sábado, 31 de dezembro de 2016

SÍSIFO LIBERTO

Tornou-se rotina saudar o Ano que começa, depois da memória recente fazer geralmente um inventário implacável e apressado dos acontecimentos do mundo, do país, da região, geralmente arquivados já no capítulo do pessimismo que envenena os dias que correm. Sabe-se que o mundo está cada vez mais perigoso, que o tempo dos sorrisos parece ter ficado suspenso pelas mágoas das Sírias do nosso descontentamento, que a fraternidade é um bem escasso e, por isso, mais precioso, mas apesar de tudo, como ensina de resto o caminhar da História no sentido civilizacional e do progresso, a esperança é a chama que alumia o futuro e alimenta os sonhos reais de felicidade.
Então, olhemos para a matéria solar que aquece os corações, saudemos o céu azul e a luz que ilumina a Terra, como quem colhe um cravo vermelho ou uma rosa para a elevar ao alto como sinal de esperança de que a comum humanidade triunfará. 
Quis romper, por isso, o mito de Sísifo e a condenação ao trabalho inútil e sem esperança, que é, decerto, o pior que pode ser imposto à condenação humana, como advertiu o autor de O Estrangeiro. Tomei à letra a recomendação de Camus ("É preciso imaginar Sísifo feliz") e pensei-o liberto de grilhetas e anátemas, sobrepujando a tudo o louvor da vida, neste poema que aqui deixo aos meus Leitores, com votos de um 2017 feliz.

Sísifo liberto

Talvez Sísifo abrisse as mãos
mandasse a pedra fora
e assim matasse o mito
se no alto da montanha
tivesse à sua espera
o sorriso duma deusa
ou um corpo de mulher
aberto em flor
para colher.
A pedra rolaria pelo chão
sob o peso da gravidade
liberta da estranha servidão
e imóvel ficaria
na base da montanha
remetida à sua condição.
No desafiar dos deuses
Sísifo sorriria contra o mito
e a loucura de Zeus e
faria algum manguito
à eterna condenação
imposta pelo deus.
As mãos e o espírito
outra vez puro sonho
de futuro e utopia
promessa de libertação.

Fernando Paulouro Neves
Covilhã, 31 de Dezembro de 2016



MIL ROSTOS

FOTO DE DANIEL MORDZINSKI, 2016

DANIEL MORDZINSKI

Decifrar o rosto dos escritores através dos instantes que a fotografia capta, procurando na imagem surpreendente e inesperada uma espécie de captura da "alma", é um velho desafio que se confunde com a história dos caçadores de imagens, que nos ajudam a prolongar a ilusão de eternidade dos grandes criadores que já partiram. Sempre me fascinou essa busca dos mil rostos, que podemos revisitar vagarosamente, como quem vai ao encontro das palavras, dos versos, das histórias que fizeram vida e tornaram a substância dos dias em lume de futuro.
Gosto de folhear esses álbuns, essas fotobiografias que nos desdobram imagens que arquivam traços biográficos essenciais, mil rostos, em que enquadramos sempre o de Pessoa ou a pose imponente de Borges caminhando sobre as sombras da cegueira. Há dias, andei pelo mundo de Jorge de Sena (A Voz e a Imagem), na sua monumental fotobiografia, para me cruzar com o seu chão de vida tão bem documentado na edição monumental. As páginas ficam coladas à mão, para nos determos no filme das imagens, paramos para descobrirmos pormenores, olhares, circunstâncias. Também é assim com a fotobiografia de Eugénio de Andrade (O Amigo Mais Íntimo do Sol) ou as de Eduardo Lourenço (Tempos de Eduardo Lourenço), de José Marmelo e Silva (Não Escrevo para Ganhar Dinheiro) ou de António Ramos Rosa, que inclui belíssimas fotos (passe a declaração de interesse) de meu filho Ricardo Paulouro Neves, ou do poeta Albano Martins. Mil rostos, então, que nos fazem companhia. Andei nestas navegações porque hoje, no café matinal que comporta a leitura do "El Pais", Leila Guerriero escreve uma matéria interessante precisamente sobre o tema "quando o escritor é a paisagem". Diz ela que "a imagem dos autores é a parte fundamental da memória que guardamos deles". Eu prefiro alargar o universo da memória às palavras e à poesia, sobretudo a esta, que dizia Octávio Paz é a escrita da biografia dos poetas. "Há um fotógrafo, há uma câmara, há uma paisagem", escreve a cronista. "Essa paisagem é um rosto. O rosto austero, de olhos de febre, de um senhor chamado Samuel que escreveu, entre outras coisas, algo chamado À Espera de Godot. Ou o rosto de bigode quase cómico de um senhor chamado James que escreveu, entre outras coisas, Finnegans Wake. Ou o rosto de uma mulher chamada Virgínia que escreveu, entre outras coisas, algo chamado As Ondas. Há um fotógrafo, há uma câmara, há um rosto. Só que não é qualquer rosto, mas um rosto que estava ali quando esse homem ou essa mulher escreveram Enquanto Agonizo ou Cem Anos de Solidão. Há uma câmara, há um fotógrafo que espera o instante preciso para disparar e lograr... o quê? A imagem definitiva de Beckett, Neruda, Woolf." Entre os fotógrafos famosos, que fizeram muito do inventário dessas vidas, figura o meu amigo Daniel Mordzinski, que tive a sorte de encontrar quando Luís Sepúlveda venceu o Prémio Eduardo Lourenço, do Centro de Estudos Ibéricos. No companheirismo da jornada, Mordzinski falou-me da viagem com Sepúlveda à Patagónia, mas também das fotos que fizera a Borges ou a Cortázar. E, no meio da conversa, também eu ganhei uma fotografia dele, que aqui deixo hoje pelo sentido estético e a força que o retrato revela. Leila Guerriero conta de Mordzinski: "Em 1978, o argentino Daniel Mordzinski trabalhou como assistente num documentário sobre Borges. Um dia, durante a rodagem, tomou-lhe uma foto. Agora, 38 anos depois, retratou centenas de escritores que, nas suas fotos, não aparecem junto a uma biblioteca, mas jogando aos cowboys, ou dormindo junto a uma marionete, ou se autoparodiam gozando com os lugares-comuns que circulam à sua volta: Vila-Matas posou como um sátiro exibicionista de si mesmo, abrindo um sobretudo repleto de fotos suas". 
Mil rostos na ilusão de que eles continuam connosco. Nunca pagaremos, por isso, tudo o que devemos aos caçadores de imagens.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A DECADÊNCIA DO OCIDENTE


Vale a pena reflectir à volta do artigo que Mário Vargas Llosa publica hoje, no "El Pais", sobre "A decadência do Ocidente". É um texto longo, o do Prémio Nobel da Literatura, mas a questão central que ele levanta pode resumir-se no seguinte parágrafo: "Primeiro foi o Brexit, agora, a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Só falta que Marine Le Pen ganhe os próximos comícios em França para que fique claro que o Ocidente, cume da cultura da liberdade e do progresso, assustado pelas mudanças que a globalização trouxe ao mundo, queira fazer marcha atrás radical, refugiando-se no que Popper baptizou como "a chamada da tribo" -- o nacionalismo e todas as taras que lhe são congénitas, a xenofobia, o racismo, o proteccionismo -- como se aprisionar o tempo ou retrocedê-lo fosse mera questão de mover os ponteiros do relógio."
Vargas Llosa sublinha a sua perplexidade, em relação a Trump, de que "sessenta milhões de norte americanos tenham acreditado nele respaldando-o nas urnas" e assinala que "todos os grandes demagogos da história atribuíram os males que padecem os seus países aos perniciosos estrangeiros, neste caso os imigrantes, começando pelos mexicanos, traficantes de drogas e violadores e terminando nos muçulmanos terroristas e nos chineses que colonizam os mercados estadounidenses com os produtos subsidiados e pagos com salários de fome. E, por isso, também têm a culpa da queda dos níveis de vida e do desemprego os empresários "traidores" que levam as suas empresas para o estrangeiro privando de trabalho e aumentando o desemprego nos Estados Unidos".
Para o autor de A Guerra do Fim do Mundo, "o Brexit e Donald Trump -- e a França da Frente Nacional -- significam que o Ocidente da revolução industrial, dos grandes descobrimentos científicos, dos direitos humanos, da liberdade de imprensa, da sociedade aberta, das eleições livres, que no passado foi o pioneiro do mundo, agora vá ficando para trás." E isto, na perspectiva do escritor, acontece "não porque esteja menos preparado que outros para enfrentar o futuro, mas por sua própria complacência e cobardia, pelo medo que sente ao descobrir que as prerrogativas que antes julgava exclusivamente suas, um privilégio hereditário, agora estejam ao alcance de qualquer país."
A radiografia está feita. O Ocidente está refém de cobardias e de medos. Aí radica a razão profunda do seu declínio. Um bom tema para nos pensarmos a nós próprios.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

RECEITA PARA FAZER DITADORES

    Lembrei os poemas de Brecht sobre os tempos sombrios no nazismo ("Que tempos são estes em que defender uma árvore parece um crime?", estou a citar de memória), em que ele falava do pintor medíocre que tinha chegado ao poder na Alemanha, porque li um interessante artigo no "El Pais" (autoria de Luis Doncel) em que analisa uma biografia sobre a vida do Fuhrer, desde o seu nascimento até 1939, em que se retrata um "Hitler mais normal". É certo que, por todo o lado (até cá!), não têm faltado exemplos piedosos de reabilitação de ditadores e de malfeitores que prendiam as pessoas de bem, quando o país era um "remorso colectivo".

