domingo, 7 de fevereiro de 2016

CONIMBRIGA E O TEMPO DENTRO DOS TEMPOS

Já não ia há muito tempo a Conimbriga e fui lá um dia destes para me maravilhar com o trabalho que ali foi realizado, onde se faz luz sobre a emergência da História e o longo tempo civilizacional que naquele lugar fantástico se foi construindo. Ali está, no carácter compósito do espaço, no cadinho de civilizações em que o homem se fez a si próprio, na contingência de tempos austeros ou bonançosos, ali está memória funda da caminhada temporal que o nosso território partilha.
É verdade que Conimbriga tem ressonância colectiva forte no labirinto da nossa identificação como povo. Foi por isso que eu nas minhas deambulações pelas ruínas, como se quisesse perscrutar outras histórias, olhava para os passos que ia dando, ouvia a água em tumulto no Mondego, ali bem parto, e pensava nos outros nossos antepassados que também deram passos à volta daquele universo singular onde o quotidiano era o próprio esplendor da arte, do lazer, da contemplação, mas também do trabalho escravo e submisso, claro, as diferenças persistentes entre os senhores e os outros. Passos diversos que se cruzaram em temporalidades diferentes, a linha pouco linear da História a contar-nos um lugar surpreendente.
Caminho ao sol, vejo os mosaicos a resplandecer, passo pelo Fórum, descubro a dimensão urbana de Conimbriga, com as suas múltiplas diversidades, as Termas, a Casa dos Repuxos (os mistérios da água), o que resta da monumental muralha, imagino vidas sepultadas no pó dos séculos, dramas e amores, repousos de guerreiros, sei lá. E como se precisasse de um rosto para dar expressão ao tempo longínquo da História, fixei-me no Museu (que é belíssimo e muito didáctico) e pus-me a olhar para a cabeça da estátua de imperador, que dizem ser uma representação de Augusto como magistrado. É magnífica a expressão de poder, um imperador se calhar a pensar na eternidade que os deuses lhe deviam atribuir. Os deuses porventura não o ouviram e a estátua foi desmenbrada, o que aliás é comum entre imperadores ou outros que se julgam tal. Ficou um pouco desfigurado o rosto de Augusto, com o olhar, talvez atónito, talvez, sobre os labirintos da História.

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