quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

PENSAR PORTUGAL

Pensar Portugal é um exercício não muito democratizado. A maioria curva-se a um passado de quase 900 anos de história, canta umas loas ao patrioteirismo, mas tem uma noção estranha do país que habita, mas não questiona as suas idiossincrasias, o deve-haver das virtudes e dos defeitos, foge como o diabo da cruz do aprofundamento dos traumas colectivos. Na maior parte dos casos, não queremos saber quem somos, nem para onde vamos.
Viajando, com prazer, pelos três volumes em que Aquilino escreve O Romance de Camilo, um conjunto extraordinário para percebermos Camilo na pulsão da sua personalidade, das suas contradições e da sua grandeza como construtor da Língua, descubro o fascínio de uma escrita em que um génio escreve sobre outro génio, não limando arestas, sempre em busca da autenticidade possível. E lá encontrei, de Aquilino, uma curiosa reflexão sobre Portugal.
Diz o autor de O Malhadinhas:
"Neste fragão mal ensaibrado que é Portugal,onde se agarrou insofrida e com desespero de protozoários uma rabugem de raça sem a solidariedade sequer que há nos polipeiros, o fidalgo, o padre e o homem da lei foram sempre os exploradores do rebanho. Pequeno de mais para poder vingar nele o regime feudal, que requeria extensão, latifúndio e floresta, adoptou mesmo assim a jurisprudência medieva e dela não se moveu até à Revolução Liberal. Mas o sub-radiculado perdura nos subterrâneos do poder e na subconsciência dos espíritos, seivoso e viridente. Basta que aos vaivéns da autoridade sopre o vento de absolutismo que varra a leve camada de terra e ei-los a lançar brotos gigantescos. A ordem discricionário não encontra melhores paladinos. Mergulham então no erário, pousam mão enluvada no volante do 40 CV., exibem as suas fantasmagorias de glória pretérita. Recuperam em suma o clima  morto.  Porém a sua superioridade muitas vezes não é mais que uma salitrosa projecção de fantasmas, numa pantalla escurecida, com que se assombram os parvos, que são desgraçadamente o cerne das repúblicas."
Há outro retrato da pátria, que pode ter boa actualidade se o projectarmos, por exemplo, sobre aquela notícia do aumento milionário com que o governo anterior, pouco antes de sair, premiou gestores amigalhaços, para não falar, outra vez, nos 90 milhões que Passos Coelho deu de mão beijada a Miguel Relvas. É uma história que Aquilino conta com humor sobre aqueles tipos que se sentam à mesa do Orçamento e ali ficam a lambuzar-se nos tachos que lhes são prodigamente distribuídos é uma clientela voraz, e Aquilino fala na necessidade de "expor a vítima no Pelourinho, clamasse como o honrado sapateiro de Braga:
-- Vejam bem! Vou fazer o mesmo a essa corja de bigorrilhas, que tomaram conta do tacho e não dão licença que outros, que têm mais direitos que eles, tirem a sua sopa.
Porque tudo, desde sempre, nesta esfomeada terra de Portugal, se reduz ao problema de encher a búsera, dizia o regedor de Fanhões."
Outra dimensão, desta introspecção ao país que somos, encontramo-la, também, em muitas páginas de Vergílio Ferreira, às vezes de forma impiedosa. Esta, por exemplo, que se pode ler em Conta-Corrente II:
"Pensar Portugal é pensá-lo no que ele é e não iludirmo-nos sobre o que ele é. Ora o que ele é é a inconsciência, um infantilismo orgânico, o repentismo, o desequilíbrio emotivo que vai da abjecção e lágrima fácil aos actos grandiosos e heróicos, a credulidade, o embasbacamento, a difícil assumpção da própria liberdade e a paralela e cómoda entrega do próprio destino às mãos dos outros, o mesquinho espírito de intriga, o entendimento e valorização de tudo numa dimensão curta, a zanga fácil e a reconciliação fácil como se tudo fossem rixas de família, a tendência para fazermos sempre da nossa vida um teatro, o berro, o espalhafato, a desinibição tumultuosa, o despudor com que exibimos facilmente o que devia ficar de portas adentro, a grosseria de um novo-rico sem riqueza, o egoísmo feroz e indiscreto balanceado com o altruísmo, se houver gente a ver ou a saber, a inautenticidade visível se queremos subir além de nós, a superficialidade vistosa, a improvisação de expediente, o arrivismo, a trafulhice e o gozo e a vaidade de intrujar com a nossa «esperteza saloia», o fatalismo, a crendice milagreira, a parolice. Decerto, temos também as nossas virtudes. Mas, na sua maioria, elas têm a sua raiz nestas misérias. Pensar Portugal? Mas mais ou menos todos sabemos já o que ele é. O que importa agora é apenas «pensá-lo» — ou seja, pôr-lhe um penso..."
Pensar Portugal, eis um desafio de sempre.

Sem comentários:

Enviar um comentário