No artigo em causa, o autor coloca uma interrogação pertinente: "até onde se pode humanizar o monstro?" Que olhar se pode, tantos anos depois mas com tantas feridas abertas, lançar sobre "o grande genocida". Na análise à biografia de Volker Ullrich, cita-se a definição que o New York Times fez do livro: "uma admirável parábola shakesperiana. A nota crítica sugeria "paralelismos com o presidente dos Estados Unidos. Donald Trump". Volker (que tinha em 2013 escrito sobre o tema) justifica o interesse por este regresso a Hitler: "Sem ele, não se tomava nenhuma decisão no III Reich", e, por estes dias, "quando em todo o mundo triunfam líderes autoritários e carismáticos interessa ainda mais responder à pergunta: como foi possível?"
O jornalista pergunta-lhe: por que pensou que o mundo necessitava de outra biografia de Hitler? Volker Ullrich respondeu: "Escrevi-a no convencimento de que este tipo de políticos está de volta. São os que sabem como mobilizar os medos e esperanças em épocas de crise. Isso o entendeu Hitler melhor que ninguém durante a República de Weimar. Apresentou-se como o Messias que devolveria a grandeza à Alemanha". Ulrich mostra como o ditador nazi, ao contrário do que se diz, tinha vida além da política,contrariando as encenações que ele próprio fabricou para si próprio. Os dotes camaleónicos, assevera o historiador, permitiam-lhe falar "como um sábio estadista no Reichstag, como uma pessoa moderada face aos empresários, ou frente às mulheres como um pai bem humorado que ama os seus filhos".
Aqui, sublinha o jornalista, surgem as semelhanças com Trump. Entre as primeiras, o biógrafo assinala "um carácter egocêntrico com tendência a misturar a mentira com a realidade", a "promessa de voltar a fazer grandes os seus respectivos países" ou "a capacidade de ambos de utilização dos meios de comunicação". "Ainda que veja Hitler mais sofisticado e táctico", diz Volker. Mas o artigo não deixa de referir que as diferenças também são enormes, pois "Hitler nunca obteve maioria absoluta numas eleições democráticas (foi designado Chanceler pelo Presidente da República depois de ter sido o partido mais votado com 33% dos votos)" e o seu partido nacional socialista "estava totalmente centrado no Fuhrer". "Trump lança proclamações xenófobas e machistas mas não sabemos se é apenas retórica eleitoral".
Volker Ullrich faz um "retrato dual" de Hitler, mas a pergunta fundamental fica sem resposta. "Como foi possível?" Resposta possível do biógrafo: "Hitler beneficiou de uma constelação única de crise que aproveitou de uma forma inteligente e sem escrúpulos. Teve uma relação simbiótica com o povo alemão. Nunca teria chegado ao poder se não tivesse explorado ideias profundamente arreigadas na tradição cultural do país: nacionalismo extremo, antisemitismo profundo, ressentimento contra o parlamentarismo e a democracia. Alemanha era o caldo de cultivo para estes políticos carismáticos". Ou para ditadores potenciais.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O SONHO E A REALIDADE

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Ao lume de um tempo em que o Homem todos os dias é reduzido na sua dignidade, o Natal é sempre um aceno de esperança na radicalidade de uma mensagem universal de sentido libertador e fraterno. Vem da fundura dos séculos a afirmação de um tempo em que a aventura cósmica do Homem, fazendo-se intemporalmente a si próprio, na incessante busca de um mundo melhor e mais justo, se refaz na metáfora do Natal, como se os territórios da infância que ele evoca fosse o leit-motiv de futuro que cada um precisa para enfrentar os desafios do tempo. É verdade que num modelo de sociedade que mercantiliza tudo -- até os valores humanos -- e canaliza a crueldade à escala planetária -- as Sírias do nosso descontentamento! -- ampliando a violência e glorificando o triunfo da exclusão social e das desigualdades, desvalorizando a acção solidária e o compromisso social, o sentido projectivo do Natal pode parecer arcaísmo ideológico ou ingenuidade cada vez mais fora de moda. Mas só em parte é assim. A humanidade ainda não é um remorso colectivo. "O deserto avança, mas uma árvore ou um poema podem ainda salvar o mundo", escreveu o Poeta Eugénio de Andrade, ele que sonhou sempre uma mundo "mais limpo e habitável".
Penso para mim que o Natal, como ideia e mensagem primordiais, superam os circunstancialismos limitadores da condição humana, permanecendo como luz que continua a iluminar (e a inquietar) a caminhada do Homem. De facto, o que prevalece é a metáfora de uma gruta, um mundo configurado à sobriedade da pobreza onde se cruzam olhares de bondade focados numa criança que nasce, e a placidez amiga dos animais. O quadro, na sua simplicidade, contém afinal a exemplaridade de querer dizer que a comum humanidade do presépio não é outra coisa senão aqueles versos do Armindo Rodrigues que reivindicam a utopia do homem -ser-irmão-do-homem.
É isso que apetece dizer quando as chamas dos madeiros começam a crepitar e alumiam os adros das terras da Beira.
Aos meus Leitores, votos de saúde e felicidade.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A MENINA DA CAIXA TEM OS OLHOS TRISTES

Há três anos, por este tempo que o calendário elegeu como de bondade, escrevi uma crónica sobre realidades outras do Natal. Quotidianos com os quais nos cruzamos, mas a observação fugaz descarta para o lado. A realidade ainda lá está, intacta, e as grandes superfícies, agora tão engalanadas de faiscante fantasia, são uma babel de sons, com a disputa dos consumos a comandar gestos e comportamentos. Fui recuperar o texto de há três anos e a menina da Caixa continua a ter os olhos tristes.

Neste tempo de luzinhas a brilhar nas árvores e campainhas a tocar nas ruas, longe dos não sei quantos sem-abrigo que andam agora a contar (parece que não faziam parte das estatísticas!), um rio de gente corre para as compras de Natal, muitos iludindo a abundância que não têm. Há os que ficam à margem de qualquer banquete, alguns com tal peso de marginalidade que nem se aproximam das breves sopas aquecidas para pobres ou das consoadas improvisadas pelo catálogo da solidariedade social, que no dia de ser bom até os capatazes do capitalismo mais selvagem autorizam algumas migalhas sociais.
 Nestes dias, o corre-corre das compras enche os templos do consumo, as grandes superfícies convidam todos a entrar, mesmo aqueles que não precisam de nada, porque têm, sobretudo para esses, aquilo que lhes convém...Também por ali o cenário do Natal é uma especificidade para a fantasia e o cenário desperta apetites a criancinhas e não só. Aparentemente, é um mundo feliz, longe das lágrimas da crise, o que por ali anda em movimento. Era assim a paisagem até que os meus olhos poisaram nas jovens caixas, que mecanicamente, ao longo de muitas horas (estas não escapam às 40 horas ou mais!) colocam em sacos a montanha de compras dos clientes e depois põem as máquinas registadoras a desdobrar facturas e a receber pagamentos. São jovens, muito jovens, adivinho licenciadas a que o país fechou as portas de outros horizontes, e estão ali, de pé (“já nem sinto as pernas”), com os olhos cansados pela turbulenta navegação das horas. Muitas vivem no fio da navalha e sabem que serão trucidadas na selva da precariedade, a tal flexibilização laboral onde os direitos não existem e o trabalho toca a fronteira da escravatura moderna, as tais condições que os arautos do cifrão dizem serem óptimas para o futuro da economia.
As filas, com os carrinhos atulhados de compras, dilatam-se. E elas lá estão, peças de uma engrenagem poderosa, direitas, repetindo mil vezes os mil gestos de todos os dias, olhos cansados, a máscara de sorrisos de circunstância no fio dos lábios e as palavras que fazem a liturgia do instante na ponta dos lábios.
Tento imaginar as realidades quotidianas deste mundo precário, e, como num filme, imagino um plano a correr sobre os rostos das jovens caixas do hiper, procurando detalhes de um dia, instantes breves de vida. Tudo mecânico e industrial, como convém. Os sorrisos a escorrer e os votos natalícios na ponta da língua. Mas numa delas (terá o despedimento à vista, pensei eu, para mim só) pareceu-me descortinar duas lágrimas que caíam sobre um embrulho colorido, com um belo laço de fantasia.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

ALEPO!

