sábado, 7 de novembro de 2015

ANTÓNIO PAULOURO, CEM ANOS DEPOIS

DUAS IMAGENS DA EXPOSIÇÃO
Festa das palavras e da cultura é como eu defino o conjunto de iniciativas que hoje marcarão a lembrança do centenário do nascimento de António Paulouro. Serão instantes que resgatam memórias. No Casino Fundanense, a partir das 15 horas, o programa terá início com a apresentação de dois livros: "António Paulouro - As Palavras e as Causas", uma antologia que eu tive a honra de organizar e uma Fotobiografia, "António Paulouro -Cem Anos Depois", da autoria de Alexandre Manuel e de quem escreve estas linhas. A seguir, será inaugurada a exposição sobre a vida e a obra do fundador do "Jornal do Fundão", comissariada por Arnaldo Saraiva. Às 17 horas, no auditório do Alambique, realiza-se uma sessão evocativa, com a presença de personalidades da vida pública e cultural.
No prefácio da Antologia eu escrevi, entre outras coisas, o trecho que aqui deixo, pequeno retrato de António Paulouro:

"As palavras e as causas de uma vida não cabem numa antologia, sobretudo quando o universo onde elas se inscrevem se mede e amplia por uma escrita literária e jornalística e cívica de grande diversidade, feita de milhões de palavras, com marca de originalidade criadora, com rosto próprio e com um nome: António Paulouro. Na contingência de um percurso, de tal forma singular que parece conter aquele desafio que, à semelhança dos poetas, se proclama como afirmação plena de um destino, não a vida inteira por um livro, mas por um jornal, uma região, um país, a sua biografia cívica e cultural consubstancia a sua dimensão temporal com a marca da singularidade. É nessa síntese, reflexo e projecção da história de um país chamado Portugal, na vivência do século XX e na passagem do ano 2000, que foi sempre um marco temporal estimulante no olhar de António Paulouro para os horizontes largos do Mundo,  que a obra do fundador do "Jornal do Fundão" se edifica como expressão de uma humanidade comum a oito milhões de portugueses, como um dia escreveu José Cardoso Pires. Essa exigência levou-a António Paulouro, ensinando sempre que a narrativa da informação devia comportar duas qualidades: olhar o homem como a medida de todas as coisas (conceito que desenvolveu em múltiplos textos) e dar atenção à realidade imediata como inquietação do fazer jornalismo. Onde existisse um problema social, dizia ele, aí devia estar também o jornal, eis a legenda que pode resumir o seu compromisso com as palavras e as causas."

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A POLÍTICA DE FACA E GARFO

ILUSTRAçÃO DE ZÉ DALMEIDA
Vinda dos fumos do século XIX, às vezes em consequência do trauliteirismo nacional, há em Portugal uma tendência, que se foi tornando hábito, de fazer do recurso ao banquete a forma por excelência de desagravo político. Cristalizou essa prática para enaltecer chefes de facção ou, até, para exprimir fidelidades caninas, que não poucas vezes encobrem clientelismos ou pagamento de favores a barões e caciques ocasionalmente desapeados da galeria partidária.
Às vezes, o exercício mandibular, acicatado por fomes milenares ou sofreguidões de circunstância, entalam na mastigação vivas de gargantas pouco avezadas a falar em voz alta. Não ganhou a pátria grande coisa com a política de faca e garfo, mas certo é que a gastronomia se dilatou na exigência de imaginação para oferta do menu a mercado tão rendoso. Seja como for, as mil e uma maneiras de fazer bacalhau firmaram os seus méritos em democrática disputa com a posta mirandesa ou a feijoada de búzios. O que foi um acrescento às glórias nacionais.
Rodaram os anos e a prática parece que não encolheu, antes se apurou às exigências do momento, designadamente aos dias toldados da crise e da fominha mansa, tão portuguesa. Daí que a távola redonda ou assimétrica, tanto faz, passou a ser palco privilegiado de afirmações políticas, cortejos  de indignados, reparações a ataques fulanizados, e, até, a ajuste de contas de facções feridas nos seus interesses.
Ainda esta semana, os indignados ou descontentes com um Acordo do PS à esquerda, capitaneados por Francisco de Assis, ungido em espécie de santo para excomungar os socialistas de um pecado original tão grave que todos iriam parar directamente ao inferno se porventura ainda houvesse brasas atiçadas por diabos vermelhos e azeite a ferver em caldeirões para fritar os hereges em lume brando.
E, pensando bem, há lá melhor remédio para descontentes do que a faca e o garfo à volta de tenros leitõesinhos da Mealhada, saídos do forno, com o frisante para aveludar a goela!
A estratégia para afogar o descontentamento gorou-se porque o malvado do António Costa, outro diabo, marcou reunião magna socialista para o dia aprazado.
Vão inflamar-se os descontentes, lá isso vão. Assis e os apaniguados ficaram com os leitõesinhos atravessados na garganta, o que é um grave desvio ideológico. Se não houvesse esquerdas é que era bom... Sempre papávamos os leitões na Mealhada, olarú!

