quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O QUE NÃO QUERIA SER HERÓI

Se calhar são coisas esperadas, vamos tendo conhecimento que a saúde se debilita e a vida se fragiliza, mas quando a notícia da morte de um amigo acontece, e de um amigo com a qualidade de Nuno Teotónio Pereira, percorre-nos não apenas uma súbita tristeza, mas também um tremor interior muito forte, pois temos a exacta noção da enorme perda que o seu desaparecimento representa. Poucas pessoas conheci com a coragem cívica de Nuno Teotónio Pereira, e, ao mesmo tempo, o seu despojamento face à sua condição de resistente ao fascismo ou de militante contra a guerra colonial. Nada o fazia desviar dessa postura, nada abalava as convicções da sua cidadania. Essa recusa de ser improvável herói era, apenas, o sinal da sua dimensão humana e a certeza de que a luta pela Liberdade era sempre uma batalha comum, com muitos heróis anónimos. Na cadeia, a PIDE (prendeu-o quatro vezes) torturou-o brutalmente; Nuno Teotónio Pereira resistia como podia. Eu olhava para ele, perscrutava a sua modéstia na narrativa dos combates, e perguntava-me que raio de país era este em que alguém como o Nuno, com a sua qualidade humana e a sua inteireza ética, podia sofrer assim a impunidade dos carrascos do ditador. Era, do mesmo passo, um homem e um artista que prestou assinaláveis serviços ao país, sobretudo no âmbito da arquitectura, em que Nuno Teotónio Pereira, várias vezes Prémio Valmor, deixou espalhada pelo país (também aqui no distrito de Castelo Branco) a marca do seu talento.
Em Abril de 2015, escrevi neste espaço, o texto que a seguir reproduzo e que intitulei "Nuno Teotónio Pereira: o arquitecto das causas cívicas". E se agora o reproduzo é porque é um um breve aceno ao Nuno Teotónio Pereira -- vivo e inquieto sobre a pátria comum que era preciso libertar, sempre.

"Num país que gosta tanto de fazer justiça a título póstumo, esquecendo normalmente os gestos de ternura e o reconhecimento do mérito aos vivos, temos que saudar a atribuição do Prémio Universidade de Lisboa 2015 ao arquitecto Nuno Teotónio Pereira. A distinção acontece aos 93 anos de uma vida singular no plano criador e no plano humano. A biografia de Nuno Teotónio Pereira, se é muito importante em relação aos horizontes novos e rasgados que abriu na arquitectura portuguesa, também o é pela exemplaridade cívica e cultural, pela coragem que a sua vida reflecte na dura luta contra a ditadura de Salazar e Caetano. Foi um combate que travou como acto pleno de cidadania, pela liberdade, contra a guerra colonial, como se fosse a consciência moral de um povo. Foi preso e brutalmente torturado, mas Nuno Teotónio Pereira assumia esse compromisso com a humildade de quem cumprira apenas um dever na batalha pela liberdade e pela dignidade de um país.
É por isso que a Universidade de Lisboa, ao anunciar a atribuição do Prémio, sublinha justamente que ele distingue o exercício "brilhante" na área da arquitectura e como "figura ética" da sociedade portuguesa. Diz o júri que Nuno Teotónio Pereira contribuiu "de forma notável para o progresso da ciência e da cultura e para a projecção internacional de Portugal". E acrescenta: "Mais do que um profissional brilhante na área da arquitectura, assume-se como uma figura ética que, desde sempre, soube afirmar posições de grande vigor cívico". Destaca igualmente a "sua vasta obra na cidade de Lisboa, que inclui três prémios Valmor", uma obra marcada "pelo constante e o intemporal" e "permanentemente comprometida com a necessidade de se construir uma sociedade cada vez mais justa e cada vez melhor".
Ao Nuno Teotónio Pereira, aquele abraço!"

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