domingo, 14 de fevereiro de 2016

ESCRAVATURAS

Não foi uma nem duas vezes que tenho escrito sobre a escravatura moderna, urdida pelos gestores europeus do capitalismo financeiro, com o braço solícito dos direitolas do Eurogrupo e dos seus chefes, que têm semeado a desgraça e a pobreza e têm como grande objectivo pôr de joelhos os países e os povos.  Em certo sentido, é uma guerra por outros meios que parece não ter fim, ou só o terá se os povos europeus se levantarem contra esta vergonha supranacional. Sendo esta uma matéria de inquietação minha, quero aqui destacar a lucidez de Pacheco Pereira que, no último artigo publicado no "Público" falou longamente sobre "Escravatura por dívida". Um dos traços dos artigos de José Pacheco Pereira é por-nos a pensar e contrariar o seguidismo acéfalo do coro de comentadores e de sujeitos que têm lugar cativo nas televisões e nos jornais. Por isso, aqui deixo um trecho daquela prosa -- para pensarmos um pouco na "escravatura por dívida":
"A história conheceu e conhece muitas circunstâncias em que, por não pagamento de uma dívida, uma pessoa perdia a sua liberdade e ia preso ou, pior ainda, era reduzido a um estatuto de escravatura, temporária ou definitiva. Estas práticas existiam na Grécia antiga, com a sempre especial excepção de Atenas, onde Sólon as proibiu. E mais ou menos espalhadas continuaram na Índia praticamente até aos nossos dias, tendo conhecido formas variadas de trabalho forçado durante a expansão colonial europeia. Hoje, uma das formas modernas de escravatura por dívida é praticada pelos grupos mafiosos que exportam mão-de-obra e emigrantes para a Europa e América e mulheres para redes de prostituição, retirando-lhes os documentos, em nome da dívida que contraíram ou as suas famílias para "pagar" a viagem e a entrada ilegal nos países mais ricos.
Estamos a falar, como é óbvio, de actividades criminosas, visto que a escravatura é um crime. Ah!, afinal não é bem assim. Se se tratar de um Estado soberano que tenha uma grande dívida, por exemplo, Portugal, este pode ser obrigado, sob pena de morrer à fome ou de uma qualquer forma de intervenção estrangeira mais ou menos agressiva que o transforme num pária, como aconteceu na Grécia, a aceitar uma qualquer forma de escravatura por dívida. Escravatura significa aqui deixar de ser um país democrático, porque os seus habitantes deixam de poder votar como entenderem, ou então votam sem consequência, porque as políticas que lhe são exigidas são sempre as mesmas — trabalhar para pagar aos credores, sob a forma que os credores consideram ser mais eficaz em função dos seus interesses.
Escravatura significa aqui que um país, Portugal, por exemplo, deixa de ser propriedade dos portugueses para o ser dos credores, que definem os orçamentos, as políticas, até ao mais pequeno pormenor, deixando apenas a intendência muito menor aos responsáveis locais. Escravatura significa que esses países e povos que assinaram em desespero de causa um contrato, seja um memorando, seja um tratado orçamental, um contrato por dívida, ou outro, um contrato que obriga todas as políticas a servir a dívida e o seu pagamento, não podem sequer escolher qualquer outro caminho para pagar a dívida que não seja o de aceitarem a escravatura, senão partem-lhes as pernas. Os credores controlam a "reputação" e a "confiança" de um país, conforme ele cumpre os preceitos do bom escravo, e, caso haja dúvidas sobre a sua obediência, tiram-lhe de imediato o ar."

1 comentário:

  1. Pacheco Pereira diz afinal o que muitos de nós pensam. Mas diz melhor e é mais claro. E diz em lugar onde muitos podem ler. E não se sente uma pessoa tão sozinha nas suas convicções.

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