quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O CANTO PRIMORDIAL DA TERRA

Um dia destes, subi à Guarda, ao TMG, para ouvir a Brigada Victor Jara e encher a alma dos sons profundos da música tradicional portuguesa. Não é sem emoção que digo o nome do grupo, que é sempre uma evocação daquele que, cantor da liberdade no Chile de Allende, foi brutalmente assassinado por Pinochet e as suas bestas de mão -- aqueles que apenas existiam para torturar e matar. Na reverência à memória do cantaautor da liberdade, é bom lembrar sempre o que fizeram os torcionários: lentamente, partiram-lhe os dedos das mãos e desfiguraram-lhe o rosto, a raiva brutal contra quem apenas produzia música e canto. Assim, até à morte. Por isso, quando oiço os sons da Brigada Victor Jara, é como regressar à força primordial da terra e pensar que a música e o canto da Brigada, com a força da sua poesia, é sempre um tributo de gratidão e de memória a Victor Jara.
Mas a Brigada Victor Jara, que no sábado veio encher de calor a noite fria da Guarda, evoca em mim tantas emoções, sobretudo pela sua persistência para mostrar que a música tradicional é um elemento fabuloso de cultura, construída pelo saber ou os saberes do "povo que canta", como tão bem nos explicou sempre o Manuel Louzã-Henriques, que é sábio destas matérias. Eu já o disse: tive a sorte de muito jovem acompanhar Michel Giacometti (que estava sedeado na casa de meus pais) nas suas navegações pela Beira a perscrutar e ouvir o falar e o canto do povo, a cavar fundo, como dizia Ernesto Sábato, para descobrir tesouros e salvá-los da morte pelo esquecimento.
A Brigada Victor Jara lavrou também esse território e recolheu sementes, como se vê pela sua obra. A Brigada tem esse ADN e o próprio Manuel Rocha, que é um grande músico e dirige a formação, também andou nessas andanças, há anos, à procura do tempo de Giacometti, recuperando a memória de lugares e de pessoas que tinham cantado para o etnomusicólogo, para um documentário que passou na RTP. Acompanhei o Manel em Aldeia de Joanes - e foi uma festa.
Uma das características do grupo é a alegria que coloca na sua aventura criadora. Transportam para o palco essa força e viajam pela música tradicional portuguesa, como se o país estivesse todo dentro da música e das canções que lançam ao vento. Daí a relação de afecto que criam com o público, que também põe "o seu pezinho" nas cantigas.
Foi bom dar aquele abraço ao Manuel Rocha, corporizando nele todos os elementos da Brigada, que nos ofereceram um concerto memorável. Foi bom festejar 40 anos da Brigada Victor Jara, num acontecimento que poderíamos considerar uma noite de convívio, povoada de alegria. A publicação da Discografia completa da Brigada é, também, um altíssimo serviço prestado à cultura portuguesa.


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