domingo, 21 de fevereiro de 2016

EUTANÁSIA: QUE DEBATE?

Penso que foi Mário Mesquita que disse uma vez que as polémicas ou os debates sensíveis, agora chamam-lhe fracturantes, parecem "touradas à espanhola". Não sabendo eu se as touradas à espanhola lhe conferem uma tipologia especial, que no caso das discussões, as diferenciem das portuguesas, há que sublinhar que a metáfora de Mesquita se aplica que nem uma luva à nacional tendência de pôr as ideias em estado de sítio, de cada vez que se tenta aprofundar uma dessas questões tabu que, em Portugal, sofrem o profundo desprezo de se arrumarem na gaveta, dizendo-se: é melhor não falar nisso.
Afinal, isso é, apenas, o velho trauma de esconder o essencial, menosprezar direitos, subalternizar tudo aquilo que é comum ao Homem. E, como disse alguém, nada do que é comum aos homens nos deve parecer estranho. Mas basta ver o "tumulto ideológico" que por aí vai a propósito do direito à morte assistida, desde que uma centena de personalidades veio apenas dizer num manifesto que o problema devia ser discutido na sociedade portuguesa, que muitos guardas do templo dos tabus e dos dogmas, levantaram o machado de guerra para liquidar os infiéis portadores de heresias de mau agoiro. No fundo, também eles vêm dizer aos hereges: é melhor não falar nisso e deixar que a morte, mesmo nos casos-limite, siga o seu caminho normal. É a velha teoria de que o sofrimento e a dor é para os outros, embora se saiba agora que ninguém está livre que elas caiam em cima dos pobres mortais que somos.
Reflectia eu sobre estas coisas quando li um pertinente comentário do meu amigo Eduardo Maia Costa, respeitadíssimo magistrado, no Blogue "Sine Die", onde ele costuma colaborar. Julgo que vale a pena lê-lo, na esperança que o debate sobre a Eutanásia não se transforme numa tourada à portuguesa. Aqui fica:
"Colocado o tema da legalização da eutanásia em discussão pública, logo os guardas da moral católica vieram a terreiro defender a “integridade e integralidade” (?) da vida humana… Mas os dogmas católicos são só vinculativos para os católicos! A legalização da eutanásia não é nenhuma promoção da morte! É a solução admissível para as soluções extremas e só quando o próprio a pedir… Os que são favoráveis à legalização da eutanásia também amam a vida! E amam também a dignidade humana, a dignidade das pessoas concretas. E também são a favor dos cuidados paliativos, mas sabem que há situações em que esses cuidados já não resolvem o problema da dor, muito menos o da dignidade do doente… Os “juristas católicos” são mais católicos do que juristas ao defenderem que o preceito constitucional que estabelece a inviolabilidade da vida humana proíbe radicalmente a eutanásia e o auxílio ao suicídio, pois aquele conceito não é absoluto. E fica-lhes mal dizerem que a eutanásia é um passo na progressiva eliminação dos mais fracos, sugerindo de alguma forma que há propósitos eugénicos na proposta de legalização a eutanásia. É ainda mais feio os “médicos católicos” sugerirem que por detrás “desta aparente morte misericordiosa” estejam escondidos interesses economicistas… É sempre feio tentar desclassificar os adversários ideológicos atribuindo-lhes intenções maldosas escondidas… Enfim, o debate sobre a eutanásia começou; mal, como era de esperar…"

1 comentário:

  1. ...e por causa destas perrices sem fundo deixam-se as pessoas a exaurir em sofrimento excruciante. Não me parece humano e muito menos católico.

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