Ao infindável inventário de cidades mártires da História, há que juntar-se mais uma: Alepo. Batidas as sílabas do seu nome, tão doce, tão carregado de antiga civilização, Alepo é agora olhada como um enorme cemitário a céu aberto, uma vala comum que parece só acabar quando for morto o seu último habitante. Alepo, talvez a mais importante cidade síria (teria suplantado Damasco), é agora um reduto de ignomínia, cercada de morte e desespero. A narrativa da actualidade banalizou mais este crime contra a humanidade. Cidade mártir, terra bombardeada, onde as pessoas se tornaram moeda de troca ou escudos humanos das conveniências dos senhores da guerra. Nem sequer se cumprem tréguas para garantir a saída de civis, velhos, mulheres, crianças que, em Alepo, se transformaram em carne para canhão. 
Nesta guerra, que envergonha ou devia envergonhar o mundo, há imagens que doem, a que se poderia talvez sobrepor a força do célebre quadro de Munch, como legenda absoluta e definitiva. Abrimos os olhos de espanto, custa esquecer aquela imprecação da mulher no meio dos destroços, levantando os braços ao alto, como se quisesse interrogar deus ou deuses com um desespero que carrega todas as angústias de que um ser humano é capaz; ou aquela criança de olhos esbugalhados para o absurdo em que o seu mundo se transformou como destino. A síntese de tudo isto poderá definir-se apenas com uma palavra: morte. Uma palavra que é preciso repetir mil vezes e se deve transformar em remorso colectivo. Os vencedores da guerra, sejam eles quais forem, serão sempre triunfadores do mal. Vencedores da sordidez e da desumanidade manejando os mortos como meros casos estatísticos, como dizia o outro.
O Victor Cunha Rego deixou-nos há anos uma frase, que era uma advertência: o mundo está cada vez mais perigoso. Penso nisso agora, neste exacto momento em que escrevo. Está muito mais perigoso. Perigosíssimo. Nem a época de ser bom, que dizem ser o Natal, escapa a essa contingência do tempo que nos coube em sorte.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A POESIA COMO UMA ESPÉCIE DE MÚSICA


Às vezes, temos que regressar aos instantes de emoção, ao chão da glória efémera dos acontecimentos em que estamos envolvidos, à biografia dos percursos que fazem uma vida. Como aqui disse aos meus Leitores, à volta do livro A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade, que eu escrevi e agora foi reeditado, revisto e ampliado com capítulos novos, realizou-se na Casa de Portugal - Residência André de Gouveia, no vasto campus da Cidade Universitária Internacional de Paris, uma sessão que não foi outra coisa senão um louvor feito de palavras, música e versos à arte poética do autor de As Mãos e os Frutos. E, no caso do poeta que nasceu em Póvoa de Atalaia, nada melhor para ir ao encontro da sua obra do que uma sessão assim, com esse formato, pois a poesia de Eugénio é "uma espécie de música", como bem assinalou Óscar Lopes.
Na tarde cinzenta de Paris, o dia tornou-se claro e luminoso porque a substância do tempo naquelas horas se fez das palavras que, dizia o poeta, às vezes "são como um cristal". Habituado a este tipo de iniciativas, guardo na memória a de Paris como singular. Esta singularidade radica num conjunto de factores -- ou circunstâncias, se quiserem -- em que avulta, desde logo, a acção da responsável pela organização do evento, a Prof. Ana Paixão, professora universitária e directora da Casa de Portugal, que à frente desta instituição, como já tantas vezes escrevi, tem realizado uma obra notável de divulgação da cultura portuguesa e da sua universalidade, levando ao magnífico auditório da Residência André de Gouveia escritores, poetas, ensaístas, artistas que são a expressão maior da capacidade criadora de uma pátria. Depois, no centro da iniciativa, estava, como sempre, a militância de amizade do Abílio Laceiras, o seu afecto, praticante de generosidade como ele é e portador daquela ideia de que nada do que diz respeito a Portugal lhe é estranho. A estes factores é preciso juntar a participação do Prof. José Manuel Esteves, que na universidade tem obra notável sobre a literatura e o pensamento portugueses e que, fora dela, é incansável divulgador dos nossos poetas. Como aconteceu na apresentação de A Materna Casa da Poesia, em que José Manuel Esteves, acompanhado ao piano por João Lourenço, disse poemas e textos do livro, com um recorte de rigor, fazendo corpo com a poesia de Eugénio, sem o excesso de artificialismo ou exuberância retórica, que, aliás, o autor detestava. Também Adelino Pereira leu "As Mães", essa fantástica prosa poética que Eugénio me definiu como "um texto de todo o mundo".
Ana Paixão falou de A Materna Casa da Poesia e do autor destas linhas em termos que me desvaneceram, mas o importante foi mesmo a celebração do universo criador da poesia de Eugénio de Andrade. Como se escreve n' A Materna Casa da Poesia,  a poesia de Eugénio de Andrade e a sua prosa poética consubstanciam uma profunda raiz telúrica como se ela se alimentasse daquelas fontes inesgotáveis, que não têm princípio nem fim, onde "as águas reflectem o silêncio" e "o subterrâneo rio das palavras" corre sempre ao encontro da luz numa "paixão pelas coisas limpas da terra, inexoravelmente limpas".
Resta reafirmar aqui, que a minha gratidão se estende à Associação de Beirões de França, Instituto Camões, Université Paris Ouest (Nanterre) e Université Paris 8 (Vincennes), que se quiseram associar à iniciativa.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

BRASIL, BRASIL!

No retrocesso social (ou civilizacional?) que o Brasil está vivendo, com o assalto ao Poder de sujeitos pouco recomendáveis, levanta-se o clamor da indignação. A minha querida Alexandra Lucas Coelho, que está lá e conhece profundamente a realidade brasileira, escrevia na sua última crónica, publicada no "Público", este retrato: "Brasil fora, há umas mil escolas ocupadas por estudantes em luta contra a anunciada reforma do ensino e a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que congela gastos públicos por 20 anos, incluindo educação. Dá trabalho ocupar uma escola, trabalho inédito, mais fácil dormir na praia, frente a algum ecrã. Mas esta geração é inédita mesmo. Gente inédita para um tempo inédito. Trabalho diário e frustração diária. Não é mole, não".
No Brasil, contra "o reino da estupidez", a indignação cresce e reproduz-se.

A MATERNA CASA DA POESIA EM PARIS


No próximo sábado, dia 10, às 18 horas, estarei na Casa de Portugal (Residência André de Gouveia), em Paris, na Cidade Universitária, para participar na apresentação de A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade. Trata-se da segunda edição, revista e ampliada com novos capítulos, de um livro que se encontrava esgotado. A organização é da Casa de Portugal e fica a dever-se ao interesse e entusiasmo com que a directora, a dr.ª Ana Paixão, que à frente da instituição tem realizado uma acção cultural notável, abraçou o projecto. Outro nome imprescindível, militante de portugalidade e de amizade, é o de Abílio Laceiras inexcedível no apoio à iniciativa.
A sessão será, do meu ponto de vista, sobretudo uma festa à volta da poesia de Eugénio de Andrade, um dos maiores poetas portugueses. E, por isso, A Materna Casa da Poesia será universo e pretexto para ouvirmos também música e poesia. José Manuel Esteves recitará poemas de Eugénio de Andrade, Adelino Pereira lerá "As Mães", na companhia das interpretações de João Costa Lourenço, ao piano.
A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade, nasceu no âmbito do projecto “Rota dos Escritores do Séc. XX”, que a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (era assim que se chamava) promoveu e que, infelizmente, ficou pelo caminho porque a cultura, em relação ao poder, é sempre subsidiária do peso do analfabetismo dos seus actores.
Para mim, escrever o ensaio, foi uma tarefa exaltante. Permitiu-me rever caminhos percorridos com o Poeta na sua geografia sentimental da Beira, cuja raiz essencial radica no seu “locus nascendi”: “Das coisas melhores que me aconteceram na vida foi ter nascido numa aldeia da Beira Baixa”, chamada Póvoa de Atalaia, “e aí – outra vez o Poeta a falar – ter passado toda a minha infância”. Esses passos pelos lugares, pelas casas, em busca das velhas oliveiras, pelos terrenos baixos de onde se olha a Gardunha, graduou-os a memória, como essenciais, e foi a esses prazeres que eu pude regressar, então e agora, para, sílaba a sílaba, edificar A Materna Casa da Poesia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