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A POLÍTICA BIFACE

CAVACO O OBSERVADOR, SEGUNDO ZÉ DALMEIDA
Se quiséssemos um exemplo da política biface, encontrá-lo-íamos, com grande nitidez, nas peripécias que, na sequência da posse conferida por Cavaco Silva, este governo de via reduzida tem dado para enriquecimento do anedotário nacional. Já não é o problema das suas contradições internas -- há dias o ministro Fernando Negrão dissera não estar o executivo disponível para um governo de gestão e agora Passos Coelho veio já dizer que não se importará (haverá vento de Belém a soprar?) --, é a própria natureza da política que parece contaminada pela bifacialidade, isto é, pelas duas caras no mesmo rosto.
Os jornais noticiaram, de facto, e não foram desmentidos, que Passos Coelho, logo na primeira reunião do Conselho de Ministros do governo de via reduzida, tinha pedido aos seus ministros para irem estudar o programa eleitoral do PS para enxertarem no programa de governo que a Coligação vai apresentar à Assembleia da República.
Quem tem memória do que Passos & Portas, e outros adjuvantes menores, disseram do programa do PS, certamente recordará que eles sublinharam que tudo aquilo era, afinal, a forma de conduzirem o país ao desastre, depois dos quatro anos de excelência (excelência na pobreza, no desemprego, na destruição do Estado Social, já se vê...) com que as criaturas governamentais da Coligação de Direita brindaram os portugueses. Disseram mais do que Maomé disse no toucinho, mas agora, para se salvarem do naufrágio do Poder, gostariam que o PS lhes atirasse uma bóia, já que o colete de salvação que Cavaco lhes entregou parece não ser suficiente. Quer dizer, para se manterem e aos seus apaniguados nos braços do governo, estariam agora dispostos a passar uma borracha sobre a radicalidade da política proposta aos portugueses como catecismo irrevogavelmente sem emendas.
A bifacialidade é não só uma falta de vergonha e de pudor, na exposição pública de uma aldrabice de circunstância, como também uma ofensa à inteligência dos portugueses.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

CALVÃO NA MÃO DE DEUS

Como naquelas circunstâncias em que se diz "Deus chamou-o, e ele foi!", assim deve ter acontecido como o Prof. Calvão da Silva quando lhe acenaram com uma pasta para um governo precário. Ele foi. E então vimo-lo ontem, na televisão, vestido de ministro do Interior, no rescaldo das cheias que assolaram Albufeira, invocar o nome de Deus e do Diabo, como faziam os primitivos quando olhavam para o céu, indefesos face às catástrofes naturais. Só que agora, estamos no século XXI...
Hoje, no "Diário de Notícias", Ferreira Fernandes faz crónica sobre a aparição de Calvão da Silva no Algarve. Aqui a deixo para libertar os Leitores da chateza do tempo:

