sábado, 12 de dezembro de 2015

CATA-VENTO, DISSE ELE...

O exercício da hipocrisia na política é coisa tão antiga, que se reproduzem nessa prática verdadeiros artistas, que todos os dias nos espantam pela capacidade de dizerem uma coisa e o seu contrário, sem corarem de vergonha e apenas com a determinação de defenderem a manutenção dos  interesses de que o Poder é garante. Esse percurso sinuoso é feito com um cinismo que se banaliza no calendário político, como a coisa mais natural do mundo. 
Exemplo recente dessas manigâncias relciona-se com o apoio que o PSD acaba de formular à candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, que também será acolitado nessa empresa pelo Portas e o seu PP. Ora, há dois anos, na moção que Passos Coelho levou ao XXXV Congresso do PSD, traçou com clareza o perfil do Presidente da República que pretendia: um candidato que não fosse um “protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou um catavento de opiniões erráticas”. Toda a gente percebeu que o cata-vento visado era  Marcelo Rebelo de Sousa, o putativo candidato.
A verdade é que Passos teve que engolir o cata-vento e criar uma realidade outra, sem ventos nem adamastores. E tudo isso foi agora materializado, um e outro fingindo que o vento fora sempre de feição e nem bulira em qualquer cata-vento. Na entrevista que concedeu ao "Público", o jornalista perguntou a Passos:
-- Mas Marcelo Rebelo de Sousa não é o seu candidato...
Responde:
-- Pelo contrário, Marcelo Rebelo de Sousa será, por proposta minha, o candidato que o PSD espera ver como Presidente da República.
O jornalista volta à carga:
-- Mas foi um candidato que se impôs, porque na sua moção de estratégia havia uma parte que até o próprio entendeu que lhe era dirigida, como sendo contra a sua candidatura... (era a questão do cata-vento...).
Responde angelicamente Passos:
-- É verdade que ficou a ideia de que a moção de estratégia podia ser contra o doutor Rebelo de Sousa, porque o doutor Rebelo de Sousa, porque o doutor Rebelo de Sousa achou que era.
Querem melhor exemplo de hipocrisia! Achou o Marcelo e achou toda a gente. E é por isso que o apoio de Passos é um pouco envergonhado. E Marcelo a última coisa qu quer é vê-lo na sua campanha. Longe da vista e longe do coração. Venham de lá apenas os votinhos!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O TRUNFO DA TELEVISÃO

Na entrevista que o candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa, apoiado pelo PSD/PP, concedeu à SIC, perguntado se ia utilizar cartazes e "outdoors" na sua campanha, respondeu com um rotundo não, esclarecendo mesmo que, em tempo de crise, não era bonito utilizar esse caríssimo meio de propaganda. Os entrevistadores ficaram satisfeitos com os bons sentimentos marcelistas, mas esqueceram-se de uma coisa essencial: é que tendo Marcelo Rebelo de Sousa, tido, durante mais de uma década, um púlpito para a sua missinha semanal de direita, nos vários canais de televisão, guindado ao estrelato do comentário, entrando assim como liturgia semanal nas casas dos portugueses, para que quereria ele cartazes e "outdoors" a poluirem a paisagem?
Aos entrevistadores nem lhes ocorreu perguntarem se essa sua duradoura condição de estrela de televisão não era o seu grande trunfo nas eleições de Janeiro!
Assim se fazem as cousas...

PENSAS, LOGO COMES!