ARNALDO SARAIVA FALA DOS ROSTOS DO CONHECIMENTO

Hoje, às 21h, tenho o honroso encargo de apresentar o Prof. Arnaldo Saraiva, que vem à Covilhã falar dos "Rostos do Conhecimento", concluindo um ciclo de conferências que a Câmara Municipal organizou. A sessão realiza-se na Associação dos Diabéticos da Serra da Estrela, no edifício que foi a Escola Frei Heitor Pinto, quando era Liceu.
Ouvir Arnaldo Saraiva é sempre o fascínio de descobrir coisas novas, alargar os horizontes do conhecimento, conversar sobre o fenómeno cultural como elemento essencial da vida. Autor de uma obra vastíssima, que cobre o ensaio, a poesia e também o cinema, a etnografia e a antropologia, premiado em Portugal e no estrangeiro pelo seu labor científico. É dele o mais importante estudo sobre o Modernismo Português e Brasileiro. Arnaldo Saraiva, que é natural do concelho da Covilhã, tem desdobrado a sua atenção pela investigação de literaturas marginais e marginalizadas, pelas vanguardas literárias, pela "literatura de cordel" portuguesa e brasileira. O Brasil tem sido, também, uma sua grande questão, passando lá grandes temporadas, realizando conferências e seminários nas mais importantes universidades. Tem, assim, prestado assinaláveis serviços a um aprofundamento concreto das relações culturais luso-brasileiras.
Nada do que é a raiz cultural da Beira (da música às festas populares) e da sua expressão identitária lhe é indiferente. Os rostos do conhecimento têm no seu saber um intérprete de grande qualidade. A sua vinda à Covilhã é um grande acontecimento cultural.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O MUNDO DE ALBANO MARTINS

Na biografia de uma obra em que a poesia é o elemento vital, outros voos essenciais definem o percurso criador de Albano Martins como autor de horizontes vastos sobre o mundo, a  arte e a escrita. Esse universo multímodo, onde avultam, para além do alimento primordial dos versos, as traduções da poesia grega clássica, de Pablo Neruda ou da poesia italiana, a que se acrescenta uma reflexão persistente sobre a problemática literária e cultural, como grandes desafios às perplexidades da condição humana.
É nesse sentido que se inscreve a publicação do terceiro volume de Circunlóquios, onde o autor reune ensaios e crónicas, alguns inéditos, dá expressão a um memorialismo onde se reflecte muita da sua afectividade e das vivências de um companheirismo muito especial com gente do mesmo ofício,como é o caso dos textos sobre António Ramos Rosa, Raul de Carvalho, Lêdo Ivo ou Cruzeiro Seixas. Circunlóquios III é igualmente importante pelas quatro entrevistas em que Albano Martins se explica, e, explicando-se, fala do seu ofício de poeta e da sua relação com o mundo.
Talvez a raiz da sua poesia esteja nas palavras que um dia escreveu assinalando a riqueza da Língua como matéria de sonho; "Quando Vergílio Ferreira, num texto emblemático, proclamou "Da minha língua vê-se o mar", podia ter acrescentado, com toda a propriedade, que dela se vê também a terra com seus montes, seus vales, seus rios, seus bosques e seus pomares". E acrescenta: "Organismo vivo, posto ao serviço de seres vivops, a língua carrega consigo os mundos todos: o visível e o invisível, o sensível e o que apenas se pressente, o audível e o inaudível. A língua é, além disso, um instrumento musical onde pulsam todas as variedades tímbricas. Ela é "tuba canora e belicosa", mas também lira, flauta, harpa celeste e violino. Nela cabem todos os sons -- todos os tons -- da escala e as suas modulações. A língua portuguesa nasceu molhada: pelo sangue derramado nas campanhas da reconquista, primeiro; pela água dos mares vencidos pelas quilhas das naus das descobertas, depois; mas também pela água das nascentes -- a água pura da "fontana fria" de que fala uma bonita cantiga de amigo de Pero Meogo que ecoa até hoje na nossa memória e permanece no nosso imaginário poético, quer dizer, no nosso tradicional  e colectivo vocabulário lírico. Julgo que a minha poesia recebeu algo dessa água lustral e que nela vibram os sons da música saída das flautas e dos violinos da sua polifónica orquestra verbal".
A tudo isso acresce a raiz funda que Albano Martins mantém à sua Beira. Eu próprio publiquei um ensaio sobre essa pertença poética. Daí que Circunlóquios III toque também nessa reserva íntima do poeta, em textos em que o autor revisita o universo originário do Telhado (onde nasceu) e da Capinha (onde frequentou a escola primária). Eu costumo dizer que há uma poesia que traduz essa fidelidade à terra, poema que Albano Martins inclui num desses textos:

Pertenço  a esta
geografia, ao lume branco
da resina, ao gume
do arado. A minha casa
é esta: um leito
de estevas e uma rosa
de caruma abrindo
no tecto do orvalho

domingo, 4 de dezembro de 2016

TRANSVERSALIDADES NO CEI

Há uma semana, subi à Guarda para participar em mais uma edição de "Transversalidades", um projecto do Centro de Estudos Ibéricos, já com sucessivas edições, este ano dedicado à "fotografia sem fronteiras". É um conjunto de iniciativas culturais notáveis, com um sentido actualizante, que se projecta para além do seu carácter de acontecimento imediato pela riqueza das exposições, pela qualidade dos debates e a sobriedade e interesse das publicações.
O Centro de Estudos Ibéricos nascido, como se sabe, de uma ideia luminosa de Eduardo Lourenço, tem no acervo documental das suas edições um contributo valiosíssimo para o conhecimento de uma realidade que vai muito para além da Ibéria e se alarga ao mundo da Iberoamérica e do Lusofonia, como mostram os prémio que o CEI já atribuiu, por exemplo, a Mia Couto e a Luís Sepúlveda ou ao investigador colombiano Jerónimo Pizarro, autor de obra referencial sobre Pessoa.
Quem quiser ter uma ideia da qualidade estética de "Transversalidades" basta ver a exposição que seleccionou as obras de cerca de setecentos concorrentes, no Teatro Municipal da Guarda, ou consultar o belíssimo catálogo que faz memória do acontecimento. Rui Jacinto caracteriza este universo de imagens como "um atlas visual do mundo" assinalando, numa citação de Sebastião Salgado, que "uma qualidade importante de fotografar é ser "uma escrita tão forte porque pode ser lida em todo o mundo sem tradução". O projecto "Transversalidades", sublinha Rui Jacinto, "como testemunha o espólio visual reproduzido nos catálogos já editados" estruturado "a partir de quatro coordenadas fundamentais -- património cultural, paisagens e biodiversidade; espaços rurais, agricultura e povoamento; cidade e processos de urbanização; cultura e sociedade; diversidade cultural e inclusão social -- coleciona um acervo documental que constitui um pequeno observatório que progride, a cada ano, para um pequeno atlas visual do mundo em mudança".
Para além destes múltiplos olhares, que nos ajudam a perceber a diversidade que nos rodeia, outras iniciativa marcaram "Transversalidades", potenciando a capacidade de observar ao desejo de imaginar o território através de "uma geografia e poética do olhar". Esta perspectiva deu origem a uma mostra que "põe em diálogo tempos e espaços que distam várias décadas e continentes: Portugal está representado por Alfredo Fernandes Martins (de quem se comemora o centenário do nascimento), José Manuel Pereira de Oliveira e Jorge Gaspar, Espanha por Valentín Cabero Dieguez e o Brasil por Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, Messias Modesto dos Passos e Rogério Haesbaert.
Assinale-se ainda a homenagem a um fotógrafo da Guarda Monteiro Gil e o lançamento do número 12 da revista Iberografias, quase trezentas páginas de excelentes temáticas. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

VIDAS DESFEITAS

Estes dias frios, antecipadores de invernos, põem a nu de forma mais intensa as desigualdades e os desfavores da sorte que é o que se costuma dizer de alguém, por comodidade, quando tem a desdita de ser pobre e nessa circunstâncias gastar o peso dos dias como fatalidades do quotidiano. O frio e a fome estão no fio da navalha da vida, e, quem estiver atento ao corre-corre da cidade descobrirá facilmente os que habitualmente só têm sol de roupa e estendem a mão à fome envergonhada. Há histórias de casos limite, mas há muitos frios glaciais dentro de pessoas que passam o tempo à espera de milagres que nunca acontecem.
Foi porventura uma imagem dessas, rápida como a sombra, que surgem sempre como caricaturas da realidade, que me fez lembrar um texto que escrevi há muitos anos, que captava uma figura que surgia no inventário dos dias para remorso colectivo ou inquietação, e que incluí no segundo volume  da Crónica do País Relativo. São recordações que nunca se afastam definitivamente da memória, cuja dimensão humana lhes confere existência para lá das fronteiras. Não sei porquê -- ou talvez saiba! --, regressei à velha narrativa para lhe dar vida, outra vez. E aqui fica.

