segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

MIL CHICOTADAS!

Talvez se perceba melhor a ofensiva que vai um pouco por todo o lado contra o direito à informação e a liberdade de informar (em Portugal, também, embora com "brandos costumes": outras espécies de mortes -- os despedimentos, as precariedades...) se lermos com alguma atenção o último relatório de Repórteres Sem Fronteiras, que inventaria a seguinte situação no ano que passou: "sessenta e sete jornalistas foram mortos em todo o mundo em 2015 no exercício da profissão, de uma lista de 110 profissionais que perderam a vida em circunstâncias pouco claras. A esses juntam-se 27 bloggers e outros sete colaboradores de meios de comunicação social, elevando para 787 o número de mortos na última década. O Iraque teve o maior número de jornalistas mortos em 2015 (nove confirmados de 11 possíveis), seguido da Síria (nove de dez), ambos palco de conflitos armados e com a presença do grupo extremista Estado Islâmico (EI). A França subiu ao terceiro lugar (oito de oito) devido ao atentado terrorista contra a redação da revista satírica Charlie Hebdo a 07 de janeiro, que fez 12 vítimas. Seguem-se na "lista negra" o Iémen, o Sudão do Sul, Índia e México, indicou a RSF. A maioria das vítimas era jornalista local (97%) que trabalhava fora de zonas de conflito (64%), ao contrário do que sucedeu em 2014, quando a grande parte dos 66 jornalistas foi assassinada em zonas de guerra. "É imperativo adotar um mecanismo concreto para a aplicação do direito internacional sobre a proteção dos jornalistas", declarou o secretário-geral da Repórteres Sem Fronteiras, Christophe Deloire. Neste sentido, considera imperativo que as Nações Unidas designem um "representante especial" para a proteção dos jornalistas".
Aqui, referem-se as situações mais dramáticas. Mas há muitas outras, envoltas em silêncios cúmplices, em prisões miseráveis, onde a desumanidade e a negação do Homem são expressão nas torturas mais horríveis, para os quais a banalidade do esquecimento é a receita.
Um desses casos é Raif Badawi, jornalista da Arábia Saudita, condenado a 10 anos de prisão e a mil chicotadas. Crime: pensar e defender a Liberdade.
É por isso que hoje aqui reproduzo a capa do livro 1 000 Coups de Fouet - Parce que j'ai osé parler librement, já publicado na Alemanha e em França, que a querida amiga Fernanda Gabriel, jornalista sempre na luta pela liberdade de expressão, me ofereceu. E eu aqui deixo o nome da vítima - RAIF BADAWI - que é sempre uma forma de inquietar consciências. Lembro-me bem como, quando a liberdade era proibida em Portugal e as prisões estavam cheias de pessoas de bem, a importância que tinha pintar clandestinamente numa parede um nome seguido da palavra LIBERDADE. E lembro, também, o alento que representava uma notícia sobre qualquer destas arbitrariedades saída na imprensa estrangeira. No fundo, a mesma coisa que o grande Pablo Neruda fez no Canto General, quando no meio dos seus versos denuncia a longa prisão de Álvaro Cunhal.
Às vezes, basta um nome, um grito, uma bandeira, uma batalha para que a esperança se reproduza, como um dia escreveu o poeta Egito Gonçalves, no belíssimo poema que dá nome a este Blogue: Notícias do Bloqueio.

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