sexta-feira, 16 de outubro de 2015

REGRESSO AO PASSADO

Estava a ouvir o Prof. Adriano Moreira, na TVI, numa entrevista muito conveniente para a Coligação de Direita, e parecia-me que, subitamente, se produzira o regresso ao passado e quem estava ali a perorar era o velho ministro de Salazar. Como dizia o poeta Afonso Duarte, "o regresso ao passado é sempre um resto/ou pior uma falta de saúde"... Não se põe em causa a inteligência fulgurante do académico, nem a sua capacidade táctica, no plano do pensamento, para um percurso pessoal que é sempre ele e as suas circunstâncias. E aí, honra lhe seja, teve sempre tal ductilidade intelectual que, no seu caso, não houve deserto, nem Tarrafal, que beliscassem o seu esplendor como homem da doutrina social da Igreja ou como académico de galeria.
Porque venho eu agora com isto? Porque o velho leão do CDS veio falar de princípios para diabolizar a eventualidade de um acordo parlamentar ou de um Governo à esquerda do PS, entre este, o PSD e o CDS/PP, tomando as dores de parto por tal acontecimento que, na sua óptica, feria de morte os interesses nacionais em relação aos compromissos internacionais e à própria Europa. Claro que foi dizendo que havia toda a legitimidade constitucional, mas a boa governação... aí é que era o diabo!
Com a provecta idade e a longa experiência, o Prof. Adriano Moreira podia falar, também, de outros princípios, que até incomodam o Papa Francisco e a sua doutrina social da Igreja: o deus do dinheiro, tão caro à sua Coligação, o triunfo das desigualdades, a avassaladora pobreza, o elogio dos salários de miséria, a expulsão dos jovens do seu país, a venda a retalho dos bens estratégicos do país -- isto é: tudo o que vai contra os princípios morais mais elementares e contra os direitos humanos. Essa foi a doutrina e a prática da sua -- dele, Adriano Moreira! -- abençoada Coligação de Direita.
Tive pena do triste espectáculo que deu com a sua diabólica magistratura do conselho...

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O ESSENCIAL E O RESTO

Rui Rio anunciou a desistência da sua candidatura à Presidência da República. É nestas particularidades da política que se vê o pragmatismo da direita, que se une sempre à volta do que é essencial (neste caso ter candidato único), mesmo que os ódios dilacerem interiormente os chefes. Passos Coelho não chamou "cata-vento" a Marcelo? Agora,é o seu candidato porque o essencial é ganhar.
A esquerda não tem emenda: os candidatos reproduzem-se como cogumelos, e alguns bem venenosos, por sinal. Aqui, é o primado da divisão e os ajustes de contas pessoais (e os fretes). Colocam sempre à frente do essencial, o acessório. A estupidez e a sacanice política andam por aí, de mãos dadas,  e muito bem distribuídas!

O MUNDO DE FERNANDO ALVES

O meu café da manhã continua a ser um momento único porque dele fazem parte as crónicas do Fernando Alves. As suas palavras, carregadas do seu frémito de humanidade, procuram "o rumor do mundo", como diz um dos versos de Eugénio de Andrade. E esse rumor tanto pode ser buscado em latitudes longínquas, como nos detalhes do quotidiano, numa rua ou numa praça onde se ouvem ruídos, palavras e gestos, angústias e esperanças que compõem o retrato de um país chamado Portugal. Essa gente que passa e que, às vezes, parece que transporta o mundo aos ombros, olha-a Fernando Alves com a sensibilidade social de quem sabe que aquilo representa muito mais do que uma imagem rápida, fugidia quase: é o microcosmos de uma realidade mais vasta onde se reflecte a sociedade portuguesa. Fernando Alves é um cronista e, como Fernão Lopes ou Fialho, ou Ramalho, ou Eça, aprendeu no olhar dos outros a seleccionar a sua própria perspectiva, umas vezes com incisões oblíquas, outras com desmedida alegria pelo esplendor cromático das paisagens, numa sinfonia das quatro estações. Os olhos enchem-se sempre de um humanismo que o prende à terra, o que lhe permite ver aquilo que de verdadeiramente importante e significativo têm as vinte e quatro horas de um dia.
Hoje, pus-me à escuta da sua voz, tão sua, tão densa, perscrutando os seus sinais, que são sempre a expressão sonora de uma matéria solar feita de palavras. Então, conta ele (e os meus Leitores irão ouvi-lo), estava ele a uma mesa do café que dava para a rua, quando estacionou à porta uma mulher carregada de sacos, que vinha porventura da sua navegação diária pelos caixotes do lixo. Não digo mais nada, apenas os convido a pararem um momento e mergulharem no fascínio da crónica "A Menina de Lá", do Fernando Alves.
Sinais - TSF Rádio Notícias

