quinta-feira, 19 de novembro de 2015

CONSELHO DE ESTADO

CAGARRAS À ESPERE DE SEREM CHAMADAS PARA O GOVERNO DE GESTÃO
Uma cagarra disse, na Madeira, depois de ter contactado longamente com Cavaco Silva sobre a situação política nacional, que o bando cagarrista estava disponível para integrar um governo de gestão. A porta-voz declarou mesmo que não esquecem o gesto do senhor Presidente vir ouvi-las, sempre que a crise lhe estala nas mãos. As cagarras estão legitimamente orgulhosas de se terem tornado, na prática, o Conselho de Estado de Sua Excelência...

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O ÚLTIMO ADEUS

O José Pedro Castanheira escreveu no "Expresso on Line" um obituário sobre o meu irmão, que é um daqueles textos que são raramente vistos na imprensa portuguesa. Com um abraço grande ao José Pedro, cuja camaradagem prezo como coisa que enobrece o jornalismo, reproduzo-o aqui, com emoção funda. O Zé merecia:

O ÚLTIMO ADEUS AO EMBAIXADOR PAULOURO DAS NEVES

 “O Paulouro das Neves era um dos diplomatas que melhor escrevia nas Necessidades, com uma grande facilidade, clareza e espírito didáctico”, comentou o colega António Monteiro, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Santana Lopes. No seu blogue, o embaixador Seixas da Costa, que pertenceu aos governos de António Guterres, considerou-o “um dos mais brilhantes diplomatas portugueses das últimas décadas”, para além de “um grande homem de bem e de carácter”. Um dos irmãos, Fernando Paulouro das Neves, uma vida inteira ligada ao ‘Jornal do Fundão’, escreveu: “Penso que o diplomata obscureceu o escritor, mas lembro artigos notáveis que escreveu no "Jornal do Fundão", muitos com pseudónimos para fugir à bestealidade da censura”. O jornalista Alexandre Manuel recorda o comentário de António Paulouro, o fundador do mesmo jornal, quando soube que o sobrinho José César se abalançara na carreira diplomática: “Não sei se se ganha um bom embaixador, mas sei que se perde um grande escritor. A discrição era outra das suas características mais marcantes. “Trabalhei com ele vários anos no Palácio de Belém e nunca lhe ouvi uma intervenção em que procurasse autoafirmar-se”, afirmou Acácio Catarino, consultor, tal como Paulouro, do Presidente Jorge Sampaio.
José César Paulouro das Neves nasceu a 21 de Outubro de 1937, no Fundão. Licenciou-se em Direito em Coimbra, onde se iniciou num combate sempre discreto mas firme contra a ditadura. Em Maio de 1959 foi um dos 402 estudantes, das três academias, que subscreveram um manifesto dirigido a Salazar, pedindo a sua demissão. Endereçado não ao Presidente do Conselho mas ao “Professor Doutor António de Oliveira Salazar”, sugeria o seu “afastamento da vida pública, por ocasião do 70º aniversário, como condição primeira da resolução do problema político nacional, capaz de contribuir duma forma significativa para a pacificação da Família Portuguesa”. Em Abril de 1960 foi eleito para a Assembleia Magna da AAC, numa lista de oposição à ditadura, liderada por Carlos Candal – a primeira desde 1944, quando Salgado Zenha fora eleito presidente.
Entrado no Ministério dos Negócios Estrangeiros, o primeiro posto no estrangeiro, entre 1968 e 1973, foi Tóquio. Ao todo, esteve 21 anos fora do país, com passagem pelas embaixadas de Brasília, Maputo, Madrid, Paris e Roma. Na REPER, em Bruxelas, esteve cinco anos, que considerava “os mais difíceis e os mais completos” – para todos os efeitos, a sua “experiência mais importante no plano profissional”.
“Quando eu estava em Brasília, no tempo do PREC, aprendi com o embaixador Futscher Pereira que um diplomata tem o dever de dizer a verdade sem ofender as autoridades do país onde está, e dizer a verdade ao Governo do seu país correndo o risco de o ofender” – afirmou numa entrevista ao "Jornal do Fundão".
GOVERNOS DE PINTASILGO E BALSEMÃO, PROGRAMA DA FRS 

