sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

QUANDO O VERNIZ ESTALA

DESENHO DE JOÃO ABEL MANTA
Foi o primeiro debate a sério desta campanha eleitoral, tão formatada pelas televisões na over dose da banalidade, na pobreza demagógica de tantos candidatos, como se a eleição de um Presidente da República fosse espectáculo menor da política, uma espécie de dividir o mal pelas aldeias, o que é sempre uma estratégia informativa deplorável. Ontem, o debate na SIC, foi um verdadeiro frente a frente entre Sampaio da Nóvoa e Marcelo Rebelo de Sousa. Houve mudança de qualidade: Sampaio da Nóvoa, confrontando Marcelo Rebelo de Sousa com a memória das suas posições, com a sua política biface - uma caricatura de Tartufo à escala portuguesa... - obrigou o candidato apoiado pelo PSD e o CDS (va de retro satanás... afastem de mim esse cálice!) a perder o ar do candidato que só vendia chá e simpatia e a mostrar como o contraditório, coisa de que ele se dispensava nas missinhas dos seus comentários, durante quinze anos. Não era a vaca que ri -- era a vaca sagrada, ungida pelos deuses, que ruminava semanalmente verdades indiscutíveis.
Marcelo apresentou-se nestas eleições como se a sua biografia não estivesse manchada pelas políticas de direita, sempre contra os direitos colectivos e as conquistas de Abril (como o Serviço Nacional de Saúde ou a Escola Pública, como lembrou, com factos, Sampaio da Nóvoa) e, nos últimos anos de devastação social, apoiando a austeridade e a destruição do Estado Social. Tudo isso lembrou Sampaio da Nóvoa sublinhando como, ainda nas últimas legislativas, andou feliz e contente apoiando Passos & Portas e desejando a continuidade das suas políticas... E agora aí o vemos como se nada disso tivesse existido.
Confrontado com os factos, ele enervou-se, esbracejou. E chegou àquela retórica de perguntar ao contraditor: onde estava no 25 de Novembro? Ou na Constituinte? Curiosamente, não perguntou onde estava o seu adversário no 25 de Abril, uma data que não constará no seu manual de inquisidor. Ele sabia (e nós também) que Sampaio da Nóvoa lhe poderia dizer que uma coisa não tem na sua biografia: a de ser informador sobre o que se passava no Congresso Democrático de Aveiro, na cartinha que escreveu a outro Marcelo, o Caetano, e que Freire Antunes um dia foi descobrir no Arquivo do ditador.
A memória é uma coisa lixada. Faz cair muitas máscaras... O que num candidato tão versátil, é perigoso. Acabou o tempo do chá e simpatia!

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