domingo, 28 de fevereiro de 2016

OLHAR A NEVE

Há anos que o Fundão não goza o deslumbramento da primeira neve. Vem dos territórios da infância esse sortilégio em que a paisagem, quando o nevão é grande, parece ficar unidimensional, liberta de arestas, e se na montanha a dimensão fantástica assume as formas de árvores vergadas ao peso da neve, ou geladas, com o sincelo a fazer-nos entrar na magia pura, já nos vales a terra se transforma em planuras a caminho do infinito. Nas terras, a realidade urbana também se acolhe ao manto de fantasia, mas nunca a austera realidade do conglomerado de casas se deixa dissolver inteiramente na brancura da paisagem. Nas ruas ou nas praças, a neve tira as impressões digitais aos passos que se aventuram e os miúdos, já em alvoroço, giram à volta da neve. Ano de nevão não era apenas ano de pão; era, também, ano de gazeta às aulas, as escolas fechavam e os dias transformavam-se em milagres reais. É certo que havia, como sempre no quotidiano, o contraste das desigualdades, e a pobreza, que era presença intensa na realidade social, fazia que muitos não achassem piada à neve.
Nestes dias de frio, com os especialistas do tempo a vaticinarem neve acima dos 500 metros, se desenhou por aqui a esperança de nevão. Muitos espreitavam o céu, densamente encoberto, apuravam os sentidos ao frio, e perguntavam:
--Então, como está o astro? Vai nevar pela certa...,
É o nevas! Assim, a alegria pode ser olhar a Serra da Estrela. Às vezes, o sol poisa na neve, e, ao longe, parece prata. Que maravilha! A neve torna-se então mais íntima porque vai estar ali à distância dos nossos olhos alguns dias, até que a Serra tire o seu manto branco e volte, outra vez, a respirar a paisagem das montanhas azuis que se divisam ao longe e das esculturas graníticas que, imponentes, se recortam, ou a ouvir a música das águas que descem bravias por todos os lados. Então, apura-se o ouvido, e, se tivermos sorte, poderemos ouvir outra a música: a dos rebanhos que restam, à procura do cervum. O que isto quer dizer é que a Serra, nas suas diversidades, é território de sonho para todo o ano, com surpreendentes descobertas dentro dos vários tempos. Repito Alain em busca da felicidade efémera: basta saber olhar e amar o que se vê! É quanto basta.

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