quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

NO REINO DA DINAMARCA

Quando Hamlet avisou que havia "algo de podre no reino da Dinamarca", Shakespeare estava longe de imaginar que o universalismo da sua arte dramática, às vezes feita metáfora, outras puro deslumbramento  de criação, pudesse sobreviver aos séculos de forma tão funda e se inscrevesse tão nitidamente como emergência da condição humana.
Neste caso da Dinamarca, logo esse reino longínquo onde existia algo de podre, se disseminou por realidades outras onde a doença letal da podridão envenenava o ar dos dias. A cada um, a sua Dinamarca e, nessa suja geografia, até nós, nos anos difíceis da mordaça, falávamos duma Dinamarca com algo de podre, que não era outra coisa senão o Portugal salazarento.
Agora, porém, a fala do Príncipe Hamlet pode ir direitinha para a Dinamarca-ela-própria, pois há muito de podre e bem podre no reino, imagem, aliás, que alastra à Europa, bem visível no retrocesso civilizacional, no relógio da História a andar para trás, a desumanidade a regressar como acento tónico da política. Ficámos a saber que no reino da Dinamarca foi aprovada uma lei que permite o confisco de valores aos refugiados (1.340 euros), um corpo legislativo que faz lembrar a teoria que Hitler desencadeou para se apropriar de bens dos judeus. Uma vergonha.

2 comentários:

  1. E o que é triste é que a Dinamarca ocupada pelo nazismo teve um comportamento exemplar na proteção que concedeu aos judeus, dinamarqueses e refugiados, que aí viviam. No seu livro, 'Eichman em Jerusalém', Hannah Arendt diz o seguinte ao introduzir a história da perseguição aos judeus no Reino na Dinamarca: 'The story of the Danish Jews is sui generis, and the behavior of the Danish people and their government was unique among all the countries of Europe - whether occupied, or a partner of the Axis, or neutral and truly independent. One is tempted to recommend the story as required reading in political science for all students who wish to learn something about the enormous power potential inherent in non-violent action and in resistance to an opponent possessing vastly superior means of violence.' Se existirem ainda resistentes vivos dessa época e que estiveram envolvidos neste esforço (que serão necessariamente muito velhos, mas lá vive-se até tarde), que pensarão essas pessoas da presente vergonha?

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  2. Mais uma mesquinhez por que não esperava...

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