sábado, 31 de outubro de 2015

MEMÓRIA DE ANTÓNIO PAULOURO

O Baptista-Bastos, o querido BB, velha referência do jornalismo português, que criou um estilo na escrita jornalística, sobretudo na reportagem e na crónica, assina no "Jornal de Negócios", na sua "Caneta das Sete Léguas", um texto sobre António Paulouro, cujo centenário do nascimento se está a assinalar no ano que passa. Sem mais palavras, aqui ficam as palavras do BB:

"PEQUENA MEMÓRIA DE ANTÓNIO PAULOURO

 (Aos que resistem e continuam a acreditar)

Pela vida fora, o semanário do Fundão tornou-se numa grande referência profissional e moral da Imprensa portuguesa, e António Paulouro o seu grande mentor e inspirador. 
Enquanto o País anda num virote de luta pelo poder, e eu batuco nas teclas, procurando dizer algumas verdades pessoais, a Câmara do Fundão vai lembrar e homenagear um grande jornalista, que toda a vida pelejou a favor da justiça das coisas, e pela grandeza do homem comum. António Paulouro, cujo centenário do nascimento se assinala a 7 de Novembro, está ligado à minha vida profissional e pessoal de forma marcante, e por isso o evoco com amizade, saudade e ternura.
Eu trabalhava n'O Século, tinha pouco mais de 20 anos, era azougado e inconveniente, escrevia n'O Século Ilustrado, semanário da empresa, uma coluna de cinema muito truculenta que me granjeara certa notoriedade, pois os textos constituíam mais uma tribuna política do que análises fílmicas. Muitos deles estão reunidos em dois livros, "O Cinema na Polémica do Tempo" e "O Filme e o Realismo", de que me orgulho muito. Certa noite, José Barão, algarvio, anarquista e grande repórter, chamou-me para me apresentar um amigo, António Paulouro, que fundara o semanário Jornal do Fundão e precisava de alguém que lhe escrevesse uma página de espectáculos. Eu. E assim foi. Paulouro era um homem sorridente e cordial, mas, percebia-se logo, decidido e extremamente enérgico. Fora adepto de Salazar, mas cedo se desiludira, e não escondia o que pensava, comportamento perigoso na época.
Assim que comecei a colaboração para o semanário, arranjei logo sarilhos. Um filme muito medíocre, de propaganda ao regime, "Rapsódia Portuguesa", realizado por um cineasta, João Mendes, abaixo de tudo o que se possa pensar, fora exibido em Cannes, e logo vituperado pela crítica e pelo público que o pateara com vigor. Eu recebia, de Paris, jornais e revistas de Esquerda, soube, mais tarde, enviados por Margarida Tengarrinha, com quem eu trabalhara, ela no Modas & Bordados eu n'O Século Ilustrado, e, com base nas notícias obtidas nessas publicações, desanquei o filme, denunciando os objectivos que lhe estavam subjacentes. Foi um alvoroço. Altos funcionários do SNI, o departamento de informação e propaganda do salazarismo, fizeram publicar, no semanário, diatribes violentíssimas contra mim, a que respondi agrestamente. A polémica terminou quando a censura o exigiu. E António Paulouro esteve sempre e sempre ao lado do seu jovem colaborador.
Pela vida fora, o semanário do Fundão tornou-se numa grande referência profissional e moral da Imprensa portuguesa, e António Paulouro o seu grande mentor e inspirador. Os maiores nomes da cultura escreveram no jornal, atribuindo às suas páginas um valor alternativo e extremamente importante. O & etc, de Vítor Silva Tavares, nasceu ali. E a revista Nova, de Herberto Helder, foi patrocinada por António Paulouro. Eu próprio, em hora de aperto, procurei acolhimento, em épocas diferentes, no semanário. O Honrado Paulouro, como chamei ao meu amigo, e do meu amigo escrevi, como agora, com emoção e orgulho, foi dos homens mais dignos e íntegros com quem convivi. Um jornalista como já não há, fervoroso adepto do pluralismo e da liberdade de espírito, e, além de tudo, o que não é pouco, um prosador de primeira água, veemente e de recorte clássico, grande leitor e devotado companheiro.
Quando morreu, seu sobrinho, Fernando Paulouro, substituiu-o no cargo e na função, dando continuidade, no talento e no carácter íntegro, ao extraordinário trabalho do tio. Voltei a escrever, no Jornal do Fundão, durante anos, e a convite do Fernando, uma crónica mensal, que não agradava aos novos administradores. Saí, porque o tempo e as pessoas são outros e defeituosos. O Fernando Paulouro saiu pouco depois, porque as circunstâncias assim o exigiram. É, ele como o tio, um dos grandes jornalistas portugueses. Escreve, agora, um blogue, "Notícias do Bloqueio", cuja leitura vivamente recomendo.Vamos envelhecendo sem envilecer e isso nos basta. Deixemos a outros as tarefas das indignidades. Vamo-los zurzindo, mas eles não têm vergonha nenhuma. Os padrões são outros e a honra anda desempregada. Talvez, um dia, eles sejam escorraçados do nosso convívio. Talvez. Entretanto, ainda cá estamos, para o que der e vier. Assim seja".