Nas Necessidades, foi quem montou, depois da descolonização, os serviços de África. No VIII Governo Constitucional, de Pinto Balsemão, chefiou o gabinete do ministro dos Estrangeiros, Vasco Futscher Pereira. Antes, fora assessor diplomático de Maria de Lurdes Pintasilgo, a primeira-ministra do V Governo. De permeio, e a pedido de Jorge Sampaio, dera um contributo decisivo na elaboração do programa de política externa da Frente Republicana e Socialista, FRS – que viria a perder as eleições de 1980 para a Aliança Democrática.
O último posto foi Roma. Em 2003, quando completou 65 anos e teve de deixar a carreira, o Presidente da República chamou-o para consultor. “O Sampaio tinha passado pelo Instituto Universitário Europeu de Florença e dissera-me que, quando deixasse de ser embaixador, gostava de contar comigo. O que fiz com muito gosto” – afirmou ao autor, numa entrevista. Da mesma geração de Sampaio, mas um ano mais velho, haviam-se conhecido há quatro décadas, na crise académica de 1961. Amigos desde então, com uma relação de grande confiança mútua, apesar disso nunca se trataram por tu.

CONSULTOR DE SAMPAIO NA CIMEIRA DAS LAJES 
“Fui consultor da Casa Civil como uma espécie de líbero para os assuntos diplomáticos. Tinha uma relação directa com o Presidente e procurei nunca me meter no trabalho da assessoria diplomática. Ia a Belém todos os dias, onde tinha um gabinete.” Um dos momentos mais intensos em Belém foi a cimeira das Lajes, juntando George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso. “Foi uma surpresa para toda a gente, inclusivamente para o Presidente, que só foi avisado à última da hora. Ficou francamente incomodado com a forma como tudo se tinha passado. Sampaio travou até onde pôde” a participação de Portugal na invasão do Iraque. “Defendeu a teoria dos serviços mínimos e pôs em prática esse conceito.”
A única viagem ao estrangeiro em que aceitou acompanhar o Presidente foi ao Japão. “Ele insistiu sempre para que eu fosse, mas eu não tinha pachorra. Disse quase sempre que não. Só fui ao Japão, porque fora o meu primeiro posto no exterior e nunca mais lá voltara.” O programa incluiu a exposição universal de Ngoya e um encontro com o Presidente Lula da Silva, também em visita ao Japão. “Assisti a essa audiência, muito amistosa. O Lula estava elegantíssimo e fiz a mim próprio a pergunta: onde estará aqui o antigo operário metalúrgico? Foi no hotel Imperial, construído pelo arquitecto americano Frank Lloyd Wright.”

UM VINHO DO PORTO DE 1937 PARA LIONEL JOSPIN 
 A França e muito especial Paris marcaram a fase final da carreira de Paulouro – como todos o conheciam. Em Belém já estava Sampaio. Em 1996, acompanhou o Presidente quando se deslocou a Paris para as comemorações do 150° aniversário do nascimento de Eça de Queiroz, que fora cônsul na capital francesa. Os dois visitaram a casa onde Eça viveu, em Neuilly-sur-Seine, e onde escreveu algumas das melhores páginas da ficção portuguesa. Ao acto associou-se o então maire de Neuilly, Nicolas Sarkozy – futuro Presidente de França. Para o jantar na embaixada, Paulouro convidou a nata do socialismo francês: Laurent Fabius, Lionel Jospin, Michel Roccard, mas também intelectuais como o filósofo Jacques Derrida e o escritor espanhol Jorge Semprún. Mais tarde, organizou um jantar de Sampaio com o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin. “Servi um vinho do Porto do ano em que o Jospin e eu nascemos, 1937, mas infelizmente já não estava grande coisa. Claro que não lhe disse isso.”
Aquando da visita de Estado a França, em 2005, Sampaio instou o amigo e consultor a acompanhá-lo. “Recusei, porque acho que não se deve ir duas vezes ao sítio em que se foi feliz.” Na Assembleia Nacional, perante o Senado e o Parlamento reunidos, Sampaio fez o que o próprio considera “um dos melhores discursos dos dois mandatos”. O autor foi Paulouro das Neves. “Ele foi o ‘ghost writer’ ideal para esse discurso” – escreveu Sampaio, no prefácio do livro de Paulouro “Rituais de entendimento. Teoria e prática diplomáticas”. “Preparou uma primeira versão - e única, tanto quanto me lembro -, que adoptei desde a primeira hora e que, tão emocionadamente, li na Assembleia Nacional francesa. Palavras que foram aplaudidas de pé ‘toutes tendances confondues’. Foi um dia único e irrepetível, e o autor ficará para sempre associado a esse momento.”
Terminada a experiência em Belém e reformado da diplomacia activa, Paulouro das Neves dedicou-se ao ensino universitário na área das relações internacionais. Em 2011 publicou um excelente livro sobre diplomacia, a que deu o título “Rituais de entendimento - teoria e prática diplomáticas”. Em 2013 foi-lhe detectado um linfoma, que lhe acarretou graves problemas de saúde – mas de que conseguiu recuperar. No final do Verão manifestaram-se novos sintomas, que obrigaram a uma delicada cirurgia. Faleceu no passado dia 13.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

