domingo, 31 de janeiro de 2016

31 de Janeiro

À medida que os anos rodam e começam a pesar, de cada vez que a soma se dilata com mais um, há todo um mundo de memórias que nos transporta aos tempos iniciais, quando o calendário parecia ser uma coisa meramente externa que não nos dizia respeito e as horas não entravam no inventário da vida. Tudo, então, parecia eterno.
Se calhar, no lugar-comum que diz que o homem é ele e as suas circunstâncias, vir ao mundo no dia 31 de Janeiro corresponde, talvez, ao destino que nos cabe em sorte e onde a data de uma revolução (falhada é certo) surge historicamente como um acto de esperança, prenunciador da República, que aconteceria pouco depois. Agora, ao sol dos dias, penso que talvez estejam aí os adn's da participação cívica e cultural, na perspectiva que a Liberdade é um coisa inexpropriável e que a transformação da realidade é o grande desafio que cada um transporta consigo, à sua maneira.
De facto, desde que ganhei consciência das coisas e comecei a perceber o "rumor do mundo" muitas vezes pensei na expressão simbólica do 31 de Janeiro se ter atravessado no meu caminho, como circunstância benigna de carácter projectivo sobre a complexidade individual e biográfica.
Não sei, ou talvez saiba, por que trago aqui uma reflexão tão intimista, mas a verdade é que a memória nos empurra para a folha branca, como se assim se fizesse alguma luz sobre o tal inventário dos dias. E é por aí que vamos sempre ao encontro de Pessoa/Álvaro de Campos quando ele escreveu aquele soberbo poema sobre o aniversário, cujos primeiros versos talvez expliquem tudo: "No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,/ Eu era feliz e ninguém estava morto"...
É essa realidade que agora levemente se insinua e me cerca porque sei, de ciência certa, que há uma voz que pela primeira vez me vai faltar, a de meu irmão Zé César, que todos os anos, onde quer que estivesse, me dizia como um abraço:
-- Viva o 31 de Janeiro!
Nos último verso do poema, Pessoa diz: "Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!..."
Mas agora, devo confessar, o universo de amigos que comigo partilha palavras nestas navegações do Blogue e do FB, quiseram manifestar a sua amizade e desejar-me futuro. Fico grato e feliz. E, na circunstância (eu e as circunstâncias...) não tendo palavras para lhes oferecer, socorro-me do poema que Eugénio de Andrade dedicou aos Amigos (in "Coração do Dia") e que é assim:

"Os amigos amei 
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga."

Partilhar "a sede de alegria". Haverá melhor programa?


6 comentários:

  1. Muitos Parabéns e Feliz Aniversário!
    Muitas Felicidades por muitos mais anos e...
    Viva o 31 de Janeiro!

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  2. Um grande abraço de parabéns e muitas felicidades durante muitos e muitos anos.

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  3. Parabens, feliz aniversário, mas se fosse hoje o poeta não podia dizer que ninguem morreu, porque a qualquer hora morrem pessoas em qualquer parte do mundo e não de morte natural.

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  4. Não sabia, Fernando, dessa "circuntância benigna" do 31 de Janeiro! Então, aqui vai um abraço, agradecendo a partilha da "sede de alegria -
    por mais amarga", com a memória dos que partiram, lembrando francos sorrisos, com o renovo, cada dia, das pequenas esperanças que não desistem da vida .

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  5. tenho esse poema de Eugénio escrito e oferecido por uma amiga às mulheres da vida dela - e éramos bastantes. Por acaso gostava de ser como o Eugénio, mas se como ele não fatiguei a ternura, ao invés do poeta, fico-me perguntando que tempos por que raio partem e piada não acho nenhuma. Que de chegarem não me importo grandemente.

    Dantes, pensava parvamente que o 31 de Janeiro só existia com esse nome por ser a data da primeira edição do jornal.
    Parabéns.

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