sábado, 10 de outubro de 2015

DO CANDIDATO MARCELO

Como naquelas histórias em que o mistério se desfaz logo na primeira linha, assim o calendário do anúncio da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, que é o epílogo de uma paciente preparação mediática. Não é nada de novo: sabia-se que estava escrito nos astros, como diziam os antigos, que acreditavam em mitos e recorriam aos oráculos para definirem os comportamentos. Ao dizer que quer pagar a Portugal, o que Portugal lhe deu, oxalá que a factura apresentada aos portugueses não seja excessiva.
Marcelo tem anos e anos de televisão, ofereceram-lhe um púlpito para ele dizer a sua missiona, e ele lá foi seguindo a estratégia de dar sempre a táctica possível ao seu amantíssimo PSD. O anúncio da sua candidatura, dada a sua persistência mediática como comentador, faz sempre lembrar aquele especialista de televisão que um dia afirmou, comparando um Presidente a um sabonete, que com a televisão era capaz de colocar qualquer tipo em Belém!
De qualquer forma, o homem do PSD, em toda a linha, Marcelo Rebelo de Sousa, está aí, na certeza que, desta vez, nem Cristo descerá à Terra, nem ele voltará a mergulhar no Tejo.
O meu amigo, embaixador António Russo Dias, de quem tenho publicado poesia satírica sobre a actualidade portuguesa, matéria que é sempre muito partilhada pelos meus Leitores, tem feito excelentes retratos de alguns actores da política à portuguesa. Acaba de publicar (Retrato II), cuja pertinência é fácil de descobrir. Curiosamente foi escrito há um ano... Cai agora em cima da anunciada candidatura de Marcelo. Leiam s.f.f.:

"Ele sabe impingir lérias
Que faz passar por lições.
E fala de coisas sérias
Como quem vende limões
Por tostões.

Compulsivo palrador,
Um funâmbulo da piada,
O caixeiro-professor,
Oferece caixas de nada
À cambada.

Como um aldrabão de feira,
Apregoa, o saltimbanco.
Com meneios de rameira,
Sabão que lava mais branco.
Ou um Banco.

Ele leu tudo e tudo sabe.
Dá pareceres abalizados.
E antes que o show acabe
Ainda vai mandar recados
Aos aliados.

Entre jogos malabares
Em que é useiro e vezeiro,
Manda bocas pelos ares,
Ata e põe o mundo inteiro
No fumeiro.

Há distribuição de notas, 
Consomés e tropelias,
Umas facadas nas costas,
Alguns livros, profecias.
Ninharias.

Ainda criança-mimada,
Queria ser como o padrinho.
Os grandes achavam piada
E falavam com carinho
Do Marcelinho.

"Presidente do Conselho...
E ministro e professor...
Há-de ir longe o fedelho!
Ainda há-de fazer furor,
Sim senhor!"

E, agora, a Presidência!
Que Belém está à mão.
E naquela residência
Ia fazer um vistão,
O aldrabão.

Não sei se a ideia é boa
Mas sei que, a mim, me agrada:
Ele já tentou em Lisboa
E levou uma banhada.
Mai'nada!

