sábado, 28 de novembro de 2015

O EMPALHADO

A genialidade de António, hoje, no "Expresso" a retratar a fanfarronice de Cavaco, no último discurso. Aquilino disse um dia em pleno salazarismo que, mesmo quando o ditador morresse, ainda haveríamos de ter um Salazar empalhado. Parece que foi este... Mas já não mete medo, nem aos pardais...

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

LEMBRANÇA DE MÁRIO BARRETO

DESENHO DE JOÃO ABEL MANTA
Poucos se dão conta: o persistente assassinato da memória que atravessa os dias que vamos vivendo é um fenómeno de morte que nos vai matando lentamente a todos, como se a vida se tornasse num subtil (ou nem tanto) panteão de apagamentos e supressões. É como se as cidades estivessem condenadas a um gradual livro do esquecimento, produzido ao sabor de analfabetismos ou preconceitos ideológicos. Na pressa dos dias, agora configurados à chamada aceleração da História, a "alma" das cidades parece já não ter tempo para aquilo que alguns chamam as questões prosaicas que não poucas vezes são fragmentos identitários da história colectiva ou elementos vivos da poética das cidades, como dizia Pierre Sansot. Nessa voragem, se esquecem ou rasuram nomes e se remetem rostos à opacidade, que é outra espécie de morte. E, no entanto, essas pessoas e esses rostos deram muitas vezes um contributo notável ao complexo processo de uma cidade se fazer a si própria.
Situo hoje, nestas palavras, um lugar de memória: Castelo Branco. E um nome: Mário Barreto. Soube agora, em leitura atrasada de uma crónica do Costa Alves, no "Reconquista", da morte de Mário Barreto. "A cidade não conhece Mário Barreto. Arriscaria dizer que a cidade não quis nem quer conhecê-lo", diz Costa Alves, e talvez não haja como ele, decifrador de tempos, para medir o ritmo dos dias, nas suas rotinas e nos seus fascínios.
Pus-me a pensar nos anos sessenta e na passagem da década numa cidade que, sendo capital do distrito, respirava os tiques do provincianismo, bem visível na figuração política e no conservadorismo dominante. Era aquilo que Torga classificou de "cidade de secretaria e guarnição". Mas se olhássemos mais atentamente para a realidade descobríamos pequenas ilhas em louvor do pensamento e da liberdade. À medida que os anos sessenta caminhavam para o fim conheci por dentro essa realidade, no convívio com um escol notável de pessoas que faziam da cultura um acto da libertação e do diálogo com a nova geração uma aprendizagem comum. Como não lembrar o dr. Vasco Silva e a sua casa, na velha rua das Olarias, que era uma espécie de escola permanente de cultura e civismo, ou a bondade e a paixão do cinema do dr. Armindo Ramos, do Carlos Vale, sempre inquieto e em sobressalto com a acção política imediata.
E havia o Mário Barreto que, como outros (o Vasco Silva, o Tito Zuzarte, o eng. Roque Barata) havia sofrido a prisão e as torturas da PIDE, pelo crime de ter pertencido, como outros, ao Partido Comunista. Aprendi muito com eles todos, mais de forma persistente com Vasco Silva, num companheirismo admirável sempre com livros e música, e tudo o que fosse arte, à mistura, na vivência de leituras, sobretudo na Bélar, na Avenida Primeiro de Maio, que na altura era para nós uma espécie de lugar de culto cultural.
Olho agora para o Mário Barreto, que também era professor, com magistério cívico e de ideias. A discrição era, nele, uma virtude tão natural como o ar que se respira. caminhava pelas ruas num anonimato quase total, mas também ele, o professor de matemática, tinha uma cultura vastíssima e fazia da leitura uma aventura quotidiana. Às vezes, quando a tarde começava a descer sobre a cidade, subíamos com ele aquela rua estreita, que sobe dos Três Globos e vai dar à Senhora da Piedade e acolhíamo-nos à sua casa, ao espaço da biblioteca, onde tinha os seus livros (era uma verdadeira biblioteca de combate!) e os seus discos, a sua companheira música. Ouvíamos Shostakovitch e outros compositores da grande música russa, e, sobretudo, falávamos e ouvíamo-lo longamente explicar as questões mais fundas daquela filosofia que era menos para interpretar o mundo do que para transformá-lo!
Olho outra vez para esses dias, para os rostos, para a riqueza de tudo o que nos ensinaram não como professores, mas como companheiros de viagem. Lembro-me deles,com afecto. E, às vezes. em fugazes encontros com o Carlos Vale tentamos pôr a memória em dia. E lembro, também, os que se sentavam comigo à roda das mesas dos cafés (na Bélar ou no Arcádia), discípulos aplicados na universidade da vida: o Carlos Ambrósio Ferreira, o Ulisses Garrido, o João Ruivo, o Ambrósio Ferreira (mais puto e a abrir caminho como artista plástico), o João Teixeira, que já praticava a arte poética e publicou um livro que dizia haver ultramar e ultramorrer!
Também havia miúdas, tão jovens e inquietas como nós, que não cito para não me esquecer de nenhuma, que eram bestiais, umas ainda estudantes outras já professoras, e que connosco partilhavam a ideia do poema de Herberto Hélder, que cito de memória: todas as mesas são boas para o pensamento! 
Era na velha Assembleia que se dava expressão a essa persistente aprendizagem do convívio com os Mestres, em múltiplas actividades culturais (lembram-se das sessões de jazz do Luís Pio, das exposições, dos colóquios sobre a República e a "Seara Nova" com a presença do António Reis?) Caramba, como éramos felizes, com esta ideia de combater o fascismo, à luz do dia. A Assembleia: ainda hoje lembro a publicação que lá foi produzida pelos mais jovens e que sintomaticamente se chamava "Guernica". Fiz uma notícia sobre isso, que me deu um enorme prazer e que a Censura, em parte, deixou passar.
É assim. A partir na notícia triste do Mário Barreto, poisei, por momentos, nos prazeres da memória, que era o que Adriano gostava de fazer, segundo deixou escrito Margarite Yourcenar.


