quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

ETTORE SCOLA E A FÁBRICA DE SONHOS

Na "Fábrica de Sonhos" -- a melhor definição que até hoje vi de cinema, que, penso eu, se deve Morin -- Ettore Scola ajudou-nos bastante a tecer a matéria de sonhos, e, ao mesmo tempo, a ensinar-nos a olhar a realidade em planos de aproximação à vida. Essa sabedoria de contar histórias que está na essência do cinema, era, afinal, as formas solidárias de Ettore Scola se implicar naquilo que a condição humana tem de mais surpreendente: a afirmação de uma humanidade comum aos homens e aos lugares que, às vezes, comportam ignomínias e desigualdades e são, por isso, menos habitáveis.
Então, Ettore Scola, herdeiro do cinema italiano mais comprometido  com a realidade social e histórica, na expressão dos fabulosos filmes do neo-realismo, fascinou-nos, também, com a sua pessoalíssima "Fábrica de Sonhos". A sua filmografia, no drama ou na comédia, representa uma luta incessante na forma de apreender e imaginar o real e contá-lo através de imagens.
Construiu obras que olharemos sempre com o mesmo fascínio e surpresa. Há tempos, estive a rever "Um dia inesquecível", filme realizado em 1977, com as interpretações fabulosas de um Marcelo Mastroiani e uma Sofia Loren. Poucas vezes o ambiente concentracionário do fascismo sofrido no quotidiano foi tão bem retratado. E, no entanto, a caligrafia da linguagem cinematográfica de Scola era de despojamento e de sobriedade: tudo se passa dentro de quatro paredes, a história de um homem, um locutor expulso pelo fascismo da Rádio, e uma mulher doméstico, no centro de uma família, que aplaudia o Duce, no contexto histórico da visita de Hitler a Roma, ao seu parceiro Mussolini.
Um homem e uma mulher, eles próprios vítimas individuais do Estado totalitário que, por momentos, parece inventarem a felicidade possível. Mas o que nos deixa perfeitamente atónitos é a densidade dramática do medo e da vida irrespirável, figurados, sempre, pelo som persistente da parada militar e da narrativa de louvor épico a Hitler e Mussolini, no ritual encenado do "davam-lhes uniformes, estandartes e música".
Na filmografia é impossível esquecer filmes como "Feios, Porcos e Maus", o "Baile", "A Família" (para só citar alguns) ou o documentário sobre Fellini. que ontem passou na RTP2, e tem uma ironia desconcertante. Numa entrevista ao "Liberation", Ettore Scola mostrava, há tempos, o seu desencanto com os labirintos do cinema, na actualidade, designadamente com a produção e a distribuição dos filmes que perversamente dominam os mercados.
Ettore Scola. Vamos continuar a ver os filmes do grande realizador italiano, e nesses instantes seguramente teremos a ilusão de que ele continua connosco.

Sem comentários:

Enviar um comentário