imprensa que, em vez de clamar contra a Censura, pedia textos e mais textos ao governo para preencherem as páginas dos seus jornais...
Talvez esta seja uma caricatura paroquial de submissão a poderes, de um certo mundo informativo, que também deixou traços de longa duração nas práticas jornalísticas que a liberdade deveria ter erradicado.
Bem sei que a relação da Imprensa (ou da Informação, em sentido mais lato) com o Poder é um problema tão velho e quase tão difícil de decifrar como o mistério do Divino Espírito Santo. Lembro-me de Mário Mesquita, no seu excelente “Quarto Poder”, ter feito uma citação que é aquilo a que poderíamos chamar um grande-plano dessa questão tão dilemática, e, ao mesmo tempo, tão reveladora da espinha dorsal (ou a falta dela) dos jornalistas ou de quem os dirige nas gazetas.Resume-se o caso à sucessão de títulos que o jornal realista Le Moniteur vai exibindo, à medida que Napoleão Bonaparte, desembarcando no sul de França vindo do exílio na ilha de Elba, se aproxima de Paris. Ei-los: «O antropófago saiu do seu covil»; «O ogre da Córsega acaba de desembarcar no golfo Juan»; «O monstro dormiu em Grenoble»; «O tirano atravessou Lyon»; «O usurpador foi visto a 60 léguas da capital»; «Bonaparte avança a grandes passos, mas nunca entrará em Paris»; «Napoleão chegará amanhã às nossas muralhas»; «O Imperador chegou a Fontainebleau»; «Sua Majestade Imperial fez a sua entrada no Palácio das Tulherias, por entre os seus fiéis súbditos».
A caricatura certeira traduz, duma forma muito nítida, a subserviência ao Poder, sempre que as regras do jogo ditam a sua vitória, e, nesse sentido, poderíamos dizer que é intemporal o retrato, pois bem sabemos nós, portugueses, como os títulos e os jornalistas ou os comentadores de galeria e horário nobre, mudam ou vão mudando de opinião,  consoante muda a direcção do vento que sopra do Poder, mesmo que às vezes a brisa seja suave e doce… Claro que as relações da Imprensa com o Poder não se colocam hoje com a crueza que o jornal francês estampou na primeira página; agora, há maneiras mais subtis e peritas que, como diz o verso de Sophia, nem sequer podem ser bem descritas! Estilizou-se um fenómeno que não era novo, mas se tornou estrutural dos novos modelos de jornalismo, configurou-se a sua ideologia à exacta medida dos interesses financeiros ou de grupo, fez-se do jornalismo, não poucas vezes, a voz de um dono que já nem sequer tem rosto.
Manuel Vasquez Montalbán foi um grande escritor e jornalista catalão -- lembramos sempre, na sua ficção, “Os Pássaros de Banguecoque” ou o “Assassinato no Comité Central” -- escreveu nos anos 70 um livro que foi premonitório sobre o jornalismo que aí vinha, a galope. Chamava-se “Inquérito à Informação”. Ele falava, com alguma ironia -- que era traço essencial da sua escrita -- das mutações em curso na Informação. E dizia que o jornalismo era uma estranha profissão que fazia correr Papas (com as suas admoestações...), campeões dos Negócios da China (com o seu dinheiro…), sujeitos com ambições desmedidas de poder e de visibilidade social. Montalbán advertia que, no século XIX, um editorial do “Times” sobre a guerra da Crimeia demitia um primeiro-ministro (a Imprensa era na verdade um quarto poder), mas agora, lembrava ele, todo o poder caía dentro de uma entidade difusa e sombria a que se chamava “sistema”, uma espécie de polvo, acrescento eu, difícil de de decifrar. Pois é: é dentro do sistema que as coisas estão.
Na minha experiência profissional, onde o jornalismo talvez fosse uma paixão romântica, lidei com manda-chuvas da comunicação social, e nunca mais me saiu da memória, a liturgia de uma retórica sobre Informação que falava recorrentemente em negócio. As cabeças deviam estar cheias de cifrões, mas isso levou-me a compreender que, mesmo num jornal em que a Cultura tinha sido decisiva para a dimensão nacional e de singularidade no panorama da imprensa portuguesa, que era (e é) seu grande património, ela, a Cultura, já não fazia parte do negócio… motivo, aliás, porque os jornais a arredaram para debaixo do tapete, como lixo. E percebi, também, o grau de analfabetismo sobre esta matéria que distorcia o pensamento dos decisores: desconfiava sempre que eles não liam livros, e, se calhar, nem jornais… Criaram-se modelos, impuseram-se narrativas condensadas, aferidas ao que poderia ser mais interessante ou alienante para as audiências, fazendo tábua rasa da velha definição de que o jornal era para explicar as coisas. O sistema exigia, agora, brevidade, os jornais estavam reféns da rapidez da informação da rádio ou da televisão, que era (ou devia ser) mais rápida do que a sombra, como os tiros que Lucky Luc sacava da pistola...