Vestida de preto, com o cheiro de séculos de servidão agarrado ao corpo, balbuciando sons de difícil entendimento ou irrompendo contra a troça da garotada, era uma mulher exposta em toda a crueza da desigualdade. Uma mulher acossada pelo tempo e pelas circunstâncias, apanhada no turbilhão da fatalidade que a uns há-de dar tudo, e a outros nada. Habitou tugúrios com os bichos, com eles dormiu e se aqueceu nas noites longas de inverno, quando o frio assaltava as frinchas e laminava a carne até aos ossos.
Confundia-se com elas, com as cabras, e dos farrapos do seu corpo elevava-se o cheiro do rebanho, como se a pobre mulher tivesse regredido na sua condição animal...
"Lá vai a Maria das cabras!", dizia-se ao seu passar, estranhando o insólito da pastora e do rebanho perdidos no barulho das ruas da cidade. Nessa transumância miserável, passava ao largo.
Morto o homem, outro pastor das ruas, parece ter ficado mais cercada pela fome, e em breve deixou de ser vista com o rebanho. Andava por aí, com os mesmos farrapos pretos, e o mesmo bedum, cada vez mais escanzelada, à procura de sol e de pão. A fome era a sua companhia, o seu drama itinerante, a sua mortificação de sempre. Andava sozinha, não era daquelas pessoas que se chegasse perto das chamadas instituições de solidariedade social.
Às vezes, via-se o que parecia ser uma mulher com a cabeça e o tronco enfiados nos contentores do lixo, à cata dos restos de comida alheia. "É a Maria das cabras!", e passava-se adiante, que o cliché há muito se tinha tornado típico. Um dia destes, numa passagem de nível sem guarda, perto do Fundão, uma mulher foi ceifada pelo comboio. Ficou desfeita, pedaços espalhados a esmo pelo local, que os bombeiros arrumaram em sacos de plástico. Esquartejada, sem rosto, não foi, apesar de tudo, difícil identificar a vítima: era a Maria das cabras. Trazia uns farrapos pretos e aquele cheiro a rebanho com séculos de pobreza.
Uma vida desfeita..., disse alguém.
E passou adiante.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O HOMEM DO "CHAPÉU PRETO"

Morreu há dias, aos 86 anos, Arlindo de Carvalho, compositor e intérprete que levou para a música, como grande paixão, as sonoridades e os cantares da Beira Baixa. Ele próprio foi autor de canções de que o povo rapidamente se apropriou, inscrevendo-as no imaginário colectivo, como se fizessem parte do tempo. Foi assim, decerto, com "Chapéu Preto", "Fadinho Serrano", "Comboio da Beira Baixa" e muitas outras. Grandes intérpretes, como Amália, ou músicos como Júlio Pereira, e tantos outros, deram expressão a composições suas.
Arlindo Carvalho era um amigo. Estou a vê-lo, sempre com aquele seu jeito de camponês exilado, vir ao meu encontro no JF para me falar dos seus projectos, para me levar as suas edições, às vezes para me mostrar que cantava poetas de primeira água, que tinham escrito para ele, como Nuno Júdice.
O antigo professor primário, que se fez músico e aprendeu a cantar no Coro de Lopes Graça, que foi para Paris aprender novas coisas no Conservatório de Poitiers e ser leitor de português no liceu, tinha, de facto, a Soalheira, onde nasceu, e a Beira Baixa, no coração, e essa fidelidades à raiz originária fortaleceu-a com o tempo. Era parte inteira desse universo e não admira que tivesse criado, em 1999, na sua Soalheira, um Coro de mulheres, que foi elemento de auto-estima para a população local. Regeu o Coro enquanto pôde e contaram-me que, estando a residir em Lisboa, se metia no combóio duas vezes por semana, para ensaiar essas cantoras saídas do povo. E foi assim até que a saúde o permitiu!
O Arlindo Carvalho era, também, um homem bom, sempre disponível para participar nas iniciativas que pudessem valorizar a região. Castelo Branco prestou-lhe uma grande homenagem e o Fundão também lhe fez tributo de merecida gratidão.
Partiu quando a azeitona "já está preta" e se começa "a armar aos tordos". O homem do chapéu preto partiu para a longa viagem.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

OLHAR PARA ANTIGAMENTE

Fidel com Che Guevara
A morte de Fidel é daqueles acontecimentos que extravasam sempre as fronteiras ideológicas, os calculismos da geo-política, os labirintos dos mitos, os decifradores dos oráculos da história. Será porventura isso que acontece sempre com as grandes figuras da História, que marcam o seu tempo longo, e despertam paixões e ódios precisamente por terem influenciado a transformação das sociedades. Agora, que Fidel partiu, afadigam-se todos a sublinhar que é figura indiscutível do século XX, como é norma acontecer na liturgia post mortem. Há sempre, na contingência do desaparecimento de uma personalidade como Fidel, o exercício de uma retórica que traz consigo os panejamentos da hipocrisia.
Talvez hoje poucos olhem para antigamente para lembrar o que foi a gesta magnífica de Fidel e dos seus camaradas quando, descendo da Sierra Maestra, chegaram a La Habana para libertar Cuba de uma ditadura liderada por um sargento estúpido, Fulgêncio Baptista, que fizera da ilha um bordel, realidade e metáfora de um sub-mundo de infra-humanidades, dominado pelos Estados Unidos da América e os padrinhos da Mafia. Aquela entrada dos guerrilheiros em Havana (quem pode esquecer os rostos barbudos de Fidel, de Guevara, de Camilo Cienfuegos?) olhos claros de uma Revolução a que chamaram romântica foi, naquele ano distante de 1958, uma fortíssima pedrada no charco do imobilismo planetário da guerra-fria e na fatalidade que era o próprio labirinto da História. E a esperança vivida de que afinal era possível e real uma dialéctica da mudança.
Essa nova qualidade de Cuba transformou a revolução cubana num abcesso de mudança, num desafio insuportável para os EUA, num exemplo que era preciso extirpar da face da Terra. Não é linear a evolução do regime cubano, mas as circunstâncias geo-estratégicas moldaram muito o caminhar de futuro de Cuba. Todavia, a pátria de José Marti, de que Fidel se fez tributário, não pode ser olhada apenas como refém da União Soviética. A ser assim, Cuba não teria tido a influência que teve, como voz autónoma na América Latina e no Mundo, nem tinha inscrito como urgência da sua acção "exportar a revolução", no mundo do equilíbrio instável da guerra-fria, que impunha, desde Yalta, um status quo de imobilidade baseado na velha consigna de que, quando não se sabe o futuro, é melhor deixar tudo na mesma.
Olho agora, outra vez, para a iconografia de Fidel, sei que muitas vezes discordei das incompatibilidades da revolução com as liberdades individuais, mas sei também as enormes mudanças sociais, designadamente as operadas na Educação e na Saúde, que até os seus maiores detractores reconhecem, e sei sobretudo que estive sempre contra o sórdido bloqueio dos EUA a Cuba, tantas vezes condenado pela ONU, que constitui (se calhar como a intervenção no Chile) das operações mais sórdidas da política internacional no século XX, depois do pós-guerra.
Fidel venceu todos os cercos e bloqueios, resistiu a todas as tentativas de assassinato, influenciou o mundo à sua escala. Ninguém pode beliscar a sua coerência, a sua firmeza política ou dimensão internacionalista e o seu sentido nacional de independência, num mundo que a foi perdendo de todo. Era como se Cuba e os cubanos estivessem, depois de Fidel, fora da metáfora caracterizadora da América Latina e da República Dominicana: coitados, tão longe de Deus e tão perto dos EUA! É que há um sentido de dignidade que Fidel trouxe a Cuba e se inscreveu rapidamente na memória colectiva do povo, sobrepondo-se às maiores insuficiências do quotidiano.
Fidel sobreviveu a mais de 300 tentativas de assassinato, promovidas pela CIA. O "El Pais" contou há tempos uma saborosa história que mostra bem o carácter demencial do ódio americano ao líder cubano. Segundo John Pearson, biógrafo de Ian Fleming, o criador de OO7, James Bond, teve um almoço histórico com um alto responsável da CIA. Especialista na ficção em espionagem, queriam os homens da CIA saber a melhor forma de liquidar Castro. O novelista disse aquilo que considerou uma anedota: deu a entender que a melhor forma de derrotar Fidel era pô-lo a ridículo. A CIA levou à letra o chiste de Fleming: se acabassem as barbas dos barbudos, acabaria a revolução... Os laboratórios da CIA inventaram uns pós que se colocavam nos sapatos para fazer cair todos os pelos do corpo. Mas não encontraram ninguém que os pusesse dentro das botas de Fidel. Faltou-lhes um James Bond...
Com Gabriel Garcia Marquez
Perdurarão por muito tempo a capacidade oratória de Fidel, o seu gosto pela conversa longa durante a noite. Uma vez, o seu grande amigo, Gabriel Garcia Marquez escreveu sobre ele assinalando que "a sua devoção pela palavra era quase mágica: três horas são para ele uma boa média para uma conversa comum, e, de três em três horas, os dias passam por ele como sopros". O escritor venezuelano Alfredo Echenique escreveu nas suas Antimemórias uma história no tempo em que Gabo teve uma casa em Havana, próxima da residência de Castro, que o "El Pais" também recordou: "Essa noite em casa de Gabo esperávamos sem dúvida Fidel, que podia aparecer quando menos se esperava, ou seja, a cada instante e ficava horas a descansar conversando, mostrando o seu rosto mais íntimo e a sua solidão de mil anos, durante umas horas em que preferira não descansar dormindo. Fazia-se primeiro um silêncio espectacular, de espectáculo, e ouvia-se até o ruído do ar e desse silêncio. Então aparecia Fidel, e todos felizes, menos Gabo, que amiúde punha cara de "estamos fodidos, esta noite já ninguém dorme aqui". E ninguém dormia, de facto, até que Fidel, pelas seis da manhã, olhava o seu relógio e soltava o seu eterno "eu creio que todos temos um pouquito que fazer esta manhã". Era quando terminava a sessão e voltava a escutar-se o ruído que faz o silêncio e essa leve brisa de timidíssimo vendaval".
Fidel: olho outra vez para antigamente e prefiro lembrar-me das imagens dos guerrilheiros descendo da Sierra Maestra, com as suas barbas, os seus sorrisos na festa com o povo, os olhos repletos de claridade.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

