quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"GERINGONÇA, O TANAS!"

Desde que o engraçado Vasco Pulido Valente crismou o governo de António Costa, sustentado pelo apoio parlamentar da esquerda, de "geringonça" que comentadores, jornalistas e políticos banalizaram a expressão a um tal nível que ela se virou contra os próprios, à medida que o governo avança e se recomenda. É verdade que os saudosos da coligação de direita, que fez Paf e desapareceu, não se cansam de refocilar no verbo, mas o que os utilizadores revelam -- não digo o sr. Montenegro ou o sr. Passos, ou o sr. Mota ou a sr.ª Cristas -- mas sobretudo os jornalistas e os comentadores de serviço, é um servilismo lamentável ou, se quiserem, uma falta de imaginação atroz. Já nem se dão ao cuidado de colocar aspas na expressão. Seja como for, a recente aprovação do Orçamento do Estado veio mostrar como o comentário anda divorciado da realidade. O que, levou ontem Ferreira Fernandes, a fazer a aritmética dos votos que aprovaram o Orçamento ou o desaprovaram e a dizer que a democracia estava precisamente na maioria expressa na Assembleia da República.  A crónica de Ferreira Fernandes, no "DN" tinha o curioso título: "A geringonça, afinal, funciona. A prova? 122". Tirando, mais uma vez, o chapéu, ao cronista, aqui deixo a saborosa prosa:
"Sobre ontem, disse-se que foi "histórico" (nunca o PCP e o BE tinham aprovado um Orçamento) e "poético" (Sérgio Godinho foi citadíssimo). Ora, o mais importante a dizer de ontem fazia-se com aritmética. Todos disseram que o OE passou com votos de PS, BE, PCP e Verdes, e de todos os seus deputados, pois a votação era em bloco. Está certo, mas são letras a mais e osso a menos. Se eu fizesse o título deste acontecimento, seria assim: "122". Uma aprovação inevitável, pois maior do que a metade de todos os deputados. Isto é, superior ao mágico 116, onde as coisas políticas começam a ser. E, abaixo desse 116, a ainda não ser. Poria, pois, esse 122, porque ele é uma lição. Este ano letivo político começou a 4 de outubro, quando tanta gente honrada e sábia meteu os pés pelas mãos. Uns disseram "ganhámos", outros "perdemos", e o que se seguiu mostrou que estavam todos enganados. A política é dinâmica, mas deve cumprir aquela leizinha do 116. PSD e PP não ganharam porque não chegaram lá, ponto. Costa serviu-se da dinâmica, fez dos seus 86, em outubro, 122, ontem, e por isso governa, ponto. Em Espanha, também ontem, os socialistas e o Ciudadanos fizeram um "pacto de governo" e atiraram foguetes. Errado. Juntos fazem 130 e o número mágico, lá, é 176. Ou criam dinâmica ou é uma fantasia. A ignorância é internacional, de esquerda e de direita. Devíamos agradecer a quem nos livrou dela cá. Geringonça, o tanas! Este governo funciona: 122."
Também eu digo aos trapaceiros do comentário e do jornalismo, com as suas nebulosas narrativas, ou à demagogia dos "paf's": "Geringonça, o tanas!"

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