António Russo Dias
28 de Dezembro de 2014

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

SAMPAIO DA NÓVOA, MEU CANDIDATO

No comatoso estado da política portuguesa, em que os jogos de interesses, alguns de cariz espúrio, se moldam a prováveis e improváveis candidatos à Presidência da República, foi bom ouvir hoje Sampaio da Nóvoa reafirmar o seu propósito de candidatura às eleições presidenciais de Janeiro. Há meses, quando o antigo Reitor da Universidade de Lisboa manifestou oficialmente essa intenção, escrevi aqui palavras de aplauso e de esperança por, finalmente, depois de dez anos de aviltamento presidencial, com o magistério cavaquista tão despido de cultura e de sensibilidade social, tão dado a levar ao colo o governo de Passos & Portas, surgir uma figura com a o perfil cívico e cultural de Sampaio da Nóvoa, cidadão sereno que olha a sociedade portuguesa com um humanismo que a alguns, decerto, parecerá um delito. Não é por acaso que a informação comandada pela direita esteve, nos últimos dias, apostada em fazer passar a mensagem da hipotética desistência de Sampaio da Nóvoa. Não é por acaso que sectores do PS tão alegremente levam às costas o andor de Maria de Belém Roseira, quando Sampaio da Nóvoa era, já, o candidato natural da área socialista, numas eleições que só se podem vencer se a candidatura não estiver refém, exclusivamente, de um partido. Por isso, confesso, foi com renovada esperança que vi e ouvi o Prof. Sampaio da Nóvoa desfazer equívocos e boatos, mentiras ardilosamente construídas, e dizer que nunca, como agora, a sua candidatura é necessária. Com aplauso, e na certeza da renovada cidadania que a sua candidatura semeará pelo país, reproduzo aqui a declaração do Prof. Sampaio da Nóvoa. Palavras essenciais à luta que aí vem:

