terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

EUROPA

"O rosto com que fita é Portugal", assim disse Pessoa, nos versos identificadores de uma Europa que era continente de utopias. A Europa foi-nos proibida durante a ditadura, mas saltávamos sempre fronteiras físicas e imaginárias em busca do sonho e da Liberdade.
Agora, que a Europa se vai tornando pesadelo, assassinando todos os dias, mais um pouco, a esperança dos povos, que faz tábua rasa dos princípios civilizacionais que a firmaram como referência e horizonte de humanidade, para se tornar arauta de uma envernizada ditadura financeira, que se intromete nos direitos democráticos dos povos e promove escravaturas modernas, talvez só nos reste o refúgio da poesia. E é assim que vem ao meu encontro, como se fora uma voz distante, um belíssimo poema de David Mourão-Ferreira, em que o poeta personifica a Europa na visão persistente de uma Rapariga. Não haverá melhor louvor para a Europa:uma rapariga sempre à nossa espera, cheia de mistério. "muito hirta de pé no patamar do sonho".


Retrato da Rapariga

Muito hirta de pé no patamar do sono
Contornando sem pressa a curva de uma artéria
Por mais ocasional que fosse o nosso encontro
dava-me a entender que estava à minha espera
Com um livro na mão com um lenço ao pescoço
uma expressão cansada a palidez inquieta
de que andasse ao vento ou trouxesse no rosto
em vez de pó de arroz um pó de biblioteca
Surgia de repente onde sempre estivera
em Zurique em Paris em Liège em Colónia
Por único endereço uma carreira aérea
Mas não sei se era louca ou apenas mitómana
Onde quer que eu a visse uma coisa era certa
Numa rua num bar num museu numa doca
dava-me a entender que estava à minha espera
dava-me a entender que se chamava Europa.

David Mourão-Ferreira, in Obra Poética 1948-1988

1 comentário:

  1. Que engraçado, conheci Francisco Simões, professor numa escola perto de mim.

    Mas esta Europa que Mourão-Ferreira canta é outra; talvez tenha morrido de esperar. Ou se tenha retirado cabisbaixa quando surgiu a Europa agiota, astuta, que puxa as patacas para si e as surripia aos mais pequenos.
    Há duas europas.

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