sábado, 16 de janeiro de 2016

DA MEMÓRIA DE ALEGRE À FILOSOFIA BARATA DE ASSIS

Eu gosto de Manuel Alegre, fui com entusiasmo membro da sua Comissão de Honra, quando foi candidato à Presidência da República, e não esqueço como os seus versos e a sua voz da liberdade sobre o País de Abril foram importantes e solares para a minha geração, para iluminarem a resistência contra o fascismo à portuguesa. Muitas vezes o seu percurso criador colocou um frémito de esperança no meio da névoa, como dizia o grande Carlos de Oliveira. Não esqueço nada disso e, por isso, acho surpreendente que agora faça coro com a filosofia barata do euro-deputado faltoso, Francisco de Assis, sobre o Messianismo e o "tempo novo".
Sabendo que, pelo menos, Manuel Alegre não partilha a visão de pecado original que Assis atribui à maioria de esquerda que, na Assembleia da República sustenta um governo do Partido Socialista (o tal "Tempo Novo" de que fala Nóvoa), já fico surpreendido com o ataque de Alegre a Sampaio da Nóvoa, no comício de Maria de Belém, em Santo Tirso, chegando, num propósito claro de mistificar a realidade -- como se o país não tivesse mudado! -- a afirmar: "Eu já vi este filme, já vi o PS a apoiar um candidato independente (Ramalho Eanes) que acabou por formar um partido (PRD) contra o PS. Não devemos repetir os erros do passado". Ora, o filme agora é outro: é de pôr termo ao cavaquismo presidencial e evitar que um Cavaco mais moderno, mas igualmente Cavaco, fique mais uma década, em Belém.  Por isso, mais espantado fiquei por Alegre recuperar o argumentário de Marcelo Rebelo de Sousa, a história do general e do soldado raso, e ficar refém de hierarquias (neste caso militares), ainda que seja metáfora, pensando eu quão distante anda o poeta dos tempos em que Zeca Afonso cantava, e ele também, aquela canção em que o soldado pedia para mandar embora a sentinela... Senhor general, mande embora a sentinela, mande embora e não lhe faça mal...
Mas o que é mais insólito na reviravolta que Manuel Alegre fez entre a candidatura de Sampaio da Nóvoa e de Maria de Belém, foi o que disse em Abril do ano passado, e o que diz agora. Em 7 de Abril de 2015, de facto, escrevi neste Blogue, por altura do lançamento da candidatura de Nóvoa, um texto intitulado "Falta de Memória ou Estupidez?", em que a certa altura sublinhava o que Manuel Alegre lembrava: "os erros de alguns dirigentes do PS são, em grande parte, responsáveis pelo facto de Cavaco Silva ser Presidente da República". E acrescentava o autor de A Praça da Canção: "Nóvoa é um académico e um intelectual brilhante, um democrata que se identifica com o 25 de Abril".
É caso para dizer: que faz correr Alegre para colocar Marcelo no altar de Belém?
Este não é o Manuel Alegre de que eu gosto.


2 comentários:

  1. Se Alegre quer retribuir o apoio de Belém que o faça, mas com dignidade e sem atacar desnecessariamente Nóvoa.

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  2. Belo e lúcido texto que nos consola da mágoa com que ficamos em relação a Manuel Alegre.Abraço Fernando Paulouro Neves

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