TEMPO DE MEMÓRIA



Os meus Leitores hão-de desculpar-me esta exposição íntima, e eu, no preciso momento em que escrevo, não deixo de ficar dividido entre o silêncio e a palavra, porque a morte na dimensão pessoana não é outra coisa senão a contingência de alguém deixar de ser visto, tornando essa realidade pungente a verdade que outro poeta deixou: a vida é o que resta da morte. Então, meus Caros, no caso destas memórias apressadas sobre meu irmão Zé, talvez o mais razoável fosse plasmar aqui o poema célebre de Walt Whitman ("Blues Fúnebre"), que é a expressão da dor levada ao mais alto grau, e, por isso, aqui o deixo, na magnífica tradução de João Barreto Guimarães:

"Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta."

Não é por acaso que nestas palavras doridas, me encosto, como se precisasse desse abrigo fraterno, à poesia, porque era disso que muitas vezes falava com ele, que foi sempre meu leitor benévolo e crítico, espécie de conselheiro literário, que me tornou leitor do "Magazine Litteraire" ou as novidades do ensaísmo e da ficção de matriz anglo-saxónica. Agora, olho para antigamente, e vejo nitidamente quando lhe devo nas navegações literárias que prossegui depois, e, também, de que foram os seus passos no empenhamento cívico e na defesa da Liberdade que moldaram o meu ser e estar no mundo. Essa cumplicidade foi sempre uma forma arterial de respirar a vida e a escrita.
Devo ceder este espaço de palavras livres a outros e faço-o, com gratidão, ao jornalista António Melo que publicou um texto (reproduzido em "Fascismo Nunca Mais") sobre a dimensão cívica do Zé César. Aqui o deixo:


JOSÉ CÉSAR PAULOURO DAS NEVES - morreu um democrata a quem luta contra o fascismo deve muito Para muitos era mais conhecido por embaixador Paulouro das Neves, para os do Fundão, onde nasceu, e para os de Coimbra, onde se formou em Direito, era o José César. Está assinalado com um seta, na foto tirada na prisão de Caxias, em 24 de março de 2012, que ilustrou uma reportagem que o José Pedro Castanheiro fez para o Expresso sobre os 50 anos da crise académica de 1962, que o António Pedro Ferreira fotografou. Ele e o António Taborda, que é o 4º a contar da esquerda, a espreitar, também do Fundão e colega de curso do José César, são de uma crise académica anterior, a da luta contra o Decreto-Lei 40900, de dezembro de 1956, que visava transformar as associações estudantis em delegações da Mocidade Portuguesa. O papel que desempenharam nessa crise e o apoio que deram na de 1961/62 fizeram que fossem ilustres convidados deste dever de memória que assinalou o Dia do Estudante de 1962, proibido pelo regime salazarista e que por isso se fez nas ruas, entre cargas policiais e tentativas de apaziguamento. José César recordou o que foram esses tempos de sombria convivência, onde um esbirro ou bufo da PIDE tinha o poder de interceptar cartas e suprimir conversas, apenas porque lhe parecia que um deles podia ser «politicamente suspeito, precisamente numa crónica intitulada Dever de memória, publicada na revista que comemorou os 64 anos do "Jornal do Fundão", em dezembro de 2009. Ironiza com uma carta datada de 1967 à qual nunca respondeu porque só disso se dela se deu conta quando numa visita tardia, porque sempre indesejada, aos arquivos da PIDE, na Torre do Tombo, a encontrou entre outras devassas, tendo Manuel Branco por remetente, agora arquiteto, então exilado em Grenoble. Pequeno sinal mas que dá o retrato de um país onde mesmo os chefes de correio eram serventuários da polícia e indignos profissionais. Vale a pena ler a crónica, que anexo, pois o estilo conciso e a prosa com a semântica exata, era uma característica do embaixador Paulouro das Neves, como realça o seu colega Seixas da Costa, num texto que também anexo e vai junto com o testemunho magoado e saudoso do Fernando Paulouro Neves, longos anos diretor do Jornal do Fundão e irmão mais novo de José César. O seu corpo vai estar em câmara ardente a partir das 16h de segunda-feira numa das capelas mortuárias da Basílica de Estrela. O funeral realiza-se na terça-feira, saindo para o cemitério do Alto de São João às 14h.
Texto enviado pelo jornalista António Melo.

Apenas um acrescento: a querida Helena Pato, numa mensagem solidária que me enviou, lembra os presos políticos que defendeu no Tribunal Plenário.