ESPADAS

Cientistas com a espada de Cid
O "El Pais" noticiava ontem que mais de três mil anos depois de deixar de servir a Rodrigo Díaz de Vivar, nome próprio do lendário cavaleiro Cid, o Campeador, a sua histórica espada é propriedade do XVI marquês de Falces, titular dela "por herança" podendo dispor do seu destino, "como fez ao vendê-la em 2008 por 1,5 milhões de euros". Foi um pleito judicial longo, que subiu às mais altas instâncias e gastou aos tribunais infindáveis horas, grossas resmas de papel e aturadas gravações. 
Cid, deve ter sorrido. Olhou, talvez, para a sua biografia de herói, onde ressalta a sua condição de mito, escutou os versos de Mio Cid, e talvez tenha ajuizado a estranheza dos tempos que correm em que a sua nobre espada serve, afinal, para guerras judiciais e para especulações financeiras...
Por cá, é tudo mais calmo e os artefactos dos grandes guerreiros desaparecem no pó dos tempos quando não vão parar aos túmulos com eles. Veja-se o caso de D. Afonso Henriques que repousa docemente na igreja de Santa Cruz, em Coimbra. Ainda, ao que parece, não se apurou a sua estatura (era de via reduzida ou um gigante?), mas a sua espada, que era pesada e comprida, parece que tinha lâmina afiadíssima para despachar infiéis ou adversários.
Só espero que, sabido o destino da espada de Cid, o Campeador, não se ponha agora "sua alteza real", D. Duarte Pio, eterno candidato a Rei de Portugal, a reclamar a espada de Afonso Henriques, sabe-se lá se para correr definitivamente com os herejes da República!

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

AMAR O QUE SE VÊ

Foto de Fernando Paulouro Neves
Todos os dias, como fazia o personagem de Paul Auster, que  tinha o curioso hábito de fotografar a sua rua a diversas horas, em diferentes estações, ano após ano, descubro coisas novas no horizonte vastíssimo que se desdobra ao meu olhar. Todos os dias. Na amplidão da paisagem, às vezes é o despertar do sol numa claridade doirada, outras são mares de névoas que nos fazem imaginar navios fantasmáticos; não faltam, também, cores de campos ao sabor das quatro estações, da melancolia outonal, com os seus matizes em lenta combustão, ao descarnado agreste do Inverno, com os ramos nus estendidos para o céu, ou à exuberância primaveril e ao zénite solar do Verão fazendo adivinhar os "campos de palha rasa" e a "matinal restolhada dos pardais".
Nem sequer é preciso, como ao senhor Auggie, o tal personagem de Auster, revelar as fotos. A objectiva do olhar é que descodifica esses instantes, que são surpreendentes e, por isso, fascinam. Saber olhar, é a receita para essa fábrica de sonhos. De cada vez que olho, lá estão emoções que a surpresa abre à rotina dos dias.
Há muitos anos, escrevi um texto em louvor do olhar que gostaria de partilhar, agora, com os meus leitores. Era uma prosa imediata, uma crónica que publiquei nos idos do "Jornal do Fundão", e dizia o seguinte:

Nos seus passeios de fim de tarde, à beira mar, no exílio, Manuel Teixeira Gomes reencontrava-se com a vida. Enchia os olhos de mar e céu azul, respirava a brisa marítima que porventura lhe lembrava a pátria distante, e murmurava:
-- Mais um dia. Este momento já ninguém mo tira!
Teixeira Gomes, escritor de grande sensibilidade, também aí, nesse seu dizer breve, nos ensinava a ver o mundo com outros olhos. A capacidade de amar as coisas belas da vida, no seu fluir temporal, deve ser a nossa descoberta de todos os dias, penso eu também. Descobrir então o deslumbramento daquele castanheiro da Índia que alguém prendeu um dia a este chão, daquela folha que balança ao sabor do vento, daquela rua que o sol de fim de tarde torna diferente.
Pensava em tudo isto, num destes dias de Outono, quando olhava a explosão de luz nos verdes e amarelos da Gardunha, que fazem lembrar o cromatismo de misturas de Van Gogh. Alain, que ensinava a buscar o tempo da felicidade, tinha razão quando dizia que a verdadeira riqueza dos espectáculos, está no detalhe: ver é procurar detalhes, parar um pouco em cada um, e, de novo, agarrar o conjunto num olhar. Pequenos momentos, mas às vezes instantes essenciais, que ajudam a superar o cinzentismo do espaço e as horas vazias em que nos movemos.
É esse respirar do tempo, esse horizonte de beleza a habitar, que Vinicius nos propõe quando inventa "uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova".
Às vezes, basta saber olhar. E amar o que se vê.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

REBANHOS PELO MEDO PERSEGUIDOS

É bom revisitar poemas, às vezes cantados como bandeiras que circularam como punhos levantados ao alto, sementes de esperança, urgências de indignação. Às vezes, nos sons que o coro levantava do chão ("acordai, homens que dormis", ainda se lembram do Fernando Lopes Graça?) semeavam-se sonhos avulso, e, nesses fragmentários instantes de palavras não sitiadas, os dias pareciam menos cinzentos.
A poesia tem esse dom de conferir às palavras uma dimensão de intemporalidade, os seus versos voam e contêm tempos dentro do tempo. Encontramos essa faceta desde a antiguidade grega, por isso, ou também por isso, tenho sempre à mão a belíssima antologia que o poeta Albano Martins traduziu e organizou, mas a actualidade de um verso pode estar, também, em poesia que teve, pela sua própria natureza, uma finalidade de denúncia e combate.
Não sei porquê, decerto pelo estado do mundo, que está cada vez mais perigoso (e, sobretudo, mais estúpido, acrescento já agora!), basta olhar para um sujeito como Trump e vê-lo sentar-se na cadeira presidencial dos EUA ou para triunfos anunciados de populismos bebidos na irracionalidade (veja-se a senhora Le Pen), para já não falarmos no remorso colectivo que representa o triunfo das desigualdades ou a xenofobia como forma de destruir o outro, isto é, o desejo de que vá morrer longe, para não incomodar as boas digestões europeias.
Por causa de tudo isso e da debilidade de indignação que vai por aí, se calhar a eleição de Trump é que me fez mover a memória para um conceito de carneirada que um poeta português querido interpretou magistralmente. Falo do Zé Gomes Ferreira e recordo os seus cabelos brancos, muito bethovenianos, a sua palavra directa, uma ironia amável e ao mesmo tempo de grande eficácia quando se tratava de levantar a voz contra a ditadura. Então, esses versos, que podíamos, com inteira propriedade, justapor à realidade de hoje, são estes:

Oh pastor que choras
o teu rebanho onde está
Deita as mágoas fora,
carneiros é o que mais há.