Há muito que eu reflicto sobre esta questão e sobre ela escrevi textos que inseri nos dois volumes da “Crónica do País Relativo”. Manifestei sempre inquietação sobre o empobrecimento editorial dos jornais, sobre o espaço medido a régua e esquadro, que leva a omissões e a fazer uma escrita de lana-caprina, abdicando de um critério de exigência e afunilando a realidade, mormente nas suas vertentes sociais e humanas. Não nos iludamos: a via reduzida desse jornalismo também está a condenar à morte os jornais.
Nem de propósito, há tempos li uma extensa entrevista que Jill Abramson, que foi a primeira mulher a dirigir o “The New Yorque Thimes”, concedeu ao diário espanhol “El País”, em que abordava essa questão da narrativa jornalística, como problemática primordial do futuro da Informação, e que, por isso, acho pertinente partilhar convosco. Afirma Jill Abramson, que tem o crédito de ser grande jornalista e professora em Harward, que ainda “há espaço para a narrativa pausada e bem escrita”. O seu pensamento é claro: “Estão-se produzindo grandes mudanças, mas os princípios continuam os mesmos. Há mais de cem anos, o famoso poeta Matthew Arnold definiu o jornalismo como a arte de contar histórias com um fim, com um sentido, e creio que é uma boa definição. O apetite para ler reportagens assim, bem contadas, é maior que nunca. Os leitores querem que os jornalistas lhes contem grandes relatos que abordem questões sérias”. Sublinho, ainda, uma outra afirmação da ex-directora do “The New Iorque Thimes”: “Há fome de boa narrativa. Quando esta adopta a forma de jornalismo, tem que ter um sentido. Tem que ilustrar um problema social ou explicar como a gente real sofre para viver e quais são os problemas económicos”. É nesse sentido que outro grande escritor e jornalista, Manuel Rivas, diz que “o jornalismo é um conto”.
Voltando ao chão nosso da Imprensa Regional. É um conceito difuso, em Portugal, onde se gosta de dividir o mal pelas aldeias, e aí, porventura, radica o facto de nele caber todo o tipo de publicações, a maior parte das vezes meramente locais. Ora o que deveria definir objectivamente a Imprensa Regional era a sua territorialidade. E nesse sentido, honra lhe seja, a Imprensa Regional, alguma Imprensa Regional, antecipou até o conceito de região, o que não foi coisa pouca num país centralista que gosta de olhar para o umbigo e abomina as regiões, impondo uma cultura de horizontes mais largos do que o acanhado bairrismo local, com as suas abençoadas guerras do alecrim e da mangerona. É verdade, também, que o seu êxito é tributário do mau trabalho da imprensa dita nacional e de referência (não será, também ela, regional, confinada que está, em larga medida, ao seu território originário?), que abandonou o país real, sempre à espera que o Interior lhe fornecesse para matéria informativa questões insólitas, fenómenos do Entroncamento, ou porventura meninos que nascessem sem cabeça! Porque todo o resto é silêncio, só quebrado quando algum ministro ou presidente a traz atrás de si a Informação pela trela. Isso ajuda a perceber como a Imprensa Regional é crucial, seja para as regiões ou, até, para as precárias unidades sociais, que só com ela têm ligação ao mundo. Daí, também, o seu carácter de serviço público, pois supera uma limitação fundamental: o direito à informação.
A Imprensa Regional ainda é um leão adormecido, como a considerou o Prof.  Alexandre Manuel, que estudou a imprensa regional católica, retratando um universo global de 1,2 milhões de exemplares por semana? O distrito de Castelo Branco, por exemplo, era ainda há quatro anos, o primeiro na leitura de jornais regionais. A roda do tempo, que na produção de informação é inexorável, coloca outras exigências de profissionalismo (libertação de paroquialismos doentios) e gestões menos débeis, ao mesmo tempo que a Imprensa Regional será tanto mais forte quanto mais reflectir projectos sólidos, com territórios configurados à necessidade informativa, virtualizando sempre o carácter de proximidade que a torna verdadeiramente insubstituível relativamente à imprensa de matriz nacional, para não falar na importância da sua ligação às comunidades portuguesas, num fortalecimento da pátria idiomática.
Às vezes, estamos a falar nestas coisas e parece-nos, no contexto das mutações tecnológicas que tanto aceleraram a História, que ficámos reféns do tempo e tudo já não fosse mais do que meros arcaísmos, sem adaptação à realidade. Talvez isso contenha dentro de si um admirável mundo novo, com avatares do progresso e dos charmes das tecnologias, que está longe, ainda, da nossa História imediata, que é aquela que o jornalismo tece, na emergência dos quotidianos.