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ENGOLIR UM ELEFANTE

ILUSTRAÇÕES DE ZÉ DALMEIDA
Dizia-me um amigo, atreito às estatísticas e aos números. que nos últimos dias teria havido em Portugal um consumo muito excessivo de alka-seltzer. A causa, dizem os cientistas sociais, era a posse iminente do governo de António Costa. Dizia ele que, desde que se confirmou a existência de uma maioria de esquerda efectiva na Assembleia da República, como suporte de um governo democrático -- o governo de António Costa -- a azia povoara as hostes da direita, incapazes de engolir a realidade política. Olhava-se Passos e Portas, ouvia-se o Montenegro ou o Magalhães e percebia-se que o sapo não lhes passava na garganta. EStava ali atravessado como um himalaia. Aquilo já não era apenas azia -- era uma indisposição nauseante, como aquelas que os tipos da bola sofrem depois de uma cabazada (onde é que eu já vi isto?), então, como hoje mostrou à saciedade, na cerimónia de posse, na Ajuda, o insustentável Cavaco, a operação política já não consistia em engolir um sapo, mas um elefante!
Como no teste do algodão, o seu facies não enganava: raiva contida. Foi isso, aliás, que as suas palavras demonstraram, quando perorou, mostrando bem o seu contra-gosto à legalidade democrática, quando não uma ponta de ódio à Constituição que lhe travava a mão no seu propósito de dissolver a Assembleia da República, na sua teoria política de que se deveriam fazer tantas eleições quantas as necessárias até haver uma maioria conveniente à direita!
Quase com um pé no estribo para abandonar o Palácio de Belém, ainda teve o topete de ameaças para as quais nem sequer tem poder ou autoridade para tal função. Fazia lembrar aqueles incompetentes que, no trauliteirismo político, costumam dizer (já depois de bem agarrados, claro!):
-- Agarrem-me se não vou-me a eles e dou-lhes cabo do canastro...
É, claro, a vã glória dos cobardes ou a má fé dos desclassificados.
Olho, outra vez, a televisão, na rotina da sua reportagem. António Costa fala em mudança de política, no combate à pobreza e ao desemprego, na viragem do desastre austeritário. Lentamente, a câmara percorre o rosto de Cavaco, que está de gargalo levantado, e de viés, o primeiro-ministro que acabara de empossar. O que o plano revela é um esgar de amargura, um cinzentismo de indisposição. Terá ele engolido um elefante? -- pergunto, pensando que, neste caso, não há alka-seltzer que lhe valha...

RAIVINHAS FASCISTÓIDES


Este é um título de primeira página do "Diário de Notícias" de hoje. Talvez não valha a pena falar na obrigação da imprensa em valorizar uma sociedade inclusiva e fugir da tentação do recurso aos estigmas raciais ou de deficiência. Mas a morbidez de procurar, por puro sensacionalismo, aquilo que de pior às vezes revela a natureza humana, é coisa que já não causa espanto, em Portugal. Se há coisa que, como cidadão português me orgulhou, foi a dimensão inclusiva que marca inteligentemente o governo de António Costa. Quanto ao resto, em títulos ou em comentários desbragados e profundamente xenófobos nas redes sociais, resquícios de saudades fascistóides, é melhor repetir sempre o sábio ensinamento de Schiller: "Contra a estupidez até os deuses lutam em vão".

RECOMENDAÇÃO


À atenção do novo governo, que toma posse hoje, às 16 horas.

