sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

AS CRIANÇAS DE CAXIAS VIVIAM NO FIO DA NAVALHA

Talvez um dos sintomas mais nítidos da desumanidade que atravessa a sociedade portuguesa possa colher-se na persistência dramática que a narrativa da actualidade oferece sobre o mundo infantil. E, de cada vez que somos confrontados com essa realidade, de cada vez que os nossos olhos se abrem de espanto para a sordidez de notícias de maus tratos ou de violações, e de outras situações limite que acabam quase sempre na irremediabilidade da morte, fazemos um acto de contrição que se dissolve na perplexidade de uma interrogação: como foi possível?
É possível, é. Não faltam nomes de meninos e meninas que são o rosto de um destino trágico anunciado. Todos sabemos que é assim. Na sombra da sociedade, à margem de tudo, vivem milhares de crianças que a indiferença de todos, a ausência de solidariedade e a rotina burocrática das instituições condenaram precocemente. Quantas crianças em risco há em Portugal? Ao certo, ninguém sabe ou procura saber. Às vezes, quando a tragédia surge nos horários nobres dos noticiários – não para denunciar e acautelar o futuro, mas sobretudo para o espectáculo mórbido da desgraça – há uma certa comoção colectiva que logo se desvanece, pois essas situações estão, geralmente, fora do alcance da nossa vista, são periféricas ou vivem na solidão de quatro paredes intransponíveis. E as situações repetem-se, abrem-se mais quatros palmos de terra e fica-se à espera do menino ou da menina que se segue.
O inventário é longo e variado na sociedade portuguesa, e às vezes as histórias adquirem tal grau de dramatismo, que é impossível esquecer nomes ou rostos, como aconteceu com aquela menina do Algarve que se chamava Joana e desapareceu. Esquecer, como? - pergunto-me quando a notícia das crianças mortas, que uma mãe levou para o mar, em Caxias, uma de meses, outra de três ou quatro anos. A anormalidade do caso, deve levar-nos à inquietação maior: como foi possível a situação anormal daquele quadro familiar se prolongar até à fatalidade da morte das crianças? Quem não fica com os cabelos em pé quando ouve dizer que a situação estava sinalizada --sinalizada para quê? Para a morte?
Ora, neste como em muitos outros casos, há sempre omissões criminosas daqueles que tomam como natural aquilo que o não é e passam a vida a falar nos superiores interesses das crianças... Assiste-se com demasiada frequência à inoperacionalidade das Comissões de Protecção de Menores e até a uma certa indiferença do Ministério Público. Quantas vezes, na denúncia de casos de risco, quantas vezes no confronto com situações de infra-humanidade se reage com o argumento de que a família (como se existisse família naqueles quadros!) é soberana e decisiva? Quantas crianças, neste preciso momento, estarão em risco? Quantas? O mundo infantil está cheio de violências. Vemos, ouvimos e lemos retratos de realidades onde a desumanidade anda à solta, vemos, ouvimos e lemos relatórios de crianças no fio da navalha de vida-que-não-é-vida e ficamos atónitos por este país não ter aceno de remorso colectivo. Vergonha!

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