Não há melhor coisa para desopilar do que a sobranceria, muitas vezes uma mistura explosiva de arrogância e estupidez, dos que se arrogam a condição de polícias de ideias, detectives de delitos de opinião, espias de heresias ideológicas e sei lá mais o quê, realidade comum a um vasto leque de regimentos partidários. 
Há tiradas, que recolhemos no inventário dos dias que vamos fazendo, que são verdadeiras peças de humorismo involuntário, ou, se quisermos, de irrealidade quotidiana, para usar um termo caro a Umberto Eco. Muitos destes procedimentos só são explicáveis pelo absurdo ( ou a irracionalidade) de sujeitos que a mediocridade filtra especialmente para lhes dar notoriedade nos partidos. A base de recrutamento são as Jotas, essas prestimosas agremiações da pátria para se arranjarem modos de vida catitas para premiar uma fauna feroz. 
Bem sei que, como em tudo, há excepções à regra. Mas a metódica rapidez com que alguns deles chegam à visibilidade político-partidária é surpreendente: em menos de um fósforo, vêmo-los chegar às primeiras filas da Assembléia, a debitar "bitaites" sobre o futuro de Portugal. Um dos mais notórios dessa plateia é um deputado que dá pelo nome de Duarte Marques, cedo iniciado nos métodos do caceteirismo verbal.
Ora, vejam só: irritadíssimo com o pensamento político de José Pacheco Pereira, que nos últimos anos não poupou críticas à perversão ideológica do PSD e à sua bengala chamada Portas, Marques veio agora, como se fora dono do partido, a pedir a sua saída "pelo seu próprio pé". Mas o mais cómico da situação foi quando ele afirmou, solene: "se pensasse como ele, teria vergonha de ser militante do PSD".
Aqui giramos para o domínio das impossibilidades. Como é que o senhor Duarte Marques poderia pensar como o historiador e investigador José Pacheco Pereira? Só por milagre! Onde a leitura? Onde a cultura? Onde o estudo? Onde os livros?
Tem, ao que parece, Duarte Marques, além de terreno baldio no domínio do conhecimento, uma outra singularidade: o trauliteirismo como pensamento dominante.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

SAMPAIO DA NÓVOA E OS SILÊNCIOS

Nunca esqueci o que um dia li num livro que, nos anos 60, se confrontava com alguma marginalização. Era "Aden-Arábia", de Paul Nizan, em que o autor fazia reflexão sofrida sobre a guerra. Acontece que o autor do prefácio, um texto longo, de escrita densa, era Jean Paul Sartre. O que eu não esqueci, na roda dos anos, foi a história contada por Sartre. Lembrava ele que um grupo de consagrados escritores tinha ido visitar o velho André Gide, já então em fase descendente da vida. Um deles, resolveu inquirir o Mestre, perguntando-lhe:
-- Qual é a melhor receita para ocultar um homem?
Gide olhou para eles e respondeu com uma palavra sábia:
-- Silêncio!
A sociedade portuguesa tem sido fértil na utilização expedita desse método para ocultar homens, ideias, estilizar essa espécie de morte antecipada que tantos dividendos produzem na política e nas políticas. Na área da informação, há verdadeiros especialistas na arte de fazer desaparecer pessoas ou acontecimentos, por mais respeitável que seja o interesse público que os determina. Este ilusionismo sobre a realidade é feito, genericamente, com a receita identificada por Gide: silêncio! Aí reside, porventura, uma razão suplementar para identificar a anemia cívica, que é, também, um dado estrutural de que ninguém fala, pois é muito filho do silêncio...
Talvez valha a pena sobrepor estas questões ao universo das eleições presidenciais, que são a menos de dois meses, para breve reflexão sobre a subalternização informativa atribuída ao acto eleitoral, e, dentro da subalternidade, o subtil favorecimento de alguns candidatos: há sempre rostos mais iguais do que outros.
O caso mais nítido de programada opacidade é o que acontece com o candidato Sampaio da Nóvoa, o primeiro a anunciar a candidatura, bem longe das legislativas, cuja candidatura se tem desdobrado em iniciativas sobre problemas cruciais da sociedade portuguesa, da Educação à Saúde, às realidades sociais como a pobreza e as desigualdades, ao martírio da juventude e ao Portugal futuro, para usar o título do poema de Ruy Belo. Bem sei que nestas eleições há sempre divisores comuns para facilitarem a tarefa do candidato da Belém. Mas há estranhas coisas por aí.
Há dias, contou-me um amigo que gerara alguma indignação o silêncio com que as televisões (parece que só um canal passou imagens em passo de corrida). Não disse um especialista, há anos, com escândalo, que a televisão era tão eficaz a vender um sabonete como a eleger um Presidente da República? Um dos canais, dizia o meu amigo, desculpou-se que nesse dia não era possível dar cobertura ao acontecimento de Sampaio da Nóvoa, pois na agenda da candidatura de Marcelo não havia qualquer iniciativa!
Quanto a mim, que há muito reafirmei que Sampaio da Nóvoa é o meu candidato, espero bem que a sua rara força de humanismo, de cultura e de solidariedade estilhace o cerco de silêncio que os donos da informação lhe querem impor, como forma de ocultar o Homem que queremos ver em Belém.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

LENINE: NÃO CHORES POR MIM, VASCO PULIDO VALENTE!