UM JORNAL

Num tempo em que a imprensa se revela cada vez mais indiferente ao interesse público e à dimensão humana que deve determinar a selecção da realidade, a singularidade de "O Ribatejo", merece sempre um aceno especial por saber remar contra a maré. Completou trinta anos -- e três dezenas de anos num jornal é obra! -- e fez uma edição especial de mais de sessenta páginas para assinalar um percurso que todas as semanas se renova com a sua verticalidade ética, a sua atenção ao território originário, a mesma vivacidade na expressão da diversidade das ideias, o mesmo sentido de sonho e de esperança que vem do primeiro número. É o meu jornal e semanalmente ali retomo um combate de ideias, como um livro de todos os dias sobre a actualidade de um país chamado Portugal. É por isso que dou um abraço do coração ao meu querido camarada Joaquim Duarte, que o dirige com verdadeira alma de jornalista, e digo àqueles que todas as semanas noticiam, fazem a crónica ou fixam no papel a emergência do quotidiano:
-- É malta! Vocês são formidáveis!


terça-feira, 24 de novembro de 2015

"SAUDADES DE MIM"

Voltar à escrita, regressar à respiração arterial das palavras, olhar serenamente para os dias antigos, e, como se tivesse a mão do homem que trabalha a pedra, cinzelar a memória com acontecimentos e histórias vividas, sorrisos de dias felizes, pôr a prosa em dia contigo em longas conversas sobre as navegações no espaço e no tempo: os lugares que configuram e cimentam existências e afectos. Voltar à escrita, ter ou dar notícia da primeira neve, olhar a Gardunha e tentar reter o cromatismo surpreendente das árvores (penso sempre que Van Gogh gostaria de beber aquelas cores para a densidade das suas telas), parar outra e outra vez sobre as coisas, as casas, os lugares, as velhas ruas, as árvores centenárias que perderam a idade, a sinfonia dos pássaros ou a música aquática dos dos fios de água, e perceber nos detalhes ou nos grandes-planos que enchem os olhos, a grandeza dos horizontes próximos ou longínquos: a festa da vida olhada com novos olhos, como queria Proust. Voltar à escrita para viver o tempo escasso que nos coube em sorte. Voltar à escrita como exigência, também, de memória ténue de um fio temporal comum.
Vejo as palavras caírem sobre o branco do computador, como os passos na areia ou na neve, que desaparecem à medida que caminhamos, e penso que o chão verbal se edifica aqui, sílaba a sílaba, como breve despedida e tributo de gratidão. Aqui, neste espaço, que é pessoal e por isso aberto ao intimismo das emoções do universo próximo, publiquei textos e referi outros alheios sobre a partida, sempre prematura, sempre irremediável, de meu irmão José César. Outros, na imprensa, completaram um retrato que, de muitas maneiras e mais uma, era singular e único. Reler os textos, passar os olhos pelas evocações, é agora como fazer a mão do homem que trabalha a pedra e lhe dá a força que supera a efemeridade.
Então, cruzou-se comigo neste instante uma história, que guardei sempre como daquelas vivências que ficam presas a nós para sempre. Eu conto. Eu estava no "Jornal do Fundão" e um dia ligou-me o José Cardoso Pires, querido amigo, escritor dos maiores que a literatura portuguesa já teve. A sua voz que eu conhecia tão bem e me soava sempre como a a expressão cristalina do seu carácter, uma voz, já se vê, feita de firmeza, de tonalidade forte, que lhe dava uma maneira ao mesmo tempo pausada e agreste no falar. Nesse dia, quando o telefone tocou, percebi-lhe que o tom firme estava pontuado de emoção, como se a voz do Zé tentasse iludir as lágrimas.
-- Tenho um texto para si que gostaria de publicar no JF -- disse-me, acrescentando logo tratar-se de uma evocação de José Rabaça, que nesse dia tinha morrido. Ele, que não era muito dado à prosa emocional e trabalhava a palavra até ao osso, explicou-me que o Rabaça fora muito mais do que um companheiro e um amigo -- fora um irmão! Era isso que ele queria escrever e escreveu.
O texto chegou -- penso até que foi o último artigo que publicou num jornal -- e eram, de facto, duas páginas de emoção funda, com um título que eu não esqueci nunca e que dizia apenas: Saudades de mim!
Agora, como uma luz, as palavras do Zé Cardoso Pires vieram ao meu encontro para caírem no branco da página do computador, desta vez na evocação breve do meu irmão. É isso: olhamos para o tempo, rebobinamos o filme dos dias vividos, e temos saudades de nós. Tomando de empréstimo as palavras do Cardoso Pires, é o que me apetece  escrever agora e aqui, ao mesmo tempo que inscrevo um sentido tributo de gratidão aos amigos que fizeram chegar até nós o conforto da amizade em tantas e tantas palavras solidárias. Talvez isso atenue as "saudades de mim". Talvez.