"Por respeito institucional, só agora me dirijo aos portugueses, depois de ouvir e ponderar sobre a comunicação oficial do Senhor Presidente da República. Não posso deixar de dizer que me surpreendeu ter sido proferida antes de serem definitivamente conhecidos os resultados eleitorais e antes de terem sido recebidos os partidos políticos. Foi a opção do Senhor Presidente da República, mas eu teria agido de modo diferente. A interpretação dos resultados eleitorais deve ser feita na sua plenitude, com independência, sem leituras parciais ou parcelares. Para enquadrar os limites da sua intervenção, o Senhor Presidente da República mencionou vários tratados, regras e compromissos do nosso país, no plano europeu e atlântico, mas não se referiu, com a centralidade necessária, à Constituição da República Portuguesa. Numa democracia parlamentar nenhum partido representado na Assembleia da República deve ser colocado, ou deve colocar-se, imediatamente, à margem das soluções de governação. Não há partidos, nem cidadãos, de primeira ou de segunda. Todos os votos têm a mesma legitimidade. É assim em todas as democracias europeias. A interpretação dos resultados parece-me clara. Os portugueses manifestaram a vontade de, prudentemente, virar a página da austeridade e de construir políticas de desenvolvimento económico e de justiça social, num quadro de inovação e de defesa do Estado social. Os portugueses manifestaram, também, um desejo de continuidade na relação com a Europa, ainda que com o reforço da nossa autonomia no seio das instituições europeias. Depois das eleições, não pode ficar tudo na mesma na nossa estratégia europeia e na nossa estratégia económica e social. Não foi o fim de nada, mas foi o princípio de um movimento de mudança que se encontra, há demasiado tempo, à procura de uma representação política comum. Tendo em conta o resultado das eleições legislativas, ficou mais clara do que nunca a urgência desta candidatura. Faz falta um Presidente da República que seja capaz de representar todos os portugueses e de construir compromissos históricos num tempo tão exigente da nossa vida colectiva. Um Presidente que não exclua ninguém. Um Presidente que não esteja refém de interesses particulares ou de lógicas partidárias. Um Presidente capaz de acolher e de apoiar as alianças necessárias à estabilidade governativa. Um Presidente sem preconceitos e sem tabus. Os portugueses, hoje, conhecem-me melhor. Quanto mais difíceis são os desafios, mais forte é a minha determinação, o meu compromisso. Foi assim durante toda a minha vida. É assim, agora, nesta candidatura. Nos últimos dias, aberto o tempo das presidenciais, tenho vindo a receber palavras de incentivo de todo o país, de independentes e de militantes e simpatizantes de todos os partidos com representação parlamentar. O que sempre me animou foi, e é, a coragem das pessoas, anónimas, que sentem esta candidatura como um sinal de esperança e de futuro. Porque agora é que é mesmo preciso um Presidente presente, um Presidente capaz de acordar Portugal, um Presidente de causas. Porque agora é que é mesmo necessária uma candidatura independente, um Presidente que interprete, com isenção, a vontade popular. Um Presidente deve estar acima dos partidos, e não lhes deve impor a sua vontade. Deve ser um árbitro, e não árbitro e jogador ao mesmo tempo. Os portugueses estão cansados de atitudes parciais, de intrigas partidárias, de jogos de bastidores. Exigem que o interesse nacional esteja sempre acima de interesses particulares. Hoje, mais do que nunca, a democracia precisa de um suplemento cívico. Tivemos a maior abstenção de sempre em eleições legislativas. Não podemos continuar a fingir que nada se passa. Precisamos de fazer uma reflexão profunda sobre o nosso sistema eleitoral, e agir em coerência para combater o afastamento dos cidadãos da vida política. A batalha pela qualidade da democracia está, desde o início, no coração da minha candidatura. Hoje, mais do que nunca, é necessário um Presidente que defenda a Constituição e o Estado Social. A minha fronteira não é entre Esquerda e Direita, é entre aqueles que estão ao serviço da República e aqueles que dela se querem servir. Apresentei a minha candidatura há mais de cinco meses. Em nome da cidadania. Não esperei pelo apoio de nenhum partido para lançar a lançar. Não estou dependente de nada, nem de ninguém, apenas dos portugueses e das portuguesas que queiram juntar-se a esta causa. Todos são bem-vindos: cidadãos, grupos, movimentos sociais e partidos políticos.
Tive presente, como sempre tenho, o exemplo dos três Presidentes da República, de quem recebi o estímulo e o apoio no lançamento da minha candidatura. Faltam pouco mais de três meses para as eleições presidenciais, que decorrerão em Janeiro de 2016. Durante o período eleitoral para as legislativas, reuni e consolidei as condições necessárias ao sucesso da candidatura. Vou bater-me por um país com uma nova visão geoestratégica, com uma perspectiva de futuro assente na educação e no conhecimento, na ciência, na tecnologia e nas inovações promovidas pela livre iniciativa das pessoas, das instituições e das empresas. Sempre com uma fortíssima consciência social. Vou bater-me pela República em que acredito. Podemos renunciar a tudo, mas nunca aos nossos ideais, à nossa palavra, à nossa consciência. Juntos, vamos mostrar que, quando os portugueses querem, o país acorda, avança, é capaz de abrir novos futuros. Juntos, vamos dar uma nova esperança a Portugal. Com energia. Com entusiasmo. No final, estou certo de que teremos orgulho no que alcançámos e a serenidade de quem cumpriu a sua obrigação.
Não quero nada para mim, mas estou disposto a dar tudo".
Sampaio da Nóvoa é o meu candidato. Com empenho cívico, e avisando a malta, como queria o Zeca, digo: Juntem-se a nós! Belém merece ficar mais habitável.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