"Quero avisar que que VPV será o zelador da pureza das minhas ideias"
Um amigo meu costumava dizer que havia sujeitos que, vivendo na obsessão de poderem adquirir algumas sintomatologias do Conselheiro Acácio, se mascaram de eruditos e, sobretudo, vergados à monumentalidade estrangeira (um dos estigmas do provincianismo português, segundo Pessoa), costumam por-se em bicos de pés para apontar o dedo à pobre realidade nacional, inquinada de vícios ancestrais, sem direito porventura a ser pátria, porque tudo o resto (excepto os tipos desse calibre), não passa de uma triste "estrebaria", ou, mais lidos em Eça de uma irrecuperável "choldra". Isto não é povo, não é nada! Não passam todos de uns cretinos, incapazes de gerarem pensamento autónomo (claro que todo foi expropriado por sua excelência!) ou definir qualquer estratégia merecedora de ser lida numa geografia mais vasta! E os políticos, de que ele, aliás, já fez parte, são todos corridos com o labéu da estupidez, o melhor seria mesmo mandar às malvas a democracia parlamentar! E, pensando bem, como o país seria feliz só com sua excelência a preopinar, com as suas excelsas palavras ungidas de sabedoria e providencialismo! Caramba, assim, sim, a pátria portuguesa teria lugar a uma existência gloriosa.... Porque ele, basbaque de uma fauna excelentíssima, sabe tudo de tudo. Ninguém sai vivo do infernozinho que ele próprio criou como sua zona de conforto, intocável criatura para quem (deixem-me dizer a palavra certa) tudo o que passa à sua volta é uma merda. Ninguém se safa na literatura, à excepção de Lobo Antunes, o Saramago não presta, não há cinema nem teatro que valham a pena deixar o conforto do sofá e do copo de whiskie, a ciência e o conhecimento são coisas banais (olhe, lá, o Sobrinho Simões foi agora considerado o maior patologista mundial!).
Ele quer lá saber disso e dos golos do Ronaldo!
O leitor minimamente atento já percebeu que a estranhas criatura é Vasco Pulido Valente. Que do ponto vista da escrita é um excelente cronista? É. Mas do ponto de vista da sua retórica, do seu ar de cientista social para quem o destino da sociedade portuguesa só é compatível com a sua leitura, é um desastre completo. As suas duas últimas crónicas no "Público" são sinais dessa inquinação intelectual. Numa delas, considerava "infamante" haver uma maioria à esquerda (desejaria dissolver ops deputados, excepto, claro, os de Passos e Portas?), e ontem, voltaria ao tema com ares exegéticos sobre a actualidade política. num texto que ele próprio intitulou como "Cretinismo parlamentar"...
A pressa de inovação bacoca na forma como analisa a diacronia da História, levou-o a aliar o tal cretinismo parlamentar ao PCP (António Costa está sempre em pano de fundo), batendo-se como um leão pelo materialismo dialéctico, a pureza das ideias de Lenine (e talvez no seu subconsciente estivesse um estalinezinho, sabe-se lá!)
Eu não quero maçar os leitores, mas que dizer do seu incómodo pela pureza original da Revolução, pela ausência de um Palácio de Inverno em Portugal,  ou a inexistência de um Exército Vermelho "nesta nesga de terra debruada de mar". Leiam o que escreveu o sábio VPV: "É triste dar esta notícia ao Partido Comunista, mas Lenine passou a vida a desaprovar o que ele está a fazer agora. Claro que o Partido Comunista já não sabe quem foi Lenine e naturalmente não leu uma palavra dele".
Será que VPV fez um apressado regresso ao passado e julga que Portugal é a Rússia Soviética de 1917?
Mais caricata -- e absolutamente fatal para um sujeito que se julga o Papa do comentário político -- é a ideia de que no PCP não conhecem as ideias de Lenine! Em que mundo vive o sujeito? Já estou a ver Jerónimo de Sousa ofegante, a tocar a campainha de VPV, com um caderninho na mão, e a pedir-lhe:
-- Por favor, explique-me quem foi Lenine! Tire-me da sombra do meu materialismo-dialéctico...
Como dizia o Conselheiro Acácio, ele há grandes problemas... O cretinismo no comentarismo é um deles! Não há choldra que lhe valha!