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

DÚVIDAS E ENGANOS

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Na Itália, o homem que um dia disse que não tinha dúvidas e nunca se enganava,reafirmou que não tirava uma linha ao que disse na lamentável declaração presidencial, não sobre a indigitação de Passos Coelho, mas sobre os petefes que colocou ao facto da maioria dos portugueses ter votado à esquerda. E deixou no ar que, sexta-feira, vai repetir a dose. De facto, nunca tendo dúvidas, que é o que acontece a quem acredita em dogmas e não tem capacidade de racionalização, Cavaco Silva tem a imagem errática de quem ama o engano. E afirma-o com uma retórica que é sempre de subalterno e de terceiríssima categoria no plano da filosofia constitucional.
Ainda há dias, a jornalista e escritora, Almudena Grandes, escrevia uma crónica, com o título de "Perdedores", em que chamava Cavaco à pedra. Dizia ela que "para a direita, a aritmética não é uma ciência, mas opinião". "É a que, sem ir mais longe, impulsionou o presidente de Portugal, o conservador Cavaco. Silva, a encarregar de governo a Passos Coelho, sabendo de antemão que não poderá fazê-lo , porque uma oposição disposta a formar um governo de esquerda, impedi-lo-á no Parlamento português. Os números da dívida e o défice que Cavaco invocou para contrariar a vontade popular carecem de importância quando a direita se arrisca a perder o poder. Ainda que seja evidente que os portugueses tenham votado que Passos não continue a governar, se há que fazer outras eleições, fazem-se, por muito dinheiro que custem. E se ocorrer à esquerda apresentar-se numa coligação perfeitamente legítima, se fica a passear o fantasma dos sovietes, como fez Esperanza (Aguirre) sem o mínimo pudor. Vale tudo, porque a Europa se converteu num casino, e nos casinos, já se sabe, a banca ganha sempre".
Oiço novamente Cavaco a gaguejar a sua conversa do não arrependimento. Não ter dúvidas sobre uma realidade constitucional pode ser uma quadrada estupidez.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

TRAFICANTES DE FAVORES

ALBERTO PIMENTA
«Não tem direitos por isso compra favores. Fica a dever favores. Faz favores. Para pagar os favores. Compra novos favores. Fica a dever favores. Faz novos favores. Para pagar os favores faz favores. Paga favores. Gosta assim. Não tem direitos. Prefere favores. Gosta assim. Os direitos não se vendem nem se compram e ele tem alma de traficante».
Alberto Pimento, um dos grandes poetas e ensaístas do nosso tempo, na sua implacável observação da sociedade portuguesa, escreveu este poema em 1973, quando havia menos direitos e mais favores, quando havia mais servidão e menos cidadania, quando o modo de vida português era uma dependência total da ditadura. Um ano depois veio o 25 de Abril e foi, na plenitude da festa da Liberdade, a conquista dos direitos postergados.
Na roda dos dias andados se verificou que muitos dos mecanismos passados de submissões e de sujeição ao medo regressaram para impor renovadas desigualdades, outras pobrezas e misérias. Estes últimos anos foram fatais na amplitude dessas desgraças que se tornaram nuvens negras sobre o quotidiano das pessoas.
A servidão e os favores são longos corredores que alimentam vorazes clientelas sentadas à mesa do Orçamento, que só é escasso e madrasto para os que vivem do trabalho. Então, eles andam por aí, compram favores, ficam a dever favores e fazem favores para pagar os favores, como dizia o Alberto Pimenta, que até hoje nunca deixou de ser uma voz livre e crítica sobre as desgraças nacionais. Eles andam por aí. Preferem favores aos direitos.
Basta ler o "Diário da República" para ver a grande lotaria de prémios da clientela dos partidos do poder, assegurando bons lugares, óptimos empregos, ordenados de truz, chefias a contento, O governo de saída, antes de abandonar o barco, promoveu a rapaziada! Como se vê o comércio dos favores está aí, dinâmico como nunca.
Eles têm alma de traficantes!