De qualquer forma, volto a Manuel Rivas, que no outro dia escreveu uma crónica admirável sobre aquilo a que ele chamava “o clube da felicidade clandestina”. O jornalista espanhol aborda o problema do “desaparecimento da imprensa, dos diários em papel e de revistas e magazines”, que ele diz ser alguma coisa “mais real do que uma profecia”. Não sei se é nostalgia, mas Manuel Rivas lembra  que há milhões de pessoas que todos os dias pela manhã, e às vezes, à tarde, tomam no mundo uma decisão épica e liberal: “comprar um jornal em papel”. E, no final, depois de todo o pessimismo sobre o futuro imediato, acaba por dizer: “Talvez os milhares, os centos de milhares, os milhões de pessoas que todos os dias abrem um jornal ou um livro em papel não façam parte de uma reserva em extinção. Eu, pelo contrário, vejo-os como adolescentes que desfrutam um primeiro amor. São o Clube da Felicidade Clandestina”.
Por mim, não desdenho tal condição, embora saiba que habito um país que, em matéria de leitura de jornais e de livros se situa na cauda da Europa. E, sobre tudo isso, como quem avisa a navegação, apetece-me pedir de empréstimo a Antero de Quental, a célebre pergunta ao intendente da polícia, sobre a proibição das Conferências do Casino, e, sabendo já a resposta: não é possível viver sem ideias, inquirir também: -- Mas excelentíssimos senhores, é possível viver sem jornais? A resposta só pode ser um rotundo não. O último jornal ou o último livro significariam sempre a vitória do silêncio e do esquecimento sobre a inteligência.

domingo, 27 de setembro de 2015

E SE O PAPA VIESSE HOJE A PORTUGAL...

E se o Papa Francisco viesse hoje a Portugal, sabendo, como sabe, a deplorável situação do país, a fome à vista ou encoberta, que nem poupa crianças, o desemprego que é um universo de grandes dramas humanos, alguns a desembocar no suicídio, os mais velhos tratados como a "peste grisalha" que estraga as contas do Orçamento, a sociedade comandada por fanáticos ultra-liberais, artífices daquele capitalismo ultra-selvagem, com as teologias do dinheiro e dos mercados, que o Papa tanto tem criticado, que diria ele aos mentirosos compulsivos do governo que desgraçam as pessoas comuns e enchem os bolsos dos amigalhaços das negociatas e das privatizações? Que diria o Papa Francisco de tipos que se dizem muito cristãos (há um que até se afirma como democrata-cristão e depois, na prática política, nega a doutrina, como Judas negou o Mestre!), que batem muito no peito e se apresentam como os anjos papudos dos altares,  e apenas existem para diabolizar a vida das pessoas, abençoar os ricos e sacrificar os mais pobres, roubando pensões, confiscando salários, impondo salários de miséria (que encobrem escravaturas dos tempos modernos!), desprezando os jovens, a quem fecham os horizontes de vida e os mandam emigrar, como se Portugal não fosse para eles, mas apenas para ser vendido a chineses e outros que tais?
Que diria o Papa Francisco, aqui e agora, quando o oiço nos EUA dizer que "a exclusão económica e social é a negação completa da fraternidade humana e uma grave ofensa contra os direitos humanos e o ambiente"?
Que diria ele aos dois comparsas do governo, Passos 6 Portas, que na sua acção governativa não têm feito outra coisa senão provocar "a exclusão económica e social"?
Que diria o Papa Francisco a este Poder putrefacto, que pratica obstinadamente a desumanidade, que impõe a destruição dos quotidianos das pessoas, que só tem sabido tirar o que é legítimo e de direito às pessoas, quando o oiço dizer, na ONU que "dar a cada um o que lhe é devido, para citar a definição clássica de justiça, significa que nenhum indivíduo ou grupo pode considerar-se absoluto, pode passar por cima da dignidade e dos direitos de outras pessoas ou grupos sociais"?
Que diria o Papa Francisco, a quem alegremente foi Além da Troika para infernizar, ainda mais, a vida dos portugueses, capatazes e servidores devotados dos interesses financeiros, quando o oiço dizer, em Nova Iorque, quando oiço criticar abertamente as agências financeiras, o Banco Mundial ou o FMI, dizendo que essas instâncias ("criadas especificamente para lidar com as crises económicas", disse ele, Papa Francisco) "deviam cuidar do desenvolvimento sustentável dos países e limitar todo o tipo de abuso e usura, garantido o seu desenvolvimento sustentável, em vez de submetê-los a sistemas de empréstimos opressivos que, em vez de promover o progresso, sujeitam as pessoas a mecanismos que geram mais pobreza, exclusão e dependência"?
Que diria o Papa Francisco, aqui e agora, em Portugal?
Que tantos pecados só podem levar Passos & Portas para os quintos do inferno!