quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

HISTÓRIA DE UM REQUIEM

Há 16 anos (estávamos em 2000), publiquei uma longa entrevista com o Dr. António Lourenço Marques sobre o que então se chamava a Unidade da Dor, criada no Hospital do Fundão, do Centro Hospitalar da Cova da Beira. Escrevia, na abertura do texto prosa levemente indignada sobre uma questão que em Portugal dá bem a imagem não só da banalização da desumanidade, como do brutal atraso do país sobre a realidade concreta da morte. Dizia eu, então: "Há situações limite de sofrimento, doentes atirados para o desvão do esquecimento, numa sociedade que fez da indiferença um álibi contra a solidariedade. Há sete anos, o dr. Lourenço Marques criou uma Unidade de Tratamento da Dor, no Hospital do Fundão. O balanço é largamente positivo. O médico anestesista recusa que os doentes terminais sejam objecto descartável do sistema de saúde e diz que a Universidade tem de ter um papel diferente na forma como olha a problemática da dor. E deixa um recado: as estruturas regionais de saúde da região dialogam pouco".
Agora, olho para as folhas de jornal amarelecidas pela patine do tempo, e recordo o início da conversa que se estende por duas páginas.
(-A Unidade da Dor do Hospital do Fundão, quantos anos tem? - perguntei então, e Lourenço Marques esclareceu: - Começou em 1992. É um percurso que evoluiu de acordo com a sua especificidade, embora com um crescimento sustentado, mas discreto e limitado.
E eu: - A unidade da Dor do Fundão é a primeira a surgir no interior do país?; e ele: - Sim, com internamento, podemos dizer até que é a primeira no país. A segunda surgiu no Porto, em 1997. A unidade da Dor do Fundão, foi criada na perspectiva do tratamento da dor, mas quando avançámos para o internamento isso traduziu um maior interesse pelos doentes.
Pergunto eu: - Quando diz  que a Unidade da Dior teve um crescimento limitado, isso deveu-se a quê? Ao facto da dor ainda ser uma realidade de certo modo oculta na sociedade portuguesa?; respondeu Lourenço Marques: -A Unidade da Dor insere-se num contexto regional, no distrito de Castelo Branco, onde morrem por ano com cancro cerca de 500 doentes, até talvez um pouco mais, mas é o que dizem as estatísticas. O problema é que nós aceitamos os doentes a partir do próprio sistema, isto é, enviados pelos médicos que os estão a assistir na fase anterior. E é um facto que eles não são enviados. O papel dos médicos face aos doentes que estão a morrer é, em muitos casos considerado muito desinteressante. Os médicos mantêm-nos até uma fase muito tardia de tratamento, e quando a situação já está de tal modo avançada que os horizontes de vida se fecham, não se envolvem no futuro da própria situação dos doentes. Isso reflecte-se na limitação do crescimento da Unidade da Dor. Não há uma sensibilidade em relação a esta realidade.)
Estávamos em 2000. Há uma circunstância tão especial, que eu nunca esqueço. Talvez em 1992, talvez, alertado para uma situação de dramatismo extremo (dramatismo extremo? Fraca forma de definir uma uma realidade concreta que era uma descida ao inferno), precisamente de um caso terminal no Casal da Serra, em que um homem abandonado por todas as estruturas da saúde, assistia à sua própria devoração por um cancro, que lhe cavara uma enorme cratera no rosto, onde só dois olhos brilhavam, brilhavam muito. A minha percepção do que ali estava em jogo, levou-me a pedir ao António Lourenço Marques que me acompanhasse a esse inferno quotidiano, vivido a meia encosta na Serra da Gardunha. O Adelino Pereira registou o caso fotograficamente. E eu escrevi uma prosa tão indignada que o caso se tornou num enorme escândalo nacional, que levou à intervenção da Presidência da República e do Ministério da Saúde para que o doente fosse socorrido.
Penso que nesse caso esteve a génese da Unidade da Dor do Fundão. Nunca mais esqueci aqueles olhos e aquele rosto e a impressão ficou tão funda gravada na memória que anos mais tarde ficcionei a história porque a literatura nunca escapa a estes casos limite.
Ora, por razões estranhíssimas, a Unidade da Dor, no quadro do Centro Hospitalar da Cova da Beira, foi sempre um espaço mal-amado. O Ministério da Saúde também nunca se interessou verdadeiramente pelo problema (Fundão? Unidade da Dor? Não queremos saber...). Como acontece muitas vezes em Portugal, mudou-se o nome. Veio a Unidade de Cuidados Paliativos. Depois, tudo passou a girar à volta dos Cuidados Continuados.
Agora, dizem-me que a Unidade de Cuidados Paliativos (ainda será unidade?) irá passar para o Centro Hospitalar da Cova da Beira.
O Fundão assiste, impávido e sereno, ao seu próprio funeral.

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