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

TRADIÇÃO

Dizem por aí que a tradição já não é o que era, mas devo confessar que ontem, quando o Sporting deu três secos ao Benfica, cheguei a temer que o inquilino de Belém, Cavaco Silva, mandasse vetar o resultado por este não estar de acordo com a tradição...

domingo, 25 de outubro de 2015

A IMORALIDADE DO ABUSO DE PODER

Historicamente, em Portugal, o abuso de poder, por instâncias que se julgaram detentoras de uma finalidade superior, ou até divina, para expurgar os outros de pecados ou heresias carimbadas como perigosas para a sociedade, é um tempo longo de crimes e alçapões contra a dignidade humana, que nem o altar ou crucifixo atenuam como acção criminosa a merecer o repúdio dos chamados homens de boa vontade. Nessa história nacional da infâmia, desde a Inquisição, com os seus sacerdotes como justiceiros de braço divino, até aos safanões a tempo do salazarismo, em que juízes de toga e reverência legitimavam os piores crimes da Pide, no palco dos Tribunais Plenários (nunca, em Portugal, se fez "mea culpa" dessa infâmia!), não faltam exemplos de uma disponibilidade para a intolerância, para a expropriação do ordenamento jurídico para fins próprios ou propósitos salvíficos, criando-se universos persecutórios em que o cidadão, com a maior das facilidades, pode ficar refém da malha difusa dos procedimentos judiciários, e, ao mesmo tempo, perfeitamente desarmado face ao inventário policial.
Foi uma técnica muito usada no Portugal ditatorial, em que o Estado não era outra coisa senão uma superestrutura repressiva, que utilizava o medo como forma de intimidar ou adormecer consciências. E, no fundo, quando Kafka, em O Processo, faz a caricatura do poder absoluto do Acusador, impondo a persistência de um absurdo que destrói a própria identidade do visado, está a mostrar como a natureza humana, no plano do exercício do poder (ou dos poderes) é, afinal, muito volúvel.
Ontem, estive atento à intervenção de José Sócrates, em Vila Velha de Ródão. E o que ali esteve no centro das palavras foi, exactamente, o problema da dimensão moral do Estado na utilização de direitos que os cidadãos lhe concederam precisamente para velar pelos direitos de todos. Dir-me-ão que José Sócrates tem um caso com a Justiça. E é verdade. Mas talvez aí resida a importância do testemunho pessoal, de alguém que, ao fim de quase um ano de prisão preventiva. está longe de saber o fundamento da acusação, com todas as contaminações perversas que o processo já sofreu. No fundo, o que ele quis expressar, duma forma muito nítida, é que o Estado, quando pelos seus instrumentos (neste caso a Justiça) pratica com impunidade o abuso de poder, fica doente do .ponto de vista moral e perde a confiança dos cidadãos.
Outra evidência que ninguém de bom senso poderá deixar de reconhecer é que este processo trouxe à luz do dia uma promiscuidade latente entre um certo tipo de jornalismo e os que gerem o segredo de justiça. Sócrates falou desse "poder oculto", que envolve elementos da justiça e jornalistas, "um poder sério que ameaça e intimida", "um poder corrupto que corrompe as instituições do jornalismo e da justiça".
Ainda ontem aqui falava num jornalismo sórdido, um negócio que se estava a fazer moda em Portugal, ferindo o coração dos princípios deontológicos da Informação e a sua ética.
Como cidadão de um Estado de Direito, não fica mal manifestar aquilo que não pode ser escamoteado: que os portugueses conheçam a acusação verdadeira de Sócrates e não tomem conhecimento dela, a retalho, em qualquer tablóide de leitura pouco recomendável, onde até a prostituição é um negócio. E que o acusado possa ter um julgamento sério. è pedir muito aos senhores de toga e balança?