Uns de finos modos
outros vis por desprazer...
mas carneiros todos
com carne de obedecer.


Quem te pôs na orelha
essas cerejas, pastor?
São de cor vermelha,
vai pintá-las de outra cor.


Vai pintar os frutos,
as amoras, os rosais...
Vai pintar de luto,
as papoilas dos trigais.

Outro poeta do meu universo, o Alexandre O'Neill, que foi quem melhor estigmatizou o problema do medo na sociedade portuguesa (outro trauma actual), escreveu também um poema que intitulou "Perfilados de Medo", que é uma radiografia perfeita desse tempo longo inscrito no rosto dos dias.
Leiam s.f.f.:

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas, somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

Rebanho pelo medo perseguido, disse o poeta. 

domingo, 20 de novembro de 2016

UM CONTADOR DE HISTÓRIAS DE PROVEITO E EXEMPLO


Dois dias sem Notícias do Bloqueio geraram algumas perplexidades nos meus leitores, a quem peço desculpa, mas o programa segue dentro de momentos, como se dizia quando a imagem da televisão, nos velhos tempos, se avariava ou tremia como o pudim flan, o que acontecia com muita frequência. Neste interim, em que o mundo decerto não melhorou, fui a Coimbra apresentar um livro de crónicas, Ponte Europa, de um querido companheiro de jornada, o Carlos Esperança, que eu tive a honra de ter como coalaborador enquanto dirigi o "Jornal do Fundão". Numa sala cheia, que respirava fraternidade, fui lá de certo modo ampliar o que já escrevera com gosto no prefácio. Quem tem a sorte de conhecer o autor, sabe da sua qualidade como contador de histórias -- às vezes a sua toada de conversa faz-me lembrar o Manuel da Fonseca --, e aí, nessa sabedoria feita de tempo, se explica muito de como ele se tornou um cronista de eleição.
No andar e ver mundo que foi a sua vida aprendeu que a escrita é uma grande paixão, que ele pratica incessantemente, com prazer. Sempre admirei a forma sensível como ele selecciona a realidade naquilo que ela comporta de verdadeiramente essencial e de como nessa capacidade de observação ele vai ao encontro do detalhe, à densidade humana dos dias, à complexidade da condição humana. Aí colhe a matéria prima das suas narrativas de expressão ficcional. Mas o Carlos Esperança tem outra dimensão muito importante: o combate pela memória muito presente nos seus comentários. Essa faceta tem muito de exemplaridade cívica num país onde a memória é tantas vezes, subtil ou grosseiramente, assassinada, onde o esquecimento programado e o branqueamento do fascismo se tornaram norma. Nos seus escritos, essa é uma batalha sem fim para tornar o seu país mais limpo e habitável e o mundo um pouquinho mais justo.
Na sessão de Coimbra, eu bem o convoquei a contar histórias da sua Guarda (como a da Libaninha) ou da Covilhã, que é lugar privilegiado do seu memorialismo, da cidade industrial e socialmente estratificada e da vivência de sonhos inauditos de liberdade. Aliás, como tantas outras crónicas de Ponte Europa, muitas delas publicadas no JF, há uma particularmente saborosa, "Daqui Houve Nome Covilhã - 140 anos", em que Carlos Esperança faz uma radiografia do tempo sombrio que aqui se vivia, no início da década de sessenta, evoca rostos e lugares, pois, como ele diz, "as pessoas fazem as cidades, mas estas são as suas circunstâncias que as moldam e lhes imprimem  o carácter, os hábitos e os gostos". Nessa crónica, Esperança evoca a páginas tantas uma saborosa história: "Recordo o Leal que uma noite me guardou sob a camisola, o jornal habitual que, à largura de toda a primeira página, anunciava em letras garrafais de um título em caixa alta: "Ontem reuniu a Assembleia Nacional para apreciar as contas gerais do Estado relativas ao ano findo". A ausência de um "t", nas contas, pôs o país a rir e a polícia a confiscar o diário, mas o Leal, fiel e cúmplice, guardou um exemplar para o cliente de todos os dias".
Fecho com um parágrafo do prefácio: "As crónicas do Carlos Esperança fornecem-nos o retrato de um incrível país, com as suas fogueiras de estimação e os seus fantasmas, avultando em muitos textos aquilo que se poderia designar por uma militância cívica exemplar, contra a amnésia histórica, uma cidadania que é traço essencial da sua biografia. (...) Olho para as suas narrativas, falo sobre ele a amigos comuns, e logo vêm à conversa histórias magníficas. E uma ideia central: o Carlos Esperança é uma pessoa excepcional e tem a rara virtude de não ficar com palavras atravessadas na garganta. Diz o que tem a dizer, e faz da sua fala um pensamento livre, em voz alta".

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ANTÓNIO SALVADO: O OFÍCIO RIGOROSO DA PALAVRA

Amanhã, às 18 horas, na Biblioteca Eduardo Lourenço, na Guarda, Ricardo Paulouro apresenta o último livro de poemas de António Salvado, Poemas Escolhidos,editado pela A.23 por ocasião do Doutoramento Honoris Causa atribuído recentemente ao poeta pela Universidade da Beira Interior. É uma belíssima edição. Uma antologia que cobre produção poética realizada entre 1955 e 2016, que resulta de uma primeira selecção feita pelo autor. 
É, pois, um livro muito especial que reflecte uma parte importante do pessoalíssimo e original universo criador de António Salvado. Margarida Gil dos Reis, numa nota introdutória, assinala que "ao longo de seis décadas, António Salvado sagrou-se à poesia vendo nela uma espécie de redenção, uma "voz absoluta escutada" que coabita no poeta com a tensão proveniente da noite, da efemeridade da vida, da morte" para logo acrescentar: "O encanto desta poesia reside na forma como suscita no leitor emoções tão vivas que o transportam para paisagens repletas de cheiros, terra, frutos, povoadas de presenças corporais que quase parecem tornar a língua maleável". 
É uma boa síntese sobre o labor poético de António Salvado, poeta a que me ligam laços fundos de amizade e companheirismo. Eu próprio tenho escrito muito à volta da sua obra e da sua biografia feita de versos e de uma acção cultural multímoda. Em 2014, falando dele, em Castelo Branco, a propósito da publicação de Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, também editado pela A.23, expliquei que "celebrar a obra e a poesia de António Salvado é um puro reencontro com o dia claro, um aceno à alegria dos instantes, a reafirmação de um tempo em que a humanidade triunfa sobre todos os desígnios do mal. Porque a sua obra poética é um espaço em que se configura esse compromisso de felicidade, através do belo e do amor, essa visão de uma natureza em que a plenitude elemental da realidade telúrica, que é o mundo que abarca o seu olhar, é um incessante louvor de vida, que se sobrepõe sempre às nuvens negras dos dias, e tudo isso na síntese maior que o amor ocupa na sua arte poética.
Esse universo poético, feito de tantas diversidades, é o percurso de uma biografia singular sobre a qual me tenho debruçado, muitas vezes, sempre ganhando no prazer da sua leitura, que contém tantas virtualidades culturais, novos continentes do saber. De muitas coisas que escrevi sobre António Salvado, gosto particularmente de reler algumas palavras que vão ao encontro daqueles retratíssimos de que falava Herberto Hélder (seu amigo e companheiro no início da aventura poética) quando queria trazer à superfície da sua poesia linear, dizia ele, “a narrativa de um homem”. Então, há alguns anos, escrevi o que pretendia ser a articulação do meu querido Poeta com o lugar primordial da Beira na sua poesia, e, ao mesmo tempo, descobrir de que forma se traduzia o compromisso ontológico do autor com a palavra. 
No fundo, procedi a uma revisitação do lavrar de palavras de António Salvado, no seu longo ofício de paciência de recriação da língua, em busca desse destino, que outro amigo, Eugénio de Andrade dizia materializável “quando o ser da luz for/o ser da palavra”. Assinalei nessa altura: "Já retratei, por mais de uma vez, o que significa esse labor na poesia portuguesa do nosso tempo e o que a consubstancia como aventura criadora única que ilumina os dias. Vou à procura de palavras antigas, como se estivesse a ver António Salvado, ele e a sua solidão, na densa circunstância de poetar. Palavras minhas a páginas tantas: … António Salvado soube resistir à contingência da “província” (no que este conceito tem de arqueologia mental persistente na sociedade portuguesa), soube pensar o país de dentro para fora, e ter a suprema ousadia -- nunca perdoada -- de fazer coisas, promover a cultura dentro de uma cidade e de uma região, num território onde o pensamento, não poucas vezes, vive exilado. Muitos fingiram ignorar o seu trabalho, alguns olharam de viés a sua obra. Salvado resistiu a tudo. Se a poesia é o lugar da realização do ser pela palavra, é nesse universo criador onde se unem os dias (Kaváfis) e se aquecem os corações fraternos (Vicente Aleixandre) que encontramos uma biografia feita de versos, que é a vida de António Salvado. A fidelidade a um compromisso com o homem e com as raízes fisicamente próximas, eis o chão verbal dos seus versos: registo telúrico, espaços de maternas águas, terra de flores e oferendas corporais, que ardem nos instantes, “coração da vida a latejar.” "A poesia de António Salvado é essa mesa farta para o pensamento, povoada de cheiros, paisagens, rostos, mãos, sol, terra e pedras, neve, frutos e giestas, enseada onde se acolhem inquietações (“pouso a minha ansiedade no pilar da noite”, outro verso de Salvado), mas onde também se aquece o corpo do coração (que nunca é inacabado) de uma escrita que é um lugar primordial de humanidade. É, pois, no país dos seus versos (tantos títulos, milhares de páginas) que a sua biografia se dissolve, num ofício rigoroso de palavras, na configuração clássica de uma cultura a pensar na universalidade, num poetar que, como diria Drummond, “é uma luta com as palavras, mal rompe a manhã”. Face à sua poesia, poderíamos afinal dizer com António Ramos Rosa que ela reflecte “a inscrição do mundo nela e reciprocamente a sua inscrição no mundo” pois esta relação arterial, penso eu, faz parte da sua essência".
Palavras que aqui deixo para lhe dar um abraço.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O TRIUNFO DOS MEDÍOCRES

