quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

POR QUE VOTO EM SAMPAIO DA NÓVOA


1. Talvez nada defina tão bem a pobreza cultural portuguesa do que a persistência de um pensamento configurado à ideia de que há sujeitos proprietários da acção política que só eles conhecem e podem, abençoadamente, exercer. É uma espécie de pensamento único que passa muitas vezes transversalmente pelo jogo partidário de interesses espúrios, em que se comprazem sujeitos espertos e figurões que visam, acima de tudo, não servir a República, mas servir-se, como se tivessem recebido, de herança, o país.
No contexto da actual campanha eleitoral para a Presidência da República, esta prosápia demencial tem atingido o climax, com a circunstância de haver uma candidatura genuinamente nascida da sociedade civil, protagonizada por um professor universitário que foi Reitor da Universidade de Lisboa, com obra notável, autor de bibliografia de referência sobre questões da Educação, chamado a reuniões internacionais como especialista dos problemas do Ensino e da Sociedade, que foi assessor do Presidente Jorge Sampaio.
Então, acontece neste Portugal dos Pequeninos uma coisa verdadeiramente surpreendente e do domínio do absurdo, sobretudo no ar farsola que o candidato da direita, isto é, do PSD e do CDS, que Passos Coelho e Portas apoiam envergonhadamente, acolitado em via reduzida por Maria de Belém, cuja fronteira entre as públicas virtudes e os vícios privados é muito ténue, que é desvalorizarem a experiência da Universidade, que é a sede do saber, para proclamarem que só a actividade política pura e dura caberia num perfil de Presidente da República e lhe poderia dar sustentabilidade.
Ora, no Portugal de Abril, a Universidade tem tido um papel fundamental no aprofundamento do conhecimento da realidade portuguesa, e, seguramente, sem ela, não nos conheceríamos a nós mesmos, nem perceberíamos a nossa identidade como povo. Na falência total para contraporem ao Programa de Sampaio da Nóvoa, à sua dimensão cultural e cívica, apontam o dedo acusador ao candidato da mudança: não tem experiência política. O apoio e empenhamento dados à candidatura de Sampaio da Nóvoa, pelo general Ramalho Eanes, o dr, Mário Soares e o dr. Jorge Sampaio, são a melhor forma de remeter ao caixote do lixo a desmiolada teoria do candidato da direita.
No fundo, Marcelo e Belém, devem lá no íntimo pensar que a política não é a vida, nem a vida é a política… À hora a que escrevo, oiço Sampaio da Nóvoa dizer em Coimbra que há quem pense que “a política é coisa de clube privado”. Eu, por mim, recuperava uma saborosa história de Luís de Sttau Monteiro como caricatura do argumentário de direita:
-- Mas estes tipos, pensam que isto é só para estúpidos!

2. Por que voto em Sampaio da Nóvoa?
Porque é o rosto da mudança em Portugal. Porque, depois de quatro anos e meio de devastação social do país e de imposição de pobreza, pelos partidos do “arco” governamental de Marcelo (PSD e CDS), com apoio total de Cavaco Silva, em que a esperança foi todos os dias, de certo modo, assassinada, a eleição de Sampaio da Nóvoa como Presidente da República é abertura de um novo ciclo, um "tempo novo" de recuperação da felicidade perdida, em que a realidade social, onde conta a humanidade, é a medida de todas as coisas.
Porque,num tempo em que as democracias arrastam uma crise profunda -- basta lembrar os apelos feitos por Edgar Morin -- o Programa de Sampaio da Nóvoa recupera, como desafios essenciais, uma nova dinâmica na exigência da cidadania, da intervenção cívica e cultural, de valorização da Língua Portuguesa, e contra a chantagem do medo, sem as quais o desenvolvimento nunca será alcançado.
Porque, depois do tempo sombrio em que o conhecimento e a investigação científica foram minorizados, o Programa de Sampaio da Nóvoa é um compromisso com atenção prioritária a esses vectores, tão importantes para atenuar desigualdades face à Europa e construir um tempo de autêntica modernidade.
Porque,depois de anos em que o Estado Social foi gravemente ferido pelo governo do PSD e CDS, os apoiantes de Marcelo, e a Constituição da República letra morta para Cavaco Silva, Sampaio da Nóvoa representa a garantia da defesa do primado constitucional e do complexo de direitos que é a sua matriz fundacional da democracia.
Porque,depois da gradual política de desmembramento do Serviço Nacional de Saúde e da subalternização da Escola Pública, Sampaio da Nova considera esses serviços absolutamente fundamentais para a coesão social do país.Porque,depois de dez anos de consulado cavaquista, o Presidente de Passos Coelho, Portas e Marcelo, Cavaco Silva, que fez de Belém um baldio cultural, já é tempo de lá voltar alguém que pense a Cultura com um desafio fundamental e não envergonhe os portugueses por não saber quantos Cantos tem os Lusíadas e desconhecer Thomas More.
Porque,ao arrepio das políticas devastadoras que desertificaram o Interior, Sampaio da Nóvoa encara essa territorialidade como não subalternizável à escala nacional, como nó de terra com direitos de parte inteira.Porque Sampaio da Nóvoa é o comum dos homens e, nessa perspectiva, representa o Portugal de todos e é capaz de somar as partes para virtualizar o todo nacional.