RITUAL DOS NOVOS VAMPIROS

Há anos, na catedral de Palermo, vi um sujeito de fatinho preto, cabelo preto a brilhar, bem anafado, que percorria os altares do templo, fazendo as genuflexões da regra e beijando a medalhinha que sacava da corrente dissimulada no peito. Observei-o mais atentamente e a imagem do homem ficou-me na memória, porventura por uma daquelas suspeitas que um indivíduo a passear pela Sicília, a pátria de D. Corleone, pode lançar no seu íntimo:
-- Este tipo pode bem ser da Mafia!
E, de facto, nunca se sabe se o ritual do beijinho na medalha da Virgem, nos sucessivos altares, não corresponde à liturgia dos tipos que os mafiosos despacham com tiros na nuca ou com outras mortes igualmente expeditas. É, se calhar, um fenómeno inerente à natureza humana, esse comportamento dos tipos que fazem as piores malfeitorias, crimes até, devastações sociais e depois, como o tal tipo (muito cinematográfico!), que se calhar era da Mafia, compõem a melhor máscara de beatitude, ajoelham aos altares dos santos e beijam as medalhinhas, recatadamente, em privado.
Lembrei-me dessas máscaras de circunstância, do ar subitamente beatífico e bondoso dos senhores Passos Coelho e Paulo Portas, quando, sabendo que não poderiam governar do alto da arrogância e do fanatismo Além-Troika com que tornaram a vida dos portugueses um inferno, vêm agora com uma retórica solidária, com a preocupação do combate às desigualdades e à pobreza, que eles entusiasticamente produziram nos quatro anos da sua legislatura como maioria absoluta!
Esse jogo de máscaras só é possível num país tão desmemoriado, tão distante da realidade cruel do quotidiano das pessoas, como Portugal parece que é, a ajuizar pelo recente comportamento colectivo. Não é possível encontrar um lugar (isto às vezes não é um país, é um lugar...) que combine de forma tão persistente esquecimento e anemia cívica. Vejam só a desfaçatez, segundo a notícia que hoje publicava o "Público". Diz o diário que no texto do acordo entre o PSD e o CDS, que se comprometeram a entregar a Cavaco para a formação do Governo, "entre os objectivos definidos está o de defender e reforçar o Estado Social" e a materialização de um modelo em que a parcela de investimento público será selectiva e focada em pequenas e médias obras necessárias". 
A situação é absurda, nem Kafka poderia imaginar uma coisa destas. Dois chefes políticos propõem-se agora, só para se manterem no poleiro do mando, fazer tudo aquilo que destruíram no plano social, demitindo o Estado das suas obrigações solidárias em relação aos mais fracos, saqueando salários e pensões, lançando na margem desapiedadamente os desempregados de longa duração e assassinando a esperança aos mais jovens.
Oiço falar estes tipos, compondo novos papéis na sua forma de representar a política, e volto a pensar nos tais sujeitos que fazem as piores coisas à felicidade humana, nem é preciso apertar o gatilho, e depois vão beijar as medalhinhas e a bater no peito...
Quem os pode levar a sério.? Só outro tipo, de igual coturno, que por acaso é Presidente da República.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

JOSÉ VILHENA: O RISO COMO SALVAÇÃO



--Que notícias há de Portugal?
--Não sei, ainda não li a imprensa estrangeira...

