segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

UM PRESIDENTE "ENGRAÇADO"!

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
1. Há anos, realizou-se em França um inquérito que, visando apurar o estado da democracia, chegou à conclusão de que a doença da indiferença abria uma longa ferida na pureza dos ideias democráticos. Nada que, afinal,  não se soubesse de uma realidade para qual Edgar Morin chamara insistentemente a atenção. Acho que em Portugal também nós estamos doentes da democracia e do país, uma doença que historicamente vem de longe, com a longa e persistente duração dos autoritarismos e das ditaduras, com as perseguições à expressão livre do pensamento e o recurso sistemático à ideia de que pensar em voz alta é perigoso.
Essa circunstância temporalmente longa no fio da história - que levou Sérgio a considerar que a mentalidade era a questão dominante da sociedade portuguesa - produziu sempre fenómenos de exclusão e tragédia: a neutralização (às vezes liquidação mesmo) daqueles que, tendo a consciência clara dos problemas nacionais, seriam capazes de materializar a mudança no Portugal de "apagada e vil tristeza". Devemos, por isso, ter consciência plena de que a indiferença e a apatia cívica ("Vai-te embora boi da paciência", diriam os versos de Ramos Rosa!), aliados à pobreza cultural que ainda dominam o país, reflectem o diagnóstico de António Sérgio, como conjunto de fenómenos que criam no país fobias contra a mudança (o medo do futuro) e instalam na sociedade um estado de servidão que reproduz súbditos em vez de cidadãos.
Digo isso, hoje, no rescaldo das eleições presidenciais, do seu contexto, e, sobretudo, das narrativas da informação que as condicionaram, da forma como o acto se configurou, pelo vazio e o fait-divers, como se a questão não fosse política, tudo na convergência dos interesses do candidato ganhador, Marcelo Rebelo de Sousa. Chega-se a Belém, por esse trilho de facilitismo, mas numa encruzilhada de dúvidas e incertezas, pois não só o pensamento presidencial do ganhador foi o não dito, como as promessas de fidelidade a António Costa e ao governo sustentado por maioria de esquerda (tão contrários ao percurso político e ao ADN de Marcelo) deixam um rasto de elevada incerteza, conhecendo-se, como se conhece, o perfil irrequieto e volúvel da personalidade do novo Presidente da República. Irá ser assim?

2. O que estas eleições demonstraram foi a evidência do célebre diagnóstico das televisões se poderem transformar em vendedoras de sabonetes ou de Presidentes da República. Num país que lê o que lê, que debate o que debate, que faz da participação cívica quase um delito, que vive em círculos de medos e dependências do favorzinho, que aceita a canga da pobreza e do desemprego e das troikas como uma fatalidade dos deuses, num país assim não é estranho que as eleições presidenciais adquiram o ar circence que lhe imprimiram, em que o acessório foi sempre mais interessante do que o essencial.
Ainda hoje, no "Público", Miguel Esteves Cardoso dava um "Viva a democracia!", escrevendo a certo passo: "Marcelo Rebelo de Sousa será o Presidente da República mais inteligente, culto, simpático e engraçado que Portugal já teve". Engraçado? E não sei como o MEC conseguiu apurar essa definição absoluta do "mais inteligente e culto"...

3. Bati-me, com honra e entusiasmo, pela eleição do Prof. António Sampaio da Nóvoa, que personificava, de certo modo, não só os valores de Abril (a Liberdade, entre todos) e a emergência cívica e cultural da sociedade civil, mas também a qualidade da participação cívica e cultural, como forma inquestionável de superar a anquilose em que vegeta a democracia.
Ao contrário do vazio, que é um álibi para todas as situações, Sampaio da Nóvoa tinha uma ideia para o país e explicou-a mostrando que o que é verdadeiramente urgente era mudar, corresponder a um novo ciclo, a um "tempo novo" de felicidade possível, valorizando as pessoas e implicando-as na própria aventura de terem uma pátria sua. Penso que país é este que se dá ao luxo de perder uma oportunidade destas, mas não deixo de pensar, também, que Sampaio da Nóvoa continuará nosso companheiro de jornada na esperança da "cidade sem muros nem ameias".
Não foi possível. Ele chegou onde tudo era possível para a segunda volta: o patamar dos 23%, mais de um milhão de votos. Então, devemos interrogar-nos porque razão, mais uma vez, a esquerda (com particulares responsabilidades para os que, no PS, dividiram, para apontar uma faca chamada Maria de Belém a Sampaio da Nóvoa) e as formações de esquerda que ficam felizes com Marcelo em Belém, desde que passeiem as suas vaidades partidárias. Façam uma introspecção e pensem como a direita se une, ainda que abomine o candidato e lhe chame "catavento mediático". Pensem mais no povo que dizem defender e menos nos interesses particulares da contagem dos votos... e da doentia afirmação partidária.

3. Dito isto. A direita está em Belém. Mas seja qual for o desenvolvimento futuro do novo Presidente,  por muito "engraçado", há uma coisa levemente positiva: Cavaco vai-se embora e isso é motivo de regozijo. Vai-se acabar, em breve, a vergonha de o ter suportado dez anos como Presidente de alguns portugueses.

1 comentário:

  1. Concordo que Cavaco Sair é um bem para o país (e para mim em particular, o senhor é uma lástima como cidadão e ainda desce mais como PR, envergonha-me).

    E é verdade que a esquerda unida seria uma esquerda diferente. A direita sempre foi capaz de uniões que a esquerda propala mas não consegue, pelo menos em Portugal. Ainda me pergunto por que razão se uniram para formar governo e não o fizeram para eleger um presidente.

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