sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A FACTURA DO MESTRE DE OBRAS

É muito curioso como documentos banais, às vezes breves sinais da vida quotidiana, impregnados de pó dos tempos, adquirem um sabor especial e provocam-nos suaves sorrisos, lidos à luz da actualidade. Este, que hoje aqui trago, é a cópia da factura que um mestre de obras, decerto ciclópicas obras, apresentou em 1853 pela reparação que fez na Capela do Bom Jesus de Braga. O original está na Torre do Tombo. É assim: “Por corrigir os10 mandamentos, embelezar o Sumo Sacerdote e mudar-lhe as fitas: 170 réis; Um galo novo para S. Pedro e mudar-lhe a crista: 95 reis; Dourar e pôr penas novas na asa esquerda do Anjo da Guarda: 90 reis; Lavar o criado do Sumo Sacerdote e pintar-lhe as suissas: 160 reis; Tirar as nódoas ao filho do Tobias: 95 reis; Uns brincos novos para a filha de Abraão: 245 reis; Avivar as chamas do Inferno, pôr um rabo ao Diabo e fazer vários concertos aos condenados: 245 reis; Fazer um menino ao colo de Nossa Senhora: 210 reis; Renovar o Céu, arranjar as estrelas e lavar a lua: 130 reis; Compor o fato e a cabeleira de Herodes: 55 reis; Retocar o Purgatório e pôr-lhe almas novas: 355 reis; Meter uma pedra na funda de David, engrossar a cabeleira ao Saúl e alargar as pernas do Tobias: 95; Adornar a arca de Noé, compor a barriga ao Filho Pródigo e limpar a orelha esquerda de S. Tinoco: 135 reis; Pregar uma estrela que caiu ao pé do coro: 25 reis; Umas botas novas para S. Miguel e limpar-lhe a espada: 255 reis; Limpar as unhas e pôr os cornos ao Diabo: 185 reis”.

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