terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O QUE LEMBRO DE ALMEIDA SANTOS

Com a morte de Almeida Santos desaparece um senador da República, que teve um papel relevantíssimo na construção da democracia portuguesa. É assim que agora revejo a sua biografia cívica e as circunstâncias que fizeram dele, beirão talhado em granito, um combatente pela liberdade, desde os tempos da sua militância, como estudante da Universidade de Coimbra, contra a ditadura, e, depois, nas múltiplas batalhas contra o salazarismo e o caetanismo, esse tempo longo de expropriação da Liberdade, em que Almeida Santos esteve sempre na primeira linha do combate.
António Almeida Santos foi um dos obreiros da edificação do Estado de Direito e das transformações políticas que fizeram uma enorme mudança social na vida dos portugueses. Não admira, também, que tendo ele vivido o processo de resistência ao fascismo em Moçambique e as lutas contra a guerra colonial, que tenha tido, também, papel de relevo na construção da independência das colónias, como ministro da Coordenação Inter-Territorial, a seguir ao 25 de Abril.
Mas há que destacar, em Almeida Santos, a sua dimensão humana e o seu perfil cultural, que deram ao seu percurso uma singularidade enriquecedora. Não era, só, o homem política e culturalmente actualizado, o que conferia ao seu convívio um universo de saberes muito especial; era, sobretudo, o homem de memórias, que gostava de contar histórias e cantar o fado de Coimbra, e que foi capaz de transpor essas facetas para a criação literária, como ensaísta arguto sobre a realidade política ou o ficcionista que fez do conto uma paixão. Gostava de trabalhar a palavra, virtualizando numa escrita de grande simplicidade, uma certa oralidade, e garimpando fundo a memória para deixar impresso o traço de uma densa experiência pessoal. O seu memorialismo e o seu ensaísmo político podem agora ler-se como um contributo assinalável para percebermos os tempos que foram os seus no fio da história portuguesa. São cerca de vinte e cinco títulos, em que os géneros se misturam. Enviou-me, com palavras amáveis, alguns dos seus livros, e eu, que os lia com interesse, pensava quando os folheava na vida cheia de Almeida Santos, nas suas batalhas, nas suas causas -- sempre com o traço distintivo da humanidade a marcá-las -- e vinha-me então à lembrança que também ele, como Pablo Neruda, poderia fazer a síntese de uma vida, com um título do poeta chileno: "Confesso que Vivi!"

UMA HISTÓRIA COM O ARCEBISPO DE BRAGA

Não resisto a transcrever aqui uma história que Almeida Santos um dia me contou, com o seu falar cheio de ironia. Nos tempos idos, a seguir ao 25 de Abril, quando Mário Soares era primeiro-ministro e ele ministro do Governo da nova República, realizaram uma viagem a Braga e Soares pensou logo em ir visitar o Arcebispo. Eram tempos crispados, de revolução à flor da rua, e o Mário (como Almeida Santos dizia) queria desdramatizar. Na delegação ia Raul Rego, eleito deputado por aquele distrito. Raul Rego, como todos recordam, era de um anti-clericalismo virulento. Soares, preparando a ida ao Arcebispado, recomendou-lhe calma:
-- Oh Rego, você vai, mas fica calado, não abre a boca, para não haver surpresas!
Ele disse que sim, embora levemente contrariado, que não era homem para lhe adesivarem a boca.
Recebidos pelo Arcebispo, num salão de rico património histórico, com valiosos quadros dos antigos Arcebispos, Soares para fazer conversa apontou um deles:
-- Aquele quadro é imponente!
O Arcebispo disse docemente o nome da figura que a tela representava.
-- Oh! Esse era um pistoleiro de primeira! -- exclamou logo Raul Rego, perante o ar perplexo de Soares.

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