Há estigmas na sociedade portuguesa que parecem eternos. Do fundo do tempo chegam-nos notícias das "dificuldades que tem um reino velho para emendar-se", como escreveu Ribeiro Sanches. No outro dia, um amigo meu queixava-se amargamente de como, em Portugal, ter mérito é, muitas vezes, perigoso. E dava exemplos do triunfo da mediocridade em múltiplas instituições ou na esfera dos poderes que se alimentam muito da partidocracia. Eu disse-lhe que já tinha escrito vezes sem conta que não ter cartãozinho do partido, era ser ladrão de si próprio... Esse meu amigo, que conhece bem essas tramóias por dentro, despediu-se da conversa com uma certeza inabalável:
-- Quem não tem padrinhos está lixado!
Vim para casa a pensar na conversa de café e lembrei-me logo do "reino cadaveroso da estupidez" ou da célebre advertência (parece que do Schiller) de que contra a estupidez até os deuses lutam em vão. A verdade é que a cultura do mérito é um epifenómeno sem impacto na sociedade portuguesa. Esse vazio é uma das razões que conduz ao triunfo da mediocridade, de sujeitos sem obra credível que trepam alegremente na escala profissional ou política. Dei comigo a reler um texto que escrevi em 1991 e poderia ser escrito hoje, pois as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Então, na altura, verberava as clientelas e a prosa, com alguma indignação, dizia:
"Em poucos países, como em Portugal, a cunha se transformou numa instituição com tantas e tão fundas raízes. Não há nada que a supere. Nem o talento. Nem o profissionalismo. Nem a capacidade. Nem a seriedade. Quem tem cunhas trepa nas várias escalas em que se resume a vida social; quem as não tem pode muito bem ficar aviado para o resto da vidinha.
A cunha tornou-se, de tal forma, essencial à mobilidade do cidadão comum que arregimenta à sua volta verdadeiras multidões. A grande ambição, na maior parte dos casos, é estacionar no mercado de emprego, se possível à sombra do Estado. Mas aí pia mais fino! Quando essas legiões logram alcançar os patamares da política ou do Poder, necessitam antes de fazer prova da sua condição de clientes. É assim que o Poder arranja assuas clientelas. Nesses casos, é bem provável que, antes da cunha, peticionário/candidato ao lugar tenha de mudar de emblema, isto é, de clube político. Depois, feita a prova de fidelidade, abrem-se as portas do presente ou do futuro,consoante o escalão social e, às vezes, a curvatura dorsal do pretendente.
E não se trata de fenómeno novo na sociedade portuguesa, embora nos últimos anos os clientelismos tenham alastrado como a pior das marés negras. Almada Negreiros, em 1933, já detectava a cunha como um dos males endémicos da vida portuguesa. Escreveu, então, o autor de Nome de Guerra:
"Declaramos guerra ao empenho, à cunha, à apresentação, ao salamaleque, à porta travessa, à côterie, às amizades e às inemizades pessoais, e a toda essa gama de pechotice que medra  e faz medrar a marmelada nacional".
As palavras de Almada têm perfeita actualidade.

domingo, 13 de novembro de 2016

INFERNOS QUE ATORMENTAM OS DIAS


Há uma narrativa da actualidade que envenena os dias de pessimismo. Não faltam mortes e crimes contra a humanidade, que nos caem na sopa, guerras que parecem eternas na sucessão dos dias, bombardeamentos que nos fazem abrir os olhos de espanto para a banalidade dos crimes,  e, nessa fronteira em que os dramas se reproduzem e ampliam, surgem rostos de desespero, a dramática condição que é tudo menos humana. Há palavras e lugares que a todo tempo entram dentro da nossa inquietação, povoam remorsos colectivos, fugazes imagens onde, se calhar, encontramos a síntese mais funda do desespero em olhares dramáticos de crianças cansadas ou na tristeza maior que fere o coração: aqueles instantes, com o aviso prévio de que as fotos podem bulir com as pessoas sensíveis, e são meninos com os corpos destroçados, se o crime for em Alepo, ou afogados no cemitério ao sol ou ao luar das praias do Mediterrâneo. Muitas dessas imagens são absolutamente cruéis, infernos concretos para atormentarem os dias. Apetece dizer como Rimbaud: "Acredito que o inferno existe. Logo estou lá"
Pensava nas circunstâncias dessa narrativa da actualidade, que é neurose do nosso tempo, e encontrei um texto que escrevi em 91 (há quanto tempo!) em que a escrita, face à desumanidade e à indignação que a emergência do quotidiano provocava (Cavaco tinha ganho as eleições com maioria absoluta!), batia à porta da esperança. Volto hoje a esse batente porque devemos continuar a acreditar que a esperança tem sempre razão. O texto:
"Às vezes um fio de céu azul, às vezes uma mão que se abre a outra mão, às vezes uma palavra murmurada quase a medo. Um gesto apenas, uma ideia, um pensamento. Um rosto, um breve sorriso, a ternura de um afecto. Às vezes um país. Uma história desigual, o intranquilo caminhar de um povo, os dramas vividos nesse fazer e refazer da vida colectiva. Nessa tarefa de um país se procurar a si próprio, nesse dramático lavrar de séculos, a expressão épica de mil contradições, aventuras e desventuras naufragadas, quase sempre a pátria adiada que sonhamos. As angústias para o dia seguinte, sabe-se lá se para o século! Penso tudo isso, mas desvio subitamente o olhar para a esperança, esse alfabeto que alguns de nós ainda falam ou balbuciam. É uma estátua de pedra, inteira, no Jardim do Paço, em Castelo Branco, que a erosão do tempo, as guerras, as servidões, as noites mais tristes, não destruíram. Feita por operários da arte, resistiu a tudo. Ali está, intacta, vertical. Este falar de pedra, a que os anos deram mais força, é a imagem de uma grande serenidade. Como quem acena à inquietação do futuro, que é a minha perplexidade de circunstância, parece que a oiço dizer: apesar de tudo, a esperança."
Apesar de tudo, repito eu agora, pensando na esperança como reduto intocável de dignidade, espécie de pão elementar e chama que alumiou sempre o caminho dos que fizeram da vida um combate pela liberdade e pelo Homem, como medida absoluta de todas as coisas.