No sábado, no período de reflexão do acto eleitoral, como se quisesse dar uma última gargalhada sobre o país da austeridade e da sacristia, o José Vilhena partiu definitivamente para a longa viagem. Ele estava, há muito, já de certo modo ausente, mas talvez nenhum outro humorista (e Vilhena era muito mais do que um humorista!) tenha, depois de Bordalo, cumprido tão persistentemente uma crítica demolidora ao sistema, antes e depois do 25 de Abril. Nesse aspecto, foi um trabalhador incansável, aliando um talento superior na caricatura dos detalhes e do fundo da sociedade portuguesa, os seus figurões e os seus tubarões de navegação em terra, a uma capacidade extraordinária como autor de uma literatura popular que incomodava os poderes e as suas superestruturas repressivas. Poucos, como ele, perceberam o ensinamento de Eça, quando ele mandava rir, lembrando que "o riso é uma filosofia", "muitas vezes o riso é a salvação e em política, pelo menos, o riso é uma opinião". Uma opinião com peso.
A vida de José Vilhena, polifacetada nessa prática, foi enorme e não vejo outro que ombreie com ele essa totalidade da crítica, esse olhar demolidor, essa força plástica à volta de um papel branco. Eu tive a sorte de, muito jovem, de me sentar à sua mesa, mais para ouvir, que era sempre uma mesa fraterna onde eu via os meus tios Armando e António Paulouro, o Simões Nunes que foi, com o Armando Paulouro e o José Vilhena Vilhena, o trio de O Mundo Ri. Mas o verdadeiro companheiro, na realização de O Mundo Ri e na edição dos livros do José Vilhena, até ao 25 de Abril, foi Armando Paulouro. Aliás, já o lembrei neste espaço, publicaram a célebre colecção de postais sobre "A vida portuguesa na segunda metade do séc. XX", que enfureceu Salazar, que os mandou prender pela PIDE. Nessa altura (estão neste Blogue) reproduzi-os a todos tendo escrito: Em 1964, uma colecção de postais ilustrados com desenhos de Vilhena, intitulada&Cenas da Vida Portuguesa - Personagens e costumes da 2.ª metade do século XX,levou a PIDE a desencadear uma forte repressão, tentando apreender os postais e prendendo Vilhena, Armando Paulouro e Simões Nunes.Os desenhos irritaram Salazar. O humor também, então, era perigoso em Portugal e talvez isso explique a razão que, num país de tão ricas tradições sarcásticas, não haja hoje um jornal satírico neste país.
No outro dia, li uma crónica de Manuel Rivas que contava que, estando Voltaire na agonia, manifestou uma vontade: disse que era do partido do riso.Hoje, ao lembrar-me do querido amigo José Vilhena, ofereço aos Leitores a colecção de postais (são 9) que enfureceu Salazar, que não partilhava o riso como saudável. À distância do tempo (são de 1964), penso que é Vilhena no seu melhor. Os seus desenhos ajudam-nos decerto a compreender uma perplexidade que parece acompanhar-nos todo o tempo: que raio de país é este?"Retomo o texto que escrevi em Janeiro, sobre o autor alguma vez mais proibido em Portugal. Se ainda as houvesse, tinha ido parado à fogueira, ele e a sua obra (lembremo-nos, depois de Abril, do que foram "A Gaiola Aberta", O Moralista", "O Cavaco"!): Nestes dias de inquietação e raiva, lembrei-me do José Vilhena (tão esquecido), que antecipou tanta coisa no tempo, que foi o autor com mais livros proibidos durante a ditadura, e o mais persistente e demolidor crítico do cavaquismo (ele foi premonitório em relação à desgraça!), na publicação que intitulou O Cavaco. Escrevia e desenhava, ia contra a corrente das conveniências, era anti-clerical, era anti-Estado (no que o Estado tinha de corrupto ou de estigmas totalitários), era anti-militarista, era anti-castas sociais, era contra o país que se ajoelhava, era anti-hierarquias, era anti-capitalista (o capitalismo é em Portugal uma religião). Escreveu centenas de títulos (lembremo-nos de A História Universal da Pulhice Humana) disse mal de todos, tinha um sorriso desarmante sobre a realidade que outros queriam impingir como xarope salvador.
Nestes dias em que "Je Suis Chrarlie" foi proclamação universal, lembrei-me do José Vilhena. À escala portuguesa também o tentaram suprimir (não fisicamente), mas não faltaram vontades, antes e depois de Abril, de lhe confiscarem o lápis e a imaginação. Lembrei-me, pois, do Vilhena, e do seu enorme talento, da sua capacidade infinita para o traço demolidor, da sua inteligência para nos fazer sorrir, sabendo ele que o ódio ao riso é próprio dos parvos. Doente, retirado num Lar, falo dele como artista e cidadão, gesto breve de amizade e afecto. E entre muitas coisas que poderia contar (a sua ligação ao Fundão e ao Jornal do Fundão e, sobretudo, a meu tio Armando Paulouro é inesquecível), escolho uma que tem um significado muito especial: O 5.º Pecado, filme que realizou no Fundão e que infelizmente se perdeu (vi a montagem de parte do filme) foi um desses momentos altos, de que um dia falarei com tempo.
Nos anos 60, tempo mais duro porventura da ditadura salazarista, se é possível graduar a ignomínia, criou-se em Lisboa e a sua distribuidora a SPECIL. Vilhena tinha uma relação quase fraternal com o meu tio Armando e lembro-me de uma vez lhe ouvir dizer que os dois eram sócios de produção de ironia e deveriam ser pagos apenas para terem ideias. Conviver com eles foi viver instantes únicos".Há tempos, em Lisboa, lembrei precisamente O Mundo Ri e muitos dos livros de José Vilhena foram impressos na tipografia do Jornal do Fundão. Vilhena deve ter sido o autor mais proibido pela Censura. A propósito de um livro da Specil, há um relatório do Censor que Cândido de Azevedo transcreve A Censura de Salazar e Marcelo Caetano e que é elucidativo: “... O distribuidor – a firma SPECIL, editora de “O Mundo Ri” e também distribuidora de todos os livros do “Vilhena” é contumaz em toda a espécie de abusos e de negaças em relação à Censura. O compositor e impressor – o Centro Gráfico das Beiras - Fundão, que outra coisa não é que o assaz conhecido "Jornal do Fundão", em cujas oficinas têm sido impressas inúmeras obras indesejáveis, é portanto altamente suspeito".