3. A tudo isso acresce o facto de Sampaio da Nóvoa se identificar com os valores de Abril e não os renegar, como outros. A sua biografia condensa batalhas em louvor da Liberdade, como valor absoluto, de sempre.
Há um poema, de Sophia, chamado “Pátria”, que eu gostaria de deixar aqui para traduzir o que é a personalidade de António Sampaio da Nóvoa na sua sua biografia cívica e na expressão quotidiana da sua cidadania:

Por um país de pedra e vento duro 
Por um país de luz perfeita e clara 
Pelo negro da terra e pelo branco do muro 

Pelos rostos de silêncio e de paciência 
Que a miséria longamente desenhou 
Rente aos ossos com toda a exactidão 
Dum longo relatório irrecusável 

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento 

E pela limpidez das tão amadas 
Palavras sempre ditas com paixão 
Pela cor e peso das palavras 
Pelo concreto silêncio limpo das palavras 
Donde se erguem as coisas nomeadas 
Pela nudez das palavras deslumbradas 

-- Pedra  rio   vento   casa 
Pranto    dia   canto  alento 
Espaço   raiz  e água 
Ó minha pátria e meu canto 
Me dói a lua me soluça o mar 
E o exílio se inscreve em pleno tempo 

 APOSTILHA 1 -- Na dramaturgia universal, há uma figura criada por Moliére, Tartufo, cujo universalismo se mede na forma como os comportamentos humanos dúplices se reproduzem. Nesta campanha eleitoral, o candidato da direita, Marcelo Rebelo de Sousa, tem-se comportado como se estivesse a interpretar, no plano eleitoral, a figura de Moliére. De facto, como se fossem pura banalidade histriónica e as pessoas não tivessem memória, o candidato faz hipocrisia, nega cinicamente a sua biografia política, mente com a maior das naturalidades (ele até nem apoiou Cavaco ou as políticas austeritárias de Passos e Portas!), aposta no porreirismo nacional como a sua grande virtude para convencer eleitores…

APOSTILHA 2 - Nunca percebi a origem da candidatura de Maria Belém Roseira, que parece cumprir  um desígnio recorrente do PS, nas últimas Presidenciais, que se dividiu para levar ao colo Cavaco Silva a Belém. Mas o que é mais espantoso é que a candidata, que tanto se ufana das suas causas, quando lhe falam na sua acção simultânea como presidente da Comissão de Saúde da AR e dirigente da Espírito Santo Saúde, encara tudo isso com superlativa naturalidade, sem o mínimo sobressalto. Não basta dizer que é tudo legal... A outra nota negativa foi, no debate com Sampaio da Nóvoa, ter trazido para a mesa o nome de Mariano Gago, dizendo que era homenagem, mas para dizer que o seu opositor cometera o crime de o criticar! Muito feio...

 *Mandatário Distrital da Candidatura de António Sampaio da Nóvoa

(Artigo publicado na edição de hoje do "Jornal do Fundão")

1 comentário:

  1. Muito bem escrito.
    Eu também voto no Sampaio da Nóvoa, por causa de um célebre discurso que me levou a descobrir um Portugal bem menos claustrofóbico do que nos queriam fazer acreditar.
    Bem haja.

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