terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A CERVANTES VAI ENCERRAR?

Quem conhece e ama Salamanca, tem a sua monumentalidade na memória. Sabe como a Livraria Cervantes se tornou parte referencial da cidade que é património da Humanidade. A Cervantes era um mundo ou um universo, como Borges diria se por lá tivesse passado e ganhasse tempo a tocar os livros ou a respirar os saberes que ali se cruzavam. Pensávamos todos que a Cervantes era eterna ou viveria um tempo ainda mais longo do que a história já leva de vida: 80 anos!
Um dia destes, um jornal de Salamanca publicou uma notícia que nunca gostaríamos de ler: "Cierra la mítica librería Cervantes tras casi 80 años de actividade". E acrescentava: "Como diría García Marquéz, era la crónica de una muerte anunciada. La librería Cervantes de Salamanca, la más emblemática de la ciudad y uno de los grandes referentes nacionales en el sector bibliográfico, cierra sus puertas. La jubilación de Jesús Sánchez Ruipérez, propietario del establecimiento, y la falta de un proyecto de continuidad por parte de sus familiares ha llevado al librero salmantino a tomar esta decisión y echar el cierre en los próximos meses".
Lia este pré-obituário e não pude deixar de pensar na entrevista recente que Manuel Rivas concedeu ao "Babelia", do "El Pais", em que o cronista e escritor bem sublinhava que a Literatura é resistência" e considerava uma exigência cívica e cultural "salvar as livrarias". Aliás, o seu último romance, "El último día de Terranueva, narra precisamente  o pós-guerra através da vida de uma livraria condenada ao encerramento". Quando olhamos para antigamente, todos teremos lembranças de livrarias que eram alimento primordial de pequenas vilas ou cidades, lugares de cumplicidades onde se aprendia, de alguma forma, tomando contacto com os livros, a resistir. 
Nessa geografia de memória, lembro, no Fundão, o Zé Henriques Abrantes, com as suas prateleiras onde sabíamos exactamente onde estavam os escritores brasileiros, como o Jorge Amado, ou os portugueses, como o Redol e o seu "Barranco de Cegos". E por aí fora... Na Covilhã, como não recordar a Livraria Nacional e o senhor Mendes dos Santos, que até editou livros de poesia, e fez da Nacional um ponto de encontro da Cultura: foi lá o Ferreira de Castro e penso que o Erico Veríssimo e,ainda lá apresentei um romance do Manuel da Silva Ramos e do Alface, salvo erro o "Beijinhos", num fim de tarde em que a neve tinha descido até quase à cidade. E, em Castelo Branco, a Livraria do dr. Pinto Garcia, um homem de cultura que amava a história e a literatura como poucos, que tinha sempre bons conselhos de leitura, fosse para os clássicos, fosse para os modernos autores portugueses. E também o stand Vidal, onde havia uma verdadeira cumplicidade na venda de livros proibidos... 
Agora, parece que os sinos vão dobrar pela Cervantes. Se isso acontecer, eles decerto estarão também a dobrar por nós.

1 comentário:

  1. Mais do que os ancestrais problemas do universo autores-editores-livreiros, chegou-nos - paulatina e subtilmente, ou talvez nem tanto... - foi este voraz tempo da nova geografia europeia, de uma global máquina de números assimiladores que reduz o Homem a algarismo assimilado. Não há tempo para ler, porque não espaço para a leitura, porque o homem pensante não tem dimensão que caiba nos números. Embruteçam... e produzam. Números, está claro.
    Maldito tempo! Desditosos animais que se ajeitam que nem algarismos na geografia dos números!

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