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

QUE PAÍS É ESTE?

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Não faltam, na história portuguesa, exemplos de como o povo, por anemia cívica, anátemas ideológicos, medos e atavismos ancestrais, se comporta como se gostasse que  a canga da servidão e da submissão à sua própria desgraça, aos seus infernos quotidianos, colocada sobre o cachaço fosse mais pesada e imutável, quase eterna. Essa maneira de olhar, avergoada ao medo da mudança, essa forma de ficar refém da política que é contra ele e o desfaz em mil e uma malfeitorias, essa condenação à pobreza, aos salários de miséria, aos confiscos fiscais, às navalhadas nas pensões parece não fazerem parte da memória colectiva.
É, pelo menos, assim, que eu vejo os resultados eleitorais de ontem. Não me comprazo na felicidade dos que cantam hossanas a uma aritmética de esquerda, sabendo, como sei, por experiências transactas e pelo tempo de vivência democrática que a a esquerda portuguesa é, porventura, a mais estúpida do mundo, pois nunca consegue sentar-se à mesa nem para se pôr de acordo sobre a defesa do Estado Social, sobre as políticas socialmente inclusivas, sobre aquilo que é primordial em defesa da humanidade e da felicidade dos portugueses. Cada um, O BE e o PCP, à sua maneira, conta os seus votos, os seus mandatos e siga o baile... da retórica da oposição, na Assembleia da República, enquanto o PS se dissolve também nos seus medos e nas contradições da sua condição de cliente rotativista do Poder. A direita, claro, sempre mais pragmática, une-se no essencial, mesmo que odeie bem lá no íntimo, e leva a água ao moinho, com os seus apoios mediáticos e financeiros, com o seu ar beatífico e desculpabilizante dos seus crimes sociais, da sua insensibilidade humana, da sua indiferença face ao sofrimento colectivo. Que outro povo, depois do que passou nestes quatro anos, ainda seria capaz de bater palmas aos carrascos.
Dizem que agora, face ao carácter minoritário da coligação vencedora, vem aí um sarilho. Depois das imprecações e dos insultos, depois da guerrilha verbal, vêm agora abrir os braços a uma paz podre. Quem poderá ir nessa cantiga?
Vivemos tempos sombrios, densas nuvens pairam por aí. O país vai ficar ainda menos habitável. Volta a escrever o que um dia já editei neste espaço, como se a história fosse uma parábola para os dias de hoje.
Isto faz-me lembrar, sempre, a história que Manuel Rivas um dia contou sobre tempos sombrios. Vivendo inquietações comuns, observador da realidade da crise, ele lembrou-se de um filme, "Os Companheiros", em que Mastroianni, um professor em fuga, se apeia numa pacata estação de caminho de ferro e pergunta:
-Que país é este?
E alguém responde:
-Este é um país de merda!
Essa estação do professor em fuga poderia ser algures, por aqui, num país chamado Portugal.