"As prédicas semanais dos professores de Direito são como a natureza, têm horror ao vazio. Parte um de Lisboa para uma viagem que pretende ser de cinco anos e logo lhe rouba o lugar um professor de Coimbra, já em viagem por dez dias. Falemos deste, Calvão da Silva, menos conhecido e mais afoito. Não faz comentários em estúdio, vai para as ruas encharcadas. Fala para todas as câmaras, não só as da TVI mas também a de Albufeira. O novo comunicador de cátedra continua a falar de política mas com estilo mais canónico. Não fala ao domingo, dia santo, mas à segunda. Ontem, no Algarve, foi o primeiro programa, com recordes de share. Só se falou do que ele falou. O agora ídolo das audiências disse que o governo "entregou-se a Deus e Deus com certeza lhe reserva um lugar adequado". A linguagem é sibilina mas, como ele falava em Boliqueime, percebeu-se que Cavaco reserva um lugar para Passos, talvez num governo de gestão. Professor Calvão, como já é conhecido, falou ainda na oposição de esquerda, que ameaça encharcar o país: "A fúria demoníaca, embora os ingleses digam um ato de Deus, an act of God..." Esta alusão ao Partido Trabalhista mostra que não se vão descurar as questões internacionais. De notar ainda que o professor Calvão, sempre sibilino, referiu um nome: "Seguro." Dirigindo-se "a quem não tem Seguro", aconselhou: "É bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter Seguro." Ele próprio, porém, só tem contrato até para a semana."

domingo, 1 de novembro de 2015

OLHAR A VIDA SEM REMORSOS






Alexandra Lucas Coelho volta ao tema de Luaty Beirão e dos quinze presos políticos de Angola, nas excelentes crónicas que assina aos domingos, no Caderno 2, do "Público". E junta aos nomes, os rostos, como quem dá uma réstia de dignidade a homens que foram despojados de tudo. Leio o texto e recolho o final, que são palavras de exemplo aos que gostam de olhar a vida sem remorsos. Alexandra: "O fraco jamais perdoa, o perdão é um atributo dos fortes", é uma célebre frase de Gandhi. Ele também disse que "a força não vem da força física, mas de uma vontade indómita". E, para quem se esteja a perguntar se tudo isto serve para alguma coisa, há uma outra frase: "Tudo o que fazes é insignificante, mas é importante que o faças".

O DESVARIO DA PÁTRIA

Vasco Pulido Valente continua a sua cruzada contra o facto de haver uma maioria de esquerda na Assembleia da República, suporte de um governo liderado pelo Partido Socialista. No seu espírito azougado, ele já traçou o apocalipse como aviso definitivo sobre o desvario da Pátria. Nas circunstâncias que moldam o seu comentarismo, ele teoriza sobre uma realidade abstracta (pelo menos atém-se pouco à inevitabilidade dos factos que justificam, em cada momento, a política) e faz a sua magistratura do conselho, no sentido do sr. Passos & Portas se perpetuarem no poder.
Ao longo das semanas, no inventário do seu ajuste de contas com Portugal e o Mundo, dizendo mal de tudo e de todos, construindo a imagem de Portugal como um país desgraçado e subdesenvolvido, onde, provavelmente, só sua excelência, com a eminentíssima sabedoria (terá VPV inspiração divina?) se salva da pesada condenação colectiva a que os Deuses (ou VPV?) nos condenaram a todos. Olha se ele tivesse poder para nos enviar ao Inferno!
Pelo que, a pátria ficaria eternamente grata a Vasco Pulido Valente, se este tirasse do bolso, como quem vai à procura de uma moeda perdida, a solução para todos os grandes problemas e desgraças de que os outros todos, à excepção dele próprio, são os responsáveis... Era tão fácil: bastaria meter a mão no bolso!