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

DUAS NOTAS HILARIANTES

1. Hoje, ao ler o "DN", duas notas hilariantes sobre o momento que passa me fizeram sorrir. A primeira é sobre o inefável secretário-geral da UGT, Carlos Silva, que apelara a um acordo entre o PS e a Coligação de direita. Os órgãos da UGT, escandalizados, e com razão, vieram logo esclarecer que aquela posição era do dito sujeito e não da central sindical. O chefe embuchou. E o "Diário de Notícias" dizia agora, em título forte: "Carlos Silva deixa UGT se não sentir apoio do Secretariado". Vai- se embora, o que causaria um enorme desgosto na sociedade portuguesa.
Um amigo meu, que lia a notícia à hora da bica, saiu-se com esta:
-- Olha este tipo! Ainda não percebeu que a ausência dele é como a daqueles tipos de quem se costuma dizer:
-- Faz tanta falta como uma viola num enterro!
ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
2. Outro momento cómico ressalta do texto que o crânio do Prof. César das Neves produziu e publicou no jornal onde tem guarida, o "DN". Percebe-se uma certa azia que escorre das palavras do iluminado e ungido economista, provocada decerto pela eventualidade de uma maioria de esquerda, quando vem dizer que "Portugal são dois", uma dicotomia em que estariam "os que determinam os seus ganhos pelo que criam e os que reivindicam direitos abstractos, superiores ao que lhe é devido", "os que vêem o país e a Europa como exigência ou garantia" e os outros, "os que podem estar infectados pelo dinheiro fácil, auferirem mais do que geram e acabando do lado oportunista".
Mas o que verdadeiramente dá vontade rir é uma tirada só possível num tipo estruturalmente desonesto, na forma de abordar a realidade, ou então, de alguém que tivesse desembarcado subitamente de outro planeta: "Hoje, em qualquer zona, sector ou actividade, estamos no mesmo país, aberto, moderno, europeu. Temos problemas, como todos, mas vivemos ao nível comunitário".
Nem de propósito, os jornais do mesmo dia publicam abundante informação sobre a realidade social portuguesa e a europeia, sobre as desigualdades e a pobreza (inclusivamente na pobreza infantil, em que regredimos bastante) ou sobre o facto dos trabalhadores portugueses serem dos que ganham menos e mais horas trabalham, isto para não falar na clamorosa subalternização cultural, que é sempre uma condicionante à materialização da igualdade e do desenvolvimento.
O iluminado economista, por certo cheio de genuflexões mentais, deve julgar que os portugueses são parvos...

NERVOSISMO À DIREITA


Estes dias vividos na sociedade portuguesa valem, no plano imediato da política, por décadas de dicotomias e maniqueísmos, sempre tão provincianos, das esquerdas, em Portugal. Seja qual for o resultado final da história da constituição do novo governo e da sua sustentação, nada será como dantes. A realidade transformou-se, abanou os conformismos ideológicos, os arcaísmos e medos da contra-revolução. Pela primeira vez, a racionalidade tomou conta do discurso, derrubaram-se muros de intransigência, a fala entre todos voltou a ser um fenómeno normal para descobrir aquilo que, no contexto político, é essencial e secundário.
De facto, a existência de uma maioria de esquerda na Assembleia da República criou uma situação política de novo tipo, pondo fim ao velho tabú do arco da governação, uma história da carochinha para idiotas, mera artimanha para perpetuar a direita no poder. Ora, o facto dos partidos à esquerda do PS, o PCP e o BE, se disponibilizarem a criar condições de apoio a um governo liderado pelo PS, com estabilidade, tem um alcance histórico relevante. Desfaz-se o mito da ingovernabilidade à esquerda.
Daí a histeria dos mentores da Coligação e dos adjuvantes comentadores ou jornalistas de serviço, face à firmeza de António Costa, sempre com o interesse nacional de virar a página da austeridade e da pobreza, como questão prévia da negociação. No fundo, como ele disse, a proposta formulada por Passos & Portas não era outra coisa que o prosseguimento da mesma política, por outros meios. Bem podem amuar as múmias, ou os esqueletos nos armários, bem podem mostrar irritação os que estão no conforto dos lugares e temem perde-los, bem pode Cavaco tentar Passos de ilusionismo. É que a realidade tem muito força. E esta, insofismável, é que a Coligação não tem maioria para governar. Estará sempre a prazo, isto é, tem dentro de si como fatalidade, a instabilidade. By, by!

terça-feira, 13 de outubro de 2015

COSTA PINHEIRO


A morte de Costa Pinheiro, sexta-feira passada, na Alemanha, significa o desaparecimento de um artista plástico que nunca se conformou aos acanhados modelos estéticos da sociedade portuguesa do salazarismo e procurou sempre caminhos inovadores e de modernidade criadora. É preciso dizer que, como muitos outros artistas, Costa Pinheiro sofreu a perseguição da Pide, chegando a ser preso em 1963. Foi porventura a repressão e a mordaça da ditadura que levaram a escolher a Alemanha para viver.
Agora, que ele morreu, depois de tanto silêncio sobre a singularidade da sua obra, é bom lembrá-lo. É esse aceno que estas linhas fazem, publicando um desenho seu, que ilustrava a revista de Poesia e Desenho "NOVA", fundada por António Paulouro, que também a dirigiu com Herberto Hélder e António Sena.