quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A CRÍTICA E O ARROZ DE CABIDELA

MÁRIO CASTRIM
O ódio à crítica é um dos traços de um certo subdesenvolvimento cultural que o tempo continua a reproduzir na sociedade portuguesa. Ainda hoje se ouve falar com insistência que crítica, sim, mas construtiva. Quer dizer, a que se dissolve em paleio que não incomoda o Poder, nem os poderosos, crítica de água-chirla que é de todo inútil. E, no entanto, se há país que tem tradição em fazer "balas de papel", como dizia Aquilino, é o nosso, um saber que vem do fundo dos tempos, desde as cantigas de maldizer, e que cobre, afinal, toda a literatura. Não é preciso ir ao Padre José Agostinho de Macedo, que gostava de falar em bestas, para percebermos como essa capacidade adquire dimensão superior. Há prosas magníficas de Fialho, de Eça, de Camilo, que esgrimiam com palavras com a mesma facilidade com que os caceteiros reaccionários manejavam o cacete da contra-revolução contra a crítica.
O desconhecimento dessa literatura de primeira água é uma falha grave, sobretudo num país que banalizou o recurso aos tribunais para o desagravo da polémica. Andei eu, muitas vezes, nessas deambulações em que os poderes amavam, acima de todas as coisas, meter na ordem os perigosos delitos de opinião. E algumas vezes, falando nos autores citados atrás, na monumentalidade das salas de audiência, havia quem perguntasse:
-- Mas quem são eles e o que vêm aqui fazer!
Hoje, uma amiga publicou no FB uma fotografia curiosa que regista um acontecimento curioso: jornalistas do "Diário de Lisboa", na Rua Freire de Andrade, junto ao edifício da Judiciária, onde decorria um processo contra o jornal. Apurei o olhar e vi na fotografia, entre outros, o Fernando Assis Pacheco, o Piteira Santos, o Cardoso Pires e o António Ruela Ramos.
O registo fez-me lembrar uma saborosa história sobre a crítica. Em finais dos anos 60, ainda Salazar manobrava o aguilhão do mando, como diria Torga, também a crítica era especialmente visada pela Censura. Mário Castrim, que fazia crítica de televisão no "Diário de Lisboa e no "Jornal do Fundão" (aqui até chegou a utilizar o pseudónimo de Marcos Ferreira na tentativa de se driblar os censores) tinha sobre si o ódio dos que destruíam o gesto criador. Nessa acção, ele foi tão importante que chegou-se ao ponto de crismar o "Diário de Lisboa" como "Dimário de Lisboa". Os homens do regime diziam, aliás, que a sua perigosidade radicava no facto da sua escrita produzir uma "escola de críticos".
Então, hoje, lembrei-me de uma história com o Mário Castrim. Um dia, num daqueles almoços que meu tio, António Paulouro, organizava e eram mesa fraterna de alegria, o Mário era o centro da conversa. Ele adquirira, de facto, fama de crítico implacável, que desfazia com palavras a televisão, que então não era outra coisa senão uma fábrica de mansidão.
Lembro-me que uma senhora colocou a Castrim uma questão: por que é que a sua crítica é tão violenta, não podia ser um pouco mais doce?
O Mário sorriu. Estávamos a comer arroz de cabidela, e ele respondeu à interlocutora:
-- O que acha do arroz de cabidela? -- perguntou, e ficou à espera da resposta.
-- Está excelente. É de comer e de chorar por mais... -- respondeu ela.
E Castrim:
-- Pois é, minha senhora, mas antes foi preciso matar a galinha. Já vê...

1 comentário:

  1. Tudo bem. Mas a crítica construtiva não
    é, como diz, essa série de balelas que não adiantam nem atrasam. A diferença entre a crítica construtiva e a outra é que ambas dizem verdades - matam a galinha - mas a construtiva ajuda e ensina a fazer a cabidela; a outra atira com a galinha morta para cima da mesa e o resto não lhe interessa. O resto, a que também e erradamente chamam crítica, é maldizer pagão. Injúria.

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