quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

INSTANTES DE MAGIA

Pascal afirmou um dia que tudo o que de mau lhe aconteceu na vida foi por ter saído de casa! É certo que na nossa Língua também há um dizer, mas não de raiz tão absoluta, apenas para alguns instantes aziagos da existência dos pobres mortais que nós somos, que recomenda que "há dias em que se não deve sair de casa".
Ora, há que contrapor a este cepticismo de vocação solitária, a beleza do sol e da rua, as paisagens que o nosso olhar abarca e que, por vezes, nos deixam suspensos no tempo para que o momento ganhe a ilusão de eternidade. São os milagres da beleza e da emoção ao alcance dos olhos, uma espécie de felicidade que ainda não paga imposto nem foi privatizada...
De facto, os horizontes da vida são muito mais surpreendentes do que viagens à roda de um quarto, como queria o outro, ou a tristeza doentia e ensimesmada da solidão dentro de quarto paredes. Ainda agora, por estes dias, um sol esplendoroso tem iluminado as manhãs e as tardes; e lá ao longe, o azul das montanhas da Estrela fascina-nos por estranhas transparências, e mais perto, a Gardunha mostra o seu verde pinho austero, à espera que os cerejais procedam à transmigração da paisagem. Eu caminho à roda do Fundão (viver, respirar), contorno o muro de pedras cor do tempo da Quinta das Sesmarias, e aí estou, armado das canções de Leonard Cohen, a caminho da ribeira da Alverca, onde a água que escorre da Gardunha canta a sua música aquática. As mimosas já florescem e as pereiras e macieiras estão cobertas de flores e os campos, "verde que te quiero verde" (Lorca), estão verdes "da cor do limão" (Camões), debruados com tapetes de malmequeres, que apetece desfolhar como acto adolescente. Assim, apuro os sentidos às navegações da passarada (terão rompido o Inverno?) anunciadoras de que, qualquer dia, a Primavera estará aí em todo o seu esplendor de renovação. Por agora, parece uma antecipação precoce caída do céu. Olhamos, sentimos, vivemos. Já dei a volta pelo Alcambar, o sol começa a galgar o cimo da montanha, rápida a sombra lança o seu manto. Mas ainda olho ao redor: oferendas florais desprendem-se da terra.
A felicidade, que me perdoe Pascal, está fora de casa. Penso isso, enquanto a voz e a música de Leonard Cohen, com a força poética da sua dimensão interior, enchem os instantes de magia. Basta saber ouvir.


2 comentários:

  1. A mim me parece que o que de mau e de bom acontece nos vem da simbiose entre o in e o out. Que me desculpem Pascal e o senhor mesmo.

    Cohen é Cohen. A gente gosta até se evoca o amor escravo e com arrasto de cadeias que pouco se parece à liberdade aventurada do amor comum.

    ResponderEliminar
  2. Obrigada Fernando pela magia das suas palavras que enchem sempre de esperança o meu horizonte: palavras de beleza e intervenção com que sempre me identifiquei. É no seu blogue que apaziguo a sua ausência no JF. Abraço

    ResponderEliminar